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Pensamentos Nómadas

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Mobilizemo-nos e defendamos a Venezuela, por André Vltchek

29.01.19 | Pensamentos Nómadas

 

Andre Vltchek Política  

 

É novo e não é, mas é tremendamente perverso e mortal este último tipo de golpe que os EUA inventaram e que está agora sendo aplicado contra a Venezuela.

 

É claro que golpes de estado e tentativas de golpes de estado são o que poderíamos chamar de "especialidade ocidental", utilizados pelos EUA, o Reino Unido e outros países imperialistas contra inúmeras infelizes nações em todos os continentes deste planeta. Na América Latina, praticamente todos os países sofreram com eles, da República Dominicana ao Chile e Argentina; na Ásia, da Indonésia à Tailândia, e no Médio-Oriente, do Irão ao Egipto e à Síria. Sempre que nalgum país as pessoas ousaram votar em socialistas, comunistas, anti-colonialistas ou, simplesmente, nalgum grupo decente de pessoas determinadas a servir a sua própria população, o Ocidente corrompeu e instalou elites locais e militares, derrubou governos eleitos ou revolucionários e instalou brutais e servis regimes. Milhares morreram, por vezes milhões, mas o Império não teve a mínima preocupação com isso, desde que obtenha o que queria.

 

Tem havido um nítido padrão de como o Ocidente tem realizado os seus actos de terror contra quase todas as nações verdadeiramente amantes da liberdade.

 

Mas o que o Ocidente está fazendo agora à Venezuela é algo de diferente e totalmente extremo. Os actos hostis contra o Presidente Maduro e seus camaradas são agora despojados de todo e qualquer escrúpulo ou "refinamento" estético do passado. Estes actos são supostos provar, da forma mais cruel, quem é o verdadeiro governante do mundo e quem está de facto "no comando". Esta é a "democracia ocidental no seu melhor"!

 

No passado, os EUA tentaram derrubar Chávez, tentaram matar a Venezuela à fome, fazer colapsar o seu sistema de saúde e, depois, assassinar Maduro. Criaram um "escassez" de alimentos, até mesmo de papel higiénico. Deram ordens aos seus lacaios latino-americanos para fazerem frente à Revolução Bolivariana.

 

E agora, como mais recente medida, o regime de Washington simplesmente escolheu a dedo o seu traidor favorito dentro da República Socialista da Venezuela, um traidor chamado Juan Guaidó, (que serviu, brevemente, enquanto Presidente da Assembleia Nacional da Venezuela), e "reconhecê-o" como o "Presidente interino do país".

 

Obviamente, antes de Guaidó, de uma forma pomposa, se ter declarado Presidente da Venezuela, quase de imediato, foi posto no seu devido lugar pelo Supremo Tribunal da Venezuela, o qual lhe removeu o cargo de chefe da Assembleia Nacional. Portanto, chamemo-lo de  antigo chefe.

 

Mas a campanha de propaganda dos meios de comunicação ocidentais foi posta em velocidade máxima e, de um dia para o outro, perdeu por completo todo e qualquer escrúpulo. Como resultado, tornou-se agora quase impossível ler qualquer informação que seja sobre a decisão do Supremo Tribunal, a menos que se procure em fontes não-ocidentais.

 

E, portanto vamos "lá" [a essas fontes não-ocidentais]. Conforme comunicado pelo iraniano Tasnim , no dia 22 de Janeiro de 2019:

O presidente do Supremo Tribunal da Venezuela, Maikel Moreno, anunciou na segunda-feira que os juízes haviam removido Juan Guaidó do cargo de presidente da Assembleia Nacional controlada pela oposição.”

 

E na RT, apenas um dia antes:

O Supremo Tribunal da Venezuela declarou nulos e sem efeito todos os actos da Assembleia Nacional do país, dias depois da Assembleia controlada pela oposição ter declarado ilegítima a eleição do presidente Nicolas Maduro.”

 

Além disso, o ministro venezuelano dos Negócios Estrangeiros, Jorge Arreaza, num contundente comentário sobre Guaidó, no dia 21 de Janeiro de 2019, afirmou que:

Veja, este homem, que ninguém na Venezuela conhece (você pergunta nas ruas  "Quem é Juan Guaidó?" e ninguém sabe responder), está sendo levado pelos EUA a dizer que é ele o novo presidente.”

