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Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

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Filmando na mais depressiva cidade deste planeta: Jacarta, por André Vltchek

25.11.18 | Pensamentos Nómadas

 

 

Andre Vltchek Política Sociedade

 

Cheira imenso mal, é a cidade mais poluída do mundo, mas isso não é o pior de Jacarta.

 

Você pode dirigir por dez ou até vinte quilómetros e ver apenas fealdade, vedações e calçadas destruídas. Mas há muitas mais miseráveis cidades neste planeta e eu trabalhei em quase todas elas, em 160 países.

 

Assim sendo, por que razão "Jacarta me está matando", por que razão me sinto asfixiado de depressão sempre que decido filmar aqui ou escrever sobre as condições nas quais os seus habitantes são forçados a viver? A sério, porquê, por que razão me sinto tão desesperado aqui? 

 

Mas assim me sinto. Dificilmente caio em depressão mesmo em lugares devastados pela guerra como o Afeganistão ou o Iraque, ou no meio das mais penosas favelas africanas.

 

Portanto, qual é afinal o problema de Jacarta?

 

Neste espaço, falo frequentemente sobre "imoralidade" mas, uma vez mais, o que quero eu dizer com este termo? Eu não sou um moralista, longe disso. Não tenho religião e raramente faço "julgamentos morais", a menos que algo realmente ultrajante seja desvendado diante dos meus olhos.

 

Então, por que razão, como muitos outros, aterro eu nesta cidade de bom humor, e vou embora uma ou duas semanas depois doente, destruído, literalmente cagando nas minhas calças, cheio de ira e de desespero?

 

Porquê? Os meios de comunicação ocidentais e os servis arquivos locais bombardeiam constantemente o mundo com descrições de Jacarta como sendo uma "metrópole em expansão" ou, usando a terminologia da Universidade Nacional Australiana, como uma "cidade normal".

 
Mas não é. Na verdade, é o lugar mais "imoral" que eu conheço à face da terra. É um enorme monumento ao fascismo, ao colapso intelectual, ao neocolonialismo ocidental e ao turbo-capitalismo.

 

Desta vez, aqui mesmo, explicarei, de forma breve e determinante, o porquê!

*

De facto, uma pessoa pode evitar se sentir assim se decidir se pousar em Jacarta e trabalhar por uma semana ou duas cercado de "elites" locais (geralmente desavergonhados bandidos), navegando por entre a vida local com os olhos semicerrados. Ou, se for bem pago para "não ver", uma pessoa também pode ser um jornalista ocidental, morando num luxuoso arranha-céus com uma "menina da vida" como sua namorada, recolhendo as suas "notícias" servindo-se de briefings oficiais e conferências de imprensa. 

 

Este tipo de "visitantes" são calorosamente recebidos em Jacarta, e são incorporados nas vidas dos czares locais, da "nata" feudal, dos bandidos que são ao mesmo tempo  homens de negócios e políticos.

 

Não é assim tão difícil! Se quiser, você aterra no luxuoso Terminal 3 do Aeroporto Internacional Soekarno-Hatta (metade das coisas já não funcionam ou "ainda" não funcionam, mas o terminal parece luxuoso). Depois, pode pegar uma limusine de luxo e ir para um dos muitos hotéis de 5 estrelas, ter reuniões numa torre de escritórios de aço e vidro, jantar num elegante shopping onde ninguém compra nada (um conceito de lavagem de dinheiro) mas onde aqueles com orçamentos ilimitados geralmente comem. Depois de tudo isso, você pode pensar que Jacarta é apenas uma cidade fixe (PT-BR: legal).  Um pouco "superficial", muito barulhenta e vulgar, mas uma cidade "até fixe" (PT-BR: "meio que legal").

 

E se poder, se assim decidir, nunca aprenda sobre o facto de que 90% dos habitantes de Jacarta vivem em favelas.

 

Isto se se aplicar  "padrões internacionais" para o que é uma "favela" e para o que é "pobreza" ou extrema pobreza. 

