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Pensamentos Nómadas

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Mehdi Hasan, a bela alma, e a sua diatribe contra a esquerda consequente, por Stephen Gowans

25.04.18 | Pensamentos Nómadas

capa

  

Stephen Gowans POLITICA SOCIEDADE

 

Se ainda não era claro, Mehdi Hasan, do The Intercept, quer de uma vez por todas que saibamos que ele é uma bela alma ["beautiful soul" no original]. Numa diatribe de 19 de Abril contra os "apologistas de Bashar al-Assad", Hasan declara a sua aversão a crimes de guerra, tortura e ditadura, independentemente da sua origem, mas dedica uma especial atenção à violência e às restrições de liberdades civis e políticas atribuídas ao presidente sírio. Segundo Hasan, Assad "é um criminoso de guerra, mesmo que não tenha gazeado civis" e portanto, os esquerdistas deveriam parar de defendê-lo. Este jornalista, que anteriormente havia trabalhado na al-Jazeera, essa máquina de propaganda da monarquia do Catar, continua depois recitando a ladainha de acusações contra Assad, algumas inegáveis, outras não comprovadas, outras ainda não comprováveis. Fica-se com a sensação que Hasan ficou chateado com o facto de que as mais recentes acusações contra o governo sírio de [uso de] armas químicas, ridiculamente ténues desde o início, e agora amplamente destruídas pela análise de Robert Fisk, acabaram por não pegar.

 

Houve tempos em que uma pessoa se posicionava no espectro político em função da sua posição em relação a questões de igualdade política, social e económica, quer a nível nacional quer a nível internacional. A esquerda defendia maior igualdade; os conservadores apreciavam o status quo; e reaccionários, monarcas do Catar incluídos, faziam campanha pelo retorno a um mundo de hierarquias hereditárias baseadas em classe, género e raça. Os métodos utilizados pelos actores políticos para atingirem os seus objectivos poderiam ser considerados aceitáveis ou deploráveis, por razões morais ou instrumentais, mas chegou-se à conclusão que os métodos utilizados não eram inerentes aos objectivos buscados.

 

Era também constatável que as circunstâncias restringiam os métodos. Os métodos disponíveis para fazer avançar a luta por uma crescente igualdade, por exemplo, ou pela defesa da sua continuidade, mudavam em função da força da oposição. A probabilidade de se submeter à violência versus persuasão moral, o nível a que os seus defensores poderiam ser estimulados a lutar, a sua tolerância ao sacrifício, e por aí em diante. Poderia haver quem achasse os métodos desagradáveis, mas, assim sendo, haveria a expectativa de que alguém sugerisse alternativas realistas.

 

Hasan, na sua imaginação, virou do avesso a distinção entre objectivos e métodos. Na visão de Hasan, os esquerdistas são definidos não pelo que tentam alcançar, mas sim pelos métodos que usam. Tortura, ditadura, supressão de liberdades civis, danos colaterais civis resultantes de guerras. Tudo isto, segundo Hasan, são sinais de uma orientação política contrária à esquerda. E assim, de forma ilógica, Hasan argumenta que “Bashar al-Assad não é de todo um anti-imperialista, nem tampouco um secular baluarte contra o jiadismo. É, pura e simplesmente, um genocida”. É óbvia a incoerência desta falsa dicotomia, parte central da sua argumentação. O assassino em massa (se é que Assad pode ser caracterizado enquanto tal) não exclui o baluarte anti-imperialista e secular contra o jiadismo. Mas no mundo de Hasan, o assassino em massa e o anti-imperialista secular são mutuamente exclusivos. Assim os vê Hasan porque este transfigurou o conceito de esquerda e transformou-o no conceito de evitar todas as escolhas que tenham consequências potencialmente terríveis.

