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Pensamentos Nómadas

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Bem-vindos ao inferno: a cidade mineira peruana de La Rinconada, por André Vltchek

29.04.19 | Pensamentos Nómadas

Imponente perspectiva de La Rinconada: através do lixo - ©AndreVltchek

 

Andre Vltchek Política Sociedade   ECONOMIA 

 
Enquanto o Ocidente ataca a Venezuela, um país que melhorou a vida de boa parte dos seus cidadãos, esse mesmo Ocidente ignora os horrores que estão ocorrendo no Peru e noutros países "pró-mercado" da América Latina.
 
 
La Rinconada, que fica a mais de 5 km acima do nível do mar, é o mais elevado povoamento à face da terra; uma cidade de minas de ouro, uma concentração de miséria, uma comunidade de cerca de 50.000 habitantes, muitos dos quais envenenados com mercúrio. Um lugar onde inúmeras mulheres e crianças são regularmente violadas, onde lei e a ordem há muito que colapsaram, onde jovens são enviadas para lixeiras com o fim de "reciclar" lixo terrivelmente pestilento, e onde quase todos os homens trabalham em draconianas condições, para tentar acumular algumas poupanças, mas onde a maioria simplesmente arruína a sua saúde, mal conseguindo se manterem vivos.

 

Decidi viajar até La Rinconada precisamente durante estes dias durante os quais a socialista Venezuela luta pela sua sobrevivência. Dirigi-me até lá ao mesmo tempo que as elites europeias na Bolívia iam tentando difamar o presidente extremamente popular e bem-sucedido da Bolívia, o senhor Evo Morales, à medida que as eleições se iam aproximando.

 

Como em tantos outros lugares no turbo-capitalista e pró-Ocidente Peru, La Rinconada é um género de tremendo aviso: era assim que a Venezuela e a Bolívia costumavam ser antes de Hugo Chávez e Evo Morales terem aparecido. É a este estado que Washington quer que América Latina inteira volte. Como aquelas monstruosas e sem esperança favelas em torno de Lima, La Rinconada deve ser um apelo às armas.

 

Há apenas cinco anos atrás, pensávamos que era assim que a América Latina nunca mais deveria se parecer. Pensávamos que sim, antes das forças de extrema-direita de Washington terem conseguido reorganizar e implantar os velhos dogmas da Doutrina Monroe de volta às linhas de frente, contra a independência e o socialismo latino-americanos.

 

 

Um motorista recusou-se levar-me até La Rinconada sozinho. Para mim, quanto menos pessoas se envolverem, melhor. Mesmo no Afeganistão, trabalho sempre sozinho, só com o meu motorista pachto em quem deposito a minha total confiança. Mas aqui é diferente, a reputação de La Rinconada diz-nos que "você pode entrar, mas você nunca conseguirá sair". Falam-me da nova máfia que lá opera e da completa deterioração da segurança no local. Acabei por ceder, não tive outra escolha a não ser aceitar uma tripulação de dois homens: um motorista e uma pessoa "familiarizada com a situação relacionada com as minas peruanas.”

 

Deixamos a cidade de Puno de manhã, passando ao longo das magníficas margens do Lago Titicaca que, com uma elevação 3812 metros, é o lago navegável mais alto do mundo, compartilhado pelo Peru e pela Bolívia.

 

"Do lado Peruano, o lago está sendo envenenado com mercúrio", explicou-me Freddy, um especialista em mineração. "Ainda estamos longe de La Rinconada e das suas minas de ouro, mas o Rio Ramis está agora trazendo água contaminada proveniente dessa zona, particularmente da cidade mineira de Ananea, directamente para o lago.”

 

 

Há uma espécie de auto-estrada entre Puno e Juliaca, um género de "centro de actividade comercial" da região; na realidade, é uma enorme cidade cheia de favelas. A seguir a Juliaca só há miséria rural.

