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TERRORISMO-COLONIZAÇÃO: ISIS e os EUA na Síria (PARTE 1), por Luís Garcia

29.11.18 | Pensamentos Nómadas

PARTE 1.jpg

 

Luís Garcia  POLITICA    

 

OBJECTIVO DESTA SÉRIE DE ARTIGOS

Através da análise de mapas da Síria ao longo do tempo, mostrando mudanças de controlo territorial dos vários actores presentes, proponho demonstrar de forma muitíssimo clara e objectiva que: primeiro, os EUA não combatem o ISIS; segundo, o ISIS é uma peça essencial da máquina norte-americana de terrorismo-colonização da Síria.

 

Para o fazer, analisarei as mudanças ocorridas desde meados de 2016, aquando do início da invasão turca da Síria, invasão turca focada na conquista de território sírio ao mesmo ISIS que lhe vendia petróleo sírio roubado, de forma a separar definitivamente as duas zonas controladas pelos curdos, boa parte destes vindos do Iraque, e já então vendidos às ilegais promessas Israelo-americanas de criação de um futuro estado curdo em terras ricas em petróleo roubadas à Síria.

 

Esta é uma possível abordagem, focada na forma como Síria/Ézbolá/Irão/Rússia reconquistaram terreno sírio ao ISIS, e na forma como as Forças Democráticas Sírias (FDS) apoiadas pela agressora NATO roubou território à Síria (roubo esse que os nossos infames e mentirosos media mainstream ocidentais apelidam de "libertação" ou "reconquista"). Esta abordagem resulta na análise de eventos desde meados de 2016 até ao dia de hoje.

 

Uma abordagem alternativa, igualmente válida, e que poderei um dia aqui fazer, seria analisar como se implementou o ISIS na Síria de forma definitiva, a partir de Março de 2013. Muito a dizer também sobre esta história tão mal contada. Pena que haja menos conteúdo disponível sobre esse período 2013-2016. Ainda assim, há mais do que o suficiente para perceber que, de forma sistemática, o que começava por ser uma "libertação" pelas FSA (Exército de Libertação Sírio na sigla inglesa), passava depois para ocupação terrorista da al-Qaeda e/ou afiliados, para acabar em ocupação terrorista de terreno sírio por parte do ISIS.

 

Depois há muitas variações, que não são para esta análise. O que sim quero ressaltar por agora é a constante reciclagem que houve de "rebeldes" terroristas das FSA em "terroristas" terroristas da al-Qaeda e por fim em terroristas "terroristas" terroristas do ISIS. Só não entende quem não quer.

 

E, quem não entender, pode sempre assistir a este vídeo:

 

 

Aviso desde já que este trabalho de análise exaustiva ao controlo territorial da Síria se alongará por várias semanas e será publicado numa longa série de artigos (partes). Este tema é demasiado complexo para ser explicado em meia dúzia de linhas ou através de um daqueles patéticos vídeos youtubianos para millennials do género "Conflito sírio em 5 minutos". Não, não dá assim.   

 

Neste primeiro artigo, analisarei vários aspectos introdutórios de essencial compreensão. Da segunda parte em diante farei a prometida análise de mapas ao longo do tempo. 

 

EVOLUÇÃO DO CONFLITO EM VÍDEO

Embora me proponha, precisamente, a explicar a evolução do conflito Sírio (ler agressão imperial à Síria) através da análise e comparação exaustiva de muitos mapas deste conflicto, gostaria, ainda assim, de o convidar a assistir a um vídeo que nos oferece uma rápida visão geral do que se passou na Síria de 2011 até hoje.

 

Sim, pause o vídeo, muitas vezes se necessário. Vale a pena ruminar o seu conteúdo. Eis o vídeo:

 

 

BREVE INTRODUÇÃO SOBRE O  I.S.I.S.

O plano de balcanização da Síria começou a ser implementado definitivamente em Junho de 2014, aquando da aparição súbita muitos milhares de mercenários na Síria, vindos do Iraque através do deserto que separa os 2 países, apetrechados de novo e moderno equipamento militar norte-americano capturado em meia dúzia de dias às novas tropas regulares iraquianas do norte do Iraque que vinham de receber esses novos equipamentos e tinham sido "abandonadas" há pouco e de forma súbita pelas tropas norte-americanas.