 

E ele disse isso mesmo, no dia 23 de Janeiro de 2019, perante o seu grupo de apoiantes em Caracas.

 

E depois, no dia seguinte, o presidente Trump reconheceu-o como o presidente interino do país. O Canadá fez o mesmo. O mesmo fez a França, agora uma potência imperialista e neocolonialista de segunda categoria, mas cada vez mais rejuvenescida. E atrás deste estado vassalo dos EUA veio a Organização dos Estados Americanos (OEA), que conta com estados fascistas como o Brasil nas suas fileiras, e que é agora liderada pela Colômbia.  

 

Hoje em dia, o mundo está claramente dividido, visto que a China, a Rússia, o Irão, a Turquia, a Síria, a África do Sul, a Bolívia, Cuba, o México, o Uruguai e muitos outros posicionam-se firmemente do lado do legítimo governo revolucionário do presidente Maduro.

 

O confronto é inevitável.

 

A Venezuela ordenou que todos os diplomatas americanos saíssem do país e cortou por completo as relações diplomáticas com Washington. Os EUA recusaram-se a fazer partir o seu pessoal da embaixada em Caracas, declarando que o governo venezuelano é "ilegítimo".

 

Isto equivale a uma declaração de guerra. Os EUA recusam-se a reconhecer a soberania da Venezuela. Reservam-se o direito de dizer ao povo venezuelano quem é o seu verdadeiro presidente! Só reconhece o seu próprio e supremo controlo sobre o hemisfério e o resto do planeta, mostrando total desprezo pelo direito internacional.

 

É Infantil, arrogante, ultrajante e surreal. Mas está mesmo a acontecer. E a menos que seja travada, lá mesmo, em Caracas, esta nova forma de "golpes de estado" e de imposição da ditadura global poderá se espalhar pelas restantes partes do planeta.

*

Embora haja muitos "elementos novos" em jogo, a situação assemelha em grande medida ao "cenário sírio", como o Embaixador da Venezuela na Rússia Carlos Rafael Faria Tortosa disse em entrevista à TASS no 24 de Janeiro de 2019:

As autoridades venezuelanas sabem que os EUA estão tentando criar um cenário ao estilo do sírio, com um "governo no exílio" em Caracas... depois do Vice-Presidente dos EUA, Michael Pence, ter apelado ao derrube do nosso governo, o nosso presidente decidiu cortar relações diplomáticas com as autoridades dos EUA e pediu aos diplomatas norte-americanos para abandonarem Caracas nas próximas 72 horas. Esta é uma resposta adequada, que o nosso bravo presidente tomou perante tão flagrante ingerência... Nenhum país pode permitir que qualquer outro país opine sobre os seus assuntos internos, sobretudo quando se trata de apelos à deposição [de governantes].

Sabemos quais serão os próximos passos. Os EUA terão agora uma justificação [para as suas acções], a de que existem dois governos no país, como fizeram na nossa irmã Síria com o Presidente Bashar al-Assad e o seu povo. Eles criaram um governo no exílio, o que levou a grandes perdas, a mortes e à destruição da infra-estrutura do país.”

 

Irá Caracas pedir ajuda directa a Moscovo, como fez a Síria há uns anos atrás, enquanto lutava pela sua sobrevivência? Ainda não é certo que o faça, embora seja sem dúvida possível. A Venezuela conta com o crescente apoio da Rússia, do Irão, da China, de Cuba e de outros países socialistas ou independentes.

 

Para a Venezuela, a única forma de sobreviver é acabar de imediato com a sua dependência face ao Ocidente. Washington ameaça Caracas com mais sanções e mesmo com um embargo petrolífero.

 

Não há motivo para entrar pânico. Mas o governo de Maduro tem de se realinhar de forma rápida e total. Há muitos países fora do reino da NATO que estão dispostos a comprar petróleo venezuelano, e/ou investir de uma forma justa nas sua infra-estrutura e indústria. A Rússia, o Irão, a China e a Turquia são os mais importantes, mas há muitos outros.

