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Chipre: mortíferas bases militares britânicas, campos de refugiados… e turistas, por André Vltchek

27.12.18 | Pensamentos Nómadas

Chipre mortíferas bases militares britânicas

 

Andre Vltchek Política Sociedade  

 

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Acreditem ou não, mas há pouco tempo o Chipre era o único país da União Europeia governado por um Partido Comunista. Sim, há pouco tempo atrás: entre 2008 e 2013.

 

Além disso, há relativamente pouco tempo, a unificação da República de Chipre com a parte norte da ilha administrada pela Turquia parecia ser algo de alcançável.

 

E quando o Chipre, tal como a Grécia, quase entrou em colapso financeiro, foi a Rússia que se ofereceu para resgatá-lo (antes da UE ter feito tudo o que podia para evitar que esse resgate acontecesse).

 

Agora, tudo isto parece história bem antiga.

 

A cidade de Nicósia continua dividida, com os postos de controlo de imigração cipriotas gregos e cipriotas turcos localizados mesmo no centro da cidade velha. Os grafites pintados em "terra de ninguém" exigem o fim imediato do conflito: "um país, uma nação".

 

O posto fronteiriço está sempre ocupado. E, talvez, para torná-lo de alguma forma mais vivo, nele encontra-se um enorme pitbull branco, vagarosamente andando às volta entre a área de fronteira. Não ladra; apenas ali está. Ninguém sabe se ele pertence ao lado turco ou ao lado grego, mas parece que ele passa mais tempo com os turcos, os quais, suponho, devem alimentá-lo melhor.

 

O lado de língua grega de Nicósia parece uma cansada pequena cidade provincial da UE. Mesmo ao lado, os turcos fumam narguilé (tradicional cachimbo de água do Médio Oriente), os seus cafés parecem ser mais tradicionais e a antiga arquitectura é mais elegante. Na parte sul, o café preparado na hora é chamado de "grego", enquanto que, alguns metros mais a norte, você tem que pedir por um "turco" ou pelo menos um "café árabe". Escusado será dizer que receberá a mesmíssima coisa, quer num lado quer no outro.

 

Caso contrário, é uma só ilha, uma só história e uma triste e desnecessária partição.

*

A divisão da nação não é a única loucura presente no local. Antes de se habituar à ideia, uma pessoa quase que dá em doida quando descobre que existem dois territórios na ilha ainda sobre administração britânica. 

 

Se você por lá conduzir, não notará nunca que, de facto, você saí do Chipre e entre no Reino Unido. Algumas matrículas de carros são diferentes das normais matrículas cipriotas, mas é tudo.

 

Você atravessa uma linha invisível e entra no Reino Unido, historicamente a nação mais agressiva (militar e ideologicamente) à face da terra.

 

Você dirige passando por alguns campos agrícolas mas, de repente, você vê algo muito estranho ao redor da estrada: alguns quilómetros depois de passar o histórico Castelo Kolossi, dos Cruzados, há um infinidade de mastros de diferentes alturas e formas, assim como instalações militares fortificadas com betão. Os mastros estão "decorados" com fios estranhos. Parece um filme de ficção científica.

 

É claro que, se você vier "preparado", deverá saber que o que se encontra à sua frente são enormes instalações do aparelho de propaganda da BBC que visam desestabilizar e doutrinar o Médio Oriente. Mas não é tudo.Todo este enclave da "Base Área Soberana de Akrotiri", bem como o de Dhekelia a algumas dezenas de quilómetros a leste, está aqui, principalmente, para espionar o "vizinho" Médio Oriente. Enquanto Londres está a cerca de 4 horas de voo, a Síria, e também o Líbano, estão a uma curta distância por mar.

 

Mais a sul, depois das instalações de propaganda e espionagem, fica a pequena aldeia de Akrotiri; um típica e pitoresca aldeia cipriota de encantar, com uma velha igreja, ruas estreitas e humildes cafés locais. Fica no topo da colina. Se aqui vier, tecnicamente, você encontrar-se-á no Reino Unido. Terá vista para o mar azul, para um lago salgado e para a cidade de Limassol, mas você está em Território Britânico. Porquê? Simples: depois que o Chipre obteve a independência do Império Britânico, em 1960, os Britânicos recearam vir a perder o controlo sobre as suas bases militares no Chipre e, em parte, a sua influência sobre o Médio Oriente. Como tal era inimaginável nas mentes imperialistas britânicas, o Reino Unido forçou os cipriotas a aceitar este bizarro acordo que se mantém até hoje.

