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Pensamentos Nómadas

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Síria: a indústria de direitos humanos na "guerra humanitária" (4/7), por Tim Anderson

21.04.18 | Pensamentos Nómadas

capa

 

Tim Anderson  POLITICA SOCIEDADE

 

Parte 4/7

 

3. Vendendo guerras humanitárias: HRW e AI

Nesta secção é examinado o papel da guerra humanitária das grandes agências Human Rights Watch (HRW) e Amnistia Internacional (AI). Demonstrarei nesta secção que ambas estão, ou passaram a estar, profundamente envolvidas com poderosos estados, com o objectivo de "civilizar" mas, mais precisamente, com o objectivo de legitimar agendas globalistas e denegrir a resistência [contra essas agendas globalistas]. Ambas atraem centenas de milhões de dólares de estados ocidentais e fundações a eles ligadas. Nenhuma delas tem qualquer responsabilidade democrática ou social. O papel da HRW e da AI durante as intervenções de "poder inteligente" contra a Líbia e contra a Síria pode ter apanhado alguns de surpresa, mas havia já um longo historial de apoio destas à política externa dos EUA. No entanto, como o conflito na Síria foi tão prolongado e tão dependente de um igualmente prolongado pretexto ideológico, este [conflito] serviu para pôr em relevo as posições parciais destas agências. Nesta secção é explicado como ambas as agências se incorporaram nas "guerras humanitárias" de Washington e são também apresentadas suficientes provas sobre o seu carácter partidário.

 

3.1 Human Rights Watch

A Human Rights Watch é uma corporação com sede em Nova York, financiada principalmente por outras corporações e fundações dos EUA. Ao contrário do National Endowment for Democracy, não é financiada directamente pelo governo [dos EUA]. Ainda assim, trabalha em estreita colaboração com Washington. Em 2010, o bilionário George Soros doou 100 milhões de dólares a esta agência (Strom 2010), o que sem dúvida terá conferido a Soros um significativo poder dentro do grupo. De facto, depois de que o membro fundador da HRW, Aryeh Neier, deixou o grupo para se tornar presidente da Open Society Foundation de Soros, Ken Roth subiu ao cargo de director executivo, onde permaneceu nos 25 anos seguintes (1993-2018). O orçamento da HRW para 2016 foi de 76 milhões de dólares e os seus activos somaram 234 milhões de dólares (HRW 2016a: 15). Mantém laços estreitos com o lado democrata da política norte-americana e com um grupo da elite da política externa: o Council on Foreign Relations (CFR). Como parte do quadro e antigo presidente encontramos James Hoge, editor da revista Foreign Policy entre 1992 e 2009. Muitos outros membros do conselho da HRW pertencem à elite corporativa dos EUA. Alguns dos seus doadores insistem que o grupo se concentre áreas específicas. Em 2016, cerca de 90% dos activos da empresa foram "restringidos" pelos doadores (HRW 2016b), ou seja, restringidos no tempo ou dedicados a certos projectos específicos.

 

Pode-se dizer, portanto, que a HRW representa um lobby corporativista focado em questões de direitos, baseado nos EUA, satisfazendo a ricos e estreitamente alinhado à política externa dos EUA (Anderson 2010). Apesar de recusar fundos governamentais, são visíveis os conflitos de interesse. Por exemplo, o director da HRW, Ken Roth, ataca com frequência inimigos da política externa dos EUA, mas tem sido criticado por dizer quase nada sobre o programa de assassinatos com drones do presidente Obama (Bhatt 2014b). Os temas principais da HRW na América Latina, durante muitos anos, foram Cuba e Venezuela, enquanto pouca ou nenhuma atenção foi dada à Colômbia, um aliado chave dos EUA e o maior assassino de jornalistas, sindicalistas e advogados (Anderson 2010). Por vezes, a motivação política é bem explícita. O relatório de 2008 da HRW sobre a Venezuela, quando era presidente Hugo Chávez, focou-se principalmente em questões de discriminação política no trabalho e nos tribunais (HRW 2008). Este relatório foi criticado por mais de cem académicos (incluindo este autor) por não respeitar "os mais elementares padrões de erudição, imparcialidade, precisão e credibilidade" (Acuña 2008). A HRW respondeu através de José Miguel Vivanco, director da HRW para as Américas, que argumentou que o relatório foi produzido "porque queríamos demonstrar ao mundo que a Venezuela não é um modelo para ninguém" (Roth, 2008). Era clara a agenda política.

