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Síria: a indústria de direitos humanos na "guerra humanitária" (5/7), por Tim Anderson

24.04.18 | Pensamentos Nómadas

capa

 

Tim Anderson  POLITICA SOCIEDADE

 

Parte 5/7

 

3.2 Amnistia Internacional

A Amnistia Internacional (AI) foi criada em 1961 como uma agência não-governamental que enviava cartas de campanhas em favor de "prisioneiros de consciência". Na altura a AI evitava qualquer envolvimento "político", posição que parece ter mudado, pelo menos a partir da Primeira Guerra do Golfo (1990-1991). Desde então, esta organização tem colaborado [na produção] de pretextos para várias guerras lideradas pelos EUA.

 

A AI afirma não depender de nenhum governo, e muitas filias suas não aceitam dinheiro vindo de governos, embora algumas outras o façam. Este organização recebeu muitos milhões de dólares do governo britânico, da Comissão Europeia e dos governos da Holanda, EUA, Israel (NGO Monitor 2012) e Suécia (Ferrada de Noli 2015). É óbvio que alguns estados têm poder de influência [sobre a AI]. Por exemplo, o governo israelita "financiou a criação e as actividades da filial da Amnistia Internacional em Israel nas décadas de 1960 e 1970", período após o qual o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel passou a fornecer instruções e mais fundos para essa filial da AI (Blau, 2017). A Amnistia Internacional, globalmente, recolhe e gasta cerca de 280 milhões de euros por ano (AI 2017a), obtendo o seu financiamento de uma série de doadores na qual se incluem vários governos ocidentais, a altamente politizada "Open Society" dirigida por George Soros e a pró-israelita "American Jewish World Service" (Source Watch 2014).

 

Jean Bricmont, autor do livro Humanitarian Imperialism (2006), chama a atenção de que, antes da invasão do Iraque pelos EUA em 2003, tanto a Amnistia Internacional como a HRW fingiam manter uma posição "neutra", instando "todas as partes beligerantes" a respeitar as leis da guerra (Bricmont 2006). Estas optaram por não dizer nada sobre uma agressão que foi classificada de "ilegal" pelo então Secretário Geral das Nações Unidas Kofi Annan (MacAskill e Borger 2004). Um funcionário da AI confirmou essa postura de "não tomar posição sobre o uso de força armada ou sobre a intervenção militar em conflitos armados, a não ser para exigir que todas as partes respeitem os direitos humanos e o direito humanitário internacional" (Bery 2012). Da mesma forma, a AI ignorou a interferência externa na Síria, incluindo o fornecimento de armas a grupos terroristas (Sterling 2015). Mais tarde, a AI proferiu um muito tendencioso comentário sobre a conduta de guerra, ignorando aquilo a que o Tribunal de Nuremberga apelou de "o supremo crime" de guerra de agressão.

 

Por volta do início deste século, a liderança da AI estava já bem incorporada na política interna e externa dos EUA,  e mantinha ligações cruzadas com a HRW. Por exemplo, Suzanne Nossel, autora da doutrina do "poder inteligente" dos democratas norte-americanos, passou de directora de operações da Human Rights Watch para vice-secretária adjunta para as organizações internacionais do Departamento de Estado dos EUA, de onde saiu para se tornar directora executiva da Amnistia Internacional EUA (HRI 2012). Em 2017, a Amnistia Internacional EUA (AI EUA) empregava sete antigos e actuais funcionários do governo dos EUA (Open Secrets 2017).

 

Efectivamente, a AI não teve ninguém "no terreno" durante todo o conflito sírio, com uma só excepção. No final de 2016, durante a batalha de Aleppo, o coordenador de informação da AI Austrália, Samuel Hendricks, contou a este escritor que “actualmente não temos pessoal na Síria (...), simplesmente não é viável (…) [No entanto], a nossa assessora perita em respostas a crises, Donatella Rovera, atravessou 10 vezes a fronteira síria (...) [e] nós temos vindo a documentar atrocidades desde o início do conflito” (Hendricks 2016). O problema é que Rovera só visitou (ilegalmente) zonas controladas por jiadistas, no norte da Síria. Esta mesma Rovera havia criado os tendenciosos e enganosos relatórios da AI sobre a Líbia contendo alegações, entretanto desacreditadas, pelas quais a AI França mais tarde acabaria por se retractar (Cockburn 2011; Kuperman 2015). Ainda assim, Rovera foi contratada para preparar um conjunto de estórias semelhantes sobre a Síria. Com base nas suas visitas e depoimentos recolhidos em áreas controladas por jiadistas, a AI relatou supostos "crimes contra a humanidade sendo" cometidos pelo exército sírio (AI 2012a).

