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Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

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Como eu me tornei um revolucionário internacionalista, por André Vltchek

25.12.18 | Pensamentos Nómadas

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Andre Vltchek Política

 

Entrevista de Binu Mathew (editor do Countercurrents.org) com André Vltchek.

 

Binu Mathew( BM): Você é um dos principais críticos do imperialismo. Pode dizer-nos como se tornou no que é hoje? Pode falar-nos dos seus anos de formação?

André Vltchek (AV): anos de formação... foram muitos e, na verdade, sinto que continuo evoluindo até ao dia de hoje. É o que fazem as pessoas, creio e espero eu. 

 

Nasci na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, na incrivelmente bela cidade de Leninegrado, construída pelo louco Pedro O Grande e por alguns não menos loucos arquitectos italianos e franceses, nas margens do vasto e poderoso rio Neva, mesmo em frente a pântanos infestados de mosquitos.

 

Não vivi lá muito tempo, apenas pouco mais de três anos, mas a cidade ficou para sempre no meu coração.

 

A minha mãe é metade russa e metade chinesa, enquanto que o meu pai é um cientista checo. Com a idade de três anos fui levado para a chata e industrial cidade de Pilsen (Plzen) na então Checoslováquia, cidade também conhecida pela sua cerveja e a sua proximidade com a Baviera.

 

O meu pai pertence àquela velha geração de cientistas que acreditavam que podiam mudar e melhorar o mundo. Ele adorava música clássica, filosofia, literatura e bom vinho. Para ele, tudo isso era inseparável dos conceitos científicos, dos sonhos e da imaginação. Ele explicou-me a teoria da Relatividade de Einstein quando eu tinha 8 anos, e ensinou-me a jogar xadrez e a pensar logicamente.

 

1934, União Soviética - Os meus avós

 

A minha mãe era apenas um bebé quando começou a segunda guerra mundial. Metade da minha família morreu durante o cerco de Leninegrado, esfomeada e bombardeada pelos Alemanha nazi. Ela quase morreu de fome. A minha avó lutou contra os alemães, foi condecorada pela sua bravura, e ajudou a defender e depois a reconstruir a sua amada cidade. O marido dela, o meu avô, era comunista, ministro soviético e etnicamente um chinês do Cazaquistão. Ocupou cargos ministeriais nas áreas de cuidados médicos e de abastecimento alimentar. Foi denunciado como espião japonês antes da guerra (durante o tempo em que a rede de espionagem alemã conseguiu se infiltrar na rede de comunicação de inteligência soviética e literalmente dar informações falsas à liderança soviética, enfraquecendo-a significativamente antes dessa guerra). O meu avô foi executado. Mais tarde foi "reabilitado", postumamente, quando a verdade veio por fim ao de cima. Ele era o amor da vida da minha avó; ela nunca mais voltou a casar-se.

 

Por que te conto eu tudo isto, Binu? Porque os meus anos de formação começaram quando eu tinha 3 anos. A minha família estava a partir-me em pedaços. A minha avó e a minha mãe educaram-me enquanto menino soviético: grande literatura russa, música e poesia. Todos os anos eu era enviado 2 ou 3 meses para Leninegrado, para junto da minha avó; ela mimava-me até mais não, arrastando-me para salas de ópera, para concertos, para museus. Eu amava e sentia enorme falta da Rússia, quando vivia a maior parte do ano na emocionalmente fria e pragmática Checoslováquia .

 

 

Ambas as mulheres, mãe e avó, nunca tentaram me poupar de todos os horrores aos quais sobreviveram durante a guerra. Vivi as histórias que tiveram de passar durante o cerco da cidade. A minha mãe costumava ler-me poesia russa, e chorava. Ela tinha muitas saudades do seu país e da sua cidade. Ela ainda se sentia aterrorizada pela guerra, mesmo muitos anos depois de ter acabado. Eu também tinha saudades de Leninegrado. Ainda tenho.

 

Em 1971 com a minha avó russa de visita a Pilsen

 

Depois veio 1968, e eu tinha apenas 5 anos. Desde então, não houve infância. Desde o primeiro ano de escola primária, a minha vida foi uma grande batalha pela sobrevivência. Entre cada aula, vários rapazes vinham e batiam-me sem cerimónias, só por eu ter uma mãe russa. Primeiro sofri em silêncio. Depois comecei a ripostar. Você sabe como os europeus são racistas. Eu era constantemente atacado, não só porque a minha mãe era "russa", mas sobretudo porque ela tinha traços asiáticos. Ainda me lembro de ouvir "olha para as tuas nojentas orelhas asiáticas, seu merda". Quando jogava badminton num ginásio, os miúdos mijavam-me nos sapatos durante o inverno e a urina transformava-se em gelo.