 

É que "oficialmente", de acordo com o traiçoeiro regime indonésio, apenas 9,9% dos indonésios são "pobres".

 

Na Indonésia, você não é realmente "pobre", não necessariamente, mesmo se você ou os seus filhos tiverem de cagar num canal, canal esse literalmente tóxico devido a resíduos químicos, médicos ou outros e onde, se a poucos metros de distância alguém estiver lavando roupas ou até escovando dentes, esse alguém levará com os seus excrementos na cara. Você não é "pobre" se não tiver acesso a água potável ou a um decente fornecimento de electricidade (quase ninguém em Jacarta tem, já que a voltagem varia muito e destrói quase todos os electrodomésticos num piscar de olhos). Você não é pobre se os seus filhos não puderem se dar ao luxo de comer produtos lácteos e ficarem portanto doentes física ou mentalmente por falta de vitaminas, minerais ou por desnutrição. Você não é pobre se você é "analfabeto funcional", se você não pode comparar e não sabe quase nada sobre o mundo.

 

Na Indonésia, você é pobre se o seu vencimento (PT-BR: sua renda) estiver abaixo de 400.000 rupias por mês (a definição aplicada desde Março de 2018). Isto é, ao escrever este ensaio, o equivalente a 26 dólares por mês. Mesmo o muito cínico limite de "pobreza absoluta" é de 1,25 dólares por mês.

 

Segundo a declaração da ONU que resultou da Cimeira Mundial sobre Desenvolvimento Social em Copenhaga em 1995, a pobreza absoluta é “uma condição caracterizada pela severa privação das necessidades humanas básicas, incluindo alimentos, água potável, instalações sanitárias, saúde, abrigo, educação e informação. Depende não apenas dos vencimentos, mas também do acesso a serviços. ”

 

Se esta definição fosse aplicada em Jacarta, pelo menos (mas provavelmente mais de) 90% da população teria de ser considerada "extremamente pobre". E, muito provavelmente, também 95% a 98% da população do resto do arquipélago.

 

Mas o país inteiro está envolto num manto de mentiras e fabricações. Há vários anos atrás, quando eu estava escrevendo o meu enorme livro sobre a Indonésia (“Archipelago of Fear”, Pluto, Reino Unido), falei com vários peritos em estatística do Instituto da UNESCO para a Estatística (UIS), sediado em Montreal, Canadá. Foi-me dito, oficialmente, que a Indonésia não tem 245 milhões de pessoas, como relatado, mas sim mais de 300 milhões. No entanto, todos os estatísticos internacionais e locais são fortemente desencorajados de divulgar os verdadeiros números. Porquê? Porque aqueles 60  milhões (provavelmente mais) simplesmente "não existem".

 

Se eles não existem, o estado, o governo, não tem que cuidar deles, alimentá-los ou mesmo incomodar-se com a tarefa de registrá-los. Estes são os mais pobres dos pobres, os mais vulneráveis de todos.

 

Por todo o lado neste mundo, os países pobres estão enfrentando os seus problemas sociais publicamente, porque querem aumentar a consciencialização (PT-BR: conscientização) sobre o sofrimento do seu povo. Algumas nações estão combatendo os seus próprios problemas (como a China ou a Venezuela) ou estão pedindo ajuda à comunidade internacional.

 

Na Indonésia, os governantes estão encobrindo os verdadeiros horrores da realidade indonésia. Porquê?

 

Porque eles simplesmente não querem saber de pobres. Não têm o mínimo interesse sobre a grande maioria que realmente vive na indigência. Estes não precisam de "ajuda", porque pessoas não importam. O que importa são os lucros dos poucos que são formados pelas "elites", bem como a servidão e a prostituição face aos governantes ocidentais. Afinal, foi o Ocidente que desencadeou o golpe de 1965 durante o qual 1 a 3 milhões de intelectuais, "ateus", comunistas e sindicalistas perderam as suas vidas. E assim, os pérfidos "chefes" de negócios indonésios, os generais, os líderes religiosos, tal como os servis académicos e as famosas "estrelas", estão alegremente se prostituindo, eternamente gratos a Washington, Londres e a Riade por salvá-los de uma sociedade justa e igualitária, sociedade essa que Soekarno (o grande pai da nação) e o Partido Comunista da Indonésia (PKI) buscaram alcançar.

