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Pensamentos Nómadas

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Os EUA abandonando a terrorista-ISIS-curda colonização da Síria, a sério?, por Luís Garcia

31.12.18 | Pensamentos Nómadas

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Luís Garcia  POLITICA  Sociedade

 

Comecemos pelo início: qualquer pessoa com algumas neurónios a funcionar, honesta e com conhecimento, deveria estar 100% seguro do facto que o ISIS é uma criação dos EUA e que, quando John Kerry mencionou a necessidade de um plano B, ele não estava a brincar.

 

Falemos do Plano B e do Plano A. E falemos também do Plano C que estará sendo implementado agora mesmo. Mas, por favor, primeiro assista a este vídeo sobre o conflito na Síria, de forma a tornar mais fácil a compreensão deste artigo:

 

 

Para ter um Plano B, primeiro você precisa de ter tido um A: inundar a Síria com grupos terroristas compostos por mercenários internacionais pagos pelo Ocidente e os estados do Golfo... e grupos terroristas "rebeldes" compostos por mercenários internacionais pagos pelo Ocidente e os estados do Golfo. Este plano falhou, como bem sabemos. 

 

Um Plano B era necessário se o Império Norte-Americano quisesse levar até ao fim o seu plano de terrorismo-colonização da Síria: derrubar Assad e transformar a laica multi-étnica e multi-confessional Síria num conjunto de estados fantoche falhados, etnicamente homogéneos, onde reinaria o caos, a miséria, a tortura e a violação, e onde psicopatas genocidas reinariam em total impunidade, desde que petróleo e gás roubados fossem continuamente bombeados para as mãos do Império Ocidental.

 

E o Plano B baseava-se em ordenar ao ISIS que cometesse genocídios de curdos no leste da Síria e publicitá-los o mais possível. Os genocídios de assírios, caldeus e outros, às mãos dos invasores curdos (curdos do Iraque e curdos da Turquia), foram todos Orwellianamente removidos dos livros ainda por escrever no patético mundo ocidental.

 

Como já não lhes é possível vender invasões directas de países à plebe norte-americana e mundial, os EUA e seus estados vassalos tentaram e falharam uma guerra de procuração contra a Síria, composta pelo Exército de Libertação Sírio (FSA, na sigla inglesa) e as suas 50 sombras de terror: o tal Plano A.

 

O Plano B começou pela desejada criação de massacres de curdos às mãos do ISIS, renomear cidades árabes sírias com nomes curdos inventados (de forma vergonhosa, Ayn al-Arab passou a Kobanî, etc.), inundar os mentirosos média ocidentais com esses massacres e então, finalmente, jogar a "cartada humanitária".

 

Cartada humanitária, neste contexto, significa: "Não, nós ocidentais não vimos para invadir, colonizar e pilhar a Síria, nós vimos para libertar os curdos do terror imposto pelo ISIS. 

 

E assim fizeram, e a plebe ocidental engoliu a trapaça. E a ignorante plebe ocidental assimilou esse absurdo conceito de um estado curdo a ser construído sobre terra síria na qual há menos curdos do que na Alemanha, para dar um exemplo!

 

Estado terroristas como os EUA, o Reino Unido e a França ocuparam todo o território sírio a leste do Rio Eufrates, onde historicamente não há curdos, com excepção para duas faixas de cidades e vilas junto à fronteira com a Turquia. Tudo o resto, mais para sul, é deserto repleto de petróleo e gás para ser roubado, uma miríade de grupos étnicos massacrados pelos "bons" curdos e cidades como Raqqa para serem bombardeadas de volta à Idade da Pedra pelos "civilizados" franceses, britânicos e norte-americanos.

Mentira curda

*

Se você ainda se pergunta sobre o quão falsas são as Forças Democráticas Sírias (FDS) e sobre quanto os média mainstream lhe lavaram o cérebro com as "pobres vítimas" curdos do lesta da Síria, assista a este vídeo no qual uma alta-patente das forças armadas dos EUA. de forma espantosamente honesta, explica como transformaram a imagem dos inimigos "terroristas" do PKK curdo em amicíssimos "democratas" curdos das SDF, admitindo ele próprio que PKK e SDF são a mesma coisa: 

 

(Assi ao discurso completo aqui.)

*

Existem maneiras incrivelmente fáceis de desmentir a reivindicação ocidental de que os EUA (e seus estados vassalos) são quem combate o ISIS. E existem maneiras incrivelmente fáceis de provar, com toda a clareza, que o ISIS é uma criação dos EUA e que é uma peça norte-americana no bélico e imperialista xadrez que jogam.