 

Os meus pais divorciaram-se. O casamento deles ruiu. Além do mais, as suas visões políticas divergiam. O meu pai deixou o Partido Comunista da Checoslováquia. Desde os meus 5 anos de idade, eu andava recebendo duas interpretações totalmente diferentes dos mesmos eventos políticos. A partir [do que ouvia] de indivíduos altamente intelectuais e brilhantes dentro da minha família, eu tinha de decidir o que estava certo e o que estava errado.

 

Eles destruíram a minha infância, mas bem cedo fizeram de mim um duro escritor.

 

Nunca os perdoei. Ao mesmo tempo, estou-lhes imensamente grato. Sobretudo à minha avó, que partiu já lá vão 20 anos. Tenho saudades dela e admiro-a cada vez mais.

 

BM: Você tornou-se cidadão dos EUA quando era adolescente. Pode falar-nos da política por detrás disso?

AV: Para ser mais preciso, tornei-me cidadão norte-americano quando tinha 20 anos. Mas eu deixei a Checoslováquia com um passaporte soviético, quando era ainda muito jovem.

 

Veja, esta é uma longa história que já contei muitas vezes, de forma abreviada, mas deixe-me aqui tentar explicá-la de uma forma mais detalhada:

 

No final da minha adolescência, finalmente "cedi". De uma certa forma, já começava a ser "demais": a minha família, a minha infância confusa e toda aquela podridão e falta de sinceridade ao meu redor. Os checos estavam determinados a odiar os russos/soviéticos mas, ao mesmo tempo, eles estavam vergonhosamente colaborando com o sistema. Eles sempre foram assim: com o Império Austro-Húngaro, com os nazis e, agora, com o Ocidente. Eles sempre se foram queixando ao longo da sua história moderna, mas sempre foram servindo todos aqueles que se encontravam no poder. E sempre iam vivendo muitíssimo bem. Sob o "comunismo", eles tinham os seus confortáveis apartamentos, as casas de verão, carros.

 

Quando cresci, nada era "sagrado". As pessoas faziam piadas muito vulgares sobre tudo, nenhuma mulher se encontrava "fora do alcance", as orgias de bebida eram abusivas. Acho que, enquanto jovem escritor, eu ansiava por pelo menos um pouco de pureza.

 

Também enfrascava. E fumava dois maços por dia. Estando numa escola secundária de elite, o meu "ser diferente" era, de repente, uma mais-valia. Quase podia ter qualquer rapariga que eu desejasse. Mas, de alguma forma, estava tudo a ir pelo caminho errado.

 

Comecei a ouvir os meios de propaganda ocidentais. Em Pilsen, eles estavam em todo o lado: nas ondas curtas de rádio, nos programas de televisão provenientes da Alemanha Ocidental e na samizdat (literatura "proibida", principalmente propaganda Ocidental, imprimida sobretudo nas fotocopiadoras dos escritórios do governo após o horário laboral). Comecei a ouvir a Voice of America, Radio Free Europe e a BBC em inglês, em russo e em checo. Foi-me feita uma completa lavagem cerebral, de forma a eu aceitar a narrativa oficial Ocidental sobre os "acontecimentos de 1968". Fizeram-me uma lavagem cerebral para que eu visse o envolvimento soviético no Afeganistão como um "crime".

 

O divórcio dos meus pais significava que eu era, desde tenra idade, livre para basicamente fazer o que bem desejasse. E então viajei, a pé, de comboio, por toda a Europa oriental, dos Balcãs à Polónia, sozinho. Acho que tinha 15 anos quando comecei a viajar.

 

Arranjei uma namorada na Polónia, que era membro da associação de estudantes da "Solidariedade". Fizemos algumas viagens a Gdansk durante protestos. Comecei a sentir-me como um jovem dissidente, a escrever poesia erótica/revolucionária, fazendo correspondência para a BBC. Não me importava muito com as notas. Quando precisava de dinheiro, fazia algumas traduções, visto que eu falava fluentemente várias línguas.

 

Olhando para trás, [reconheço que] eu era muito jovem para isto tudo, pois claro que era. Mas, mais uma vez, como disse anteriormente, eu não tive infância, nem sentimento de pertença, nem pátria. A minha vida não tinha estrutura. Eu não tentei ser diferente; eu era diferente, principalmente por causa das circunstâncias. Naquela época eu pensava que era comunista, mas "reformista". Na verdade, estava cada vez mais influenciado pela propaganda Ocidental e estava perdendo a minha cabeça.

 

Para avançar rapidamente, eu enviei o meu primeiro livro de poesia para o ocidente e, a dada altura, fui ordenado a deixar o país. Afinal de contas, eu tinha cidadania soviética e as autoridades checoslovacas viam-me como um embaraço. Não sabiam o que haviam de fazer comigo.