 

"Estatísticas positivas", que são mentiras facilmente detectáveis, trazem "mais investimentos" para as suas empresas. Ou pelo menos assim acreditam. A economia indonésia é quase exclusivamente baseada na pilhagem de recursos naturais por multinacionais estrangeiras e por empresas locais. Os lucros acabam nos bolsos de muito poucos. O negócio da selvática pilhagem de Kalimantan (Bornéu), Sumatra e Papua tem sido espantosa. O país foi quase totalmente despojado das suas florestas; nivelaram-se montanhas inteiras e poluiram-se importantes rios. E no entanto, o que é pilhado corre para o exterior ou fica nos bolsos dos poucos escolhidos de Jacarta. Além das matérias-primas, a Indonésia não produz quase nada de valor. A sua pesquisa científica é basicamente inexistente e a sua produção intelectual é mínima. Mesmo analisando segundo padrões ocidentais, o 4º país mais populoso do planeta não tem um único laureado com o Prémio Nobel e nem sequer um pensador ou um escritor reconhecido internacionalmente.

 

E assim, há aquelas torres de hotéis 5 estrelas, prédios de escritórios e shoppings ridiculamente caros (a maioria deles projectados e construídos por empresas estrangeiras) para, basicamente, aqueles que roubam e que nunca tiveram que trabalhar para obter o  dinheiro que têm.

 

E pelo meio existem os chamados kampungs ("aldeias") onde a grande maioria dos cidadãos de Jacarta vive. Um Kampung soa romântico, mas na realidade não é. Num qualquer outro lugar na Terra, seria chamado de favela. As favelas de Jacarta e de toda a Indonésia são gigantescos esgotos a céu aberto infestados de ratos, com becos estreitos e escuros, canais tóxicos e acesso extremamente limitado a água potável (a água na capital foi privatizada por empresas francesas e britânicas e, como resultado, a qualidade caiu e os preços se tornaram irrealisticamente caros para a maioria das pessoas).

 

Com excepção para algumas pequenas e sujas áreas verdes e para a quase sempre encerrada praçeta no centro da cidade chamada Monas, Jacarta não tem parques públicos. Esqueça os parques públicos para crianças, ou máquinas de exercícios públicos! De facto, não sobrou nada "público" em Jacarta. Nada "pertence às pessoas", visto que tudo foi vendido, corrompido, roubado e privatizado. Uma família de 4 pessoas tem que pagar cerca de 7 dólares para entrar em Ancol, a única área de praia disponível, apesar de Jacarta ser, em teoria, uma cidade marítima. Mas mesmo em Ancol, apesar do bilhete de entrada a pagar, a pequena praia está cheia de lixo e o estreito passeio marginal encontra-se em ruínas e escandalosamente imundo. Caso contrário, não há nada!

 

Numa enorme favela (desculpe, kampung), filmei recentemente centenas de crianças brincando no meio de um cemitério, simplesmente porque não têm outros lugares para onde ir brincar.

 

Por outro lado, Jacarta tem mais mesquitas por quilómetro quadrado do que qualquer outra cidade do planeta que eu conheça (e eu visitei quase todos os países muçulmanos). Mesquitas e pequenos mushollahs estão literalmente crescendo em todas as ruas, muitas vezes ocupando terras que deveriam ser destinadas ao uso público. E, ao contrário da Malásia ou da Turquia, estas instituições religiosas não disponibilizam parques infantis ou um "espaço público".