 

PRIMEIRO, como é que se explica que o ISIS tenha durante anos permanecido pacificamente na mesma área rodeada por Israel (the facto Monte Golã sírios ocupados por Israel), Jordânia (um estado vassalo dos EUA) e uma zona síria controlada pelos "rebeldes" do FSA e, depois, quando o bravo Exército Árabe Sírio limpou com o terror do FSA dali para fora, em 2018, poucas semanas depois, a zona controlada pelo ISIS foi também completamente limpa?

 

Os sírios, apoiados pelo Ézbolá, Irão e Rússia, fizeram em poucas semanas o que os EUA, Israel, NATO e o FSA patrocinado pelo ocidente não puderam fazer? Ou não quiseram fazer? Veja:

 

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(vermelho - sírios; preto - ISIS; azul - Israel; verde: "rebeldes" terroristas do FSA)

 

SEGUNDO, por que razão, a 17 de Setembro de 2016, a coligação liderada pelos EUA realizou 37 ataques aéreos sobre a cidade Deir-ez-Zor (no leste da Síria), matando entre 90 a 106 soldados sírios e ferindo mais de 110, destruindo uma grande parte da infra-estrutura do aeroporto e da base militar, e destruindo uma enorme quantidade de equipamento militar (incluindo aviões de guerra)?

 

Por que razão os EUA bombardearam Deir-ez-Zor em sincronia com avanços do ISIS por terra conta uma cidade sírio cercada pelo ISIS? Os EUA tinham pedido permissão à Rússia para "bombardear posições do ISIS" vários quilómetros a sul dessa cidade mas, vá se lá perceber como, a super-hiper-tecnológica máquina de guerra norte-americana, com montanhas de tecnologia super-avançada, falharam o alvo, não por vários metros, mas sim por vários quilómetros? E, enquanto os EUA continuavam falhando o seu alvo (das 15h55m às 16h56m, hora de Damasco), os canais de comunicação entre os EUA e a Rússia, por coincidência, ficaram todos avariados, de modo que as autoridades russas não tiveram forma de alertar a primitiva força aérea dos EUA de que estes estavam falhando o seu alvo com um erro de vários quilómetros e que, "ups", estavam atingindo a única cidade controlada por sírios no meio de um oceano de ISIS. 

 

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TERCEIRO, compare os avanços sírio-russos contra o ISIS, com os "avanços" da NATO/FDS contra o mesmo ISIS, de Maio a Setembro de 2017:

 

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Enquanto NATO-FDS se mostravam completamente congeladas, o Exército Árabe Sírio (SAA na sigla inglesa) e seus aliados reconquistaram dezenas de milhares de quilómetros quadrados. A NATO (EUA) parecia contente com a situação, vivendo pacificamente lado-a-lado com o ISIS era algo de positivo para o Império, desde que o ISIS continuasse a atacar as SAA, a destruir infra-estrutura síria e a roubar petróleo sírio.

 

QUARTO, as FDS-NATO impediram as SAA de entrar em Raqqa, e cercaram Raqqa, e destruíram por completo Raqqa. As FDS-NATO cercaram Raqqa, não para libertar esta cidade, mas sim para a roubar, para a roubar a tempo do vitorioso Exército Árabe Sírio (SAA) que marchava a ritmo acelerado rumo a Raqqa. E, depois do cerco, O Exército Terrorista Francês, o Exército Terrorista Britânico e o Exército Terrorista Norte-Americano divertiram-se à grande destruindo Raqqa de volta para a Idade da Pedra.

 

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QUINTO,  os invasores das FDS-NATO por norma hibernando tranquilamente, acordaram por fim quando as SAA acabaram com o horrendo cerco de 3 anos que Deir-ez-Zor sofria. Com esta cidade sobe total controlo do SAA, e com o SAA expandido a sua presença ao longo do lado ocidental do Rio Eufrates, os invasores norte-americanos decidiram que era necessário actuar. Para os EUA (FDS-NATO), haver ISIS controlando o triângulo sul rico em petróleo, no lado oriental do mesmo rio, deixou de ser uma boa jogada de xadrez. 