 

Uns anos depois, uma carta semelhante obteve resposta semelhante. Uma lista de 130 académicos encabeçada por dois vencedores do Prémio Nobel da Paz pediram à HRW para encerrar a "porta giratória" que esta mantinha com o governo dos EUA (Pérez Esquivel et al 2014). Aqueles, uma vez mais, criticaram a HRW por ignorar grosseiros abusos do governo dos EUA, ao mesmo tempo que selecciona, enquanto alvos seus, oponentes da política externa dos EUA como a Venezuela. As vozes críticas demonstraram a realidade de repetidos intercâmbios entre autoridades dos EUA (assessores presidenciais, embaixadores dos EUA, militares e funcionários do Departamento de Estado e da CIA) e a HRW, exigindo que o grupo fechasse a sua “porta giratória”, proibindo ou impondo “períodos de descanso” para aqueles que elaboraram ou participaram na execução de políticas externas dos EUA ”(Pérez Esquivel 2014). Roth (2014) rejeitou qualquer ideia de conflito de interesses, argumentando que a HRW tinha uma grande diversidade de funcionários. Tampouco viu qualquer problema com o facto da  HRW ter Javier Solana (antigo dirigente da NATO) no seu quadro directivo (Bhatt 2014a). Somente com a transição de Obama para Trump (isto é, de um regime liberal para um regime realista) é que a HRW (mais alinhada com o lado Democrático) mudou de posição. De facto, pela primeira vez em 27 anos, os EUA foram catalogados como sendo um dos "principais violadores de direitos humanos", poucos dias depois de Trump ter ocupado o cargo. (Moran, 2017).

 

Aqui estão três áreas de actividade da HRW, durante a guerra na Síria, que demonstram que a integração do grupo com Washington foi colocada em prática. Primeiro, temos o falso relatório que a HRW criou no início do conflito armado na Síria. Num relatório de Março de 2012, que incluiu algumas simbólicas críticas aos jiadistas armados, a HRW afirmou que "os movimentos de protesto na Síria, na sua esmagadora maioria, foram pacíficos até Setembro de 2011" (HRW, 2012). Uma avassaladora quantidades de provas independentes mostram que essa afirmação é bem falsa. O falecido padre jesuíta, o padre Frans Van der Lugt, que viveu mais de 40 anos na Síria antes de ser assassinado em 2014 pela Jabhat al Nusra (al-Qaeda), em Homs, disse o seguinte: 

Eu vi, desde o início, manifestantes armados nessas protestos... eles foram os primeiros a disparar contra a polícia. Muitas vezes a violência das forças de segurança veio em resposta à brutal violência dos insurgentes armados ” (van der Lugt 2012).

 

Da mesma forma, o académico australiano Jeremy Salt, residente em Ancara, escreveu em Outubro de 2011 que:

As alegações de que a oposição armada ao governo surgiu recentemente é uma completa mentira. Os assassinatos de soldados, polícias e civis, muitas vezes nas mais brutais circunstâncias, têm ocorrido praticamente desde o início” (Salt 2011).

 

Um outro padre, o belga Daniel Maes, que residia no Mosteiro de Yakub (do século VI) em Qara, 90 km a norte de Damasco, afirmou que não houve "insurreição civil" na Síria e que a violência foi paga e planeada fora da Síria (Azizi e Maes 2017) . É importante ouvir, num conflito, vozes independentes.

 

