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Coreia do Norte punida por ajudar a libertar África, por André Vltchek

14.01.19 | Pensamentos Nómadas

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Andre Vltchek Política Sociedade   

 

AVISO: A versão original em inglês deste artigo é antiga e data de 18 de Março de 2016. 

 

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Muito provavelmente, e em breve, serão impostas novas e cruéis sanções contra a Coreia do Norte (RPDC). E haverá massivos e provocadores exercícios militares envolvendo os EUA e a Coreia do Sul. Em resumo, vai ser mais do mesmo: o Ocidente continua a torturar a RPDC; provoca-a, isola-a, demoniza-a e desumaniza-a, certificando-se de que não possa funcionar normalmente e muito menos prosperar.

 

O submisso público ocidental continua engolindo de forma obediente todas as desavergonhadas mentiras que estão sendo propagadas pelos meios de comunicação. Não é de facto surpreendente; os povos da Europa e da América do Norte há muito que deixaram de questionar dogmas oficiais.

 

A Coreia do Norte (RPDC) é descrita como sendo um secretivo estado louco, faminto, subnormal e subdesenvolvido, cujos líderes estão constantemente bebendo e prostituindo-se, matando-se uns aos outros e construindo umas primitivas mas letais ogivas com o intuito de destruir o mundo.

 

Aqueles, de entre nós, que estão familiarizados com a RPDC, sabem que tudo isto é um monte de mentiras descaradas. Pyongyang é uma cidade elegante, uma cidade bem funcional com óptima infra-estrutura habitacional pública, excelentes transportes públicos, zonas públicas e instalações recreativas, teatros, instalações desportivas e áreas verdes. E, apesar dessas sanções monstruosas, o interior do país é muito mais próspero do que aquilo que  se vê em desesperados estados "clientes" ocidentais como a Indonésia e as Filipinas.

 

Pelo menos há algo; há pelo menos alguns artigos decentes que têm vindo a falar sobre essas mentiras grotescas e sobre a propaganda ocidental.

 

Mas a questão essencial permanece: "por que razão o Ocidente está tão obcecado com a ideia de demonizar a Coreia do Norte?"

 

E a resposta é simples: tal como Cuba, a Coreia do Norte ousou pisar os pés do colonialismo e do imperialismo ocidentais. Sacrificando os seus filhos e filhas, ajudou a libertar muitos países africanos, e prestou assistência às forças mais progressistas do continente mais saqueado e devastado.

 

Isto é algo que o Ocidente nunca perdoa. Este vive da pilhagem desenfreada de todos os continentes; prospera, essencialmente, saqueando as suas colónias. Os países que apoiaram lutas de libertação, as nações que lutaram pela liberdade do mundo colonizado: União Soviética/Rússia, China, Cuba e RPDC, foram rotulados pelos ideólogos ocidentais como os lugares mais "perigosos" e "demoníacos" da Terra.

 

Na Europa e na América do Norte, as massas condicionadas (que na verdade lucram com o colonialismo e com o neocolonialismo de há décadas e séculos) recusam-se obstinadamente a compreender a razão principal pela qual o Império fez com que o povo da Coreia do Norte sofresse tanto durante anos e décadas.

*

O meu camarada Mwandawiro Moghanga, Presidente do SDP e também membro do Comité Executivo do Fórum de Redes de Esquerda da África (ALNEF) com sede em Dacar, no Senegal, escreveu para este ensaio:

O Partido Social-Democrata do Quénia (SDP) condena as sanções injustificadas contra a Coreia do Norte (RPDC) instigadas pelo imperialismo liderado pelos Estados Unidos da América. Estamos cientes de que o imperialismo nunca parou a sua guerra fria e quente contra a RPDC que, através de uma das mais grandiosas lutas patrióticas, heróicas e revolucionárias anti-coloniais e anti-imperialistas de libertação nacional, conseguiu conquistar uma verdadeira independência na parte norte da Coreia. Quando invadiu a Coreia do Norte, o imperialismo norte-americano, tal como o colonialismo japonês, sofreu uma das mais humilhantes derrotas militares na sua história reaccionária, e que jamais esquecerá. Sabemos também que os EUA e o Ocidente odeiam visceralmente a RPDC por esta se recusar a ser um fantoche do imperialismo, como faz a Coreia do Sul. Uma falsa e suja guerra de propaganda é travada contra a RPDC por esta recusar o caminho capitalista e neocolonial da escravidão, do subdesenvolvimento e da exploração do ser humano pelo ser humano e, em vez disso, escolher o caminho do desenvolvimento da liberdade e da humanidade: o socialismo.