 

E portanto, no dia 10 de Setembro de 2017, os EUA (FDS-NATO) avançaram 65 km em menos de 12 horas, oficialmente ganhando controlo sobre o território sírio rico em petróleo sem enfrentar qualquer resistência por parte do ISIS. Nada de resistência, nada de combates, nada de feridos ou mortos. Que maravilha! Em menos de 12 horas o Império Norte-Americano conseguiu, de forma absolutamente pacífica, trocar bandeiras pretas por bandeiras amarelas. E o ignorante e totó mundo ocidental engoliu esta trapalhice!

 

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*

Sírios e aliados removeram o ISIS de dezenas de milhares de quilómetros quadrados em poucos meses, sofrendo enormes baixas.

 

A adormecida NATO-SDF arranjou maneira de avançar 65 km em 12 horas sem qualquer resistência de membros do ISIS e sem sofrer nenhumas baixas. 

 

E depois, o que aconteceu?

 

Desde então, de Novembro de 2017, até hoje, o ISIS continua controlando meia-dúzia de vilas e aldeias no lado leste do Rio Eufrates.

 

Como assim?

 

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Sírios e seus aliados não podem acabar o trabalho de limpeza contra o ISIS porque os EUA não os deixa atravessar o Rio Eufrates. Os EUA, de forma absolutamente criminosa, destruiu todas as pontes sobre esse rio, de propósito. E, esse mesmo agressor norte-americano, abate todo e qualquer caça sírio que, de forma absolutamente legal, tente entrar em espaço aéreo sírio a leste do Rio Eufrates para combater o ISIS. 

 

E, portanto, em que ficamos? Só o Império Norte-Americano é que tem o direito de "combater" o ISIS a leste do Rio Eufrates. Só que não o fazem. Ah não, garantidamente não o fazem!

 

A bizarra e absurda verdade é que, desde Novembro de 2017 até hoje, durante 13 meses, a maior e mais poderosa máquina de guerra jamais criada em toda a história da humanidade não foi capaz de derrotar meia-dúzia de membros do ISIS vivendo em meia-dúzia de aldeias completamente cercadas! E vocês, ignorantes cidadãos dos EUA, vocês engolem esta treta. E vocês, "bem informados" europeus, vocês também engolem esta treta.

 

No Ocidente, no Orwelliano Ocidente, tal como no livro 1984, "branco é preto, guerra é paz e os EUA combatem o ISIS".

Aqui está uma mapa onde se pode ver o minúsculo pedaço de terra onde vive a meia-dúzia de membros do ISIS acima citados:

 

ISIS corner

*

De todas as possíveis variações de desfechos relacionados com a retirada norte-americana e com a possível invasão turca do leste da síria, pode-se destacar 3 cenários potenciais:

 

No PRIMEIRO CENÁRIO, os EUA desiste pragmaticamente do seu projecto no leste da Síria: criar um falso Curdistão por detrás da Síria, actuando como uma Israel 2.0. Os EUA desiste porque o seu projecto está agora territorialmente encurralado. O Iraque derrotou o ISIS no seu próprio território; o Iraque desmantelou no ano passado a parte curdo-iraquiana desse Israel 2.0; A Síria ganhou a guerra que o Ocidente lhe infligiu; o Ézbolá está mais forte que nunca e governa o Líbano; Uma forte e agora experiente resistência contra o imperialismo americano-israelita estende-se agora desde o Líbano até ao Irão; Etc. 

 

Não faz portanto sentido, para os EUA, insistir em levar avante este falhado crime neocolonial. Para os EUA é preferível fazer um acordo secreto com a Rússia, de forma a poderem sair e deixar a Turquia fazer o que bem entender. O que quer que a Turquia faça, será a imagem da Turquia e não a dos EUA que será manchada. Ainda assim, sim, esta retirada "mancha" a imagem de Trump perante os ocidentais, pois é assim que insistem continuar a querer ver. Enfim. 

 

Este acordo secreto ente EUA e Rússia dependeria sempre do sucesso de um segundo acordo secreto entre a Rússia e a Turquia. 

 

 

Se tudo correr bem (para o sucesso deste cenário), a Turquia entra na Síria, jogando um hiper-maquiavélico papel duplo. Depois de ter sido um dos maiores (fulcral mesmo) agentes na guerra de procuração contra a Síria, a Turquia agora jogaria indirectamente no lado russo se, de facto, fizeram com a Rússia um acordo secreto como aquele que acabo de supor. 

