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Pensamentos Nómadas

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Tsunami indonésio - Roubo, inaptidão e eleições presidenciais, por André Vltchek

07.01.19 | Pensamentos Nómadas

 

Andre Vltchek Política Sociedade  

 

Quão fundo poderá se afundar um país governado por desenfreada ganância, notória falta de princípios morais e omnipresente servilismo para com os seus mestres neocolonialistas?

 

E como podem as pessoas tolerar as mentiras, o cinismo descarado e a fanática incompetência dos seus governantes? Será que o regime indonésio, criado em 1965 e depois alimentado pelo Ocidente, pode realmente safar-se de tudo, até mesmo de puro homicídio?

 

Enquanto escrevo este artigo, acaba de ser confirmado que o tsunami que atingiu Java Ocidental no dia 22 de Dezembro de 2018 matou centenas de pessoas. É quase certo que o número de mortos subirá em breve para os milhares.

 

Ontem conduzi rumo à costa oeste de Java. Testemunhei a devastação, mas também observei, como em tantas outras ocasiões, o absoluto colapso das funções do estado, a sua fleumática relutância em mobilizar-se, bem como o absolutamente chocante desespero das vítimas.

 

Durante um dia inteiro, ao longo de toda a costa, não encontrei um único jornalista estrangeiro, enquanto que a imprensa local, corrompida e pouco profissional, relatava apenas aquilo que tinha sido ordenada e paga para relatar, criando inclusive reportagens com aspectos "positivos", em vez de expor a dura realidade.

 

*

Dei a mim mesmo 3 horas para escrever este artigo; 3 horas e nem um minuto mais. É quanto tempo durará o meu voo nocturno de Jacarta para Banguecoque. Não há tempo para atrasar o que tem de ser dito com urgência. Não há tempo para "floridas reportagens". Há pessoas a morrer. Hoje é dia 25 de Dezembro. Anteontem foi anunciado que pelo menos 222 vidas humanas foram perdidas. Ontem a contagem já ia em 370. Agora, antes do meu avião descolar, já são quase 500. O que devemos esperar amanhã, umas mil? Será que, daqui a um semana, iremos ser informados que milhares de homens, mulheres e crianças foram arrastados, esmagados, despedaçados, afogados e mortos à fome?

 

Tal como em 2004, quando um quarto de milhão de pessoas, principalmente em Aceh, desapareceram após um devastador tsunami, tenho de repetir agora o que então declarei: na Indonésia, não são os tsunamis que matam, sem dúvida que não são. O regime imposto pelo Ocidente a este miseravelmente pobre país, em 1965, reduziu todo o arquipélago a um monolítico, improdutivo, resignado e terrivelmente religioso aglomerado de ilhas despojadas de quase todos os seus recursos naturais, fauna e flora originais; ilhas poluídas, habitadas por pessoas incultas e cada vez mais agressivas e intolerantes; ao mesmo tempo vítimas e agressores.

 

Estas pessoas já não conseguem lutar ou resistir. Só sabem ser brutos uns com os outros, nunca contra os seus imorais governantes.

 

*

A senhora Rani, de Cinangka, era dona de um pequeno restaurante que vendia peixe fresco apanhado no mar ali perto. Agora fica ali de pé, ao lado da sua cabana destruída. Primeiro parece estar zangada mas, depois, deixa-se ir abaixo e começa a abraçar-nos desesperadamente, como se fossemos a sua última esperança, chorando amargamente:

O governo não faz nada, absolutamente nada por nós. O presidente Jokowi passou por aqui com a sua comitiva, mas nem sequer abrandou, para pelo menos perguntar e ver como estamos. Ninguém quer saber de nós!

Quando veio o tsunami, estávamos a dormir. O meu marido e eu saímos de casa e corremos para aquele coqueiro do outro lado da estrada; está a ver, por ali... na minha mente, eu ainda vejo o meu pequeno restaurante de peixe grelhado (warung), como se ele estivesse de pé e a salvo. As pessoas gritavam-nos para subirmos um pouco mais a colina e irmos para um lugar mais seguro. Mas quando voltámos de manhã, para virmos ver a nossa casa e o nosso restaurante, ficámos chocados: tinha sido tudo roubado por bandidos!

Agora, não só já não tenho um lugar para viver, como a minha única fonte de rendimento também desapareceu.”