 

O plano era simples e funcionou na perfeição. Os EUA, após transformar os polícias e militares iraquianos despedidos no tempo de Bush em mercenários de guerra, agora (no tempo de Obama), esses mesmos mercenários eram sistematicamente integrados numa organização terrorista: o ISIS.

 

Treino sim, entrega massiva e descarada de moderno equipamento norte-americano não tanto. 

 

Para mascarar esse descaramento, os EUA armaram (enorme e estranhamente) tropas regulares iraquianas e de forma também muito estranha abandonaram-nas subitamente no norte do país.

 

Resultado: em poucos dias perderam quase toda a região noroeste para o ISIS, quase sem resistência, o que permitiu ao ISIS adquirir equipamento militar capaz de sustentar por uns tempos um exército relativamente moderno. A partir deste evento, o que tinha parecido estranho, passava a ser lógico.

 

Se os EUA tivessem a mínima intenção de parar a captura de armamento pelo ISIS e consequente apetrechamento de um exército terrorista "poderoso", e dado que ainda se encontravam dezenas de milhares de militares e mercenários norte-americanos no sul do Iraque, Obama poderia ter autorizado a destruição do exército do ISIS no Iraque na sua fase embrionária.

 

Se Obama quisesse evitar a fuga de dezenas de milhares de membros do agora chamado ISIS para a Síria, poderia ter autorizado a facílima chacina desse exército do ISIS nos 2 ou 3 dias que (imaginam) levaram a atravessar o deserto sírio-iraquiano, período durante o qual esse exército terrorista seria alvo ridiculamente fácil de um massivo bombardeamento aéreo que mataria o mal pela raiz e não poria em risco a vida de civis inocentes. Afinal, não são os EUA a "maior potência militar da história da humanidade"? E então?

 

Mas não, Obama ficou a assobiar enquanto via a caravana passar. EUA tinha todos os meios para o fazer, e tinha a obrigação moral de o fazer, pois tinha sido o seu absurdo "erro" de organização que tinha permitido a memebors do ISIS se armar e partir armados para a Síria, onde se juntaram a mais membros do ISIS.

 

Não terem os EUA de Obama reagido a este desenrolar de eventos prova algo muito simples de compreender: os EUA desejavam a invasão da Síria pelo ISIS e, assim sendo, os eventos no norte do Iraque que levaram à tremenda expansão do poder bélico do ISIS não teriam afinal sido um erro de organização norte-americano, mas sim o contrário, um sucesso de organização norte-americano.

 

Vou fazer o possível para o tentar convencer, com factos, raciocínio lógico e integridade intelectual, que  de facto, o sucesso do ISIS será de facto sinónimo do sucesso dos EUA na sua terrorismo-colonização da Síria.

 

PLANO A E PLANO B

Este sucesso na criação e armamento indirecto do ISIS poderia vir a ser importante para as ambições colonialistas dos EUA na Síria, caso a agressão norte-americana disfarçada de guerra civil não alcançasse o seu objectivo fundamental, a destruição do estado laico de al-Assad pelas primeiras frentes: FSA passando por heróicos libertadores, juntamente com a propaganda ocidental e da península arábica assegurando que o mundo assim "entendesse" as FSA.

 

Como todos sabemos, foi mesmo isso que aconteceu, os EUA e seus aliados ocidentais não conseguiram nem conseguirão nunca derrubar o estado laico de al-Assad usando esse absurdo cocktail de militares da NATO com terroristas de dezenas de países pagos e treinados pela Irmandade Muçulmana (e seus padrinhos, Reino Unido e Arábia Saudita) e com sírios descontentes com o "regime" sírio.

 

Podem atacá-lo, enfranquecê-lo, impor-lhe sanções que torturam de fome e doença o povo sírio, mas não podem derrubar o estado sírio, em grande parte devido ao apoio legítimo e essencial do Ezbolá, Irão e Rússia.

 

Assim sendo, sempre tinha valido a pena, para os EUA, a ocupação de mais de metade da Síria com o seus ISIS, pois só com a presença deste se poderia passar à segunda fase da agressão à Síria, fase que mais tarde passou a ser apelidada pelo próprio John Kerry de "Plano B" (em 2016).

 

É que os EUA são governados por gente muito profissional nas artes da barbárie, do sofrimento e da morte, mas muitíssimo fraquinhos na arte de bem se exprimir.

 

Quando se fala de um Plano B, subentende-se a existência de um Plano A, certo?

