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Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

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Por que o Japão se mostra tão áspero com a imparável ascensão da China?, por André Vltchek

13.01.19 | Pensamentos Nómadas

 

Andre Vltchek Política Sociedade  

 

Costumava haver um par de belos baloiços para crianças não muito longe de um antigo templo rural na província de Mie, onde eu costumava frequentemente fazer jogging, quando procurava inspiração para os meus romances. Há dois anos, reparei que os baloiços ficaram enferrujados; estão abandonados e descuidados. Ontem, notei que havia uma fita amarela ao seu redor, portanto fechando a estrutura. Parece que a decisão de se livrarem do parque infantil já havia sido feita, de forma irreversível.

 

Um dia antes, reparei num velho sem-abrigo dormindo debaixo de um grande painel publicitário que anunciava um conjunto de restaurantes de luxo na também luxuosa estação de comboios de Nagoia.

 

E, na cidade de Yokkaichi, que conta com cerca de 350 mil habitantes, quase todas as linhas de autocarro já desapareceram. Também desapareceu um elegante e único zodíaco brilhante, que costumava estar em frente à estação de comboio da Linha Kintetsum gravado no passeio de mármore, mesmo no centro da cidade. O ferry rápido para atravessar a baía, ligando Yokkaichi ao Aeroporto Internacional Centrair que serve Nagoia e, na verdade, quase toda a área do centro do Japão, deixou de operar por falta de subsídios municipais. Agora, as pessoas têm de conduzir cerca de setenta quilómetros ao redor da baía, queimando combustível e pagando portagens de auto-estrada caríssimas e taxas de estacionamento do aeroporto, para poderem ir apanhar um voo. O que costumavam ser espaços públicos ou apenas campos de arroz, estão rapidamente sendo convertidos em parques de estacionamento. Isto está acontecendo no Japão central, mas também a sudoeste, até Nagasáqui, e a norte, até Nemuro.

 

Os sem-abrigo estão por todo o lado. Carros (o Japão tem agora mais carros per capita do que os Estados Unidos) estão apodrecendo no meio de campos de arroz e nas imediações de florestas outrora intocadas, visto que os carros perdem valor rapidamente e custa muito dinheiro ver-se livre deles da forma correcta. Inteiras aldeias rurais estão sendo despovoadas, transformando-se, de facto, em cidades fantasmas. Por todo o país, há ferrugem, mau planeamento e uma falta aguda de qualquer coisa que seja pública.

 

O Japão está em decadência. Durante muitos anos foi possível, de olhos meio-fechados, ignorá-lo, pois o país, por inércia, ia-se mantendo no topo das nações mais ricas da Terra. Hoje já não é assim: a deterioração é agora bem visível.

 

A decadência não é tão drástica como a que se pode observar nalgumas partes de França, dos Estados Unidos ou do Reino Unido. Mas é decadência. Os optimistas e estonteantes dias da construção da nação já acabaram. A indústria automobilística e outras corporações estão literalmente canibalizando o país, ditando o seu estilo de vida. Em cidades mais pequenas, os automobilistas já não param em passagens para pedestres. Os carros recebem prioridade dos planeadores urbanos e, alguns deles, são pagos (subornados) pela indústria automóvel. Muitas áreas agora só podem ser alcançadas de carro. Quase não há máquinas de exercícios públicos e quase não se vê novos parques. O Japão, que se orgulha de produzir alguns dos alimentos mais refinados, está agora completamente dominado por várias cadeias de lojas de conveniência que estão repletas de alimentos pouco saudáveis.

 

Durante gerações, as pessoas sacrificaram as suas vidas para construir um Japão próspero, poderoso e socialmente equilibrado. Agora, não há dúvidas de que os cidadãos ali estão sobretudo para dar apoio a poderosas corporações ou, em suma, ao big business. Os japoneses costumavam ter o seu próprio e distinto modo de vida, mas agora o estilo de vida não é muito diferente daquele que pode ser observado na América do Norte ou na Europa. Pela segunda vez na sua história, o Japão foi forçado a "abrir-se ao mundo" (Leia-se: aos interesses ocidentais e à economia capitalista global) e a aceitar conceitos que costumavam ser completamente estranhos à cultura asiática. As consequências foram rápidas e, em resumo, completamente desastrosas.