 

Trabalhei no Peru durante a chamada "Guerra Suja", travada entre duas guerrilhas comunistas (o maoísta Sendero Luminoso e o marxista pró-cubano MRTA ) e o Estado peruano, que terminou oficialmente em 1992. Desde então, a miséria rural do Peru não mudou: as moradias feitas de terra, as caras de desespero dos aldeões e a quase total ausência de serviços sociais permaneceram. Do outro lado da fronteira, na Bolívia socialista, a vida no campo melhora de forma drástica e continua. Mas não aqui, não no Peru. E assim, dezenas de milhares de ansiosos homens vão "subindo", alcançando altitudes enormes, arriscando a vida e arruinando a saúde na esperança remota de encontrarem ouro para escaparem da miséria endémica.

 

 
"A minha esposa salvou-me", disse-me o motorista que, dois dias antes, me havia levado da fronteira boliviana de Desaguadero até à cidade peruana de Puno:
Estava completamente falido. Acabávamos de ter um bebé. Não fazia ideia do que fazer. E então informei a minha família de que ia para La Rinconada. A minha mulher levantou-se e disse: «Se fores,  nunca mais voltarás! E se o fizeres, não mais serás o homem que amo. Fica em Puno e trabalha aqui. Eu também irei trabalhar. Acabaremos por arranjar solução». «Não sabes que La Rinconada é uma sentença de morte?»  E fiquei. Ela tinha razão. Vi pessoas que foram e voltaram totalmente destruídas.”

 

Está a ficar frio. O nosso carro sobe, rabugento, com uma suspensão muito danificada, mas sobe ainda assim. Quanto mais alto subimos, mais frio fica. Chove e depois pára.

 

A vistas é magnífica, mas a área está coberto de lixo. O rio está imundo. Os lamas estão a comer lixo, os carros estão sendo lavados nos rápidos e aldeias inteiras parecem ter sido abandonadas e transformadas em cidades fantasmas.

 

Depois de mais de quatro horas a conduzir, após alucinantes estradas aos ziguezagues, as primeiras minas aparecem no horizonte. E depois, mais sujidade, maquinaria primitiva e uma cidade mineira: Ananea.

 

A Sra. Irma, dona de um restaurante local, prepara café forte e folhas de coca embebidas em água quente, o melhor remédio para a doença da altitude. Apercebendo-se que não representamos perigo nenhum, revela-se bem faladora:

Às vezes, mineiros de La Rinconada fogem para aqui. Ananea é um pouco menos elevada e mais segura. Temos água aqui. Lá, está tudo envenenado com mercúrio e outras coisas horríveis. Você conhece o conceito, sabe como eles trabalham lá em cima: durante 29 dias trabalham de graça e, por fim, durante um dia por mês, são autorizados a ficar com tudo o que encontrarem. É uma lotaria: se tiverem sorte, ficam ricos nesse mesmo dia. Senão, encontram muito pouco ou nada. E mesmo que encontrem algo, à noite, podem ser assaltados.”

 

Soa a uma pessoa velha e maternal, cheia de compaixão e preocupada. Ao que parece, já viu de tudo.

 

Pagamos e voltamos à estrada.

 

Então, por fim, avistamos os enormes lagos amarelados, acastanhados, com correntes vindo da superfície. Longas mangueiras azuis. Tudo se encontra destruído e envenenado. Freddy diz-me que existem algumas novas tecnologias que poderiam ser usadas para extrair ouro, mas os mineiros aqui usam mercúrio, visto ser mais barato. Primitivo equipamento é utilizado, como ocorre na ilha indonésia de Kalimantan/Bornéu; lá, a mineração ilegal está envenenando poderosos rios: aqui, está arrasando montanhas inteiras, criando grandes lagos e paisagens lunares a cerca de 5.000 metros de altitude.

 

Como é óbvio, os seguranças mostram-se descontentes com a nossa presença. Ainda assim, consigo filmar e fotografar, e depois conduzimos ainda mais para cima.

 

Começam a aparecer os montes de lixo. Por detrás deles, duas montanhas enormes cobertas de neve. E um irónico sinal em metal: "bem-vindo a La Rinconada, não deite lixo para o chão.”

 

 

Montanhas e vales encontram-se pontilhados com barracas de metal, feitas de estruturas improvisadas. A porcaria está por todo o lado. Não há abastecimento de água. A electricidade é escassa. O lixo cobre inclusive as humildes sepulturas de um cemitério local.

 

Na praça principal, muita gente bebendo à grande. É perigoso fotografar aqui. Eu escondo-me, uso o zoom. Há dois mineiros bêbedos deitados de barriga para baixo e há uma pessoa metendo comida nas suas bocas abertas, como se estivesse a alimentar animais num jardim zoológico.