 

Se os EUA tinham um Plano A, então tinham pelo menos um "plano" anterior ao Plano B para o destino da Síria, certo? Pois claro, e o plano era derrubar o governo legítimo da Síria com uma versão musculada e terrorista das revoluções colorido-primaveris Gene Sharpianas (FSA e afilados).

 

Se o plano era dos EUA, e chamava-se Plano A, esse plano não poderia então ser de nenhuma oposição civil síria, tal como sempre nos quiseram vender! Aliás, basta ver de que forma bem armada e militarizada começaram os protestos "civis" e "pacíficos" em 2011 em Daraa para se perceber onde e como começou o Plano A.

 

Esse plano começou numa mesquita de Daraa controlada pela anglo-saudita Irmandade Muçulmana a poucos quilómetros da fronteira com a Jordânia, onde armamento estrangeiro foi armazenado durante as semanas que se seguiram à assinatura do acordo de construção de um gasoduto na Síria em parceria com o Irão e a Rússia no início de 2011, gasoduto esse que era suposto trazer gás iraniano até junto do mercado europeu.

 

Os EUA desde 2001 que pressionavam o governo Sírio para aceitar o seu próprio projecto, em parceria com a Arábia Saudita, e que deveria trazer gás qatari para o mercado europeu.

 

Como al-Assad se "portou mal", bem mal, a seguir às armas que encheram a mesquita até ao tecto, vieram os mercenários estrangeiros que, nas nossas TV's embrutecedoras, seriam pintados de "civis sírios protestando pacificamente e sendo massacrados pelo genocida Assad".

 

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Pese embora a miséria e a morte multiplicada por milhões, todos sabem que o norte-americano Plano A não deu em nada (à parte do extremo sofrimento de inúmeros seres humanos como o leitor e eu), os EUA não alcançaram o objectivo final, apesar das organizações "rebeldes" terroristas do Plano A ainda se encontrarem na Síria.

 

Não terem dado em nada não significa no entanto que tenham perdido utilidade para os EUA. Não, bem pelo contrário. Mas lá iremos mais tarde.

 

Voltando ao Plano B, que não fique no ar a ideia que esse fosse a criação do Estado Islâmico (ISIS) no verdadeiro sentido do termo "estado". Não. O Plano B de John Kerry, como ele mesmo afirmou, era o de criar um estado curdo nas zonas ricas em petróleo e gás da Síria e pobres em percentagem de população curda.

 

Sim, um Curdistão Sírio num país com poucos curdos, numa região desse país onde curdos são ridiculamente minoritários. Estranho? Sim, e chama-se Engenharia de Estados, uma arte ocidental que serve para inventar países como Kuwait, Brunei, Sudão do Sul, Kosovo e tantos outros!

 

E para acabar já com esse assunto de minorias curdas, queria relembrar ao leitor que não só curdos sírios são minoritários quer na Síria inteira quer nesta zona específica do nordeste da Síria, como também a esmagadora maioria dos curdos sírios são fruto da perseguição de curdos na Turquia perita em limpezas étnicas e que tiveram a sorte de viverem ao lado do estado sírio multi-étnico e multi-confessional com uma longa tradição de acolhimento e assimilação de perseguidos e refugiados.

 

Seguindo esta magnífica tradição antiga síria, já no século XXI, e por decisão de al-Assad, muitos desses curdos da Turquia refugiados na Síria obtiveram cidadania síria. Portanto, mesmo que, em resultado desta política de recolha e nacionalização de refugiados, a Síria tivesse passado a ter um região habitada maioritariamente por curdos (o que não é verdade), não haveria argumento possível que sustentasse a criação de um estado independente curdo em território sírio.

 

O Ocidente que o façam na Turquia (desrespeitando o Direito Internacional criado pelo próprio Ocidente) onde vivem mais de 15 milhões, ou no norte do Iraque. Agora na Síria, a sério?

 

Assista, por favor, a este vídeo no qual um militar norte-americano de alta-patente reconhece, num evento oficial, a compra e manipulação de "terroristas" curdos como utensílio para ailegal e criminosa agressão à Síria:

 

(O vídeo integral, para os interessados, por ser assistido aqui.)