 

O contraste entre a pequena minoria de extremamente ricos e a maioria sem nada (não acredito que Jacarta tenha uma "classe média" substancial) é tão tremendo que estes dois grupos, apesar de habitarem na mesma cidade, parecem viver em dois planetas completamente distintos. E Jacarta está estruturada de uma tal forma que as duas realidades quase nunca se cruzam. E isto é considerado normal, tanto pelos que exploram como pelas massas que são exploradas.

 

Os pobres estão acostumados a serem pobres, obedientes e "confiando o seu destino nas mãos de Deus", pasrah, na língua indonésia. E os ricos riem-se dos pobres na calada, no seus percursos rumo aos bancos. Eu conheço-os bem, inclusive os ricos. Trabalhei durante décadas com indonésios de todas as faixas sociais,  dos mais pobres entre pobres, aos mais ricos por entre ricos.

*

E então, sente o mesmo que eu sinto? Por que razão tenho eu vontade de vomitar?

 

Não trabalhei eu já em Mathare e noutras tremendas favelas de Nairobi (Quénia), do Uganda ou da Índia?

 

Claro que sim. E fiz filmes sobre a miséria em África. Mas aqui é diferente. Na cidade de Nairobi inteira, conhecida por ser o centro de serviços da África Oriental (grande parte do dinheiro do Uganda, do Ruanda e até da República Democrática do Congo está sendo lavado lá), há apenas um verdadeiro mega-shopping de luxo, quando Jacarta tem dezenas do género. Comparando os palácios (feios, vulgares, mas palácios) que os indonésios estão construindo graças ao sangue e ao suor dos pobres e do roubo dos recursos naturais, com os palácios em África, dá para concluir que as "elites" africanas pelo menos têm alguma vergonha e escondem mais os contrastes. Intuitivamente sabem que o que estão fazendo é errado e muitas vezes tentam esconder a sua riqueza.

 

E em África, as favelas são chamadas de favelas, e todo aquele que vive numa favela sabe que a sua vida é uma merda.

 

Na Índia, as coisas estão ruins, quase tão ruins como na Indonésia, mas pelo menos há alguma verdadeira resistência e os partidos comunistas com regularidade obtêm o controlo de vários estados indianos. Guerrilheiros de esquerda estão travando uma guerra civil em todo o sub-continente, e o país tem alguns grandes pensadores e intelectuais, a maioria deles de esquerda.

 

Os pobres indonésios não têm a mínima ideia de que são pobres, "agradecem a Deus" pelo que têm ou, mais precisamente, "não têm". E os super-ricos saqueadores mostram-se orgulhosos pelas suas conquistas, não estão escondendo nada. Pelo contrário, expõem propositadamente as suas riquezas, pois sabem que estão acima da lei ou de quaisquer princípios morais. E portanto dirigem as suas limusines Mercedes ao lado de favelas sem nenhum receio. De facto, são respeitados e não apenas temidos. Quanto mais roubam, mais admirados são .

 

E se alguém se meter com eles, eles matam.

 

Eles matam activistas de direitos humanos, camponeses que se recusam a entregar as suas terras ou qualquer um outro que se intrometa no seu caminho.

 

A justiça é completamente corrupta, Aliás, tudo é corrupto. Só é protegido quem paga.

 

Até simplesmente irritar os verdadeiros donos da cidade pode levar à morte. Em Archipelago of Fear escrevi sobre o caso de um dono do antigo Hilton Hotel, que matou a tiro de queima-roupa um empregado do seu próprio estabelecimento. Porquê? Porque ele humildemente se atreveu a informar a namorada do proprietário que o seu cartão de crédito havia sido recusado. Pelo assassinato apenas recebeu alguns anos de cadeia, saindo poucos meses depois detrás das grades graças a subornos.