 

Depois de uma dramática travessia à boleia de metade da Europa, passei algum tempo em Itália. E depois, muito rapidamente, consegui obter asilo político e mudei-me para Nova Iorque.

 

Estudei cinema. Trabalhei simultaneamente como intérprete. A minha primeira mulher foi uma pianista extremamente talentosa de Houston.

 

Logo desde o início, apercebi-me que tinha sido doutrinado e que a realidade do Ocidente era totalmente diferente do que eu ouvira nos seus meios de propaganda.

 

Eu estava rodeado por colegas na Escola de cinema da Universidade de Columbia, quando ocorreu o primeiro ataque contra a Líbia. Foi-me prontamente explicado o que se estava a passar. Enquanto vinha do Campus Leste da Universidade de Columbia, pude ver, à noite, fogueiras a arder por todo o Harlem. Isto foi antes de Harlem se ter transformado num bairro de classe média, antes dos pobres terem sido forçados a mudar-se. Era o verdadeiro Harlem. Eu costumava estar lá o tempo todo, num antigo clube de jazz chamado Baby Grand, bebendo com locais, aprendendo sobre as suas vidas.

 

BM: O que o levou a sair da toca do diabo, os EUA, e tomar o lado do povo? Por que razão escolheu o caminho mais difícil?

AV: Durante esses anos eu vi a verdadeira América. Viajei muito e, acima de tudo, foi-me permitido ver o que era de facto esse "maravilhoso" capitalismo. A minha primeira mulher era de uma família muito rica. Estavam no negócio do petróleo. Se eu tivesse querido, podia ter tudo o que desejasse. Nunca o fiz. E vi com muito clareza como esse mundo funcionava. Imagine: uns anos antes, os vizinhos da sua família tiveram a Lady D como au pair. E coisas do género...

 

Ainda não estava pronto para realizar filmes. Escrevi o meu primeiro romance, em checo, e comecei também a "ganhar dinheiro" como intérprete. E foi aí que eu "vi tudo", durante esses anos em que a União Soviética se desmoronava e o Ocidente tentava roubar praticamente tudo o que podia.

 

Eu presenciei essas negociações por telefone, nas quais a totalidade de grandes cidades soviéticas estavam sendo "privatizadas" e navios científicos soviéticos, orgulhos da nação, eram vendidos como sucata a empresas alimentares multinacionais para poderem ser usados na pesca de lagostas em águas profundas algures ao largo da costa do Chile e do Peru. Traduzi e, por isso, estive presente em reuniões à porta fechada. Nunca imaginei que tal cinismo e tal degeneração moral pudessem existir. Era o capitalismo completamente a nu. As antigas repúblicas soviéticas, mas também a antiga Checoslováquia, estavam a ser completamente limpas. E eu vi o que ninguém era suposto ver.

 

Pagavam bem pela "tradução de alto nível". Naquela época, os honorários andavam entre os 500 e os 1000 dólares por dia mais despesas. Mesmo que "apenas" traduzindo, eu sentia-me imundo, enojado comigo mesmo e com o mundo.

 

Senti-me deprimido, com ideias suicidas. Não via razão nenhuma para continuar com este tipo de existência. Queria fugir. Precisava de fugir.

 

E no final, foi o que fiz. Separei-me da minha mulher. Abandonei tudo. E parti, quase sem nada (não dá para poupar nada em Nova Iorque, seja qual for o seu salário), para o Peru.

 

O Peru, naqueles dias, durante a chamada "Guerra Suja", era descrito por muitos como "o lugar mais triste da Terra". Era um lugar realmente despedaçado, sem esperança, perigoso e extremamente duro.

 

Cortei por completo com o passado. Eu precisava de um novo começo.

 

Eu sempre afirmei que, apesar de tudo, era comunista. Esta era a altura de o provar. Este era o momento de provar que eu ainda tinha espinha e bolas e algum coração onde eram supostos estar: à esquerda.

 

BM: Como lidou com isso tudo depois de rejeitar os EUA e a sua política? Como sobreviveu? Deve ter sido cá uma luta!

AV: Primeiro foi duro, muito duro. Mas sempre acreditei que podia escrever, fazer filmes, e que podia fazê-lo bem.

 

Mas, está ver, as minhas decisões foram tomadas por razões morais. Eu não rejeitei o sistema ocidental e o seu imperialismo porque "eu não podia lá chegar". Pelo contrário: "eu cheguei lá", eu cheguei lá por "demais, à grande". Eu tinha tudo com que a maioria dos imigrantes só podiam sonhar e mais, muito mais. Mas precisamente isso, o que os outros apenas podiam desejar, deixou-me doente e enojado com a própria vida.