*

Após a Segunda Guerra Mundial, o Japão teve de aceitar a ocupação. A Constituição foi escrita pelos EUA. Derrotado, mas determinado em reconstruir-se e juntar-se às fileiras dos países mais ricos da terra, o Japão passou a colaborar com o Ocidente, começando com o apoio à invasão brutal da Coreia (a chamada "Guerra da Coreia"). Desistiu por completo da sua independência, renunciando totalmente à sua política externa que, gradualmente, se tornou indistinta da dos Estados Unidos em particular e da do Ocidente no geral. Os meios de comunicação social têm sido, desde o fim da guerra até agora, controlados e censurados pelo regime de Tóquio. Os principais jornais japoneses, bem como a emissora japonesa NHK, nunca se atrevem a transmitir ou publicar nenhuma importante notícia internacional sem que, primeiro, pelo menos um dos principais meios de comunicação dos EUA ou do Reino Unido tenham dado o exemplo e definido o tom de como a história deve ser coberta pela meios de comunicação dos estados "clientes". A este respeito, os meios de comunicação japoneses não são muito diferentes dos seus homólogos em países como a Indonésia ou o Quénia. O Japão também não é, definitivamente, uma "democracia", se "democracia" significar, simplesmente, o governo do povo. Tradicionalmente, o povo japonês costumava viver principalmente para servir a nação, o que talvez não fosse um conceito assim tão mau. Costumava funcionar, pelo menos para a maioria. No entanto, agora, espera-se que sacrifiquem as suas vidas apenas pelos lucros de corporações.

 

As pessoas no Japão não se rebelam, mesmo quando são roubadas pelos seus governantes. Os japoneses são espantosamente submissos.

 

O Japão não está apenas em decadência. Tenta espalhar o seu fracasso como uma epidemia. Na verdade, está a espalhar-se e a glorificar as suas políticas externas e internas submissas e subservientes. Através de bolsas de estudo, vai continuamente doutrinando e efectivamente castrando intelectualmente dezenas de milhares de estudantes voluntariosos vindos das nações pobres do Sudeste Asiático e de outras partes do mundo.

*

Entretanto, a China, que está literalmente "ali ao lado", é líder em investigação científica, planeamento urbano e políticas sociais. Com a "civilização ecológica" agora inscrita na sua Constituição, está muito à frente do Japão no desenvolvimento de fontes de energia alternativas, transportes públicos e produção de alimentos orgânicos. Até 2020, não haverá mais zonas de pobreza extrema em todo o enorme território da China.

 

E, na China, tudo é feito sob os estandartes vermelhos comunistas, que o público japonês foi ensinado a desprezar e a rejeitar.

 

A tremenda determinação chinesa, o zelo, o génio e o espírito socialista são evidentemente superiores, quando comparados com o espírito doentio, conservador e revanchista do Japão moderno e dos seus chefes ocidentais. O contraste é verdadeiramente chocante e facilmente detectável mesmo pelos observadores mais desatentos.

 

E na cena internacional, enquanto as corporações japonesas vão saqueando países inteiros e corrompendo governos, a China está ajudando a colocar continentes inteiros outra vez de pé, usando bons velhos ideais comunistas internacionalistas. O Ocidente faz o seu melhor para denegrir a China e os seus grandes esforços, e o Japão vai fazendo o mesmo, inventando inclusive novos insultos, mas a verdade será cada vez mais difícil de esconder. Uma pessoa falar com africanos, e rapidamente descobre o que se está a passar. Uma pessoa viaja pela China e tudo se torna ainda mais claro. A menos que se seja muito bem pago para não ver.

*

Em vez de aprender e tomar a decisão de mudar totalmente o seu sistema económico e social, o Japão está se tornando num mau perdedor. Odeia a China por esta ser bem-sucedida sob as suas políticas independentes e sob os seus cartazes comunistas. Odeia a China por construir novas e belas cidades projectadas para o povo. Até odeia a China por fazer o seu melhor para salvar o ambiente e o interior do país. Odeia a China por ser totalmente independente, política e socialmente, até mesmo academicamente.

