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Pensamentos Nómadas

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Agora só o pensamento racional pode salvar o mundo!, por André Vltchek

30.11.18 | Pensamentos Nómadas

Agora só o pensamento racional pode salvar o mundo!

 

Andre Vltchek   Sociedade

 

AVISO: A versão original em inglês deste artigo é antiga e data de 14 de Abril de 2017. 

 

CENÁRIO UM: Imagine que está a bordo de um navio a afundar-se lentamente. Não há terra à vista e o seu rádio não está a funcionar em condições. Há várias pessoas a bordo e você quer mesmo salvá-las. Você não quer que este seja o fim de “tudo”.

 

O que é que faz?

  • A) Reserva para si próprio uma boa porção de arroz frito com camarões.
  • B) Liga a televisão que, por milagre, ainda está a funcionar, e assiste às notícias sobre o futuro referendo escocês ou sobre o BREXIT.
  • C) Salta de imediato para a água, tenta identificar o dano e tenta fazer algo impensável com as suas limitadas capacidades e ferramentas: salvar o navio.

 

Imagine outro cenário:

 

CENÁRIO DOIS: Por engano, a sua esposa ingere dois tubos inteiros de comprimidos para dormir, supostamente confundindo-os com uma nova linha de doces. Quando a encontra no chão, ela parece estar inconsciente, com um rosto azulado.

 

Qual seria a sua reacção?

  • A) Depois de perceber que os saltos altos não combinam com a cor da meia-calça dela, você corre para o armário à procura de um par de sapatos mais condizentes.
  • B) Leva-a sem demora para o quarto de banho, bombeia-lhe o estômago e tenta ressuscitá-la, ao mesmo tempo que chama o 112 usando a função de alta-voz do seu telemóvel.
  • C) Você recorda-se do momento em que se conheceram, sente-se nostálgico e dirige-se apressadamente para a biblioteca da sala de estar, à procura de um livro de sonetos de amor de Pablo Neruda, que recita para ela, emocionado, ajoelhado no tapete.

 

Agora prepare-se para ter uma grande surpresa. Se não escolher C) no cenário UM, e B) no cenário DOIS, ainda assim, você poderá ser considerado absolutamente “normal”, de acordo com os padrões dominantes quer nos EUA quer na Europa.

 

E se optar por C) ou B), respectivamente, poderá facilmente passar por um extremista, um fanático ideológico e um esquerdista radical.

*

O Ocidente conduziu o mundo quase até ao seu colapso total, mas os seus cidadãos, mesmo os seus intelectuais, continuam teimosamente recusando entender este facto. Como avestruzes, muitos optam por enterrar a cabeça na areia. Outros comportam-se como um cirurgião que opta por tratar o pequeno corte num dedo de um paciente, em vez de lhe tratar o ferimento de bala no peito que lhe poderá tirar a vida.

 

Parece haver uma ausência enorme de pensamento racional e, especialmente, de capacidade por parte das pessoas para compreender, em toda a sua dimensão, as ocorrências e eventos de âmbito mundial. Há anos que venho argumentando que a destruição da capacidade de comparar e ver as coisas a partir de uma perspectiva universal tem sido uma das mais bem-sucedidas iniciativas levadas a cabo pelas instituições de doutrinação ocidentais (através da educação, média/desinformação e “cultura”). Estas têm efectivamente influenciado e pacificado, tanto os ocidentais, como aqueles que vivem nas suas colónias, actuais e antigas (particularmente as “elites” locais e os seus descendentes).

 

Por exemplo, parece não haver nenhuma capacidade de comparar e analisar consistentemente as acções, certamente desagradáveis mas defensivas na sua essência, tomadas pelos governos e países revolucionários, contra os horríveis e chocantes crimes cometidos pelos regimes colonialistas ocidentais em toda a Ásia, Américas, Médio Oriente e África, que ocorreram mais ou menos no mesmo período histórico.

 

Não é só a história que é vista no Ocidente através de lentes totalmente distorcidas e “desfocadas”, é também o presente, que tem sido percebido e “analisado” de uma maneira descontextualizada e sem se aplicar praticamente nenhuma comparação racional. Os países rebeldes e independentes da Ásia, da América Latina, da África e do Médio Oriente (a maioria deles foram realmente forçados a defender-se de ataques extremamente brutais e a opor-se a campanhas de subversão impulsionadas pelo Ocidente) foram criticados, mesmo nos chamados círculos “progressistas” do Ocidente, usando padrões muito mais severos do que aqueles que são aplicados tanto à Europa como à América do Norte, duas partes do mundo que têm continuadamente espalhado terror, e infligido a destruição e sofrimento inimagináveis a pessoas de todos os cantos do mundo. 