O mito dos "protestantes pacífico pegando em armas" já foi desmontado por pesquisadores e jornalistas independentes. Pelo contrário, jiadistas armados infiltraram-se nas manifestações por reformas políticas. A insurreição saudita em Daraa (Anderson 2016b) alcançou Homs no início de Abril de 2011. O general Abdo Khodr al-Tallawi (junto aos seus dois filhos e um sobrinho), o comandante sírio Iyad Kamel Harfoush e o coronel Mohammad Abdo Khadour (fora de serviço) foram mortos por jiadistas (Narwani 2014). A 11 de Abril, o comentarista norte-americano Joshua Landis (2011) relatou a morte do primo da sua esposa, um soldado em Baniyas. Compilando informações sobre mortes de soldados, o jornalista independente Sharmine Narwani relatou que, a Abril de 2011, oitenta e oito soldados sírios foram mortos "por atiradores desconhecidos em diferentes zonas da Síria" (Narwani 2014). Em Junho de 2011, a jornalista Hala Jaber escreveu sobre os "jiadistas armados" que se haviam infiltrado em manifestações em Idlib, atirando contra polícias desarmados (Jaber, 2011). Esses violentos agentes jiadistas levaram ao desaparecimento dos protestos pacíficos. A HRW (2012) não reconhece nada disto.

Em segundo lugar, houve a tal questão das fotos da morgue, no Catar, divulgadas em Janeiro de 2014. Essas fotos, apresentadas por um desertor anónimo conhecido como "Caesar", propunham mostrar milhares de prisioneiros "opositores" na Síria, torturados até a morte pelo "regime". Muitas das fotos pareciam vir de uma morgue ligada a um grande hospital de Damasco. "César" recebeu asilo no Catar, essa minúscula monarquia rica em petróleo, e um dos principais patrocinadores dos grupos jiadistas (Shapiro 2013; Dickinson 2014). A história foi portanto patrocinada por uma das partes beligerantes e não chegou a ser confirmada. O Catar contratou alguns advogados britânicos para fornecer um selo de aprovação "bootstraps". E assim, foi relatado que "experientes procuradores especialistas em crimes de guerra afirmaram que as fotos e os documentos [apresentados] forneciam "provas claras" do sistemático assassinato de 11.000 detidos" (Black 2014). Foi também afirmado que peritos em ciências forenses examinaram e autenticaram exemplares de 55.000 imagens digitais, abrangendo cerca de 11.000 vítimas. “No geral, havia provas de que um número significativo dos falecidos se encontravam emagrecidos e que uma significativa minoria havia sido amarrada e/ou espancada com objectos semelhantes a bastões”, indicou o relatório financiado pelo Catar (Black 2014). Dezenas de fotos foram amplamente divulgadas, mas o arquivo completo não foi tornado público.

 

Quase dois anos depois, a HRW obteve o arquivo completo e publicou quase a mesma estória, mas com uma importante detalhe extra. Quase metade das fotos, admitiu a HRW, eram de "cadáveres de soldados do exército [sírio] ou de membros das forças de segurança", ou as vítimas de "explosões, assassinatos, (...) incêndios e carros-bomba" (HRW 2015: 2-3). Tal nunca havia sido mencionado antes e, quanto ao resto do relatório da HRW, também aí não foi mencionado novamente. Sem divulgar o arquivo completo, a HRW afirmou que "a maior categoria de fotografias, contendo 28.707 imagens, são fotografias de pessoas que a Human Rights Watch acredita terem morrido sob custódia do governo".Essas fotos apresentavam um consistente padrão de numeração e havia "várias fotografias de cada cadáver", até 20 por cadáver, por vezes. Estimou-se que estas fotos "correspondam a pelo menos 6.786 indivíduos mortos" (HRW 2015). No entanto, a HRW, apesar de admitir que pelo menos 27.000 fotos de cadáveres não representavam prisioneiros do "regime", optou por ignorar essas fotos. A HRW simplesmente disse que "este relatório foca-se na análise em maior detalhe à primeira categoria de fotografias" (HRW 2015: 3). O leitor casual deste relatório poderá nem sequer notar que a HRW admite ser verdade que quase metade dessas fotos secretas nada não tinham a ver com o assassínio à "escala industrial" de pessoas da "oposição" (Black 2014). Foi um fraude particularmente descarada da HRW manter a estória original, tendo em conta que sabiam muito mais do que aquilo que relataram. Rick Sterling (2016), nas vésperas de negociações de paz, chamou a atenção para a tendenciosa publicidade em torno dessas fotos.