 

Mais um quilómetro para sul e você dá de caras com uma parede e um portão decorado com ameaçadores avisos. Está no perímetro da Base Akrotiri da Força Área Britânica (RAF). É desde este lugar que, desde Dezembro de 2015, a RAF tem vindo a realizar ataques aéreos ilegais (de acordo com o direito internacional) contra a soberana República Árabe Síria.

 

De acordo com Jeffrey Richelson & Desmond Ball e seu livro The Ties That Bind: Intelligence Cooperation between the UKUSA Countries (Unwin Hyman, Boston/Londres e outros, 1990, página 194, nota 145):

Em 2010, havia cerca de 3.000 tropas das forças britânicas do Chipre instaladas em Akrotiri e Dhekelia. A estação Ayios Nikolaos, na ESBA, é uma estação de escuta ELINT (electronic intelligence) incluída no Acordo UKUSA de redes de espionagem”

 

Isso era na altura. Agora, as coisas estão a ficar bem mais letais. Na prática, o Reino Unido está em guerra com a Síria. Muitos no Chipre estão profundamente preocupados com o facto da Síria poder retaliar, enviando mísseis contra as bases da RAF a partir das quais está a ser bombardeada (legalmente, o estado independente da Síria tem todo o direito de se defender contra ataques vindos do estrangeiro). Tal retaliação poderia pôr em perigo a vida dos habitantes de Chipre.

 

Tem havido protestos exigindo que as forças britânicas devolvam ambas as "bases soberanas" ao Chipre, mas o Reino Unido não mostra qualquer interesse em ceder aquilo que controla.

 

Já em 2008, o então presidente de esquerda Demetris Christofias (que também era Secretário-Geral do AKEL, o Partido Comunista de Chipre) tentou remover todas as forças britânicas da ilha, chamando-as de "mancha de sangue colonial". No entanto, não conseguiu e, em 2013, podia ter tentado a reeleição mas optou por não o fazer.

 

A base de Dhekelia foi escavada na parte oriental do Chipre, estranhamente rodeando aldeias controladas quer por falantes de turco quer por falantes de grego.

 

No passado, os cipriotas lutaram contra a presença britânica. Hoje em dia, na era da omnipresente vigilância, sabotagem e resistência foram substituídos por inconsequentes protestos. Ainda assim, têm sido detidos centenas de locais exigindo a saída das tropas britânicas da ilha.

*

O Chipre ainda se encontra dividido, embora conversações sobre a reunificação tenham começado, mais uma vez, em 2015. Agora é possível caminhar entre a República do Chipre e o norte do Chipre (controlado pela Turquia).

 

Nem sempre foi assim, como escreveu Papadakis Yiannis:

No dia 15 de Julho de 1974 a junta militar grega, sob o comando de Dimitrios Ioannides, realizou um golpe de estado no Chipre, com o intuito de reunificar a ilha com a Grécia.”

 

Milhares de residentes turcos foram desalojados, muitos mortos. A Turquia invadiu a ilha e esta foi dividida. Mas a violência inter-étnica é anterior a 1974. A história pode ser sentida a cada esquina de Nicósia e em muitas aldeias da ilha. O norte de Chipre nunca foi reconhecido por nenhum outro país além da Turquia, mas a divisão ainda lá está. Há ainda cidades inteiras despovoadas que pertenciam a habitantes turcos e gregos entretanto deslocados.

 

Um das mais assustadoras é Kofinou, no sul da ilha, que sofreu, pelo menos duas vezes, violência étnica sem precedentes que poderia ser definida como "limpeza [étnica]". Outrora habitada principalmente por cipriotas turcos, Kofinou é agora uma cidade fantasma, repleta de casas destruídas e estruturas agrícolas, com trabalhadores estrangeiros e animais de criação vivendo em horríveis condições.

*

O Chipre tem duas caras. Orgulha-se de ser um dos mais famosos destinos turísticos europeus. É membro da UE.

 

Ao mesmo tempo, é um símbolo de divisão.