 

Não foi apenas a rejeição dos EUA; eu rejeitei o Ocidente na sua totalidade, principalmente a Europa. Vejo e sempre vi a Europa como a raiz de todos os problemas (e horrores) que o mundo enfrenta. Os EUA são apenas a descendência que a Europa deixou. Uma versão vulgar e musculada. Mas a verdadeira essência do mal por detrás deste global projecto colonialista ocidental tem origem na Europa. Até os crimes mais terríveis cometidos no território dos EUA foram cometidos pela primeira e segunda geração de europeus: o holocausto contra os povos indígenas e a introdução da escravatura.

 

Você pode claramente constatar esse padrão ainda hoje: quase toda a propaganda anti-russa é criada e produzida no Reino Unido. O mesmo se aplica a toda a narrativa neocolonial.

 

Mas, voltando à sua pergunta e às minhas dificuldades enquanto lutava contra o imperialismo ocidental, eu nunca vi a minha escolha como um sacrifício. É um grande privilégio, uma honra, lutar contra o Ocidente colonialista. Eu confronto sobretudo a sua narrativa de lavagem cerebral, em todos os continentes e em todos os cantos do mundo. É uma grande luta e eu adoro levá-la avante. 

 

Com frequência sinto-se traído, inclusive abandonado, por alguns dos meus camaradas (embora nunca por pessoas como você, Binu). Às vezes sucumbo de exaustão ou ferido. Mas nunca me arrependo de ter enveredado por este caminho. É minha obrigação lutar por um mundo melhor, um mundo socialista. Nunca o vejo como um sacrifício.

 

BM: Qual foi o seu primeiro projecto anti-imperialista, depois de ter saído do "império"?

AV: Como mencionei anteriormente: o Peru. Mas o Peru não foi apenas Peru. Trabalhei também, de forma intensa, na Bolívia, no Equador e no Chile pós-Pinochet. Eu rapidamente entendi e comecei a descrever o que foi feito aos povos nativos da América Latina. Eu vi e entendi que a riqueza do Ocidente se baseia na pilhagem dos outros. Eu entendi o quão incríveis são as culturas "pré-colombianas" das Américas.

 

2018, Cidade do México - com Irma Sandoval,  Ministra da Administração Pública

André Vltchek – Colonia Dignidad, Chile, fotografia de Alejandro Wagner

Com Eduardo Galeano

BM: Trabalhou longos anos na América Latina. Pode-nos contar mais sobre o seu trabalho ali?

AV: Eu fiz muito por lá, em praticamente todos os países de língua espanhola, mais o Brasil e as Caraíbas. Entre outras temas, eu cobri as guerras no Peru e na Colômbia, mas sobretudo as grandes lutas revolucionárias na Venezuela, na Bolívia e no Equador. Volto sempre a Cuba, periodicamente, país esse que é meu lar intelectual e emocional. Escrevi muito sobre o Brasil durante os governos de Lula e de Dilma, percorrendo esse enorme país. Investiguei os "Arquivos do Terror" deixados pela ditadura de Strossner no Paraguai. Trabalhei com o grande escritor uruguaio Eduardo Galeano, autor de "As Veias Abertas da América Latina" e, no Chile, trabalhei para expor a colónia nazi alemã "Colonia Dignidad". Escrevi sobre os horríveis gangues na Guatemala, El Salvador e Honduras, e escrevi sobre as consequências do ataque dos EUA contra o Panamá, particularmente na cidade de Colón. E passo muito tempo no México... a minha última visita foi em Setembro de 2018, depois de AMLO ter ganho as eleições e os mexicanos terem escolhido o seu primeiro governo de esquerda em décadas. Durante três semanas filmei por todo o país, de Tijuana a Merida, e no Iucatão.

 

No total, passei cerca de 5 anos na América Latina.

 

Filmando num campo de refugiados somalis no Quénia

Zona de guerra, Goma, R.D. do Congo

No Quénia, durante o impasse em torno de Al-Shabaab


BM: Você também trabalhou em África. Pode nos contar algo sobre o trabalho que lá produziu?

AV: África é o continente mais sofrido da Terra.

 

O mundo inteiro sofreu com o imperialismo ocidental e com a sua pilhagem, mas a África é "única", porque em nenhum outro lugar, durante a história moderna, a brutalidade dos ocidentais atingiu níveis tão elevados. Bom, com excepção, talvez, para o Sudeste Asiático.