 

A maioria dos crimes cometidos pelas revoluções de esquerda foram cometidos em resposta directa a invasões, subversões, provocações e outros ataques vindos do Ocidente. Quase todos os crimes mais terríveis cometidos pelo Ocidente foram cometidos no exterior e foram dirigidos contra pessoas escravizadas, exploradas, completamente saqueadas e indefesas em quase todas as partes do mundo.

 

Agora, de acordo com muitos, o “fim do jogo” está a aproximar-se. Os oceanos em ascensão estão a engolir países inteiros, como testemunhei em várias partes da Oceânia. É uma visão horrível, indescritível!

 

Milhões de pessoas, em numerosos países governados por regimes pró-Ocidente, estão a deixar os seus países, enquanto algumas nações estão basicamente deixando de existir, como a Papua ou Caxemira, para dar apenas dois exemplos óbvios.

 

O meio ambiente está completamente arruinado nas zonas onde, há apenas algumas décadas atrás, os “pulmões” do mundo costumavam funcionar, mantendo o planeta saudável.

 

Dezenas de milhões de pessoas estão agora em movimento, já que os seus países foram completamente arruinados pelos jogos geopolíticos ocidentais. Em vez de influenciar e ajudar a guiar a Humanidade, culturas tão antigas como as do Iraque, Afeganistão e Síria são agora forçadas a produzir milhões de refugiados desesperados. Estão tentando apenas sobreviver, humilhadas e pouco relevantes.

 

Os grupos religiosos extremistas (de todas as religiões e, definitivamente, não apenas pertencentes à religião muçulmana) estão a ser preparados pelos ideólogos e maquiavélicos estrategas ocidentais, e estão espalhados por todos os cantos do globo: Ásia do Sul, Médio Oriente, China, América Latina, África e até Oceânia.

 

O imperialismo conseguiu reduzir a nossa Humanidade a uma total desgraça .

 

A maior parte do mundo está realmente tentando funcionar “normalmente”, “democraticamente”, seguindo os seus instintos naturais, que são baseados no simples humanismo. Mas acabam sempre por descarrilar, atacados e atormentados pela brutal, monstruosa e impiedosa hidra: o expansionismo ocidental e a sua “cultura” de niilismo, ganância, cinismo e escravidão.

 

É óbvio para onde estamos a caminhar enquanto raça humana.

 

Queremos voar, queremos liberdade, optimismo e beleza para governar as nossas vidas. Queremos sonhar e criar algo profundo, significativo, feliz e amável. Mas ainda há aqueles pesos horríveis que nos penduram nos pés. Há aquelas correntes que restringem as nossas acções. Há um medo constante, que nos leva a trair todos os nossos ideais, assim como a trair-nos uns aos outros, uma e outra vez; medo que nos faz, a nós seres humanos, agir como covardes egoístas sem vergonha. E, em resultado, não voamos, apenas rastejamos, e nem mesmo para a frente, mas em elipses e círculos bizarros e irracionais.

 

Ainda assim, não acredito que o “fim do jogo” seja inevitável!

 

Há muitos anos que faço advertências, tenho escrito, mostrado e apresentado milhares de terríveis imagens de destruição, do colapso irreversível, da barbárie.

 

Por norma não guardo nada para mim. Utilizo os frutos do meu trabalho, dos meus filmes e dos meus livros para financiar novas viagens até aos abismos mais obscuros do nosso mundo. Não recebo praticamente nenhum apoio de terceiros. Mas não posso parar, o que tenho testemunhado, o perigo para o planeta e a devastação total, forçam-me a nunca desistir de lutar. Sempre que foi necessário, e na maioria das vezes foi, permaneci sozinho. Passei muito tempo na América Latina; não dava para eu desistir. Aprendi muito em Cuba e em tantos outros lugares maravilhosos; sempre senti que não tinha o direito de me render.