 

 

Como sempre acontece quando na Indonésia ocorrem catástrofes naturais ou provocadas pelo homem, as únicas coisas que se podem ouvir são os soluços das vítimas e os ridículos zumbidos das sirenes e das buzinas, a maioria das quais pertencentes a carros privados que fingem estar numa importante "missão".

 

 

Mas quase nada se mexe. Equipamentos pesados, como escavadoras e bulldozers, estão lá, mas parados. Os motoristas e operadores ou estão fumando ou ficam apenas olhando à distância. O céu está vazio. Não vi nenhum helicóptero nem nenhum avião anfíbio durante o dia inteiro que trabalhei na área (mais tarde foi-me dito, de forma confidencial, que a Indonésia não tem helicópteros suficientes, e quase nenhum piloto treinado em condições para pilotá-los).

 

 

Toda a costa encontra-se coberta por Poskos (postos) que são nela erigidos, pelo menos em teoria, a fim de proporcionar ajuda às vítimas. Mas a maioria destes postos pertencem a partidos políticos ou a organizações religiosas, interessados apenas em exibir e promover as suas próprias agendas. Vêem-se grupos de extrema-direita como o Pemuda Pancasila, os seus membros tirando selfies uns aos outros ou desfrutando de bons almoços e jantares nos poucos restaurantes locais que sobreviveram.

 

 

Islamistas de vestes brancas apontam os seus polegares para o céu, rindo alto, ridiculamente, e gritando "Prabowo-Sandi", uma referência ao candidato presidencial e vice-presidencial. Prabowo é  um ex-general do exército, um desumano militar conhecido por ter cometido inúmeros crimes contra a humanidade enquanto servia na pilhada Papua Ocidental e também durante a manifestação anti-governo que abalou a capital há muitos anos atrás. Os seus cartazes são visíveis por todo o lado ao longo da costa e os seus apoiantes pousam para as câmaras e telemóveis, promovendo o seu movimento ao longo dessa costa em destroços.

 

Os Poskos estão sempre cheios de pessoas, daqueles indivíduos constantemente impingindo os seus discursos idiotas, a gritar slogans e, acima de tudo, a tirar fotos uns aos outros. Vi algo de semelhante em 2004, em Aceh. Enquanto japoneses, singapurianos e outros estrangeiros trabalhavam, desesperadamente tentando salvar as vidas de vítimas da catástrofe, as ONGs indonésias e os seus "voluntários" riam-se, iam tirando fotos uns aos outros e promoviam suas agendas religiosas e políticas.

 

Com ou sem desastre, quase todos os homens aqui estão a fumar o seu cigarro. Há sempre muito tempo disponível para a religião, para tirar selfies, para um conversa no telemóvel e, claro, para fumar. E, enquanto toda a gente está ocupada a teclar nos telemóveis e a exalar fumo, quase ninguém está a trabalhar.

 

Este é um aviso perfeito para o mundo: o que acontece a um país totalmente abandonado ao neocolonialismo Ocidental, à religião, ao consumismo, à corrupção e ao vazio intelectual e moral.

 

Estamos a passar pelo Posko PKS Peduli (um posto do "PKS Care"). O partido PKS pertence à coligação de Prabowo. O posto é bem visível, perceptível, cheio de slogans. Mas existe apenas para atrair eleitores, não para salvar vítimas.

*

 

Depois de avançármos mais para sul, saímos da estrada principal na aldeia de Sukarame, conduzimos mais um pouco e caminhámos então até uma colina, em direcção a um "campo" onde pessoas deslocadas pelo desastre na vizinha zona costeira supostamente deveriam estar recebrendo ajuda das autoridades. 

 

O que lá encontramos é auto-explicativo, e eu certifico-me de registar a situação visualmente.

 

Como noutros lugares da Indonésia, a área é controlada por bandidos que "regulam o tráfego" e arranjam lugares de estacionamento em troco de pagamento. Para eles, como para quase todos os outros, com excepção das vítimas, tudo isto é uma grande oportunidade para fazer negócio. Dão ordens aos condutores, maximizando quer o espaço quer os lucros. A certa altura começa a chover.

 

Estamos à procura de pessoas deslocadas. Pouco depois, damos com uma "cidade de tendas".

 

Esta consiste em três tendas, na parte inferior do monte e de algumas mais um pouco mais acima. As tendas são azuis e ainda não estão montadas.