Além dos relatórios da senhora Rovera e algumas outras entrevistas fora da Síria, a AI contou com as mesmas fontes infiltradas no projecto de "mudança de regime", incluindo o "Observatório Sírio dos Direitos Humanos" (OBSD) de Rami Abdul Rahman. Embora o OSDH não revele a sua metodologia, Neil Sammonds, um investigador da AI, afirmou que "as informações de Abdul Rahman sobre os assassinatos de civis são muito boas, definitivamente uma das melhores, incluindo detalhes sobre as condições nas quis essas pessoas foram supostamente mortas (MacFarquar 2013). Sammonds não demonstra de forma alguma como consegue chegar à conclusão que as informações, provenientes dessa fonte claramente parcial, são "muito boas".

 

Salil Shetty, secretário geral da Amnistia Internacional, afirmou que a AI investiga "de uma maneira muito sistemática e directa, recolhendo provas através dos nossos próprios funcionários no terreno (...), [com] confirmação e verificação cruzada [de dados] vindos de todas as partes (...). É muito importante obter diferentes pontos de vista e constantemente cruzar e verificar os factos" (Shetty 2014). No entanto, contrariamente a estas alegações, a AI baseou-se em provas de terceiros provenientes de fontes intimamente ligadas a grupos armados na Síria, em particular o OSDH e o Syrian Network for Human Rights (SNHR). O académico escocês Tim Hayward critica a AI por esta alegar fazer pesquisas "sistemáticas" a partir de "fontes primárias" e verificadas por confirmação e cruzamento [de dados] de todas as partes envolvidas. Hayward concluiu que esta caracterização (das investigações da AI sobre a Síria) não corresponde à realidade. (Hayward, 2017).

 

Analisemos várias áreas de actividade da AI que demonstram a sua partidária relação com Washington. Primeiro, o grupo tem um historial de apoio a falsos pretextos para guerras lideradas pelos EUA. A AI simulou ter corroborado um importante pretexto para a intervenção dos EUA na "Primeira Guerra do Golfo" (1990-1991), que levaria à expulsam do exército iraquiano do Kuwait. Refiro-me à televisionada mentira em torno da kuwaitiana "enfermeira Nayirah" contando que soldados iraquianos haviam invadido um hospital no Kuwait e, no intuito de recolher valiosos equipamentos médicos, teriam retirado bebés para fora das suas incubadoras e os deixado para morrer no chão frio. Esta estória foi apoiada pelo secretariado da AI em Londres, o qual afirmou ter confirmação sobre [o caso] "Nayirah". Um ex-membro da direcção da AI EUA, Francis Boyle (2002), afirma que a organização "forçou" [a aceitação desta estória] sem o devido escrutínio. Na realidade, "Nayirah" era filha do embaixador do Kuwait nos EUA. Após a intervenção militar, incluindo um enorme massacre de soldados iraquianos em retirada dentro do próprio Iraque, a estória da "enfermeira Nayirah" foi desmascarada e provou-se ter sido uma fabricação criada através da empresa de relações públicas Hill and Knowlton, a qual orientou "Nayirah" com o seu guião (Stauber e Rampton 2002; Regan 2002).

Em 2012, a nova directora da AI EUA, Suzanne Nossel, lançou uma campanha supostamente em apoio dos direitos das mulheres e meninas do Afeganistão. Os cartazes da AI, no momento da cimeira da NATO em Chicago, em 2012, continham esta frase: “NATO: continue progredindo!” (Figura 4). Esta pouco subtil frase-feita tinha como objectivo elogiar os 10 anos da ocupação militar da NATO resultante de um pretexto forjado pelo então presidente George W. Bush. Observadores indignados classificaram este comportamento da AI de "incitamento às guerras norte-americanas" (Wright e Rowley, 2012). Mais tarde, a AI admitiu ter feito passar uma mensagem "confusa" (Colucci 2012).

 

Figura 4: AI fazendo apologia dos 10 anos de ocupação militar da NATO no Afeganistão

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A AI corroborou também falsas histórias sobre a Líbia, activamente fazendo campanha contra o governo de Muamar Gadafi. A líder da AI França, Genevieve Garrigos, alegou que o presidente líbio estaria ameaçando civis líbios e que teria usado "mercenários negros" para matar civis. Nessa mesma altura, a al-Jazeera (propriedade do monarca do Qatar, o qual financiou também grupos salafistas armados na Líbia) passava mentiras sobre tiroteios numa manifestação de Bengazi. Depois dos bombardeamentos da NATO terem destruído o estado líbio, Garrigos admitiu não existirem "provas" que corroborassem as alegações sobre os tais "mercenários negros" (Teil 2011; Timand2037 2012; Kuperman 2015). De forma semelhante, a AI publicou uma série de estórias tendenciosas e pouco fiáveis, com o intuito de atear fogo à guerra contra a Síria (Sterling 2017). 