 

Sempre que os horrores, de que o nosso planeta padece, me sobrecarregam, posso "colapsar", como aconteceu no ano passado. Então enterro-me nalgum lugar por um curto período de tempo, reúno-me comigo mesmo, levanto-me e continuo o meu trabalho e a minha luta. Nunca deixei de confiar nas pessoas. Alguns vêm cheios de entusiasmo inicial, oferecem muito, depois traem-me e desaparecem. Ainda assim, nunca perdi a fé nos seres humanos. Este ano, em vez de desacelerar,  "adoptei" mais um lugar que está em agonia: o Afeganistão.

 

O meu único pedido, a minha única exigência, foi que o mundo escutasse, que visse, que tentasse compreender, antes que seja tarde demais. Este meu pedido provou ter sido, percebo-o agora, demasiado “exigente” e “radical”.

 

Às vezes pergunto: alcancei eu algo de significante? Abri eu os olhos a muita gente? Consegui eu construir muitas pontes entre as diferentes partes do mundo em luta? Como um internacionalista tenho de questionar as minhas próprias acções, a minha eficácia.

 

Tenho que admitir, honestamente: não sei as respostas às minhas próprias perguntas. Mas continuo a trabalhar e a lutar.

*

O mundo parece diferente se observado e analisado a partir de um pub na Europa ou na América do Norte, ou se alguém estiver de pé num daqueles atóis no meio do Pacífico Sul (Oceânia) que estão sob o assalto constante das marés e das ondas, pontilhadas com raízes de palmeiras mortas que apontam de forma acusadora para o céu. Essas ilhotas estão na vanguarda da batalha pela sobrevivência do nosso planeta e estão obviamente sendo derrotadas.

 

Tudo parece também ser bem mais urgente e “real”, quando observado a partir das planícies negras e desoladas das ilhas indonésias, do Bornéu/Kalimantan e de Sumatra, desesperadamente alagadas.

 

Eu costumava relatar nos meus ensaios, apenas para os leitores ficarem a saber, como ficavam as aldeias nalguns lugares, como em Goma na República Democrática do Congo (RDC), e como se sentiam as pessoas, após os assassinatos perpetrados por assassinos pró-Ruanda e, portanto, por milícias pró-Ocidente. Era importante para mim explicar como as coisas são “ quando se está no meio delas”, no terreno. Eu costumava escrever sobre violações e mutilações em massa, sobre a carne queimada, a tortura terrível… Parei há algum tempo. Ou se testemunha tudo isso pelo menos uma vez ou simplesmente não se testemunha. Se se testemunha, sabe-se o que é, o que se sente e a que cheira… ou então nunca se poderá imaginar, por muitos livros e relatórios que se leia, por muitas imagens que se veja.

 

Tenho tentado falar sobre tudo isto com pessoas no Ocidente, em conferências, universidades, ou mesmo através dos meus filmes e livros. Elas escutam, principalmente com respeito. Elas mostram-se educadamente indignadas e "horrorizadas", elas ficam como é “esperado” que fiquem. Algumas dizem: "Eu quero fazer alguma coisa". A maioria não faz absolutamente nada, mas mesmo quando decidem agir, é geralmente para si mesmos, apenas para se sentirem bem, para se sentirem melhor, para convencerem a própria consciência de que realmente “fizeram pelo menos algo pela Humanidade”.

 

Eu costumava culpá-los. Já não o faço. É assim que o mundo está organizado. No entanto, tenho reduzido drasticamente as visitas de trabalho tanto à América do Norte como à Europa. Eu não sinto empatia com as pessoas desses lugares. Não pensamos da mesma maneira, não sentimos o mesmo, e mesmo a nossa lógica e razão são diametralmente diferentes.

 

A minha recente estadia de três semanas na Europa revelou-me claramente o quão pouco há de comum entre o estado mental do Ocidente e a realidade em que a grande maioria do mundo tem vivido.

*

No passado, antes dos impérios ocidentais e o único “Império” tivessem esvaziado os povos da maior parte da sua determinação e do seu entusiasmo, os seres humanos mais talentosos não faziam distinção entre as vidas pessoais, a sua criatividade e o seu implacável trabalho e dever para com a Humanidade.

 

Em vários lugares, incluindo Cuba, é assim que muitas pessoas ainda vivem.