 

"É tudo?", pergunto eu a um homem que está fumando mesmo à chuva e que periodicamente vai tirando a sua selfie.

 

"Sim, é.", responde ele de forma fleumática. 

 

O Sr. Karid, da aldeia de Cibenda, recorda:

O meu filho, que é o responsável de uma vila na costa, tem uma perna partida e perdeu um dos seus filhos. Esse meu neto tinha apenas 6 anos. Tive de andar para trás e para a frente, entre cuidar do meu filho e tomar conta do funeral do meu neto.”

 

Ninguém parece estar a prestar atenção às vítimas. Foi-lhes dito que a segunda onda poderá vir a qualquer momento e eles,  de forma espontânea, sobem em direcção a terrenos mais elevados.

 

"Eles ajudam-vos?", perguntamos nós.

 

"Nem por isso", é a resposta que recebemos de imediato. Até agora, tem sido uma resposta bastante comum. "Nem sequer nos dão comida a sério".

 

Então acontece isto: cerca de 20 polícias conduzindo motos caras e vestindo coletes amarelos, chegam ao local.

 

Caminham lentamente em direcção às partes das tendas estendidas na relva e começam... não a trabalhar, não, mas sim a posar para a fotografia!

 

Eu filmo.

 

Há dois homens, um fotografando para os média sociais e um outro, de uniforme policial, dando precisas instruções aos polícias de como pousar e de como fingir que estariam a trabalhar de verdade.

 

Eu continuo a filmar. 

 

Lentamente, extremamente lentamente, esses 20 homens bem alimentados começaram a montar a estrutura de uma tenda. Outros ficaram a ver enquanto fumavam e fotografavam.

 

Depois de uma parte da tenda ter sido montada, vários polícias reuniram-se em círculo e começaram a conversar.

 

Chovia intensamente. As vítimas passavam lentamente; ninguém lhes prestava atenção.

 

Mais abaixo, na berma da estrada, vi algo que se assemelhava a uma equipe de TV local, trazendo o operador de uma enorme escavadora para a sua cabine. Um homem subiu, colocou as mãos no controle e... nada. Nada de som do motor, nada de movimento. Estava a ser fotografado a partir do solo. Quando desce, é entrevistado, com o seu imóvel equipamento pesado claramente visível atrás das suas costas.

 

Não muito longe desta cena, as pessoas procuram nos escombros pelos seus pertences, pelos seus documentos de identificação e, quem sabe, até mesmo pelos seus entes queridos.

 

Enquanto isto, o público indonésio e o mundo vêem o que é suposto verem: um desastre natural e a nação mobilizando-se para ajudar os seus concidadãos.

 

 

Mas nada se mexe. Só os inúmeros veículos pertencentes às ONGs e aos partidos políticos de direita (não há partidos de esquerda neste país) estão a bloquear as ruas, criando engarrafamentos. As pessoas a bordo buzinam, tocam sirenes, tentam parecer machões e determinados, mas não fazem nada de substancial, à excepção daquilo que passam a vida a fazer: fumar, estarem sentados em intermináveis engarrafamentos e ouvir música medíocre.

 

E centenas de pessoas, talvez milhares, estão morrendo ali a poucos metros de distância.

 

*

 

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E o céu contínua vazio: não há helicópteros nem aviões, nem mesmo quando começa a chover ou quando pára de chover.

 

E não se vêem navios de guerra junto à costa.

 

O exército indonésio é famoso por ter atacado, morto e violado as suas mulheres e crianças após o golpe militar de 1965, ou em Timor Leste, ou agora na Papua Ocidental. Também é muito bom em proteger as empresas de mineração ocidentais contra o povo, as vítimas locais. Não está aqui para defender os seus cidadãos. Pelo contrário. Os seus membros cometem frequentemente actos de traição mas, em vez de serem levados a tribunal marcial e enfrentarem um pelotão de fuzilamento, são elogiados e continuamente recompensados pelo Ocidente com dinheiro, treino e equipamento.

 

O mesmo se pode dizer do mundo académico e dos meios de comunicação indonésios. Não estão aqui para dizer a verdade ou para defender a nação. São pagos para ficarem calados e para só dizerem o que lhes é ordenado "de cima" e do exterior.