 

Figura 5: Qual conflito de interesses? A AI, tal como os "White Helmets" e o OSDH, usa a bandeira de estrelas vermelhas dos jiadistas armados.

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Segundo, alinhando-se às suas fontes claramente parciais a AI partilhou, nos seus sites, a bandeira dos jiadistas armados junto à cara de um "manifestante pacífico" fazendo um gesto de paz (Figura 5). Na altura em que foi produzida esta imagem (2012), grupos do “Exército de Libertação Sírio” já se haviam envolvido em assassinatos sectários, e usavam slogans genocidas (Blanford 2011; Anderson 2016a: 123) como “combater os maus”, que acabou por se tornar um dos slogans da AI na sua populista e nada subtil apologia da "guerra humanitária".

 

Utilizando fontes com ligações a jiadistas, a AI aliou-se a outras organizações norte-americanas como o Avaaz, a Human Rights Watch e a The Syria Campaign, financiados pelo multi-milionário norte-americano George Soros, para juntos apelarem à acção do Conselho de Segurança da ONU contra a Síria. Isto enquanto continuava a afirmar-se "imparcial". Tal como na Líbia, a desculpa dada era defender civis: "as principais vítimas de uma campanha de implacáveis e indiscriminados ataques do exército sírio" (AI 2012b).

Terceiro, a AI aceitou as alegações de actuais e antigos jiadistas sectários de que teriam ocorrido enforcamentos em massa numa pequena prisão em Saydnaya. "Até 13000 [pessoas] secretamente enforcadas na cadeia síria, diz a AI" fazia as primeiras páginas (Chulov 2017). Se, por um lado, a pena de morte existe na Síria e sem dúvida muitos dos condenados por crimes de assassinato durante o conflito foram executados, esta exagerada alegação deverá ter sido planeada com o intuito de atrair escandalosa publicidade, uma vez mais em apoio a uma ainda mais extensa intervenção ocidental. A AI juntou as suas entrevistas na Turquia a algumas dúzias de pessoas anónimas, aos "dados" fornecidos pela Syrian Network for Human Rights (com sede no Reino Unido e alinhada a jiadistas). A AI alega ter existido uma "política de extermínio" que resultou na "mortes de centenas, provavelmente milhares, de detidos" (AI, 2017: 7). Da vaga "centenas, provavelmente milhares", o relatório salta para "entre 5000 e 13000", para acabar produzindo a manchete "até 13000" (AI 2017; Turbeville 2017). Este foi um claro exercício de manipulação de números e de exagerada linguagem.

 

A porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Maria Zakharova, afirmou que o relatório "não corresponde à realidade (...). [Parece ser] o resultado de cálculos matemáticos baseados em testemunhos de pessoas não identificadas" (Press TV 2017). Peter Ford, observador independente e ex-embaixador do Reino Unido na Síria, questionou a razão pela qual o relatório apareceu no preciso momento em que as negociações de paz em Astana pareciam estar progredindo. A AI usou testemunhas anónimas na Turquia e, segundo Ford, essas "fontes sem nome cometem erros sobre as mais elementares informações". Este ex-embaixador visitou Saydnaya em várias ocasiões e afirma que a prisão é bem menor do que aquilo que é sugerido pela AI. O edifício que viu em Saydnaya "não poderia acomodar mais do que dez por cento desses números" [10.000 a 20.000] (Sputnik 2017).

 

Vários analistas perguntaram como foi possível não haver anteriores relatórios detalhados sobre essas "execuções em massa", e em que informações se baseavam esses números. O Syrian Network for Human Rights, com sede no Reino Unido, não apresenta um método claro de recolha de dados e não disponibiliza publicamente informação detalhada. Apenas 95 [supostos enforcados] receberam nomes (MOA 2017). A AI apresentou alguns palpites extremos, baseados em entrevistas anónimas e numa fonte no exilo ostensivamente parcial. Esta conduta não é a de uma organização profissional ou imparcial.

 

Tim Anderson, Janeiro de 2018

 

1ª PARTE - Sumário

2ª PARTE - 1. Direitos humanos como pretexto para a guerra humanitária

3ª PARTE - 2. Conflitos de interesse normalizados 

4ª PARTE - 3. Vendendo guerras humanitárias: HRW e AI  /  3.1 Human Rights Watch

5ª PARTE - 3.2 Amnistia Internacional

6ª PARTE - 4. Agências encomendadas à medida: "The Syria Campaign" e "The White Helmets"  / Considerações finais

7ª PARTE - Bibliografia

 

traduzido para o português por Luís Garcia

versão original em inglês: Syria: the human rights industry in 'humanitarian war', Tim Anderson

 

 
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