 

A bela alma retira-se das lutas políticas do mundo real e refugia-se numa impotente postura moral, onde nenhuma escolha é feita porque, de uma forma ou de outra, as consequências de todas as escolhas são terríveis. E portanto, o sucesso de uma qualquer luta política, deixa de ser o agir sobre o mundo de forma a transformá-lo, para o evitar qualquer passo que possa ter consequências terríveis. Uma receita para a impotência, a paralisia e o fracasso. Para a bela alma, o único movimento político de esquerda que merece apoio é aquele que falha, e não aquele que chega ao poder e implementa o seu programa político e luta para superar a oposição.

 
Para Hasan, a posição do Estado sírio no espectro político nada tem a ver com os seus objectivos: superar as divisões sectárias e outras no mundo árabe, salvaguardar a independência política da Síria e alcançar a soberania económica. Nem tampouco importa que Damasco esteja ocupada numa luta contra a (para usar as palavras do próprio Hasan) “voraz política externa dos EUA”, o “extremismo inspirado na Arábia Saudita” e o “oportunismo israelita” ou, por outras palavras, contra a agressão de forças conservadoras reaccionárias que são, individualmente (já para não falar colectivamente), muitíssimo mais poderosas do que o estado sírio. Para o Mahatma, todas essas considerações são irrelevantes, e tudo o que importa na avaliação da orientação política de Assad é se os métodos que Damasco usou, para defender os ganhos obtidos na consolidação do seu direito à igualdade e à soberania, são métodos adequados a estados em períodos de estabilidade, normalidade e segurança. É como se o que Hasan deplora num gabinete de guerra, por exemplo, não seja a guerra que tornou o gabinete de guerra necessário, mas o próprio facto de que um gabinete de guerra tenha sido criado em resposta a essa guerra. Como se continuar a viver a vida normalmente pudesse, sabe-lá como, fazer desaparecer a guerra. 
 

Senão, que alternativas podia o governo sírio ter adoptado de forma a enfrentar a crise e a emergência que a voraz política externa norte-americana, o extremismo de inspiração saudita e o oportunismo israelita infligiram à Síria? Até mesmo a constituição dos EUA prevê a concentração de autoridade no poder executivo e a redução das liberdades políticas e civis em situações de rebelião interna e de ameaça de invasão. Desde meados dos anos 1960, se não antes, a Síria tem enfrentado crises e emergências permanentes, incluindo um oficial estado de guerra em curso com Israel, a ocupação estrangeira de seu território (agora pelos Estados Unidos e Turquia, que se juntaram a Israel), e o fomento de rebeliões internas por parte de estados ocidentais com ambições imperialistas. Tudo condições comparáveis àquelas que os arquitectos da constituição dos EUA previram exigir poderes extraordinários para os presidentes dos EUA. E então, não serão necessários comparáveis poderes ​​para um presidente sírio? Qualquer avaliação realista dos desafios enfrentados pela Síria leva inevitavelmente à conclusão de que severas e bastante desagradáveis medidas são necessárias para que o projecto de esquerda de defender a igualdade e a soberania da Síria dentro da rede internacional de estados seja alcançado, contra a oposição determinada da “voraz política externa dos EUA ”, do “extremismo inspirado na Arábia Saudita” e do “oportunismo israelita”. 

 

Portanto, perante esses enormes desafios, que deveria fazer Assad? Seja qual for a resposta, Hasan não a pode dizer. O melhor que o escritor do Intercept consegue fazer é perguntar: “É esta a única forma que você conhece para fazer frente" à agressão dos EUA, da Arábia Saudita e de Israel? Bem, de facto, esta parece ser a única forma pela qual o governo sírio sabe resistir às forças muitas vezes mais fortes que ele próprio. De qualquer modo, se não pode ser desta maneira, então de que maneira deveria ser? "Devemos atirar balões à oposição?", perguntou certa vez Assad a uma outra alma bela.

 

Na guerra contra as Potências do Eixo, os Aliados usaram tortura, execuções sumárias, bombardeamentos indiscriminados, confinamento de civis em campos de concentração, supressão de liberdades civis, concentração de poderes nos órgãos executivos e coisas ainda piores. Esses métodos eram claramente desagradáveis. Ainda assim, foram os métodos escolhidos para superar o fascismo.

