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Pensamentos Nómadas

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México diz à Espanha e ao Vaticano: Peçam desculpa pelos vossos crimes, por André Vltchek

01.05.19 | Pensamentos Nómadas

 

Andre Vltchek Política Sociedade  RELIGIÃO

 

Há uns anos atrás Noam Chomsky, um linguista e pensador de renome, perguntou-me cara a cara enquanto trabalhávamos no nosso livro: O Terrorismo Ocidental: de Hiroxima à guerra dos drones:

Acha que é possível que a maioria dos europeus realmente não saiba nada sobre crimes que os seus países cometeram no mundo inteiro?”

 

"Eles não sabem... eles não querem saber... eles certificam-se de que nunca venham a saber", respondi eu.

 

O facto da Europa e da América do Norte terem sido construídas sobre centenas de milhões de cadáveres daquilo que George Orwell costumava apelidar de não-pessoas, é bastante bem estabelecido e comprovado. Mas, de alguma forma, nunca entrou no sub-consciente da raça branca que habita o que hoje chamamos de Ocidente, assim como muitas outras partes do mundo "conquistado": América Latina, África e Ásia.

 

Horrores do passado são cuidadosamente suavizados pelo jargão de eufemismos académico, quando tais temas são abordados em instituições como as universidades de Cambridge, Oxford ou Sorbonne. Ou são menorizados, dispensados até, por entre aplausos e brindes em pubs europeus.

 

Não é algo que seja mencionado directamente numa "sociedade educada".

 

E, no entanto, o tema não se relaciona apenas com a terrível história mundial.

 

Tudo o que estamos vivenciando agora, em todo o mundo, está de certa forma relacionado com esse passado. Das guerras à pilhagem dos recursos naturais, das desavergonhadas "mudanças de regime" às destemidas provocações do Ocidente contra a Rússia, a China e o Irão.

 

Até mesmo o que as pessoas lêem, e a forma como pensam, tem raízes no colonialismo, nos holocaustos e na escravidão.

 

O simples acto de mencionar este tema custou a vida a muitos e corajosos homens e mulheres. Patrice Lumumba, que denunciou o colonialismo, foi assassinado pelos britânicos e pelos EUA, sem quaisquer escrúpulos. O presidente Sukarno foi derrubado e preso até à sua morte. O mesmo se passou com muitos outros.

 

Denunciar o colonialismo e os crimes contra a humanidade cometidos pelo Ocidente, pelos seus reis, exércitos e religiões, até mesmo pelos seus cidadãos comuns, é uma perigosa empreitada, muitas vezes "punível" com a morte.

 

E, no entanto, esses crimes foram tão monstruosos que, com regularidade, ainda vão aparecendo grandiosos e corajosos seres humanos apontando o dedo à Europa, aos Estados Unidos e às elites de pedigree Europeu da América do Sul e de outros locais.

*

Exemplo recente disso mesmo é o socialista presidente do México, Andres Manuel Lopez Obrador (AMLO), que escreveu uma carta ao rei de Espanha, Felipe VI, e ao Papa Francisco, exigindo um pedido de desculpas pelos "abusos cometidos durante a conquista do México". A declaração foi feita no Estado de Tabasco, em frente a uma antiga pirâmide:

Houve mortes, imposições... a chamada conquista foi levada a cabo com a espada e com a cruz.”

 

O presidente Obrador desencadeou literalmente uma tempestade, quer no país quer no estrangeiro. Um feroz debate nacional eclodiu entre intelectuais mexicanos, académicos, figuras públicas e pessoas comuns.

 

O governo espanhol de Pedro Sanchez rejeitou a carta "com total firmeza". Obviamente, hoje em dia os "euro-socialistas" têm muito pouco a ver com a luta internacionalista.

 

A direita em Espanha falou com ainda mais ódio. De acordo com o The New York Times:

Em campanha para as eleições gerais do próximo mês, Pablo Casado, líder do conservador Partido Popular, descreveu a exigência mexicana como uma afronta ao povo espanhol. A Espanha, disse ele, deve celebrar "com orgulho" o seu papel histórico no México, da mesma "maneira que fazem as grandiosas nações que contribuíram para a descoberta de outros povos”.

