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Coreia: unificação, mas não tem de ser ao "estilo alemão", por André Vltchek

27.11.18 | Pensamentos Nómadas

SKTLL

 

Andre Vltchek Política Sociedade

 

É estranho que quando uma pessoa chega pelo sul à DMZ (zona desmilitarizada na sigla inglesa, que divide a Coreia em duas partes), depara-se com inúmeras bandeiras e sentimentais slogans de "paz", mas não encontra nada que represente os pontos de vista do povo norte-coreano. Todas as bandeiras presentes são da ROC (República da Coreia na sigla inglesa, também conhecida como Coreia do Sul).

 

Muita gente nas redondezas da linha divisória transformaram toda essa área numa autêntica armadilha de caça a turistas, com torres de observação "para vislumbrar a Coreia do Norte", com lojas vendendo "lembranças" da ROC e "lembranças" militares dos EUA, inclusive equipamentos militares antigos. Como se os norte-coreanos fossem um espécie de animais exóticos vivendo numa jaula, fascinantes temas de estudo e observação, mas demasiado perigosos para serem tocados.

 

Sim, todas as bandeiras aqui presentes são as da ROC. Mesmo quando são duas bandeiras cruzadas, no que deveria ser um símbolo de unidade fraternal, as duas bandeiras são idênticas: duas da Coreia do Sul. Soa muito bizarro, sem dúvida, mas é esta a realidade.

 

Desesperadamente, parece sempre faltar algo neste "esforço sul-coreano pela paz" e pela reunificação da Coreia. E o que falta é, no entanto, algo absolutamente básico e essencial: pelo menos um simbolismo do norte,  da RPDC!

 

Eu conheço as duas Coreias,  RPDC e ROC. E, o que me preocupa, é que parece que o Sul acha que pode tomar conta do "negócio da unificação" sozinho, sem considerar as necessidades e os desejos do outro lado.

 

E o Ocidente toma como certo que o Norte será, mais dia menos dia, simplesmente engolido pelo Sul. Fá-lo porque habituou-se a ter sempre o que quer. Porque no seu zelo fundamentalista, nem sequer é capaz de considerar as sensibilidades e os objectivos de outros sistemas políticos, filosóficos e sociais.

 

O plano, tanto do Ocidente quanto da Coreia do Sul, é simples, embora, por "razões estratégicas", quase nunca seja definido com claridade: "Quando o momento de uma potencial unificação chegar, a RPDC simplesmente deixará de existir, tal como a Alemanha Oriental deixou de existir há três décadas atrás. Imediatamente após, a Coreia inteira será governada por princípios capitalistas, sob o patronato e ditame do Ocidente ".

 

E tanto o povo quanto a liderança norte-coreana cairão de joelhos e se renderão, após as massas derrubarem as cercas fronteiriças com as suas próprias mãos. A populaça renunciará alegremente ao seu sistema, bem como às várias décadas de determinada luta e sacrifício. Tudo será lançado sobre o altar das poderosas corporações sul-coreanas e do regime pró-ocidental. Certo? Continue a sonhar!

 

A Coreia não é a Alemanha. E a segunda década do século XXI é muito diferente daqueles bizarros e confusos anos durante os quais Gorbachev brilhantemente demonstrou ao mundo a quantidade de estragos que pode um ingénuo e útil idiota causar ao seu próprio país e ao planeta inteiro.

 

A verdade é que a Coreia do Norte nunca se desintegrará da forma que a Alemanha Oriental se desintegrou, por várias razões, começando pelo facto da história alemã ser muito diferente: a Alemanha foi dividida entre 4 potências vitoriosas após a Segunda Guerra Mundial. A parte ocidental não queria necessariamente ser capitalista e pró-ocidental (os EUA e o Reino Unido forjaram as eleições do pós-guerra), e o Oriente também não queria necessariamente permanecer na órbita soviética. Sejamos honestos: pouco antes, o país inteiro estava possuído, gritando bizarras palavras de ordem e salivando sob suásticas, admirando um psicopata assassino.

 

Não, a Coreia do Norte não era e não é a Alemanha Oriental! Não foi "designado" para pertencer a bloco nenhum. A Coreia do Norte lutou uma tremenda batalha pelo seu próprio sistema; perdeu milhões de pessoas durante a brutal guerra, aliás, genocídio, cometido pelo Ocidente. E no final, depois de receber a fraternal ajuda da China, acabou por vencer.

 

Desde o início, a Coreia do Norte tem sido um país internacionalista, muito parecido com Cuba. Ainda não totalmente recuperado da terrível devastação que sofreu, ajudou a libertar grandes partes de África.

 

Sempre soube o que queria, lutou por isso e, no final, alcançou muitos dos seus objetivos!

 

Nunca se desmoronou sob sanções e sob a propaganda combinada da República da Coreia com a dos seus apoiantes ocidentais.