 

Há pouco tempo atrás, colocaram na prisão o ex-governador de Jacarta (moderadamente de esquerda), conhecido como Ahok, por tentar melhorar a infra-estrutura, o saneamento e o transporte público. A acusação oficial foi: "insultar o Islão". Na verdade, uma piada de mau gosto, como quase todos os linguistas indonésios concordaram,  visto não ter havido insulto algum. Mas, uma vez mais, funcionou: ao fazer algo pelo povo, uma pessoa arrisca-se a ser rotulada de socialista ou comunista (o que aqui é ilegal). Prestar demasiada atenção ao bem-estar dos cidadãos comuns pode torná-lo um ateu, o que também é ilegal. E assim, se você construir umas linhas de comboio novas, algumas calçadas, alguns parques, você arrisca-se a acabar lá bem atrás das grades. As religiões, sejam elas o wahhabismo ou o cristianismo pentecostal, foram, durante décadas, totalmente encorajadas pelo Ocidente, e têm crescido imenso graças à miséria, à ignorância e à obediência das massas indonésias.

 

Sim, vi muitos horrores neste mundo e fui confrontado com indescritível cinismo. Mas a Indonésia é verdadeiramente "única", e assim é a sua capital.

 

É como uma enorme carcaça de peixe a apodrecer dentro da qual 12 milhões de pessoas respiram o mais poluído ar do planeta, cercados por indescritível fealdade, melancolia e tretas pop sem sentido nenhum.

 

E não há luta, não há verdadeira rebelião contra esta organização completamente fascista da cidade e da sociedade.

 

Os pobres "conhecem o seu lugar" e obedientemente aceitaram o seu destino. Roubam-se uns aos outros, insultam-se e oprimem-se uns aos outros. Não se atrevem a atacar os verdadeiros usurpadores e bandidos governantes. Ou melhor, aqueles não acham que estes sejam os verdadeiros culpados pela sua situação. Em Jacarta há muita tensão e muito ódio, mas não são dirigidos contra aqueles que deixaram a cidade e a nação de joelhos.

 

Tudo isso enquanto os ricos nem se dão ao trabalho de olhar para as massas. Aliás, os ricos nem se apercebem que as massas existem. E fazem de propósito para ignorar as dezenas de milhões de seres humanos ignobilmente pobres.

 

E o Ocidente mente, os medias mentem, assim como mentem os seus economistas.

 

Leia jornais dos EUA e Europa e ser-lhe-á dito que Jacarta é uma "metrópole em expansão", que a Indonésia é a "terceira maior democracia" (meus deus, segundo eles, a Índia é a primeira), e que as religiões na Indonésia são moderadas e tolerantes. 

*

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Jacarta é uma fusão desavergonhada de fascismo com feudalismo. Como disse uma vez o grande pintor australiano George Burchett (filho do lendário jornalista de esquerda Wilfred Burchett): “As cidades são geralmente construídas para as pessoas. Mas as cidades indonésias, particularmente Jacarta, são construídas contra as pessoas”.

 

Escrevi muitas vezes sobre a "oferta cultural" de Jacarta. Com 12 milhões de habitantes, Jacarta não tem uma sala de concertos permanente. Os seus cinemas mostram exclusivamente lixo de Hollywood, com algumas variações de horrores do sudeste asiático e outros tipos de lixo. O único cinema de arte (da TIM) tem cerca de 30 lugares e um calendário muito esporádico. Os poucos museus de arte moderna são todos privados e evitam tópicos sociais ou qualquer crítica ao capitalismo e ao imperialismo ocidental. Mas, pendurados nas suas paredes há, pois claro, pinturas de Warhol e de alguns decadentes artistas chineses zombando do comunismo. Desta forma, as elites locais levam com mais doutrinação, enquanto tiram as suas selfies.

 

Pensamentos mais profundos são desencorajados. O pior da cultura pop está literalmente em toda parte. Intelectualmente, a cidade é uma ruína desde 1965.