 

Ou seja, no melhor dos mundos, para a Síria, a Turquia continuaria a desenrolar o seu  papel de apoiante do FSA (refiro-me à situação em Idlib e Afrin), ameaçando estender o controlo territorial do FSA sobre todo o território agora controlado pelas FDS-NATO

 

Isto porque a Turquia, enquanto membro da NATO, pode combater e esmagar curdos equipados com as mais modernas armas da NATO sem despoletar um conflito em larga escala. Sim, podem. Mas a Síria ou a Rússia não podem.

 

PRIMEIRO a) - A Turquia pode jogar este jogo e, de alguma forma, mais tarde, encontrar uma forma de fazer o que, no caso do primeiro cenário, já terá provavelmente sido prometido à Rússia (e, portanto, à Síria). A promessa a que me refiro seria: devolver política e diplomaticamente o leste da Síria à Síria, lá para meados de 2019.

 

PRIMEIRO b) - Ainda mais simples. O facto da Turquia ameaçar invadir o leste da Síria actualmente ocupado pelas FDS-NATO, mais o facto dos EUA estarem a preparar a sua retirada, poderia ser mais do que suficiente para os sírios forçarem os curdos a acabar com os seus estúpidos jogos independentistas e sentarem-se a negociar uma solução diplomática e pacífica que, de qualquer das formas, só poderá acabar de uma forma: curdos sírios abandonando por completo as armas; curdos não-sírios saindo do país que ocupam; governo sírio retomando controlo total das suas províncias orientais.

 

Neste cenário, se os curdos recusarem negociar, as hipóteses de vencerem um confronto militar com as muito experientes forças sírias (e forças suas aliadas) serão quase nulas. Os curdos terão de combater uma frente turca a norte e uma outra fronte síria ao longo do Rio Eufrates. É certo que têm recebido centenas de camiões da NATO cheios de armamento ligeiro e pesado, mas ter tudo isso e saber usar tudo isso são coisas bem diferentes. Além do mais, já não terão apoio da NATO, o que na prática significa que não mais terão serviços de informação nem força aérea para os apoiar. A Síria têm os seus próprios serviços de informação e a sua própria força aérea, e conta ainda com o apoio russo nas mesmas áreas.   

 

Voltando à Turquia, uma boa razão para este país jogar de acordo com o primeiro cenário, será a necessidade de construir o Turkish Stream, um projecto multi-bilionário em parceria com a Rússia para levar gás russo até à Europa, usando gasodutos construídos em território turco. E há que relembrar ainda a crítica situação económica da Turquia. E há que relembrar a sabotagem norte-americana à economia turca e as suas tentativas de piorar ainda mais a crise económica deste país

 

Uma boa razão para acreditar que a Turquia sob o regime de Erdogan respeitará este projecto, é o facto de Erdogan continuar insistindo na compra dos sistemas anti-mísseis, os famosos S-400 russos. 

*

SEGUNDO CENÁRIO: a Turquia poderia estar secretamente prometendo ajudar a Rússia (e, portanto a Síria) a recuperar as províncias de leste; a Turquia poderia estar secretamente prometendo ajudar os EUA a criar um género de Sunistão nas províncias de leste (leia o TERCEIRO CENÁRIO); e, no entanto, a Turquia poderia estar enganando ambos os lados.

 

O regime de Erdogan poderia simplesmente estar preparando para agir na pele de um Império Neo-Otomano, planeando invadir as províncias orientais da Síria (neste momento sob controlo das FDS-NATO), após a retirada das tropas dos EUA, e aí ficar, indefinidamente, colonizando esse território.

 

Existem perturbantes e conhecidos factos que corroboram esta teoria. Passo a enumerar alguns. Nas zonas de Afrin e de al-Bab, neste momento sob ilegal ocupação do exército turco (juntamente com grupos terroristas das FSA), a Turquia: 

  • Instalou uma rede de telecomunicações turca;
  • Está imprimindo e entregando bilhetes de identidade turco-FSA aos habitantes dessas zonas;
  • Está instalando escolas turcas com sistema de educação turco;
  • Está tentando comprar as mentes locais com o "moderno" estilo de vida turco;
  • Está lavando o cérebro a turcomenos sírios para que estes sejam leais à Turquia e não à Síria;
  • Trouxe turcomenos, uigures e terroristas de outros grupos étnicos túrquicos para colonizarem o norte da Síria;
  • Há retratos de Erdogan e bandeiras da Turquia um pouco por todo lado em Afrin e al-Bab.

 

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*

TERCEIRO CENÁRIO: A Turquia estaria, uma vez mais, jogando um jogo duplo, mas traindo a Rússia e trabalhando para o seu mestre norte-americano.