 

Seria errado denunciar a guerra antifascista como deplorável porque alguns, ou mesmo muitos dos seus métodos, eram desagradáveis: desde as ditaduras de facto que governavam o Reino Unido e os Estados Unidos, aos maus-tratos, tortura e execuções sumárias de prisioneiros de guerra do Eixo, até aos cercos e ao fazer civis passar fome. E a recusa dos países Aliados em garantir os direitos de reunião e de livre expressão aos partidários do nazismo e do fascismo? Pode tal ser condenado enquanto exemplo de violação de direitos humanos? Toda e qualquer acusação que Hasan faz contra Assad pode igualmente ser feita contra a conduta de Roosevelt e Churchill durante a Segunda Guerra Mundial. Curiosamente (ou previsivelmente) ele não o faz, preferindo direccionar o seu veneno contra o aliado desta dupla, Estaline, o único dos três cujos objectivos eram genuinamente de esquerda.

 

A bela alma não é deste mundo. As opções disponíveis, para aqueles que alcançam ganhos reais em lutas políticas do mundo real, raramente são simples e, muitas vezes, são repulsivas ou desagradáveis, de uma forma ou de outra. A bela alma afasta-se do mundo real dos jogos políticos, como o monge que se retira do mundo para dentro de sua cela e, assim, evita fazer escolhas cujas consequências possam ser lamentáveis. A política da bela alma gira em torno da denúncia das escolhas feitas por aqueles que agem no mundo de forma a poder mudá-lo. Poucos disputariam que o nazismo de Hitler, o fascismo de Mussolini e o militarismo de Tojo poderiam ter sido superados sem o recurso à violência, pese embora as suas desagradáveis consequências. Mas dá para imaginar Hasan, o Mahatma, perguntando a Roosevelt, Churchill e Estaline: “É esta a única forma que conhecem para fazer frente à voraz agressão NAZI, ao imperialismo japonês e ao oportunismo de Mussolini?" E também podemos imaginá-lo dizer que “Roosevelt não é de todo um anti-imperialista. É, pura e simplesmente, um genocida”.

 

A esquerda não está dando a outra face, ou virando a cara ao absoluto compromisso para com os direitos de liberdade de expressão e de reunião, ou cumprido religiosamente com todas as leis de guerra. Bem pelo contrário! Por mais que Hasan tente nos fazer crer que atirar balões contra a oposição faria de Assad um genuíno baluarte anti-imperialista secular contra o jiadismo, a verdade é que disparar balões só faria de Assad um anti-imperialista espectacularmente mal-sucedido e uma peneira secular em vez de um baluarte secular contra o extremismo jiadista. O presidente sírio é inquestionavelmente um anti-imperialista, algo que o próprio Hasan admite (embora pareça não se aperceber) quando pergunta se Assad não terá outra maneira de se opor ao imperialismo norte-americano. O que é um anti-imperialista senão alguém que se opõe ao imperialismo? Assim sendo, segundo o ponto de vista de Hasan, o presidente sírio está envolvido numa oposição anti-imperialista. Não gosta é dos métodos de Assad. E tampouco consegue sugerir qualquer alternativa realista. 

 

Aquilo que distingue Assad dos líderes que Hasan não demoniza enquanto genocidas é que Assad foi forçado por uma rebelião interna e uma invasão a invocar poderes de um estado policial e mobilizar forças para enfrentar essa crise, e que outros líderes, desfrutando de condições de estabilidade e normalidade, não o fazem. Será que algum outro líder, perante comparáveis circunstâncias, teria agido de forma diferente? Inevitavelmente, a simplista análise de Hasan rotula de genocidas todos os líderes de todo e qualquer estado ou movimento que tenham desdobrado forças [para combater uma dada agressão], a menos que tenham conseguido estabelecer duas impossíveis condições: (1) garantiram uma sociedade politicamente aberta na qual os direitos de liberdade de expressão e de assembleia são garantidos a todos, incluindo à oposição, que assim se encontra autorizada a livremente organizar a destruição do governo; (2) realizam todas as suas operações armadas em religioso respeito pelas leis da guerra.