 

ESTRATÉGIA DE IMPLEMENTAÇÃO DO PLANO B

- a) ISIS conquista terreno à Síria;

- b) mediatiza-se o carácter demoníaco do ISIS;

- b1) inventa-se Kobani e companhia, e encomenda-se mediáticos massacres de curdos pelas mãos do ISIS; 

 - c) alguém (curdos de preferência) conquista terreno ao ISIS;

- d) Síria não tenta reconquistar terreno a esse alguém pois ainda tem de combater "rebeldes" terroristas de um lado e ISIS de outro;

- e) esse alguém declarar-se-á mais cedo ou mais tarde independente, mantendo-se sobre ocupação militar dos EUA, isto é, um estado vassalo dos EUA.

- e1) se o governo sírio recuperar a tempo para competir com os curdos na conquista de território sírio ao ISIS, os EUA abaterá caças sírios e bombardeará e matará forças sírias até que estas abandonem o legítimo plano de recuperar o seu próprio do território a leste do Eufrates (rico em gás e petróleo).

 

Todos estes pontos porque o Plano A, a guerra de procuração (proxy war), ou seja, a guerra de agressão dos EUA e seus aliados contra a Síria, disfarçada de guerra civil e de guerra de libertação, falhou.

 

E mais, porque por mais que se venda na máquina de propaganda de EUA e aliados a imagem de uns "rebeldes" terroristas muito boa gente, não há forma de obter apoio das populações dos EUA e Europa para mais uma guerra convencial de conquista e subjugação de um estado, neste caso o sírio.

 

Pelo contrário, a luta contra a derradeira materialização do mal na terra poderia, com muita arte e efeitos especiais hollywoodescos, levar essas mesmas populações a aceitar ou pelo menos a fechar os olhos a uma intervenção militar directa na Síria que tivesse como objectivo oficial a destruição dessa encarnação do mal.

 

Claro que, antes de o fazer, teriam de mediatizar e bem os feitos grotescos do ISIS, essa encarnação do mal escolhida para o efeito. Daí toda a programada pornografia de jornalistas e reféns ocidentais vestidos de cor-de-laranja sendo queimados vivos ou decapitados por membros do ISIS. 

 

Para quem tenta encontrar a informação que procura, em oposição àqueles que aceitam de forma irreflectida aquilo que acreditam ser informação produzida pelos mentirosos media mainstream, foi por demais óbvia a existência de um plano objectivo dos EUA por detrás de toda essa sangrenta pornografia.

 

Porquê? Porque o que não faltam online são imagens e vídeos de torturas e execuções de civis sírios e soldados sírios pelo ISIS e também pelos "rebeldes" terroristas. Uma pesquisa no youtube e uma pessoa pode encontrar, por exemplo, vídeos extensos de corpos de soldados sírios vivos sendo cortados e desmembrados; ou decapitados; ou executados às dezenas e centenas de uma vez só.

 

Horror ISISiano era, portanto, matéria que não faltava, infelizmente. Por volta de 2015, mediatizar os hollywoodescos fatos-de-macaco cor-de-laranja, alguns possivelmente encenados, transparecia a necessidade do Império da Guerra de demonizar o mais possível o ISIS antes de poder declarar a "guerra santa" contra o ISIS, ou seja, a colonização do território sírio ocupado pelo ISIS.

 

Em paralelo a essa mediatizada demonização do ISIS, iam sendo definitivamente implementadas as Forças Democráticas Sírias, os cruzados do século XXI encarregues de "destruir o ISIS", supostamente.

 

FORÇAS DEMOCRÁTICAS SÍRIAS

Quem são as FDS -  Quem são as Forças Democráticas Sírias, ou melhor, quem não são? As Forças Democráticas Sírias não são nem democráticas nem tampouco são sírias. Antes uma mistela de organizações armadas sem organização política e, consequentemente, sem qualquer relação com o conceito de "democracia", não podem de todo ser democráticas.

 

Mais, essa mistela de síria não tem coisa nenhuma! Irra! Uma mistela ilegalmente organizada e implementada pelos EUA, estado agressor, que combina EUA, NATO, Peshmergas (curdos iraquianos submissos a Israel), curdos turcos (PKK) e curdos turcos naturalizados sírios associados ao YPG (organização irmã do PKK, também composta por curdos da Turquia), temos pena, mas não é de forma alguma uma organização síria.