Nós, em África, não aceitaremos ser enganados por imperialistas que sempre fizeram parte dos nossos problemas. O imperialismo não é, nem nunca foi, amigo de África, mas sim seu inimigo. Patriotas e revolucionários africanos nunca permitirão que o imperialismo nos diga quem são os nossos amigos. Porque nós sabemos quem são os nossos amigos! E a Coreia do Norte sempre foi uma verdadeira amiga de África. Quando todo o continente africano estava sob o controlo do colonialismo ocidental, a Coreia, sob a liderança revolucionária do camarada Kim Il Sung, lutava contra o colonialismo japonês e, ao mesmo tempo, mostrava solidariedade para com a África. Depois, a RPDC, em nome do internacionalismo socialista, aumentou o seu apoio moral, militar e material aos países africanos na sua luta pela libertação do colonialismo, do imperialismo e do apartheid. Imediatamente após a independência do colonialismo, na década de 60, milhares de africanos, incluindo quenianos, receberam educação gratuita superior, técnica e especializada na RPDC. A RPDC não só ofereceu armas, apoio financeiro e outras ajudas materiais à Namíbia, África do Sul, Angola e Moçambique na guerra contra o apartheid e o imperialismo, como também enviou revolucionários internacionalistas para a África, para lutarem lado a lado com africanos na [libertação da] África. A RPDC lutou ao lado do Egipto e de África durante a guerra de 1967 contra o brutal regime sionista de Israel apoiado pelos países ocidentais. Hoje, a RPDC junta-se aos países africanos na exigência de uma nova ordem internacional justa. Nesta [ordem actual], a RPDC é repreendida, pelo imperialismo e pelos seus regimes fantoches imperialistas, por estar na linha da frente e por demonstrar com o seu próprio exemplo que uma nova ordem internacional justa não pode ser senão anti-capitalista, anti-imperialista e necessariamente socialista.”

 

O internacionalismo norte-coreano é lendário, assim como o internacionalismo cubano. E o mínimo que podemos fazer, agora que o país está enfrentando novos tremendos e brutais desafios, é relembrar o quanto a Coreia do Norte deu ao mundo; o quanto já se sacrificou em prol da humanidade!

 

Falei com pessoas em Windhoek que, com lágrimas nos olhos, recordaram a luta da Coreia do Norte contra os regimes da Namíbia e de Angola apoiados pelo apartheid (sul-africano). De forma absolutamente natural, o apartheid sul-africano recebia apoio total do Ocidente. Para pagar esse favor, as tropas sul-africanas juntaram-se à luta contra a Coreia do Norte e contra a China na Guerra da Coreia.

 

Como referiu Mwandawiro Moghanga, a Coreia do Norte lutou contra Israel, os seus pilotos pilotaram caças egípcios na guerra árabe-israelita de 1973. A RPDC participou na luta de libertação em Angola e lutou na Rodésia (actual Zimbabué), no Lesoto, na Namíbia e nas Seicheles. A Coreia do Norte forneceu assistência ao Congresso Nacional Africano e à sua luta épica para libertar a África do Sul do apartheid. No passado, A Coreia do Norte chegou a ajudar nações africanas progressistas como a a Guiné, a Etiópia, o Zimbabué, o Mali e a Tanzânia.

 

Arthur Tewungwa, político da oposição ugandense do Partido do Congresso Popular do Uganda (UPC), compara o envolvimento da RPDC com o do Ocidente no seu país e na região africana dos Grandes Lagos:

O Uganda beneficiou com a sua relação com a Coreia do Norte na década de 1980, quando esta ajudou o governo a lutar contra os rebeldes Museveni apoiados pelos EUA e pelo Reino Unido. Moralmente, e em comparação com a RPDC, os dois últimos não têm por onde se defenderem perante o derramamento de sangue que desencadearam na região dos Grandes Lagos.”

*

Terá a Coreia do Norte sido abandonada por completo, entregue ao seu destino? Terá sido "traída"?

 

Christopher Black, um distinto advogado internacional sediado em Toronto, Canadá, afirma que:

... O facto dos EUA, enquanto membro do CS, estar impondo sanções a um país que está ameaçando, é hipócrita e injusto. É vergonhoso que os russos e os chineses se tenham juntado aos EUA neste processo, em vez de apelarem a sanções contra os EUA pelas suas ameaças contra a RPDC e pelos seus novos exercícios militares que constituem um claro e presente perigo para a RPDC. Se os russos e os chineses são sinceros, por que não insistem para que os EUA retirem as suas forças, de forma a que a RPDC se sinta menos ameaçada? E por que não tomam antes medidas para garantir a segurança da RPDC? Estes não explicam as suas acções, mas as suas acções fazem deles colaboradores dos EUA contra a RPDC.”