 

Mesmo depois do colapso do bloco soviético, não mudou o seu caminho.

 

É um país incrível, independentemente do que algumas pessoas pensem sobre o seu sistema político. E os norte-coreanos são pessoas incríveis (eu tive o privilégio de lá recolher imagens para o meu filme poético de 25 minutos intitulado "Faces of North Korea"). Os norte-coreanos não vão vender os seus ideais por carros maiores e um par de jeans de marca. Tal como Cuba, a pátria norte-coreana não é uma mercadoria.

*

E depois imaginem também a China e a Rússia, quão "estáticos" ficariam os dois países (cada vez mais ameaçados pelo Ocidente), se a Coreia inteira caísse nas mãos norte-americanas. Imagine aquelas bases militares intimidando Herbin, Dalian, Pequim, Khabarovsk ou Vladivostok!

 

A Coreia do Sul suspeita que o Norte não cederá.

 

Já tentaram de tudo: erguer enormes palácios de propaganda como o infame “Museu da Guerra” em Seul.

 

Transmitiram os seus sermões de propagandistas usando estações de rádio, até mesmo enormes alto-falantes, colocando-os bem perto da linha de divisão. Uniram esforços com o Ocidente, tentando isolar e até mesmo fazer passar fome a sua própria irmã do norte. Nada funcionou.

 

A ROC costumava censurar a imprensa, fazer desaparecer e assassinar os seus próprios dissidentes, torturar e violar presos políticos. Tudo isto com o intuíto de irradicar qualquer simpatia pelos ideais comunistas ainda presente no Sul. A campanha de terror sul-coreana foi horrível, apenas comparável àquelas na América do Sul sob as ditaduras de direita e, claro, à da Indonésia pós-1965.

 

Seul nunca pediu desculpas às suas vítimas. Ao contrário de Taiwan, não foram erguidos monumentos ou museus em memória das vítimas do terror de direita.

*

Tentar “amolecer” a RPDC por meio de sanções, corridas a armamento e intimidação não trouxe fruto nenhum. E nunca trará. Só o preciso oposto: a Coreia do Norte conseguiu se endurecer; conseguiu se mobilizar e aprender a produzir basicamente tudo: de automóveis a foguetes, de computadores a equipamentos médicos de ponta e medicamentos.

 

A única maneira de as duas partes encontrarem uma linguagem em comum é mostrarem uma à outra respeito profundo. O cenário alemão não funcionaria e nunca deveria funcionar aqui.

 

Ambas as bandeiras têm de ondular lado a lado. Ambos sistemas políticos e económicos devem ser respeitados. Quando se fala em unificação, ambas as "vias" devem ser tidas em consideração.

 

Se a Coreia do Sul devorasse o Norte, nada de bom daí resultaria: apenas mais tensão, descontentamento e possível confronto. O norte é uma terra orgulhosa. Conseguiu muito coisa sozinho. Sobreviveu contra todas as probabilidades. Ajudou partes oprimidas do mundo, honestamente e generosamente. Tem muito do que se orgulhar. E portanto, nunca se renderá.

 

Ainda assim, a Coreia é uma nação e anseia pela união. Acabará por conseguir, mas primeiro: as "duas irmãs", ambas lindas, ambas brilhantes, ambas muito diferentes, têm que sentar juntas e conversar de forma honesta e sincera. Já o fizeram antes e farão novamente. Ambas, juntas, formam uma família. Mas não podem viver juntas no mesmo quarto. Ainda não. Numa mesma casa, sim, mas em quartos separados.

 

E quando voltarem a falar e a tentar construir a sua casa, não deverá haver interferência externa. Elas não precisam de ninguém para lhes dizer o que fazer. Elas sabem, elas vão encontrar uma linguagem em comum se forem deixadas sozinhas. Tudo é possível, e espero que, em breve, tal aconteça. Mas será à "maneira alemã"; acontecerá à  "maneira coreana" ou não acontecerá.

 

André Vltchek, 19 de Novembro de 2018

 

Por Lula, de Andre Vltchek

André Vltchek é um filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação. Cobriu e cobre guerras e conflitos em dezenas de países. Três dos seus últimos livros são  Revolutionary Optimism, Western Nihilism, o revolucionário romance Aurora e um trabalho best-seller de análise política: “Exposing Lies Of The Empire”. Em português, Vltchek vem de publicar o livro Por Lula. Veja os seus outros livros aqui. Assista ao Rwanda Gambit, o seu documentário inovador sobre o Ruanda e a República Democrática do Congo, assim como ao seu filme/diálogo com Noam Chomsky On Western Terrorism. Pode contactar André Vltchek através do seu site ou da sua conta no Twitter.

 

Foto da capa: lado sul-coreano da zona desmilitarizada (foto de André Vltchek)

 

traduzido para o português por Luís Garcia

versão original em inglês: Korea – Unification, but Does Not have to be ‘German Style’

 

 

 

 

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