 

Uma terceira categoria de evidências que demonstram o carácter partidário das informações da HRW na Síria são as fotos recicladas com novos rótulos pelo director da HRW, o senhor Ken Roth. A colunista Yalla La Barra escreveu que, ao longo de 2014 e de 2015, Roth ficou obcecado com o presidente da Síria, Assad, e com o tema dos "barris-bomba". Segundo a contagem de La Barra, Roth publicou 65 posts no Twitter sobre Assad e "barris-bomba" durante 2014, e 135 durante 2015. Esta contagem não incluiu outros comentários anti-Síria, como o alegado "uso de armas químicas contra seu próprio povo" por parte de Assad (La Barra 2015). Não é claro o motivo sugerido para os supostos crimes com "barris-bomba". A constante referência relaciona-se com as supostamente improvisadas bombas largadas sobre edifícios a partir de helicópteros. De qualquer modo, estes bombardeamentos pouco difeririam de qualquer outro tipo de bombardeamentos em período de guerra. No entanto, o significado sugerido por Roth e outros é que este seria um tipo de bombardeamento "indiscriminado" com bombas que, por uma inexplicável razão, só cairiam sobre civis.

 

Figura 2: A campanha de "barris-bomba" de Ken Roth  - reciclagem de fotos

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De qualquer forma, os tweets de Roth eram insistentes, tendenciosos e imprudentes. O director da HRW pouco ou nada escreveu sobre a Arábia Saudita, o Catar, os EUA, o Reino Unido e a França armando todo o tipo de grupos jiadistas extremistas na Síria. O seu foco, tal como o de Washington, sempre foi o governo sírio. Roth produziu uma série de imprudentes erros, como os que se podem ver nas Figuras 2 e 3. No início de 2015, este postou uma foto de Kobane (ou Ayn ​​al-Arab, a cidade curda-árabe que resistiu aos ataques do ISIS e que depois foi bombardeada pelos EUA), sugerindo que os danos teriam sido causados pelos "barris-bomba" sírios (MOA 2015a). Pouco depois, Roth postou uma foto dos danos causados pelos bombardeamentos israelitas na Faixa de Gaza, sugerindo que a foto mostrava os danos causados pelos "barris-bomba de Assad" em Aleppo (Johnson 2015; MOA 2015b). Esta troca de fotos é mostrada na Figura 2. Logo depois Roth postou, como representando os danos dos "barris-bomba de Assad" em Aleppo, uma foto da agência norte-americana Getty cujo título era: "destruição no bairro de Hamidiyeh em Aleppo, à medida que combatentes de comités populares locais (...) tentam defender o seu bairro tradicionalmente Cristão (...) [do] grupo de jiadistas do ISIS." (MOA 2015c). Essa "reinterpretação" pode ser constatada no Figura 3. Três "erros", todos na mesma direcção, são suficientes para ilustrar a actividade tendenciosa do director da HRW. 

 

Fugira 3: A campanha de "barris-bomba" de Ken Roth  -  "reinterpretação" de fotos

 

 

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Como se não bastasse, Roth tentou relacionar o presidente Assad com o ataque nuclear contra Hiroshima em 1945. A 9 de Agosto de 2015, Roth postou uma foto de Hiroshima, após ter sido bombardeada, junto ao comentário: "Para os planeadores do bombardeamento de Hiroshima (tal como Assad hoje), o objetivo era matar civis" (Roth 2015). A tentativa de relacionar a Síria com um famoso crime norte-americano foi de um extremo cinismo. O comportamento de Roth ilustra bem a tendenciosa e nada fiável cobertura que a sua organização faz sobre o conflito sírio. A HRW continua intimamente interligada com Washington, especialmente com o Departamento de Estado e o lado liberal da política norte-americana. As provas aqui citadas demonstram bem o carácter partidário desta agência. A HRW não pode ser considerada uma fonte independente.

 

Tim Anderson, Janeiro de 2018

 

1ª PARTE - Sumário

2ª PARTE - 1. Direitos humanos como pretexto para a guerra humanitária

3ª PARTE - 2. Conflitos de interesse normalizados 

4ª PARTE - 3. Vendendo guerras humanitárias: HRW e AI  /  3.1 Human Rights Watch

5ª PARTE - 3.2 Amnistia Internacional

6ª PARTE - 4. Agências encomendadas à medida: "The Syria Campaign" e "The White Helmets"  / Considerações finais

7ª PARTE - Bibliografia

 

traduzido para o português por Luís Garcia

versão original em inglês: Syria: the human rights industry in 'humanitarian war', Tim Anderson

 

 
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