 

Um insulto, como é óbvio, mas ainda assim previsível.

 

"Salvámos o que restava, e construímos uma nova cultura, mas esse genocídio é algo que deve ser reconhecido", explicou John Ackerman, um académico da UNAM.

 

"Não é desproporcional", disse Jesus Ramirez, porta-voz da Presidência, ao jornal mexicano La Razon. "Eles (Espanha) pediram perdão aos judeus pela expulsão de 1492, e a Alemanha fez o mesmo pelo Holocausto.”

 

A Espanha fez claramente entender que não haverá pedido de desculpas oficial, e em seu resgate vieram, quase de imediato, firmes apoiantes do Ocidente como a Colômbia com seu grupo de intelectuais pró-ocidentais (e pagos pelo Ocidente).

 

Apesar da Espanha ter assassinado milhões de indígenas no território do actual México, povos que, durante o período da conquista, gozavam de uma civilização bem mais avançada do que a própria Espanha; apesar de terem havido inúmeras violações, casos de tortura e intolerância religiosa, bem como desenfreadas pilhagens, parece não haver qualquer tipo de remorso em Madrid.

 

Um profundamente enraizado complexo de superioridade está, uma vez mais, claramente ao comando dos padrões comportamentais dos europeus. A resposta da Espanha é bombástica, arrogante e desdenhosa.

 

Vulgaridade e a arrogância do regime espanhol não devem ser vistas como algo novo ou inesperado. É assim que o Reino Unido responde quando a Índia ou o Paquistão ou alguma nação africana tenta abrir um processo legal, tentando responsabilizá-lo por genocídios, tráfico de escravos ou fome deliberadamente provocada. É assim que a França age quando é acusada de crimes contra a humanidade em África, na Ásia ou nas Caraíbas. Ou a Bélgica, quando lhe foi dito que é responsável pela morte de pelo menos 9 milhões de vidas no que é hoje o Congo, durante o reinado do rei Leopoldo II. Ou a Alemanha, pelo Holocausto que cometeu no território da Namíbia. E assim por diante, visto que a lista de crimes dos países europeus é interminável assim como não é reconhecida.

 

A Espanha não é excepção. No passado pegou num fatia do bolo bem maior do que o que podia engolir. E o seu reino era muito bizarro, grotescamente fanático e primitivo; muito religioso e ganancioso. Não podia jamais governar as suas colónias como dever ser, e por isso pilhava e matava, e forçava as pessoas ao cristianismo, ao mesmo tempo que perdia grande parte dos seus "lucros" para outros estados europeus que apenas "investiam" nas "expedições" espanholas.

 

O México sofreu terrivelmente, especialmente com a conquista espanhola, mas não apenas com ela: foi também sangrado pela França, pelos Estados Unidos e outros. Mas a Espanha começou os ataques e, logicamente, deveria ser o primeiro país a pedir desculpas de forma generosa.

*

Nem todos em Espanha estão "indignados" com as exigências de AMLO. Alguns reconhecem que o passado não deve ser enterrado e que, na verdade, é tremendamente relevante.

 

"Lopez Obrador é um presidente com muita dignidade. Ele tem razão em exigir desculpas do rei, por crueldades durante a conquista", declarou Ione Bellara, deputado do partido político espanhol Podemos.

 

AMLO governa agora o mais populoso país de língua espanhola do mundo, com uma população cerca de 3 vezes maior do que a da Espanha. As palavras dele importam. A posição do México é importante. Não pode ser simplesmente rejeitada, nem em Madrid, nem no Vaticano, nem em Bruxelas.

 

O México é uma nação extremamente complexa e dividida, tal como quase todos os países anteriormente colonizados. Elites europeias foram implantadas no México, na Índia e noutros países. Onde não foram implantadas directa e permanentemente, como na Indonésia ou na Malásia, habitantes locais foram seleccionados a dedo, "educados" no exterior e depois trazidos de volta a fim de servir a Europa em particular e o Ocidente em geral.