 

E nenhum média estrangeiro iria onde eu trabalho de forma contínua. Estou sempre sozinho aqui, independentemente dos horrores que estejam a ocorrer à minha volta. O regime religioso, fascista e pró-ocidental daqui reduziu o povo indonésio a um bando de submissos e egocêntricos cobardes. Não me interessa. Eles estão dispostos a trair e até matar pelos seus próprios privilégios. Por isso estou eu aqui tentando cumprir os seus deveres.

 

O que eles fazem é problema deles. Enquanto isso, a minha obrigação é documentar. Sozinho ou acompanhado.

*

Cerca de 60 km mais a sul, tudo pára. Quando chegamos, já é noite. A estrada está muito danificada. Esta é a "fronteira". Nenhum veículo privado é autorizado a passar.

 

Para lá deste ponto a destruição é, muito provavelmente, ainda mais horrível.

 

Fosse este um país "normal" (leia-se: país não desmoronado) e haveria inúmeros veículos militares pesados reparando a estrada. Haveria iluminação provisória, milhares de técnicos e militares a construir pontes, a encher valas profundas. Haveria helicópteros voando e grandes navios da Marinha estariam fornecendo apoio por mar. Haveria uma luta constante e determinada para salvar vidas humanas.

 

Vi-o no Japão e no Chile. No Chile, depois de um terrível tsunami, a nação inteira foi mobilizada. A auto-estrada estava obstruída com constantes filas de veículos trazendo, para as áreas devastadas, casas de madeira pré-fabricadas de alta-qualidade; trazendo água, gás, alimentos, suprimentos médicos. Testemunhar tal mobilização realizada pelo então ainda governo socialista, foi de fazer uma pessoa sentir orgulho de ser um ser humano. Em resultado, muito poucas pessoas morreram. Todos foram tratados, realojados e compensados pelo governo.

 

Aqui, na Indonésia, na fantasmagórica e destruída aldeia de Cikujang, apenas encontrámos dois homens, sentados entre os escombros de casas destruídas. Relutantemente, explicaram-nos que:

O nosso carro ficou preso numa vala profunda. O motor avariou. Agora estamos apenas à espera que alguém nos venha resgatar".

 

Por todo o lado: escuridão e destruição. Carcaças de carros e motocicletas, casas em destroços, pertences pessoais espalhados por todo o lado. Estou a tentar filmar e fotografar usando a parte de cima do carro. O que vejo não é para fracos de coração.

 

Enquanto estou a trabalhar, estou ciente dos avisos: o segundo tsunami pode atacar a qualquer momento. Se tal acontecer, eu e a minha pequena equipa vamos nos foder. Mas temos de trabalhar, pois nas nossas costas, algures na escuridão total, há dezenas de milhares de pessoas isoladas de qualquer ajuda, abandonadas por este monstruoso e horripilante sistema.

 

No cimo da colina, encontramos um centro de escuteiros com muitas vítimas aí reunidas.

 

O senhor Iwan, líder deste acampamento temporário para pessoas deslocadas, prontamente explica que:

Temos cinco pessoas que perderam a vida, Quatro já estão enterradas, mas ainda nos falta uma pessoa.“

 

As pessoas rezam. Ninguém se atreve a culpar o governo ou o sistema. Para eles, tudo isto é normal.

 

Dizem-nos uma e outra vez que não há absolutamente forma nenhuma de ir mais longe. Nós tentámos mas, confrontados com a estrada inundada, acabámos por voltar para trás.

 

Não há actividade. Não há acção. Para lá desta linha, provavelmente, milhares de pessoas estarão a morrer.

*

É agora claro que o sistema de alerta precoce falhou, deixando desprecavido o povo de Java Ocidental.

 

Noticiou-se que teria sido "vandalizado". Na verdade, foi roubado. Fornecido pela Malásia, Alemanha e Reino Unido, foi saqueado por locais. E o governo sabia disso, mas não nada fez para o substituir.

 

No Vietname ou na China, funcionários que permitissem tal desastre acontecer, enfrentariam um pelotão de fuzilamento, por crime de traição.

 

Na Indonésia, todo o sistema encontra-se mobilizado para encobrir o que aconteceu e o que ainda está acontecendo enquanto este artigo é enviado para publicação: a inaptidão do governo e das forças armadas, e a tremenda ganância das ONGs e dos indivíduos deste país.