 

A China andou namoreando com o mundo académico ocidental, mas o namoro quase se tornou mortal, levando à infiltração ideológica e ao quase colapso da independência intelectual chinesa. Mas, pelo menos, o perigo foi identificado e a subversão ocidental foi rapidamente parada, mesmo à continha, antes que fosse tarde demais.

 

No Japão, a submissão e a colaboração com o regime imperialista global ocidental é como um género de código de honra. Os diplomados japoneses de várias universidades dos EUA e do Reino Unido emolduram os seus diplomas universitários e penduram-nos na parede, como se eles simbolizassem uma grande prova do seu sucesso e não uma colaboração com o sistema que está a arruinar a quase totalidade do planeta.

*

Lembro-me que, há uns quinze anos atrás, os turistas chineses ficavam nas plataformas de comboios de alta-velocidade de todo o Japão com as suas câmaras prontas a disparar, sonhando. Quando um comboio passava, suspiravam.

 

Agora, a China tem a mais extensa e mais rápida rede de comboios de alta-velocidade do mundo. Os seus comboios também são mais confortáveis e incomparavelmente mais baratos do que os japoneses ou os franceses, a preços que todos se podem dar ao luxo de viajar.

 

As mulheres chinesas costumavam olhar, tristes, para os produtos disponíveis nas lojas japonesas. Os iPhones eram o que a classe média sonhava possuir. Agora, os visitantes chineses vêm ao Japão vestidos de forma tão elegante como os locais, iPhones não são considerados um luxo e, na verdade, a Huawei e outros fabricantes chineses estão agora produzindo telemóveis melhores do que os da Apple.

 

Também me lembro de como os turistas chineses no Japão ficavam impressionados com a arquitectura moderna, as salas de concertos internacionais, os elegantes cafés e butiques de roupa.

 

Agora, a vida cultural de Pequim e Xangai é incomparavelmente mais rica do que a de Tóquio ou a de Osaca. A arquitectura moderna na China é muito mais impressionante, e há inovações na vida urbana e rural da China que ainda estão longe de ser implementadas no Japão.

 

Enquanto os parques públicos no Japão estão sendo abandonados ou convertidos em parques de estacionamento, a China está construindo novos parques, grandes e pequenos, e recuperando áreas de rios e lagos para os transformar em espaços públicos.

 

Em vez de omnipresentes anúncios japoneses, a China está colocando desenhos animados espirituosos e educativos, falando sobre virtudes socialistas, solidariedade, compaixão e igualdade em muitas artérias rodoviárias e mesmo nos metros. A civilização ecológica é praticamente "publicitada" em todo o lado.

 

O povo japonês é cada vez mais lúgubre, enquanto que na China sorrisos confiantes são vistos um pouco por todo o lado.

 

A China está se erguendo. É imparável. Não pelo seu crescimento económico (o governo já não está muito interessado nele), mas porque a qualidade de vida dos cidadãos chineses está aumentando de forma constante.

 

E é isso que realmente importa, não é? Podemos claramente melhorar a vida das pessoas sob um sistema comunista moderno e tolerante. Enquanto as pessoas sorrirem, enquanto forem educadas, saudáveis e felizes, estaremos claramente a ganhar!

*

JAP2

 

Alguns pessoas ainda perseguem essas imagens mágicas de florestas e lagos japoneses intactos. Sim, estes ainda estão lá, se você procurar bem. Salas de chá e árvores, pitorescos riachos. Mas você tem que trabalhar no duro, tem que editar as fotos ou procurar bons spots para fotografar, visto que as cidades japonesas e o campo estão hoje pontilhadas de carros apodrecendo e estranhas barras de metal, com espaços públicos deixados ao abandono, com inestéticos fios eléctricos pendurados por todo o lado. Desde que se possa poupar dinheiro, desde que haja lucro, tudo é permitido.