 

O New York Times, certa vez, chamou à atenção de que os militares dos EUA respeitam todas as leis de guerra que puderem respeitar mas que, as violam perante certas circunstâncias de necessidade militar como, por exemplo, aquando da captura de cidades sobre o controlo de insurgentes que usem escudos-humanos civis. Hasan condena o Exército Árabe Sírio (ou melhor, especificamente Assad) pelo cerco e bombardeamento indiscriminado, presumivelmente uma alusão à libertação de Aleppo e Guta, medidas essas também empregues pelas forças dos EUA na captura de Raqqa e Mosul. Jim Mattis, secretário da Defesa dos EUA, desculpabilizou as violações dos Estados Unidos alegando que “baixas civis são um facto da vida neste tipo de situações” (Hasan, previsivelmente, não incluiu Mattis na sua demonologia; a bela alma reserva as suas mais exaltadas farpas para as figuras de esquerda). A única alternativa ao cerco e ao bombardeamento era aceitar a captura dessas cidades pelos insurgentes islâmicos como um facto consumado. Ou seja, render-se ao extremismo de inspiração saudita e aceitar a desintegração do estado nacionalista secular árabe e dos seus valores de esquerda (ou seja, anti-imperialistas).

 

O argumento que estou tentando fazer aqui não é o do "e que tal se?", mas sim o de que as únicas opções realistas face ao confronto militar de forças insurgentes que capturam território e se recusam a permitir que a população civil fuja são: (1) cerco e bombardeamento, com inevitáveis vítimas civis, ou (2) capitulação. A diatribe de Hasan contra Assad é, na verdade, um apelo à rendição síria, pois não há outra opção realista para o governo sírio enfrentar a crise e a emergência produzidas pela “voraz política externa dos EUA”, pelo “extremismo inspirado na Arábia Saudita” e pelo “oportunismo israelita” senão a de tomar medidas perante as quais, Hasan e outras belas almas, tremelicarão e proferirão condenações. Implícita na análise de Hasan está a visão de que as únicas lutas (do mundo real) contra a desigualdade dignas de apoio, são aquelas que recorrem a quixotescos métodos condenados ao fracasso e que, portanto, abrem alas ao triunfo dos movimentos de exclusão, de desigualdade, de opressão e de exploração.

 

Apêndice

Hasan e o seu correligionário Eric Draitser garantem não tomar partido. Em vez disso, afirmam pairar neutros acima do campo de batalha, apenas tomando o lado de abstracções como "humanidade", como se a humanidade não incluísse forças rivais, ou, no caso de Draitser, com "o povo sírio", como se o povo sírio não incluísse forças do governo, insurgentes islâmicos e combatentes curdos. Através de um truque verbal, esperam invocar uma criação artificial livre de rivalidades, à qual possam reivindicar fidelidade e, assim, evitar a necessidade de escolher um lado. Enfim, um logro, e a posição dos covardes.

 

Os antecessores intelectuais de Hasan, Draitser e seus semelhantes também adoptaram uma posição de neutralidade face à luta entre os proprietários de escravos e a rebelião de escravos, deplorando os métodos de luta escolhidos pelos dois lados, sobretudo a violência da rebelião dos escravos, condição necessária para a sua emancipação. "Se ao menos pudessem resolver as suas divergências de forma amigável", suspiravam esses.

 

Na década de 30, os apologistas da neutralidade, procurando pairar como um Deus por cima da guerra, recusaram ter de escolher o lado dos comunistas ou dos nazis, condenando o uso da violência defensiva de comunistas e de judeus contra os nazis que os aniquilavam.

 

Stephen Gowans, 21 de Abril de 2018

 

Leia também: Mais uma bela alma: Contragolpeando o ataque global à dissidência

 

traduzido para o português por Luís Garcia

versão original em inglês: Mehdi Hasan, beautiful soul, and his diatribe against the consequential Left

 

 

 
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