 

Não dúvido das boas intenções de uma parte dos membros do PKK e do YPG quanto à vontade de libertar a Síria do terror ocidental mas, no entanto, é bem sabido que outra parte, sobretudo em posições hierárquicas superiores, deixaram-se comprar pelos EUA em troca de um prometido futuro estado curdo em terras roubadas à Síria.

 

É uma questão complexa e constantemente saem informações contraditórias, é verdade. Se no início do conflito PKK e YPG combatiam sem dúvida ao lado do governo de al-Assad, hoje é certo a maioria desses curdos sírio e curdos turcos, juntamente com os ladrões dos peshmergas (do Iraque), NATO e norte-americanos, estão firmemente envolvidos na criação desse tal absurdo Curdistão. 

 

Quando surgiram as FDS - Apesar de não poder citar aqui nomes de indivíduos, sei de fonte confiável que tropas da NATO de vários países (pelo menos da Polónia, França e EUA), pelo menos desde 2013, já se encontravam secretamente no norte da Síria, na altura em que chegou a grande ofensiva do ISIS à Síria vinda do norte do Iraque.

 

E daí dá para, indirectamente, uma pessoa se aperceber da ligação entre EUA e ISIS pois aqueles já preparavam secretamente as SDF que seriam mais tarde a vacina contra a doença (ISIS) que ainda não tinha alastrado no paciente (Síria). 

 

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Bandeira das FDS

 

A bandeira - Sei muito bem que a linha azul que atravessa o mapa sírio na diagonal representa o rio Eufrates, pois sim. Mas representa algo mais. Representava, quando foi criada, o território que os EUA planeavam roubar à Síria e representa hoje com muito rigor o território efectivamente roubado, ou ocupado, ou colonizado, como quiserem. 

 

À direita do Rio Eufrates, até meados de 2015, apenas a faixa norte, que faz fronteira com a Turquia, era de facto controlada pelas FDS (curdos vendidos + NATO). AInda assim, a ver pela bandeira que inventaram por aquela altura, já dava para perceber, e disse-o muitas vezes, que o Rio Eufrates, a azul na bandeira, não estava ali por acaso. Simbolizava a fronteira que os EUA ambicionava desenhar. Quando escrevi pela primeira vez sobre a bandeira das FDS, adicionei esta imagem ao meu artigo:

 

zona SDF

 

Mais, nesse ,mesmo artigo antevi que, pois claro, os EUA (FDS+NATO) iriam ocupar o resto da zona branca à direita do Rio Eufrates, e assim o fizeram. Até porque, ali naquele preciso triângulo branco invertido, encontra-se a maior parte das reservas energéticas sírias, pois claro. Já percebeu, não já?

 

Função das FDS na perspectiva norte-americana - Cumprir 2 pontos da lista acima, o c) a médio prazo e o e) a longo prazo.

  • c) alguém conquista terreno ao ISIS; 
  • e) esse alguém declarar-se-á, mais cedo ou mais tarde, independente, mantendo-se sobre ocupação militar dos EUA, isto é, um estado vassalo dos EUA 

 

Precisamente por terem como objectivo o cumprimento dos 2 pontos acima, as FDS possuem 2 características bem peculiares.

 

A primeira é um mistério (ou não). É um mistério como, quando se lembram, e após meses parados em alegre confraternização fronteiriça entre FDS e ISIS, as FSD conseguem conquistar terreno ao ISIS a um ritmo que leva a acreditar que estes combatem fantasmas num deserto. Por vezes são dezenas de quilómetros num dia, poucas ou nenhumas baixas, destruição mínima. E depois voltam à prolongada calmaria. Um adepto das teorias da conspiração, hehe, seria capaz de afirmar que o ISIS recua sob ordens de alguém, não acham?

 

A segunda característica peculiar não é mistério nenhum e está bem documentada. Por estranho que pareça a quem não estiver muito dentro deste assunto, as FDS não têm como objectivo destruir o ISIS, ao contrário daquilo que parece acreditar a barata tonta do Trump.

 

Não, as FDS apenas têm como objectivo criar um estado curdo sobre território predifinido pelos EUA. Território sírio ocupado pelo ISIS na Síria fora dessa zona predifinida, mesmo que faça fronteira com o futuro estado curdo das FDS, não parece representar problema nenhuma para essa FDS. Peculiar atitude tem esta organização que se diz "democrática" e também "síria", não acham? Peculiar atitude de uma organização que, segundo os médias ocidentais, é a força avançada da luta do "mundo livre" contra o "terrorismo islâmico". Ah, sim, deixem-me rir!