 

A prostituição dispara. Crianças andam realizando trabalhos improváveis. Num dos caixotes do lixo, pergunto a duas jovens as suas idades.

 

"25", respondem-me prontamente. Apostaria 15, no máximo. Mas têm as caras tapadas.

 

"Quão perigoso é este lugar?", pergunto a um dos mineiros.

 

De pronto responde: "Muito perigoso, mas não temos outra opção".

 

"Há quem se magoe trabalhando? Há quem morra?”

 

“Claro. E acontece com muita frequência. Todos nós corremos riscos. Algumas pessoas sofrem ferimentos horríveis, outras morrem. Se não se consegue tratá-los aqui, são levados para Ananeo e, com sorte, para um hospital em Juliaca. Outros são deixados aqui para morrer. É a vida. Alguns são salvos, outros não.”

 

Será que culpam o capitalismo, o extremista e selvagem sistema pró-mercado, adoptado pelo seu país?

 

Oiço sempre a mesma fatalista resposta: "É a vida".

 

Tudo o que sabem é que mal iam sobrevivendo no altiplano, e que estão aqui, em La Rinconada, para lutar pelas suas vidas.

 

 

"Não é só mercúrio", disseram-me. "Tudo aqui se encontra misturado: venenos relacionados com a mineração, urina, merda, resíduos urbanos…”

 

A altitude atingi-me com dureza. 4 mil em Puno é mau, mais de 5 mil aqui é fatal. Duas pessoas seguram-me enquanto filmo à beira de uma ravina, para não cair.

 

De uma certa forma, dou-me conta de que as vistas à minha volta são lindas, deslumbrantes. Estou impressionado. Impressionado com a capacidade dos seres humanos para sobreviver em quase todas as condições.

 

As pessoas não ganham nada, quase nada. Um mineiro ganha entre 800 a 1.000 solas (entre 250 a 300 dólares) por mês. As empresas privadas e o governo corrupto ganham milhares de milhões. Mais uma vez, a América Latina está empobrecendo. Mas o Ocidente não pressiona para uma "mudança de regime" no Peru, ou no Paraguai, ou no Brasil. É assim que deve ser. É assim que Washington gosta.

 

Um outro mineiro ousa dizer-me

A maior parte do ouro vai para o estrangeiro. Mas, antes disso..., se os gangues não nos roubam a nós, mineiros, muitas vezes, à noite, matam os pequenos intermediários, aqueles que nos compram o ouro directamente.”

 

Terá ele medo?

 

"Toda a gente tem medo", confirma-me ele. "Assustada e adoecida. Isto é o inferno". 

 

"É como uma guerra...", digo eu.

 

"É uma guerra", responde ele.

 

Mas quase ninguém aqui vem para investigar e denunciar o que aqui se passa. A vida de um pobre peruano não vale nada, absolutamente nada.

 

Enquanto trabalho, sinto que o inferno está perto, aqui mesmo. Não é abstracto, religioso. É real. Mas podia e deveria ser erradicado.

 

André Vltchek

 

Traduzido para o português por Luís Garcia

Versão original em inglês na RT.

 

André Vltchek é um filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação. Cobriu e cobre guerras e conflitos em dezenas de países. Três dos seus últimos livros são Revolutionary Optimism, Western Nihilism, o revolucionário romance Aurora e um trabalho best-seller de análise política: “Exposing Lies Of The Empire”. Em português, Vltchek vem de publicar o livro Por Lula: O Brasil de Bolsonaro - O Novo Tubarão Num Mar Infestado de Tubarões. Veja os seus outros livros aqui. Assista ao Rwanda Gambit, o seu documentário inovador sobre o Ruanda e a República Democrática do Congo, assim como ao seu filme/diálogo com Noam Chomsky On Western Terrorism. Pode contactar André Vltchek através do seu site ou da sua conta no Twitter.

Fotos do artigo por: André Vltchek

 

Leia também:

Por Lula: O Brasil de Bolsonaro - O Novo Tubarão Num Mar Infestado de Tubarões

(Traduzido por Luís Garcia)

 

 

 

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