 

No Ocidente, tudo e todos estão agora fragmentados e a própria vida tornou-se objectivamente sem sentido: há um tempo distinto para trabalhar (satisfazer a carreira pessoal, garantir a sobrevivência, aumentar o “prestígio” e ego), um tempo para brincar e para a vida familiar… e, ocasionalmente, há tempo para pensar sobre a Humanidade ou, muito raramente, sobre a sobrevivência do nosso planeta.

 

Escusado será dizer que essa abordagem egoísta falhou na ajuda necessária para fazer avançar o mundo. E também fracassaram directamente, pelo menos algumas, quando se tratou de parar as monstruosidades cometidas pelo imperialismo ocidental.

 

Quando vou à ópera ou assisto a um grande concerto de música clássica, é para obter uma inspiração profunda, para me entusiasmar com o meu trabalho, para reciclar a beleza que exprimo nos meus romances e filmes, peças de teatro e até relatórios políticos. Nunca vou para ficar simplesmente “entretido”. Nunca é apenas pelas minhas próprias necessidades.

 

Também é essencial para mim trabalhar em estreita colaboração com as pessoas que amo, incluindo a minha mãe, que já tem 82 anos.

 

É porque eu sei que não há absolutamente tempo nenhum a desperdiçar. E também porque tudo é e deve estar interligado na vida: amor, trabalho, dever, luta pela sobrevivência e progresso do nosso mundo.

*

Posso ser rotulado de fanático, mas decididamente escolho as opções C) e B) dos “dilemas” que descrevi acima.

 

Escolho a racionalidade, agora que uma “armada” dos EUA repleta de armas nucleares navega em direcção à China e à Coreia do Norte, agora que os mísseis Tomahawk caíram sobre a Síria, agora que o Ocidente vai enviar mais milhares de mercenários para um dos países mais devastados da Terra: o Afeganistão.

 

Sobrevivência e, em seguida, o avanço do mundo deve ser o nosso maior objectivo. Eu acredito nisso e permaneço de pé. Em tempos de crises absolutas, que estamos vivenciando agora, é irresponsável, quase grotesco, "continuarmos simplesmente a viver a nossa vida quotidiana".

 

O imperialismo tem que ser travado de uma vez por todas, por todos os meios. No momento em que a sobrevivência da Humanidade está em jogo, o fim justifica todos os meios. Ou, como reza o lema do Chile: “Pela razão ou pela força”.

 

Naturalmente, se aqueles “que sabem” não agirem, se cobarde e oportunisticamente não fizerem nada, de uma perspectiva universal, nada de muito significativo acontecerá: um pequeno planeta numa de tantas galáxias simplesmente deixará de existir. Provavelmente haverá muitos planetas habitados neste universo, e muitas civilizações.

 

No entanto, eu adoro este mundo e este planeta tão único. Eu conheço-o bem, de norte a sul. Eu conheço os seus desertos e vales, montanhas e oceanos, as suas criaturas maravilhosas e tocantes, as suas grandes cidades e aldeias abandonadas. Conheço os seus povos. Eles têm muitas falhas, pelas quais em muito os podemos condenar, e muito têm ainda a melhorar. Mas acredito que, no entanto, ainda são bem mais merecedores de admiração do que de crítica.

 

Agora é hora de pensar, racional e rapidamente, para então agir. Nenhum pequeno remendo será suficiente, nada de acções para “sentir-se bem”. Apenas uma recomposição total, uma reformulação. Chame-lhe revolução, se quiser, ou simplesmente C) e B). Não importa como você o defina, algo terá que ser feito, urgentemente, muito urgentemente ou, em breve, não haverá mais nada para amar, defender e trabalhar.

 

André Vltchek

 

Por Lula, de Andre Vltchek

André Vltchek é um filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação. Cobriu e cobre guerras e conflitos em dezenas de países. Três dos seus últimos livros são  Revolutionary Optimism, Western Nihilism, o revolucionário romance Aurora e um trabalho best-seller de análise política: “Exposing Lies Of The Empire”. Em português, Vltchek vem de publicar o livro Por Lula. Veja os seus outros livros aqui. Assista ao Rwanda Gambit, o seu documentário inovador sobre o Ruanda e a República Democrática do Congo, assim como ao seu filme/diálogo com Noam Chomsky On Western Terrorism. Pode contactar André Vltchek através do seu site ou da sua conta no Twitter.

 

Tradução original para o português, por Júlio Gomes, disponível aqui.

Revisão da tradução por Luís Garcia.

Versão original em inglês disponível aqui.

 

 

 

 

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