 

O barulho também está em toda parte. Ruído alto e agressivo. Os decibéis monstruosos que seriam banidos em qualquer outro lugar do mundo atingem as pessoas que visitam os shoppings. Mesquitas por toda a cidade, ao contrário das suas contrapartes do Médio Oriente ou da Malásia, transmitem sermões inteiros utilizando orwellianos alto-falantes pelo menos cinco horas por dia, por vezes bem mais. Igrejas com orientações de extrema-direita pregam o "Evangelho da Prosperidade" dizendo periodicamente aos seus seguidores que "Deus ama os ricos e é por isso que eles são ricos, odiando os pobres e essa é a razão pela qual eles são pobres". E escapar à religião é impossível. E fugir do barulho é impossível. Muitas vezes parece que o povo de Jacarta têm medo do silêncio. O silêncio os faria pensar, e pensar poderia os levar a algumas conclusões extremamente assustadoras.

*

E portanto, eu filmo.

 

Filmo pavimentos destruídos,  pequenas calçadas estreitas feitas de azulejos que não combinam, com poluidoras scooters e restaurantes conspurcados bloqueando o caminho dos poucos e ousados pedestres. Por que razão está tudo isto acontecendo? Porque nada público é respeitado ou feito em condições? Tudo o que não é pago é simplesmente horrível. E é projectado para assim permanecer.

 

Eu filmo favelas. Filmo imundície, imundície tal que hoje em dia dificilmente se vê na Índia. Não posso acreditar nos meus próprios olhos, e então filmo. E eu sempre acredito nas minhas lentes.

 

Conheço as artérias da cidade, grandes e pequenas. Conheço os cantos, os becos, os canais entupidos. Conheço humilhantes e aprisionados canais, cercados por miseráveis moradias.

 

Conheço a cidade antiga, Kota Tua, construída pelos holandeses, e tão mal restaurada que a UNESCO recentemente se recusou a inclui-la na sua prestigiosa lista de Patrimónios Mundiais.

 

É fácil acusar-me de ser anti-capitalista ou "anti-regime indonésio" de ladrões e de descarados colaboradores . Mas é impossível me acusar de não conhecer o país e a sua capital. Eu estive literalmente em todo o lado, cobrindo todos os conflitos aqui, durante mais de vinte anos, testemunhando as atrocidades cometidas contra as pessoas, a natureza e a cultura.

 

Onde quer que eu vá neste mundo, falo da Indonésia e de Jacarta. É o meu aviso ao mundo inteiro.

 

O cenário do pesadelo indonésio já foi implementado em muitas partes do mundo pelo imperialismo ocidental mas, muitas vezes, falhou, pois já era demasiado monstruoso para outras pessoas o engolirem. O Ocidente tentou replicar Jacarta em países que eu amo profundamente e chamo de lar: eles tentaram no Chile de Pinochet ("Cuidado, camaradas, Jacarta está chegando", disseram as pessoas de Allende), mas o Chile levantou-se e tanto o regime quanto o sistema fascista foram esmagados. Eles tentaram o mesmo na Rússia de Yeltsin e, novamente, o povo rejeitou esse horrível espectáculo de terror extremista.

 

Jacarta não é apenas uma cidade, é um conceito. Talvez um dia se tornará no verbo “Jacartar”. Este verbo seria sinónimo de sacrificar as pessoas à ganância, à corrupção, aos negócios, à religião e aos interesses estrangeiros.

 

Mas não é omnipotente, pode ser confrontado e derrotado. Nós lutámos contra Jacarta em Santiago do Chile e Moscovo, e vencemos.

 

E vamos ganhar noutros lugares também. Talvez até mesmo na própria Jacarta, um dia...

 

Tudo isso explica por que razão sempre regresso ao Bornéu e a Jacarta. Para trabalhar em filmes, para definir e documentar o terror, para alertar o mundo sobre o que já foi feito à nação indonésia.