 

O povo japonês dificilmente consegue formular os seus sentimentos em relação a este assunto. Mas, em resumo: sentem-se frustrados por ver, um país que ocuparam e torturavam, tendo muito melhor performance do que o seu. Para os imperialistas japoneses, os chineses eram simplesmente "sub-humanos". Nunca tal é pronunciado, mas o Japão só tem respeitado a cultura ocidental e o poder ocidental. E agora, os "sub-humanos" chineses estão explorando os fundos dos oceanos, construindo aviões, têm os comboios mais rápidos do planeta e andam realizando maravilhosos filmes artísticos. E os chineses estão empenhados em libertar o mundo oprimido através da sua "Iniciativa do Cinturão e Rota" e através de outras ideias incríveis.

 

E o que está o Japão a fazer? Selfies e videojogos, idiotas desenhos animados niilistas sem sentido nenhum, acéfalos média sociais, uma enorme avalanche de pornografia sem imaginação, "artes" decorativas, música pop e carros produzidos em massa. O seu povo está deprimido. Tenho três décadas de história com o Japão, conheço-o intimamente, ainda o amo; amo muitas coisas sobre ele, mas também vejo claramente que está mudando, que na verdade está desabando. E recusa-se a admiti-lo e a mudar de rumo.

 

Trabalho com a China porque adoro o caminho que leva. Gosto de seu modelo comunista moderno (eu nunca fui um grande defensor do "Gangue dos Quatro" e do seu culto e glorificação da pobreza):  que todo o povo chinês seja rico em breve, e que o restante mundo oprimido seja rico também!

 

Mas não é isso que o Japão quer. Durante algum tempo, sentiu-se "único". Era o único país asiático rico. O único país asiático com a permissão ocidental para ser rico. Durante o apartheid, na África do Sul, os japonês passaram a ser vistos como "brancos honorários". Assim foi porque tinham abraçado a cultura ocidental, porque optaram por saquear o mundo juntamente com os europeus e os norte-americanos, em vez de ajudarem as nações subjugadas. Em muitos aspectos, foi uma forma de prostituição política e moral, mas pagava bem, extremamente bem, e portanto a sua moralidade simplesmente não era discutida.

 

Agora, a China avança simplesmente pela sua coragem, pelo seu trabalho árduo, pelo génio do seu povo. E tudo isto sob a sábia liderança do Partido Comunista e do seu planeamento central. Precisamente sob o tipo de coisas que o povo japonês foi levado a odiar.

 

Isto é frustrante. É assustador. Então, toda aquela submissão, humilhação e submissão ao Império terá sido em vão? No final, será a China, será o comunismo que vencerá e que fará o maior serviço à humanidade.

 

Sim, O Japão está frustrado. Hoje em dia, as sondagens indicam que cerca de 80% dos japoneses não gostam dos chineses.

 

Ao interagir com pessoas de todos os cantos do Japão, estou a ficar convencido de que o público japonês, inconscientemente, sente que, durante décadas, tem andado a aposta o seu dinheiro no "cavalo errado". É um povo demasiado orgulhoso para o verbalizar. Está demasiado assustado para reflectir plenamente sobre o assunto. Mas a vida no Japão, pelo menos para muitos, está claramente a perder sentido, a tornar-se sombria e deprimente. E não há revolução no horizonte, visto que o país foi despolitizado com sucesso.

 

A China está construindo, inventando, lutando e marchando em frente, com confiança, rodeada de amigos, mas de forma independente.

 

O Japão está preso e amarrado. Não se consegue mexer. Já nem sabe como se mexer, como resistir.

 

E é por isso que o Japão detesta a China!

 

André Vltchek, 11 de Janeiro de 2019

 

Traduzido para o português por Luís Garcia

Versão original em inglês aqui.

 

Por Lula, de Andre Vltchek

André Vltchek é um filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação. Cobriu e cobre guerras e conflitos em dezenas de países. Três dos seus últimos livros são  Revolutionary Optimism, Western Nihilism, o revolucionário romance Aurora e um trabalho best-seller de análise política: “Exposing Lies Of The Empire”. Em português, Vltchek vem de publicar o livro Por Lula. Veja os seus outros livros aqui. Assista ao Rwanda Gambit, o seu documentário inovador sobre o Ruanda e a República Democrática do Congo, assim como ao seu filme/diálogo com Noam Chomsky On Western Terrorism. Pode contactar André Vltchek através do seu site ou da sua conta no Twitter.

 

Fotos de André Vltchek.

 

 

 

 

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