*

Na cidade universitária de Cholula, perto da cidade de Puebla, os espanhóis construiram uma igreja por cima  da maior pirâmide (em volume) da Terra: Tlachihualtepetl. A igreja ainda lá está, assumidamente por cima da pirâmide. As autoridades locais orgulham-se inclusive da sua presença, promovendo-a como uma "grande atracção turística". Espero que um dia a UNESCO a inclua na lista de "memórias da humanidade" como um símbolo do vandalismo cultural.

 

Falei com um dos curadores, a senhora Erica, perguntando-lhe o que pensa sobre esta loucura. Isto passou-se apenas algumas semanas antes do AMLO ser empossado como presidente. Ela explicou-me, pacientemente:

Somos fortemente desencorajados de falar sobre a brutalidade do passado. A atitude do México em relação à sua própria história é verdadeiramente esquizofrénica. Por um lado sabemos que o nosso país foi saqueado, violado e abusado pelos colonizadores espanhóis, franceses e, depois, pelos dos EUA. Mas nós, estudiosos, professores, curadores, somos literalmente ordenados a ignorar tudo isso, a "sermos positivos" e a "olhar para as coisas boas" que nos fizeram e que nós herdámos".

 

Recentemente, tudo isto tem vindo a mudar. Agora é possível falar, recordar o passado e fazer exigências.

 

Na Índia, no Médio Oriente e em África, as pessoas estão acompanhando atentamente os desenvolvimentos no México.

 

E estão também a estudar a situação na Europa e na América do Norte. Estas duas partes do mundo ocidental têm centenas de desculpas em atraso para realizar. Francamente, estas devem também ao mundo centenas de triliões de dólares pelo assassinato de centenas de milhões de seres humanos e pela destruição de todos os continentes.

*

É possível que o Papa Francisco esteja bem mais pronto que o regime espanhol.

 

"Com este Papa, poderia se dar um novo começo para católicos e cristãos em geral", foi-me dito recentemente por um renomado teólogo de esquerda e filósofo chamado John Cobb.

 

Em 2015, o Papa Francisco já havia falado com fazendeiros, colectores de lixo e indígenas na Bolívia, onde lhes pediu perdão:

Digo isto com pesar: muitos pecados graves foram cometidos contra os povos nativos da América em nome de Deus... humildemente peço perdão, não só pelas ofensas da própria igreja, mas também por  todos os crimes cometidos contra os povos nativos durante a assim chamada conquista da América.”

 

Muitos estão convencidos de que o argentino Papa Francisco é um socialista não assumido. AMLO poderá vir a receber um pedido de desculpas dele, mas não do governo espanhol.

 

Mas a discussão está aberta. A nação inteira debate agora o seu passado.

 

Enquanto escrevia este ensaio a bordo de um voo da Aero México, de 9 horas e 30 minutos, entre Buenos Aires e a Cidade Do México, consegui envolver metade da tripulação no debate.

 

"Isto não tem nada a ver comigo", declarou um hospedeiro de bordo mais velho depois de ler parte do meu ensaio.

 

"Mas eu quero conhecer o passado do meu país", protestou uma jovem também hospedeira de bordo. "Está tudo interligado com o nosso presente e futuro.”

 

“AMLO está lutando pelo México!” é a opinião predominante.

 

E está. O império ocidental vai resistindo, mas a luta ideológica pela justiça continua.

André Vltchek

 

Traduzido para o português por Luís Garcia

Versão original em inglês na NEO - New Eastern Outlook.

 

André Vltchek é um filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação. Cobriu e cobre guerras e conflitos em dezenas de países. Três dos seus últimos livros são Revolutionary Optimism, Western Nihilism, o revolucionário romance Aurora e um trabalho best-seller de análise política: “Exposing Lies Of The Empire”. Em português, Vltchek vem de publicar o livro Por Lula: O Brasil de Bolsonaro - O Novo Tubarão Num Mar Infestado de Tubarões. Veja os seus outros livros aqui. Assista ao Rwanda Gambit, o seu documentário inovador sobre o Ruanda e a República Democrática do Congo, assim como ao seu filme/diálogo com Noam Chomsky On Western Terrorism. Pode contactar André Vltchek através do seu site ou da sua conta no Twitter.

 

Leia também:

Por Lula: O Brasil de Bolsonaro - O Novo Tubarão Num Mar Infestado de Tubarões

(Traduzido por Luís Garcia)

 

 

 

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