 

Eu tento desmontar mentiras. Tento explicar que Dilma Rousseff, a ex-presidente do Brasil vítima de um impeachment (durante um golpe constitucional) por causa da "manipulação de estatísticas" antes das eleições (algo que é feito com frequência em muitos países, inclusive no Ocidente) teria de ser, em teoria, executada por um pelotão de fuzilamento ou esquartejada por uma multidão fora de controlo se ela tivesse feito proporcionalmente o que o governo da Indonésia está fazendo sem qualquer escrúpulo. Em Jacarta, eles não "manipulam", eles pervertem, mentem e chamam a noite ao dia, e preto ao branco. E escapam ilesos a tudo. Ninguém se atreve a desafiá-los. E eles são recompensados pelo Ocidente, desde que roubem tudo o que puderem ao país e ao povo e que entreguem uma boa parte do saque aos mestres em Washington, Camberra, Paris e Londres.

 

Eu fico exausto. E "falido" de vez em quando (porque quase ninguém quer ler sobre a Indonésia ou assistir a filmes sobre o que lá se passa). E de vez em quando fico completamente deprimido, perdendo temporariamente a fé na humanidade. E cago a horrível comida que comi. E fico doente com a poluição. E fico farto dos constantes insultos racistas dos transeuntes com quem me cruzo neste país, país por entre os mais racistas do mundo e que em pouco mais de meio século cometeu 3 monstruosos genocídios: em 1965, contra o povo de Timor-Leste e agora contra os habitantes da Papua. Sou constantemente apelidado de "bulé" (albino, ou pior), mas tenho sorte, pois os meus camaradas chineses sofrem insultos bem piores. E é claro que meus camaradas africanos também ouvem das boas, para não falar dos meus irmãos papuanos!

 

A fascista Jacarta é um adversário difícil. Mas eu também sou duro. E portanto vou, e dirijo, e rastejo através da sujeira, do barulho e dos insultos. Porque é necessário. Porque aqui está enterrada a chave para os outros incontáveis conflitos que o Ocidente implantou pelo mundo inteiro.

 

The Economist uma vez descreveu a Indonésia como o país menos documentado da Terra. Certo. E há muitas razões para isso. Costumo descrever 1965 como um "Hiroxima Cultural ", pois quase todos os intelectuais foram mortos, aprisionados ou amordaçados, da noite para o dia, sob directa sugestão e ordem do Ocidente.

 

Este país é intelectual e mentalmente o mais destruído do mundo, país que muitas vezes mais parece um grande asilo mental. É a maior história não contada do século XX. Muitas pessoas foram mortas aqui. Muitas pessoas mataram. Todo a gente tem medo de toda a gente. Mas ninguém se atreve a falar ou a esclarecer as coisas.

 

Jacarta é uma cidade onde as pessoas "não sabem" ou simplesmente se recusam a saber que lhes estão roubando tudo, que foram enganadas e que sofreram uma completa lavagem cerebral.

 

Aqui, cultura pop barata, junk food ocidental e dependência forçada de imundas scooters e carros particulares é chamado de "modernidade" e "progresso". Assistir a futebol europeu é um "sinal de progresso". Os telemóveis (PT-BR: celulares) e as SMS contam como cultura. Idem aspas para os videojogos. Ninguém lê livros.

 

Você pergunta aos pobres sobre pobreza e o que é que ouve você? As mulheres "colocam seu destino nas mãos de Deus". Os homens metem-se a fazer "analises" ao estilo do FMI, usando o jargão dos negócios: "taxas de câmbio, situação económica global, apoio a pequenas empresas .."

 

Na realidade, a maioria das famílias locais, de acordo com a minha própria pesquisa, vive com 2 a 3 dólares por dia (famílias de 4 a 5 pessoas). A comida nos supermercados custa de 2 a 8 vezes mais do que em lugares como a Alemanha. E portanto, os supermercados estão vazios. A maioria das pessoas faz compras em pasars: mercados onde a comida com frequência encontra-se contaminada com produtos químicos cancerígenos e onde há lixo por todo o lado.

 

Mas a maioria das pessoas não se sente pobre. Eles se sentem insultados quando lhe dizem que vivem na miséria. Todos, sem excepção, respondem que nada têm contra o capitalismo. A maioria deles não sabe nada sobre o mundo e nunca foram ensinados a comparar.