 

Cercas fronteiriças entre a República do Chipre e o Chipre do Norte ferem a sua bela paisagem rural. Mortíferas instalações militares britânicas (as bases da força aérea), assim como campanhas de propaganda e desinformação, estão brutalizando, física e moralmente, quase todo o Médio Oriente .

 

Aqui, no Chipre, os turistas europeus e russos coexistem com patente mal-estar. A guerra ideológica entre o Ocidente e o resto do planeta é claramente sentida em Pathos e noutras zonas históricas da ilha.

 

Alguns residentes britânicos (cerca de 50.000), bem como inúmeros turistas britânicos, comportam-se muitas vezes de forma insultuosa para com os geralmente humildes visitantes russos. Aqui, o Império Britânico ainda parece estar "ao comando".

 

No porto de Pathos, passei por um casal de idosos russos que parecia estar simplesmente admirando um velho castelo de água. Um casal britânico, que estava passando, olhou para trás e forçou umas sarcásticas e rudes caretas. "Aqueles Russos", proferiu o homem. Este não foi o único caso em que testemunhei este tipo de comportamento.

 

No Chipre, dirigi exactamente 750 quilómetros ao redor da ilha, tentando entender e definir a sua actual posição e o seu papel na "região" e no mundo.

 

Esperava encontrar reminiscências de pelo menos algum espírito revolucionário do governo comunista (AKEL). Mas quase só encontrei pragmatismo, tão típico de quase todos os países da União Europeia. Só se ouve perguntas do estilo: "Será o Brexit bom ou mau para Chipre?" Ou: "Será que os bombardeamentos à Síria põem em perigo os cidadãos do Chipre?".

 

Simbolicamente, perto da aldeia de Kofinou destruída pela violência inter-étnica de há várias décadas atrás, encontrei um campo de refugiados com mau aspecto, construído principalmente para os imigrantes provenientes do desestabilizado Médio Oriente. Parece um campo de concentração. Os locais chamam-lhe realisticamente de "prisão". Provavelmente, é mesmo.

 

Enquanto conduzia pela zona vi, a apenas alguns quilómetros do acampamento e em frente a uma sinistra e semi-abandonada fazenda, uma cabra enorme. Estava deitada de lado, morrendo em agonia no meio do caminho.

 

Chipre tornou-se numa ilha dividida, com alguns hedonistas resorts e também comunidades terrivelmente marginalizadas, ambas espalhadas por todo o seu território.

 

Poderia facilmente concluir-se que: esta antiga colónia britânica continua a permitir, em troca de uma taxa de aluguer, a tremenda presença de forças militares britânicas da NATO, assim como várias instalações de espionagem e de propaganda. Os caças de guerra Tornado da RAF executam "missões" contra a Síria. Os mísseis estão sendo disparados a partir de Akrotiri. As pessoas que fogem dos países destruídos do Médio Oriente são depois detidas no Chipre, como criminosos, atrás de arame farpado.

 

Entretanto, o povo de Chipre está equacionando se tudo isto é realmente exequível ou não. Se ser um posto avançado do Império for um bom negócio, com remunerações vantajosas, os cipriotas pouco farão para mudar a situação. Apesar do seu complexo passado e presente, bem como da sua proximidade com o Médio Oriente, o Chipre é, afinal de contas, parte integrante da Europa e, portanto, parte do Império Ocidental.

 

André Vltchek, 21 de Dezembro de 2018

 

Traduzido para o português por Luís Garcia

Versão original em inglês aqui.

 

Por Lula, de Andre Vltchek

André Vltchek é um filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação. Cobriu e cobre guerras e conflitos em dezenas de países. Três dos seus últimos livros são  Revolutionary Optimism, Western Nihilism, o revolucionário romance Aurora e um trabalho best-seller de análise política: “Exposing Lies Of The Empire”. Em português, Vltchek vem de publicar o livro Por Lula. Veja os seus outros livros aqui. Assista ao Rwanda Gambit, o seu documentário inovador sobre o Ruanda e a República Democrática do Congo, assim como ao seu filme/diálogo com Noam Chomsky On Western Terrorism. Pode contactar André Vltchek através do seu site ou da sua conta no Twitter.

 

Foto no Chipre: de André Vltchek.

 

 

 

 

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