 

Eu andava nas favelas mais difíceis do Quénia e do Uganda a filmar para a Telesur, um canal de televisão da América Latina. Realizei um documentário sobre o horrífico campo de Dadaab, construído no meio do deserto, destinado principalmente a refugiados somalis. Produzi e dirigi o meu grande documentário de 90 minutos "Ruanda Gambit", cobrindo o modo como o Ocidente criou uma narrativa absolutamente falsa sobre o genocídio do Ruanda e como o Ocidente se mantém em silêncio sobre um dos mais monstruosos genocídios de todos os tempo, o da República Democrática do Congo (RDC), onde o Ruanda e o Uganda, em nome do Ocidente, têm vindo a pilhar esse país rico em minérios. A RDC tem tudo, do coltan ao urânio, do ouro aos diamantes. Desde a invasão do Ruanda, já morreram cerca de 9 milhões de congoleses.

 

BM: Eu acho que você tem um caso amoroso com a Ásia. Viveu longos anos na Ásia e trabalhou em prol da Ásia, especialmente na Indonésia. Como é que isso aconteceu?

AV: A Ásia é a minha casa. Culturalmente sou asiático e parte do meu sangue vem de lá.

 

Adoro a China, mas também me sinto muito confortável no Japão e noutros países.

 

A Indonésia definitivamente não é um deles. Não vivo lá nem poderia fazé-lo, aliás, preferiria morrer. Sinto-me tão horrorizado com a Indonésia que escrevo com frequência e faço filmes sobre esse país. Faço-o como um aviso ao mundo. Estou na Indonésia por razões totalmente opostas ao "amor": depois de 1965, este que é o quarto país mais populoso da terra, foi transformado pelo Ocidente num enorme laboratório. A Indonésia não é um país, é um "conceito".

 

Antes de 1965, sob o governo do anti-imperialista Presidente Sukarno, a Indonésia era um país progressista, berço do Movimento dos Países Não Alinhados. Todos os recursos naturais se encontravam nacionalizados.

 

O Ocidente derrubou Sukarno no golpe mais sangrento do século XX. Entre 1 e 3 milhões de pessoas foram massacradas, e rios foram entupidos com cadáveres de membros do Partido Comunista (PKI), intelectuais, professores, sindicalistas.

 

Chamo-o de "Hiroshima intelectual". O Ocidente sugeriu que todos os teatros e estúdios de cinema fossem fechados, que as línguas chinesa e russa fossem banidas, juntamente com a ideologia comunista. Quase todos os escritores e pintores foram presos no campo de concentração de Buru.

 

Violações em massa tiveram lugar por todo o arquipélago.

 

Aqueles que pensavam foram assassinados ou silenciados para sempre. No seu lugar, injectou-se e promoveu-se pop barato, filmes de Hollywood e junk food. Em muitos aspectos, a cultura indonésia deixou de existir e sua diversidade foi aniquilada.

 

A Indonésia cometeu, com uma grande ajuda do Ocidente, três genocídios em pouco mais de meio século: o genocídio de 1965, depois o de Timor Leste e agora o genocídio em curso na Papua Ocidental.

 

A nação tornou-se extremamente religiosa, opressiva e dogmática. Ao mesmo tempo, esta nação de mais de 300 milhões (estatísticas oficiais mentem, colocando o número de habitantes em cerca de 250 milhões) não tem nenhum grande escritor, cineasta, pensador ou cientista.

 

Todos pensam o mesmo (da forma que supõem "pensar"): amam o capitalismo, odeiam os comunistas, vêem a destruição dos seus próprios recursos naturais como "progresso", todos ouvem a mesma ultrapassada música pop ocidental, assistem todos às mais patéticas produções de Hollywood, bem como aos filmes de terror locais e têm o mais baixo número de leitura de livros per capita.

 

Eu tento explicar e analisar o que lá aconteceu. Eu estou simultaneamente filmando dois grandes documentários: um sobre a total destruição da natureza, na terceira maior ilhas da terra, o Bornéu (conhecido na Indonésia como Kalimantan), e um outro sobre o colapso de Jacarta, que é agora a mais poluída e talvez uma das mais "inabitáveis" grandes cidades do planeta. É claro que o faço sem qualquer financiamento visto que, no Ocidente e no Sudeste Asiático, a Indonésia é "intocável". Esta faz exactamente o que o Ocidente quer que ela faça: sacrificar centenas de milhões do seu povo, bem como a sua natureza, para que a população Ocidental possa prosperar. E portanto, quase nunca é criticada.

 

É isto que eu tenho a dizer sobre a Indonésia. 

 

No geral, eu amo a Ásia. Ela é minha casa, sobretudo o norte da Ásia. China, Japão, Coreia(s) e o "Extremo Oriente" russo.