 

Tem de haver uma nova estratégia para aliviar a dor do povo venezuelano. E isto terá também de vir de "fora da esfera de influência ocidental", até mesmo de fora da América Latina, um continente conhecido pela sua cruel elite descendente de europeus, pela sua consistente falta de solidariedade e de coragem, e pela aceitação do controlo ocidental (o maior herói da América do Sul dos tempos modernos, Hugo Chávez, morreu quando tentava construir um unida, orgulhosa e socialista América Latina, para agora ser apunhalado nas costas e cuspido por muitas das servis nações latino-americanas. Cuba foi completamente abandonada após a destruição da União Soviética, e teve que ser salva pela China).

 

O país tem de se mobilizar, tem de lutar. Lutar pela sua sobrevivência. Com todos os seus aliados unidos, prontos a defender a Venezuela, como tem sido o caso da Síria.

 

A Venezuela sofre e luta pela humanidade, não apenas por si mesma, com o nome de Chávez e o ideal socialista por entre os lábios.

 

A Rússia está ao lado do seu aliado venezuelano. No dia 24 de Janeiro de 2019, a Sputnik informou:

 

A Rússia adverte os Estados Unidos que uma interferência militar nos assuntos da Venezuela seria um desastre, e o vice-ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Ryabkov, disse na quinta-feira que:

Ao vermos como se  tem desenvolvendo a situação na Venezuela, nota-se a disposição de um determinado grupo de países, incluindo os Estados Unidos, para a utilização de diferentes plataformas, tais como a Organização dos Estados Americanos, para aumentar a pressão sobre o nosso aliado venezuelano, utilizando vários pretextos... Mas nós sempre apoiámos e apoiaremos a amigável Venezuela, que é um dos nossos parceiros estratégicos.”

 

Num país devastado por uma campanha de desestabilização semelhante à que está agora ocorrendo na Venezuela, a agência oficial de informação síria, SANA, enviou uma mensagem de apoio ao legítimo governo venezuelano:

A República Árabe Síria condena veementemente os EUA e a sua flagrante interferência nos assuntos internos da República Bolivariana da Venezuela, que constitui uma flagrante violação de todas as normas e leis internacionais e um ataque descarado contra a soberania venezuelana", disse na quinta-feira uma fonte do Ministério dos Negócios Estrangeiros e dos Expatriados.

 

A fonte acrescentou que as políticas destrutivas adoptadas pelos EUA em diferentes partes do mundo, assim como o seu desprezo pela legalidade internacional, representam as principais razões por detrás das tensões e da instabilidade no nosso mundo…

 

A República Árabe Síria categoricamente rejeita as flagrantes interferências norte-americanas, e renova a sua total solidariedade para com o governo e o povo venezuelanos, para que preservem a soberania do país e frustrem os planos hostis da administração norte-americana.…”

 

No passado, os países aceitavam o terror ocidental desencadeado contra eles como se fosse algo de inevitável. Mas agora, a situação está a mudar. A Rússia, Cuba e a Síria, o Irão e a China, e agora a Venezuela, recusam-se a render-se ou até mesmo "negociar com os terroristas".

 

Aleppo, que eu descrevi como "a Estalinegrado do Médio-Oriente", manteve-se firmemente de pé, lutou, resistiu e derrotou vis inimigos. Agora Caracas, a Leninegrado da América Latina, encontra-se cercada, faminta, mas determinada a lutar contra a invasão estrangeira e contra os seus membros traidores.

 

Pelo mundo inteiro as pessoas têm de se mobilizar e lutar, por todos os meios, contra o fascismo e pela Venezuela!

 

André Vltchek

 

Traduzido para o português por Luís Garcia

Versão original em inglês aqui.

 

André Vltchek é um filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação. Cobriu e cobre guerras e conflitos em dezenas de países. Três dos seus últimos livros são Revolutionary Optimism, Western Nihilism, o revolucionário romance Aurora e um trabalho best-seller de análise política: “Exposing Lies Of The Empire”. Em português, Vltchek vem de publicar o livro Por Lula. Veja os seus outros livros aqui. Assista ao Rwanda Gambit, o seu documentário inovador sobre o Ruanda e a República Democrática do Congo, assim como ao seu filme/diálogo com Noam Chomsky On Western Terrorism. Pode contactar André Vltchek através do seu site ou da sua conta no Twitter.

 

Fotos de André Vltchek.

 

 

 

 

 

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