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Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

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AVISO

Devido à manifesta falta de gente interessada em análises de geopolítica, política e outros temas aqui tratados, este blog vai parar por uns tempos, pelo menos. Talvez volte um dia.

Por agora, dedicar-me-ei à publicação de artigos exclusivamente em inglês, no novo site que estou a preparar e que estará pronto dentro de alguns dias: Nomadic Thoughts. Obrigado a todos aqueles que seguiram o blog e que ajudaram a passar a palavra. :)

Crítica ao Black Mirror - USS Callister, por Ricardo Lopes

 

 

usscallister-black-mirror-featured.jpg

  

RICARDO MINI copy     TECNOLOGIA

 

 

Bem, e visto que finalmente hoje me dispus a dedicar algum tempo para começar a ver a mais recente temporada de Black Mirror, vou aproveitar para tomar isto como uma boa desculpa para retomar a escrita e, então, vou publicar uma crítica a cada um dos episódios individualmente, à medida que os for terminando.

 

Black Mirror - Temporada 4

Episódio 1 - USS Callister

 

Do ponto de vista tecnológico, este episódio foi um absoluto desastre. 


Como é que seria possível converter uma amostra de ADN numa cópia digital senciente de alguém? Não é, e provavelmente nunca será. Aliás, ainda seria mais difícil do que tentar fazer um upload da mente para um computador. Isto porque, para se poder fazer o upload da mente, seja lá isso o que for neste contexto, teria de se decidir o que é que realmente que fazia parte da mente iria ser incluído no upload. 


Um exemplo ilustrativo deste problema é um dado pelo Jordan Peterson. Imaginando que se quereria fazer o upload da consciência (que não representa a totalidade da mente).


Para reconstituir a consciência de alguém digitalmente, ter-se-ia de decidir o que comporia a consciência. A totalidade das memórias da pessoa? A capacidade de experimentar dor? A capacidade de processar emoções e sentimentos? E como é que se conseguiria isso de uma forma completamente digital, na ausência de um corpo e de input? Já peritos em IA como Rodney Brooks, Rolf Pfeifer e Hans Movarec demonstraram, de uma forma bastante convincente e cientificamente bem fundamentada que não é possível existir cognição na ausência de um corpo. 


A juntar a todo este problema incomensurável, haveria ainda a questão de como seria possível traduzir toda a altamente complexa mente humana, com o cérebro como suporte primário mais todas as suas absurdamente complexas operações, para código e criar uma cópia de alguém que se pudesse considerar uma pessoa. 


Mas, enfim, nem me vou adentrar mais neste assunto, uma vez que a tecnologia apresentada neste episódio ainda é conceptualmente mais absurda do que aquilo que acabei de tratar de uma forma muito sucinta. 


Alguém, com conhecimentos suficientes sobre o assunto, que é altamente interdisciplinar e muito complexo, me explica como é que seria sequer concebível extrair uma mente de ADN? Resposta curta: é impossível. Resposta longa: bem, quem quiser que me peça para elaborar a resposta.

 

Do ponto de vista humano, sim, tenho de admitir que me parece que acertou na mouche. O tipo aparentemente inofensivo é apresentado como deveriam ser todos os tipos aparentemente inofensivos: um fraco. E os fracos, principalmente os homens fracos, são as pessoas mais perigosas de todas, e isso traduz-se perfeitamente no seu comportamento doentio. E a cereja no topo do bolo foi o facto de o tipo que é inicialmente apresentado como sendo um idiota, devido à atitude que tem perante o "coitadinho" e a rapariga, no final ter mostrado o quão melhor pessoa era do que ele.

 

Portanto, e nesta muito curta crítica deste episódio, o meu veredicto final é o de que, tal como já aconteceu com outros episódios, Charlie Brooker falha redondamente em cumprir com a premissa, que é a de mostrar os efeitos negativos que a tecnologia moderna (ou projeções hiperbólicas que ele faz de conceções futuristas da mesma) tem sobre as pessoas. Não, não consegue de todo aquilo a que se propõe, uma vez que a tecnologia que conceptualiza é cientificamente implausível. Para além disso, aquilo em que acerta no tratamento que faz da natureza humana ainda mais lhe destrói a premissa, uma vez que não se trata, de todo, de um problema tecnológico, mas sim de um problema psicológico da parte do protagonista e, então, não é uma questão de a tecnologia ser a causa, mas sim de ser explorada por alguém doente mental para os seus fins perversos.


Em suma, muita boa exploração da natureza humana, mas com uma premissa completamente errada e fazendo recurso a um meio irrealista, e, assim sendo, um episódio falhado.

 

Ricardo Lopes

 

 
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