 

O Sudeste Asiático é uma história completamente diferente. É uma poderosa "história negra" que continuo a documentar. Sofreu enormemente nos últimos 60 anos: Vietname, Laos, Cambodja, Timor Leste, Papua Ocidental, Indonésia, até mesmo a Tailândia. Tem sofrido precisamente por causa do imperialismo ocidental. Mas as pessoas foram condicionadas a não ver, a não compreender o que lhes foi feito. E portanto eu lá trabalho, escrevendo livros e produzindo filmes. Alguém tem de o fazer...

 

BM: Você também é correspondente de guerra. Deve ter tido muitos eventos memoráveis como correspondente de guerra. Alguma coisa em particular que queira partilhar connosco?

 

AV: Sim. Mas a guerra está em todo o lado, não apenas naqueles poucos lugares onde é oficialmente reconhecida.

 

Mas claro, trabalhei no Afeganistão, na Síria, no Iraque.

 

Mas também trabalho em Caxemira ou nas favelas mais duras de África, em terras da América Central controladas por gangues, ou em Gaza. Estas são também zonas de guerra. A guerra é onde a justiça, incluindo a justiça social, entrou em colapso onde foi destruída.

 

Concordo plenamente com o que Hemingway escreveu uma vez: "há dois tipos de escritores: aqueles que foram para a guerra e aqueles que têm inveja deles.”

 

Visto que guerra existe em quase todo o lado, um escritor que não esteja em contacto com ela é um mentiroso.

 

A guerra é a realidade. É terrível, mas quando se luta pela justiça e pela liberdade, é muito melhor do que uma falsa paz criada pelos colonizadores ocidentais. Nesse tipo de "paz", estão presentes todos os índices de saúde e esperança média de vida típicos de uma zona em guerra. Violações, ferimentos... tudo como numa zona de guerra.

 

Os propagandistas ocidentais criaram um muito perigoso "culto da paz". Para o Ocidente, a paz é quando um país sacrifica totalmente os seus recursos naturais e o seu povo, povo entretanto submisso e resignado, e tudo isto em prol das corporações e dos cidadãos ocidentais.

 

Na América Latina dizem frequente e muito correctamente: sem justiça não há paz!

 

BM: Você trabalhou com Noam Chomsky num livro e num documentário. Pode dizer alguma coisa sobre este homem lendário? Algum segredo sobre a pessoa de Chomsky?

AV: Noam adora rosas. E bom vinho. E, na sua essência, ele é um homem muito gentil, com grande sentido de humor.

 

É pena que ultimamente estejamos em desacordo sobre a Rússia, a Síria e a China, por exemplo.

 

Mas respeito uma grande parte do seu trabalho e devo dizer que ele fez muito, fez muito pela nossa humanidade e por este planeta.

 

BM: Noam Chomsky disse, sobre o seu livro Oceania, que lhe evoca "a realidade do mundo contemporâneo". Ele também não deixou de delinear a dolorosa (em particular para o Ocidente) realidade vergonhosa das suas raízes históricas. Algum comentário sobre isto?

AV: Noam gentilmente apoiou vários dos meus livros e até escreveu prefácios.

 

Quando à escrita de Noam e àquilo que você apelida de "realidade vergonhosa das suas raízes históricas", ele é particularmente duro quando descreve a conquista do "novo mundo", sobretudo aquilo que é hoje chamado de América Latina, mas também os Estados Unidos e o Canadá. Creio que a sua escrita sobre estes assuntos abriu os olhos a milhões de pessoas em todas as partes do mundo.

 

BM: Você escreve muitos livros sobre história, política contemporânea, filosofia, ficção, etc. Qual dos seus livros teve melhor recepção?

AV: O livro mais aclamado pela crítica é a minha ficção revolucionária Point of No Return. Até recebeu críticas muito positivas dos críticos mais temidos do Le Monde, Le Figaro e Paris Match.

 

Outro grande sucesso tem sido o meu livro de 840 páginas Exposing Lies of the Empire, um livro que compila o meu trabalho de investigação em todos os continentes e que conta onde anda o imperialismo roubando, destruindo e manipulando as pessoas. Está escrito num estilo completamente novo e experimental, mas foi muito bem recebido pelos leitores: algures entre o romance e a ficção política, entre a filosofia e o jornalismo.

 

É claro que o meu livro com Noam Chomsky sobre Terrorismo ocidental: De Hiroshima À Guerra de de Drones tem estado muito bem e foi traduzido em cerca de 35 línguas (na verdade, já perdi a conta).

 

BM: Você é também um realizador de documentários. Como é que salta de autor para cineasta tão facilmente?

AV: Na verdade não o faço. Faz tudo parte de uma enorme luta contra o imperialismo ocidental e pelos brilhantes dias do comunismo global, não é?