 

Depois de ter sido um fulcral agressor desde o início da guerra "civil" síria, lutando pelos seus próprios egoístas interesses e pelos os interesses dos EUA, a Turquia agora é, no geral, vista como o jogador que trocou de lado. Mesmo com as montanhas de contradições vindas desse país, o facto da Turquia agora encontrar-se frequentemente com oficiais iranianos e russos, leva muita gente a acreditar que a Turquia terá mesmo mudado de lado.

 

Mas, e se a Turquia estivesse a jogar de novo um jogo duplo? E se a Turquia estiver fingindo querer fazer parte de um processo político e militar para acabar com a guerra na Síria e, pelo contrário, estiver a ser um agente principal de um norte-americano Plano C para a Síria? Um Plano C centrado na criação de um ISIS-Sunistão ou de um FSA-Sunistão nas áreas ainda sob controlo das FDS-NATO?

 

 

Absurdo? Não tanto assim. Lembra-se do Iraque 2014? Lembra-se da "retirada norte-americana do Iraque"? Lembra-se da súbita ascensão do ISIS e seus afiliados no norte do Iraque? E de quão facilmente se apoderaram das armas que os EUA deixaram para trás "para as novas forças iraquianas"? E, depois de se apoderarem dessas armas, lembra-se do quão rapidamente o ISIS tomou controlo de uma grande parte do Iraque e da Síria? E de todas as conversas em torno de um Sunistão; da implementação de um conceito tipicamente ocidental: estados mono-étnicos e mono-religiosos como forma de melhor dividir e melhor reinar? E dos planos para dividir o Iraque, de forma a isolar os xiitas pró-Irão do resto do país?

 

Infelizmente, por que não outra vez?

 

Aqueles que tomam de facto atenção a esta agressão à Síria, já deveriam ter notado no acelerado ritmo com que a NATO andou entregando armamento ligeiro e pesado às FDS, durante este ano, nas províncias que ocupam no leste da Síria. Uma grande parte desses camiões, que entram nas zonas controladas pelas FDS, vêm da Turquia! Que tremenda contradição, não?

 

A Turquia encontra-se com a Rússia e com o Irão. A Turquia está prestes a adquirir S-400 russos. A Turquia ameaça invadir o nordeste da Síria e atacar os curdos. Ainda assim, uma grande parte das prendas militares da NATO aos curdos vêm da Turquia? Quem puder que me explique!

 

E se todos esses camiões estiverem trazendo armas para um futuro Sunistão concebido pelos EUA, com o secreto consentimento da Turquia?

 

Este Sunistão poderia ser criado de 2 formas distintas.

 

TERCEIRO a) Se tudo correr bem com a potencial invasão turco-FSA do leste da Síria (e, afinal, quem é que se preocupa com curdos nos EUA ou na Turquia, não é?), os ocupantes turco-FSA estabeleceriam um FSA-Sunistão seguindo as ordens dos EUA. Mono-religioso, governado por invasores (turcos, turcomenos, uigures, etc), este FSA-Sunistão teriam a vantagem (para os norte-americanos) de não ser um projecto territorialmente encurralado (graças à Turquia). 

 

TERCEIRO b) E se, com as forças da NATO retirando do leste da Síria e "abandonando" as SDF,  os seus mercenários curdos juntassem forças com os membros do ISIS actualmente presentes nessa área e com os membros do ISIS actualmente retidos em prisões das FDS? Nesse caso, todo o armamento recentemente trazido pelos EUA para ser "abandonado", seria na verdade um imenso presente dos EUA para esse ISIS-Sunistão a ser criado?

 

(Tradução: liderança das FDS ponderam libertar detidos do ISIS, cerca de 3200 prisioneiros.)

 

A Turquia poderia "perder" eventuais confrontos com este novo ISIS ou, ainda mais fácil, simplesmente cancelar a invasão do leste da Síria, permitindo que o neo-ISIS se instalasse no seu ISIS-Sunistão sem sofrer interferências de relevo ou, melhor (pior), fornecer-lhes mais mercenários (vindos do FSA). Ao fim ao cabo, todos estes mercenários fundamentalistas saltam facilmente de um campo para o outro, da al-Nusra (al-Qaeda na Síria, aliada do FSA) para o ISIS, do ISIS de volta para as FSA, e por aí em diante, como o seguinte vídeo claramente demonstra:

 

 

Este cenário TERCEIRO b) seria provavelmente de mais fácil implementação para o Império Norte-Americano (todo o pessoal e equipamento necessário já encontram no terreno), mas seria a versão mais fraca de um possível Sunistão patrocinado pelos EUA. Com a Turquia fingindo estar sendo derrotada pelo ISIS-Sunistão ou simplesmente não interferindo, e portanto continuando fingindo jogar pelo lado russo, este ISIS-Sunistão não poderia receber apoio directo do regime de Erdogan, e seria mais um projecto territorialmente encurralado.