 

Na Indonésia, vidas humanas não valem absolutamente nada. O bem-estar público também não significa nada. A única coisa que importa é o lucro e os rituais religiosos. E, grandes desastres naturais como este, são de facto grandes oportunidades para enriquecer ainda mais os corruptos gurus do turbo-capitalismo.

 

Enquanto milhares de famílias perderam irreversivelmente as suas casas e os seus pequenos negócios, o país inteiro está de luto por uma banda pop de Jacarta chamada Seventeen, que estava actuando para as elites num resort com praia privada quando o tsunami atingiu a área. Todos os membros da banda morreram, excepto o vocalista.

 

Trabalhei em 160 países do mundo; vi muito, mesmo muito, mas nada tão moralmente desmoronado e corrupto como o regime Indonésio. E nunca encontrei um establishment tão capaz de encobrir os seus próprios crimes.

*

Agora, a maioria das notícias repetem "como e porquê este tsunami ocorreu". Pessoas que não sabem nada de ciência, repetem feitas idiotas explicações sobre placas subaquáticas se movendo, sobre a explosão de um vulcão e sobre outros problemas "técnicos".

 

Mas o que realmente aconteceu aqui, como já aconteceu tantas vezes este ano e em todos os outros anos, é que pessoas morreram por razões absolutamente ridículas e evitáveis: a falta de vontade do regime para gastar dinheiro em algo que não gera "lucro" (como um sistema de alerta precoce para tsunamis); os patéticos e risíveis "planeamentos de cidades"; a falta de força executória dos regulamentos para áreas urbanas e rurais localizadas em zonas de perigo; a corrupção endémica, a terrível educação e, portanto, a falta de qualquer visão ou entusiasmo, bem como de muitos outros factores relacionados com estes pontos.

 

As vítimas de Java Ocidental, como sempre acontece por aqui, estão resignadas, ou, como dizem os locais, pasrah. Os pobres, a grande maioria dos cidadãos indonésios, são submissos. Eles repetem o que as "elites", o Ocidente e os "líderes" religiosos querem que eles repitam: que estejam "gratos a Deus" só pelo facto de estarem vivos. Ouço estas palavras nas favelas e em áreas devastadas. Até ao momento, as pessoas aqui não têm nada contra os seus atormentadores; nem contra o capitalismo ou o imperialismo (nem sequer sabem o que esses termos realmente representam). Roubam-se uns aos outros, mas não ousam lutar contra aqueles que os roubam em grande escala.

 

Ao não prestar serviços básicos, o estado assassina milhares, aliás, milhões, anualmente. Agora voltou a fazê-lo. A definição de "estado falhado" é precisamente esta: a "incapacidade de prestar serviços básicos aos seus cidadãos". Ponto final parágrafo.

 

E as minhas 3 horas acabaram. O avião começa a descer.

 

Acabei de assistir a um assassinato em massa em Java, na Indonésia. Não a um "desastre natural", mas a um assassinato em massa. Não há tempo para elegantes relatórios. Foi isso que vi e, portanto, é isso que escrevo. Dezenas de milhares ainda deixados para trás, na costa, quase sem ajuda. As "elites" indonésias estão agora fazendo lucro com o seu sofrimento. Já é noite em Banguecoque, onde estou prestes a aterrar.

 

Deve ser horrivelmente escuro "lá atrás", em Banten: escuro e assustador.

 

Escrevo tudo isto para alertar o mundo: unamo-nos todos contra os regimes implantados pelo Ocidente nas suas colónias. Não permitamos que tais genocídios aconteçam uma e outra vez!

 

André Vltchek, 27 de Dezembro de 2018

 

Traduzido para o português por Luís Garcia

Versão original em inglês aqui.

 

Por Lula, de Andre Vltchek

André Vltchek é um filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação. Cobriu e cobre guerras e conflitos em dezenas de países. Três dos seus últimos livros são  Revolutionary Optimism, Western Nihilism, o revolucionário romance Aurora e um trabalho best-seller de análise política: “Exposing Lies Of The Empire”. Em português, Vltchek vem de publicar o livro Por Lula. Veja os seus outros livros aqui. Assista ao Rwanda Gambit, o seu documentário inovador sobre o Ruanda e a República Democrática do Congo, assim como ao seu filme/diálogo com Noam Chomsky On Western Terrorism. Pode contactar André Vltchek através do seu site ou da sua conta no Twitter.

 

Fotos de André Vltchek.

 

 

 

 

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