 

Sobre a história curda, o historial de cobardia curda e o histórico carácter traidor curdo, convido-o a ler estes três artigos de Sarah Abed:

 

CUMPLICIDADE ENTRE "REBELDES" E I.S.I.S.

O Plano B de criação de um estado curdo através das SDF não seria nunca possível sem a existência do ISIS. Certo. Mas há mais a analisar.  

 

Olhemos agora PARA o ponto d) Síria não tenta reconquistar terreno a esse alguém pois ainda tem de combater "rebeldes" terroristas de um lado e ISIS de outro.

 

A Síria não teve, ao longo destes últimos 3 anos, meios físicos, logísticos e humanos para enfrentar avanços e ambições das FDS sem se ver primeiro livre de "rebeldes" terroristas e de ISIS. Portanto, a permanência prolongada destes é um problema para as forças sírias, facto óbvio que não merece grande análise.

 

De análise mais interessante é, a meu ver, a interacção/cumplicidade que foi havendo entre rebeldes terroristas e ISIS, e as consequências positivas que sempre tiveram para as ambições das FDS, ou seja, dos EUA na Síria.

 

Méééééééééééééé, por Luís Garcia

 

Poderíamos falar sobre os inúmeros casos de mercenários estrangeiros que têm trocado de empregador vezes sem conta, para trás e para a frente, entre "forças rebeldes", todas as variações de al-Qaeda e o ISIS, mas nem vale a pena pois são factos bem documentados, basta procurar online esses factos facilmente acessíveis. Ainda repito o vídeo partilhado acima, e clique nele, se não chegou a fazê-lo:

 

 

O que me interessa, para esta série de artigos, são análises de comportamento e, neste tema, dois padrões de comportamentos saltam à vista após um análise da evolução do mapa do conflito sírio num longo intervalo de tempo.

 

Primeiro, existem várias zonas de fronteira entre "rebeldes" terroristas e ISIS que se mantêm estáveis ao longo do tempo e onde nunca se passa nada.

 

Em segundo, ataques/conquistas das forças sírias contra um destes grupos ("rebeldes" terroristas ou ISIS) costumam ser seguidos de ataques quase sincronizados do outro destes dois às forças sírias. Sabendo que a manta síria não é infinita e que não consegue tapar todas as partes do corpo sírio ao mesmo tempo, alguma parta ficará inevitavelmente fria, não é verdade? 

 

Quer os primeros exemplos gráficos de pacifica convivência e boa vizinhança entre "rebeldes" e ISIS ao longo do tempo? Vejam estes mapas abaixo (do início de 2017, o início também da grande reconquista da Síria e seus aliados contra o ISIS):

 

arredores de Damasco

arredores de Damasco

 

sul da Síria

sul da Síria

 

centro da Síria

 centro da Síria

 

nordeste da Síria

nordeste da Síria

 

Mais, quer exemplos da sincronia entre "rebeldes" e ISIS na agressão ao estado sírio? Posso dar dois exemplos perfeitos que ocorreram nesse mesmo período de início da reconquista síria contra o ISIS, um deles bem conhecido.

 

Começo pelo bem conhecido. Perante a grande ofensiva síria contra os "rebeldes" terroristas em Aleppo Leste em Dezembro de 2016, que obrigou os sírios a mobilizarem uma grande parte das suas forças militares para o norte do país, o ISIS aproveitou para reconquistar Palmira no centro do país.

 

No sentido contrário, em Abril de 2017, perante o rápido avanço das forças sírias contra o ISIS na província de Aleppo rumo à cidade de Raqqa, os "rebeldes" terroristas realizaram uma enorme quantidade de ataques e atentados terroristas junto a Damasco e Hama que, claro, tiveram como consequência o congelamento por 2 dias dos ataques das forças sírias contra o ISIS. 

 

A "ESTRADA DO I.S.I.S."

O primeiro mapa a ser analisado na segunda parte será este, sobre aquilo que eu apelido de "a estrada do ISIS":

a "estrada do ISIS"

 

Por hoje é tudo. Na próxima parte analisarei este e outros mapas sobre as movimentações de sírios e aliados, assim como das FDS e aliados, na conquista de território ao ISIS. 

 

CONTINUA

 

Luís Garcia, 29.11.2018, Rayong, Tailândia

 

 

 

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