 

O meu trabalho é como um enorme mosaico e como uma grande batalha. Uso armas diferentes, como uso várias maneiras de me expressar. Pode ser através de romances, de jornalismo de investigação, de filosofia, de livros não-ficcionais, de filmes, de fotografias, mas também com entrevistas que eu constantemente dou, ou falando em público ou nas principais universidades.

 

BM: Você viajou por 160 países ao redor do mundo. Em que país preferirá residir quando se reformar? É óbvio que sei que é um lutador que nem sequer pensa em se reformar.

AV: Certíssimo, numa me reformarei. Esse seria o meu fim.

 

A minha história é a minha vida; a minha jornada é a minha história.

 

A revolução é chamada de "processo" em muitos países da América Latina. É uma jornada contínua, não pode jamais terminar. Se alguém está cansado desta jornada, esse alguém está farto do mundo e da própria vida.

 

Sobre onde viver, se eu pudesse escolher? Ficaria surpreendido, pois não teria nada a ver com a minha luta revolucionária:

 

Bem, não necessariamente, porque um dos países seria a minha amada Cuba.

 

Outro seria o Japão. De facto, vivo lá desde há muitos, muitos anos. Ou, mais precisamente, é um dos países onde tenho vivido, uma das minhas "bases" até agora. É claro que o Japão tem uma política externa absolutamente aterradora, mas admiro a sua cultura, a sua natureza, a poesia, a literatura, o cinema, a comida. Viajo para todos os cantos, sinto-me seguro no Japão e escrevo bem quando lá estou.

 

No Chile

E o Chile. Vivi lá, por diversas ocasiões, cerca de 4 anos no total. E, mais uma vez, o Chile tem uma natureza deslumbrante, uma profunda cultura, uma incrível poesia, literatura, excelente comida e vinho.

 

BM: Visto que viajou por todo o mundo, que país você acha que está fazendo o melhor pelos seus cidadãos?

AV: Na verdade, há duas perguntas escondidas dentro da sua pergunta:

 

Primeira: que país está fazendo o melhor pelos seus cidadãos, à custa dos países pilhados e colonizados? A resposta a essa pergunta seria, sem dúvida, quase toda a Europa.

 

Segunda: que país está fazendo o melhor pelos seus cidadãos sem pilhar o mundo? A resposta é: Bolívia, Cuba, China, Rússia, Irão, Coreia do Norte (na medida do possível), Venezuela (na medida do possível, tendo em conta o terror lá implementado desde o exterior.)

 

BM: Qual é a sua ideia para acabar com a fortaleza do imperialismo?

AV: Não se pode negociar com o fascismo nem com o imperialismo.

 

Os países oprimidos e pilhados têm de se unir e lutar.

 

A primeira ronda já foi ganha no passado. Por exemplo, a heróica nação vietnamita, militarmente, derrotou quer os colonizadores franceses quer os imperialistas norte-americanos.

 

Mas, depois, os imperialistas ocidentais voltaram a reagrupar-se. Encorajados primeiro pela divisão bem sucedida entre a China e a União Soviética e depois pela ruína da União Soviética sob o comando daquele imbecil Gorbachev e daquele alcoólico criminoso Iéltsin, arrebataram de novo o que haviam perdido, gritando "Paz, Paz!", que significa "não se atreva a lutar contra nós, apenas aceite e submeta-se!”

 

Os imperialistas podem ser derrotados. Isto mesmo foi claramente demonstrado na Síria e, agora, tanto a China como a Rússia estão firmes, enfrentando ameaças, provocações, sanções e intimidações ocidentais.

 

Nunca se deve mostrar fraqueza quando confrontado com o terror ocidental.

 

Vejam o planeta; veja o que aconteceu com os países que se renderam, que se ajoelharam; veja todo esse horror na Indonésia, na África Oriental, no Médio Oriente, no Sudeste Asiático. Olhe para a Índia desde que começou a idolatrar o fundamentalismo de mercado. É este o mundo que queremos? Se não é, então há que unir todas as forças anti-imperialistas.

 

E não deveremos nunca esperar que o público ocidental se junte a nós. O público ocidental estragou-se, mimado de privilégios, e já não tem esquerda nenhuma, apenas auto-bajulação e choradeiras em clubes de discussão. Os países que lutam verdadeiramente contra o imperialismo ocidental quase não têm aliados no Ocidente.

 

Na Índia com Arundhati Roy

BM: Como é que vê a ascensão de líderes autocráticos como Trump nos EUA, Modi na Índia ou Bolsonaro no Brasil? Achas que há um padrão? Alguma corrente subjacente?

AV: Sim. Em nações onde reina a confusão, onde os mestres ocidentais, os meios de comunicação de direita e os sistemas de educação fabricam, com sucesso, obedientes e egocêntricos "elites" sem escrúpulos, que mais se pode esperar? Eles vilipendiaram a esquerda, colocaram partidos e movimentos de esquerda sob total vigilância e lavaram os cérebros dos eleitores ou pelo menos confundiram-lhes as ideias. 