 

Toda a gente odeia comunistas, como assim exige o Ocidente e os governantes locais. Há museus inteiros dedicados ao anti-comunismo aqui, e as pessoas vão lá, pagando do seu próprio bolso para serem mais doutrinadas ainda. Se você lhes disser que tudo o que estão a ver é uma grande mentira, ficam chateados, furiosos e às vezes até violentos. As suas vidas inteiras são baseadas em mitos. As suas vidas dependem psicologicamente desses mitos. Se os mitos fossem retirados, as suas vidas entrariam em colapso, pois perderiam todo o sentido. É por isso que há muito barulho e nenhuma substância. As pessoas mostram medo, mas desconhecem o que os assusta.

 

Toda a gente pensa o mesmo. Não há praticamente nenhuma variedade. É assustador. A Indonésia parece a Coreia do Norte tal como esta última é apresentada pelo Ocidente e a sua propaganda. Mas a Coreia do Norte é totalmente diferente: lá encontrei definitivamente muito mais diversidade intelectual do que em Jacarta!

 

Ninguém quer mudar nada. Pelo menos o sistema, a essência, isso não querem mudar. As pessoas querem “mais dinheiro e melhor vida”. As suas vidas são más agora? “Não!” Responsabilizam eles as suas elites? "Para quê?" Não, quando eu faço perguntas do género, eles não entendem, eles não sabem do que estou falando ou fingem que não sabem.

 

E os ricos? Os seus filhos estão nos EUA, no Japão ou na Europa estudando como fazer ainda mais negra a vida da sua própria população quando regressarem. Para eles, o maior orgulho é trabalhar para alguma empresa estrangeira, receber diplomas ocidentais e receber qualquer outro tipo de condecoração europeia ou norte-americana.

 

E a cidade continua engasgada com os seus próprios gases, lixo e excrementos. Enquanto isto, os ricos têm os seus condomínios e vilas na Austrália, Califórnia, Singapura e Hong Kong. Eles podem sair da Indonésia sempre que quiserem, já que roubaram milhões, milhares de milhões (PT-BR: bilhões) de dólares. Quando voltam para a Indonésia, é para roubar ainda mais.

 

Tenho que admitir, tudo isto é "um pouco cansativo". Bem, honestamente, é cansativo. Documentar tudo isso é de matar uma pessoa. E você agora também o sabe.

 

E eu também tenho que admitir, por vezes é tarefa solitária trabalhar aqui. Ninguém mentalmente são viria aqui para trabalhar. Os custos, tanto os financeiros quanto os relacionados à sanidade mental e à saúde física, são tremendos. E as recompensas são quase nulas. O Ocidente não permite que a verdade sobre a Indonésia alcance as audiências mundiais e, portanto, nenhuma crítica a sério ao país poderá jamais ser emitida num media mainstream.

 

Mas é meu dever falar. E, portanto, falo. E escrevo. E filmo. E, tal como como os meus avós maternos russos e chineses fizeram, eu luto contra o fascismo, independentemente do preço a pagar!

 

André Vltchek, 7 de Novembro de 2018

 

Por Lula, de Andre Vltchek

André Vltchek é um filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação. Cobriu e cobre guerras e conflitos em dezenas de países. Três dos seus últimos livros são  Revolutionary Optimism, Western Nihilism, o revolucionário romance Aurora e um trabalho best-seller de análise política: “Exposing Lies Of The Empire”. Em português, Vltchek vem de publicar o livro Por Lula. Veja os seus outros livros aqui. Assista ao Rwanda Gambit, o seu documentário inovador sobre o Ruanda e a República Democrática do Congo, assim como ao seu filme/diálogo com Noam Chomsky On Western Terrorism. Pode contactar André Vltchek através do seu site ou da sua conta no Twitter.

 

Foto da capa: Museu Anti-comunista (Foto de André Vltchek)

 

traduzido para o português por Luís Garcia

versão original em inglês: Filming in the most depressing city on Earth – Jakarta

 

 

 

 

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