 

A situação é sombria, mas provavelmente não fatal. Ainda não.

 

Jeff J. Brown, um dos principais especialistas sobre a China e que vive em Pequim, não esconde o seu optimismo quando o tema é a relação sino-russa com a RPDC:

Não há muito que a Coreia do Norte faça na arena internacional sem que o Papá Pequim meta a sua mão. São dois países comunistas irmãos e, há 65 anos, os chineses derramaram muito sangue e dinheiro para salvar a Coreia do Norte da agressão ocidental. O filho de Mao Zedong morreu no campo de batalha da Guerra da Coreia, lutando contra o imperialismo ianque. Há dois milhões de coreanos étnicos que vivem ao longo da fronteira com a Coreia do Norte e mais meio milhão de nortenhos que vivem e trabalham na China. Os coreanos são uma minoria reconhecida na China. Nenhum outro país do mundo entende a Coreia do Norte como a China. Esta proximidade é bem simbolizada pela sua fronteira comum, o Rio Yalu, que é tão raso que se pode atravessar a pé. Também compartilham fronteiras com outro aliado chave, a Rússia. A China é o irmão mais velho e protector da Coreia do Norte. Francamente, em relação às próximas sanções do CSNU contra a Coreia do Norte, acho que é o Ocidente que está a ficar cada vez mais desligado da realidade e que, portanto, será deixado para trás.

 

É claro que tanto a China quanto a Rússia têm, nas suas longas fronteiras terrestres com a Coreia do Norte, estradas e ferrovias inter-conectando os três países. De acordo com as minhas fontes em Moscovo e Pequim, seria altamente improvável que os dois aliados mais próximos da RPDC alguma vez concordassem com as novas sanções, quer as "apoiem" oficialmente ou não.

 

Mas a lógica utilizada por Christopher Black está absolutamente correcta: é o Ocidente que deveria estar a sofrer as mais duras sanções imagináveis, e não a RPDC.

 

Foi o Ocidente, não a Coreia do Norte, que assassinou mil milhões de seres humanos ao longo da história. Foi o Ocidente que colonizou, pilhou, violou e escravizou pessoas em todos os cantos do planeta. Que mandato moral tem o Ocidente para propor e impor sanções a alguém?

 

Vivemos num mundo ao avesso, verdadeiramente perverso, onde assassinos em massa agem como juízes e, na verdade, escapam impunes.

 

A Coreia do Norte derramou sangue pela libertação da África. Mostrou verdadeira solidariedade com pessoas roubadas e torturadas, com aqueles a quem Franz Fanon costumava chamar de "miseráveis da Terra". É por isso que, seguindo uma perversa lógica (que tem raízes no fundamentalismo religioso e cultural ocidental), tem de ser punida, humilhada e, possivelmente, até mesmo varrida da face da terra.

 

Não porque tenha feito algo objectivamente "errado", mas porque a objectividade perdeu o seu significado. Os termos "bom" e "mau" são agora definidos por um único critério: "bom" é tudo aquilo que serve os interesses do Império Ocidental, " mau " é tudo aquilo que desafia a sua ditadura global.

 

Se salvarem a aldeia que foi designada pelo Império como um local para ser violado e pilhado, vocês serão punidos da forma mais sádica e cruel. A Coreia do Norte fez exactamente isso. Excepto que não salvou apenas uma aldeia, mas ajudou a libertar um continente inteiro!

 

André Vltchek

 

Traduzido para o português por Luís Garcia

Versão original em inglês aqui.

 

André Vltchek é um filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação. Cobriu e cobre guerras e conflitos em dezenas de países. Três dos seus últimos livros são Revolutionary Optimism, Western Nihilism, o revolucionário romance Aurora e um trabalho best-seller de análise política: “Exposing Lies Of The Empire”. Em português, Vltchek vem de publicar o livro Por Lula. Veja os seus outros livros aqui. Assista ao Rwanda Gambit, o seu documentário inovador sobre o Ruanda e a República Democrática do Congo, assim como ao seu filme/diálogo com Noam Chomsky On Western Terrorism. Pode contactar André Vltchek através do seu site ou da sua conta no Twitter.

 

 

 

 

 

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