 

Acreditem ou não, a grande maioria das pessoas, mesmo nos países governados por governos de esquerda como o Brasil ou o Equador, quase não tinha acesso a meios de comunicação de esquerda. São horríveis meios de propaganda, como a CNN em espanhol ou a FOX em espanhol, que "informam" as pessoas. No Brasil, a situação era igual ou pior.

 

Durante anos, eu fui chamando a atenção para este problema. A esquerda tem de "investir" nos seus meios de comunicação, na educação e até em meios de contra-propaganda.

 

Eu falei muito com Chomsky sobre esta questão. Ele entende muito bem o que se passa. No nosso livro, eu contei como fui vítima de lavagem cerebral, quando era criança, realizada por estações de rádio e televisão pró-ocidentais e pró-imperialistas. E, claro, não sou só eu: todos correm perigo, na Síria e no Irão, na China e na Rússia, em toda a América Latina.

 

Portanto, temos de nos unir, temos de duplicar os nossos esforços e fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para contar a nossa versão da história.

 

E temos de interligar os nossos esforços. Como esta entrevista: adoro fazê-lo. Um meu irmão indiano e eu, um internacionalista soviético educado com pensamento cubano, trocando ideias! Pública e francamente.

 

BM: As alterações climáticas e a crise de recursos estão a conduzir o mundo ao colapso. Acha que o mundo ainda pode ser salvo? Quais são as suas sugestões?

AV: Pode ser salvo mas, uma vez mais, somente se o imperialismo e o neocolonialismo forem destruídos.

 

O melhor exemplo é a Indonésia e o filme que estou fazendo sobre a destruição da Ilha de Bornéu. No ocidente, as pessoas, para se sentirem bem, desligam todas as luzes quando saem da sala e desligam a água. Mas as suas empresas estão pilhando o pouco que resta da floresta tropical nativa e arrasando montanhas inteiras.

 

Devido à sobre-produção ocidental e ao seu excesso de consumo, a totalidade de nações insulares da Oceânia estão se tornando inabitáveis.

 

O que é necessário é repensar toda a "ordem mundial". Será que precisamos realmente de crescimento económico? Ou devíamos nos focar em redistribuição?

 

E vem aí a China! Apesar daquilo que as pessoas são levadas a acreditar (mais uma vez, pelos meios de propaganda ocidentais), a China está na vanguarda da luta pela chamada "civilização ecológica". Sei muito sobre isso, porque estou trabalhando com o grande filósofo John Cobb Jr., o qual tem uma enorme influência na liderança chinesa, inclusive na sua histórica decisão de incluir a civilização ecológica na sua constituição. Juntos, estamos neste momento a escrever um livro sobre o tema. A China está intencionalmente a abrandar o seu crescimento económico, está a regressar à sua sabedoria tradicional e conseguiu também inverter a migração do campo para as cidades, melhorando grandemente a vida rural. O livro estará disponível em menos de um mês.

 

Lémure em cima de mim, Madagáscar

BM: É feliz?

AV: Sim. Completamente. Mesmo quando estou todo fxxxxo e mal me consigo mexer.

 

Sou um lutador, um internacionalista, um comunista. Estamos a ganhar. Devagar, muito devagar, mas a ganhar.

 

A jornada é dura, é perigosa. Mas não quero outra viagem nem qualquer outro destino.

 

A minha vida não é perfeita, mas não a trocaria por outra. Faço o meu melhor. E adoro a minha vida do jeito que é.

 

E adoro histórias. Sem boas histórias, não há vida. Ao longo da viagem, da estrada, há milhões de histórias. Estas definem e ilustram a nossa espécie humana. Com base nestas histórias, há uma grande luta revolucionária incendiando uma vez mais o nosso planeta.

 

Os imperialistas querem que esqueçamos as histórias. Querem que vivamos de histórias pré-fabricadas de Hollywood e da Disney. É nosso dever contar as histórias reais, porque elas são muito mais bonitas do que as geradas por computador e são verdadeiras.

 

É por isso que crio, escrevo e filmo. Sem histórias não há revolução!

 

E quanto mais eu ouço, vejo e crio, mais feliz fico.

 

André Vltchek, 4 de Dezembro de 2018

 

Traduzido para o português por Luís Garcia

Versão original em inglês aqui.

 

André Vltchek é um filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação. Cobriu e cobre guerras e conflitos em dezenas de países. Em português, Vltchek vem de publicar o livro Por Lula

 

Fotos de André Vltchek.

 

 

 

 

 

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