 

Além do mais, sem a presença (oficial) de forças da NATO dentro desse Sunistão, a Síria e a Rússia poderiam facilmente atacar as forças terroristas e reconquistar essa parte oriental da Síria sem temer uma reacção da NATO que, a ter lugar, poderia facilmente levar-nos a um conflito global. Mau para o Plano C dos EUA, bom para a Síria. 

 

Em conclusão: mesmo neste cenário de EUA implementando um novo ISIS como parte de um Plano C para a Síria, a Síria poderia ainda assim retomar por completo o controlo sobre as suas províncias orientais. Mas teria de sofrer mais destruição e morte. No PRIMEIRO CENÁRIO, a Síria retomaria também o total controlo sobre as suas províncias orientais, mas sem necessidade de mais conflitos

 

TERCEIRO c) Se a situação imaginada no cenário TERCEIRO b) for verdade, as verdadeiras razões por detrás dele poderiam no entanto ser outras, e portanto eu adicionaria um último hipotético cenário, o TERCEIRO c). 

 

Nesta última possível explicação para o imprevisível e aparentemente ilógico comportamento turco, eu ouso me perguntar até que ponto a Turquia não estaria a jogar um jogo triplo. A Turquia poderia estar a fingir estar a fingir jogar (ultimamente) pelo lado russo, na sua bizarra parceria de zonas desmilitarizadas e check-points ao redor de Idlib. Consequentemente, a Turquia poderia estar a fingir apoiar o Plano C dos EUA para a implementação de um Sunistão na Síria. Mas, na realidade, a Turquia estarias simplesmente criando as necessárias condições para os sírios e os russos poderem reconquistar a totalidade do território sírio.

 

No cenário TERCEIRO b), a Turquia seria o inimigo, e no cenário TERCEIRO c), a Turquia seria um aliado sob disfarcemas em ambos os casos o desfecho seria o mesmo: a criação de condições geopolíticas para permitir ao SAA, ao Ézbolá, aos iranianos e aos russos atravessarem o Rio Eufrates sem com isso despoletarem um conflito entre Rússia e EUA, ou seja, uma Terceira Guerra Mundial,

 

Sim, volto a insistir, tal como no PRIMEIRO CENÁRIO, a Síria seria totalmente libertada, mas não de forma pacífica como nesse cenário.

*

Obrigado pela leitura deste artigo.

 

Deixo-o, caro leitor, com a absurda incoerência curda exposta em 2 imagens:

 

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afrin 2.jpg

 

Luís Garcia

 

 

 

 

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Roubo de órgãos, ataques encenados: painel da ONU detalha actividades criminosas dos White Helmets enquanto os média bocejam, por Eva Bartlett

29.12.18 | Pensamentos Nómadas

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Eva Bartlett POLITICA SOCIEDADE 

 

Silêncio absoluto. É esse o som dos meios de comunicação corporativos ocidentais dias depois de uma apresentação de mais de uma hora sobre os White Helmets nas Nações Unidas, no dia 20 de Dezembro.

 
Havia jornalistas presentes e, por isso, o silêncio não se deve à falta de acesso ao local. E, de qualquer maneira, a apresentação foi transmitida em directo no canal UNTV e continua disponível no Youtube para observadores mais perspicazes assistirem.

 

O mais provável é que o silêncio se deva à documentação irrefutável apresentada sobre o envolvimento do falso grupo de primeiros-socorros em actividades criminosas, que incluem o roubo de órgãos, trabalho com terroristas (incluindo como atiradores furtivos), encenando falsos operações de socorro, assalto a civis e outros comportamentos não-socorristas.

 

No painel estava presente um dos alvos de difamação preferidos dos grandes meios de comunicação, a jornalista britânica Vanessa Beeley, que deu uma palestra baseada em factos fruto dos seus anos de pesquisa sobre a criação, financiamento e nefastas actividades dos White Helmets, pesquisa que incluiu diversas visitas a centros dos White Helmets, inúmeros testemunhos de civis sírios e até uma entrevista com o líder dos White Helmets em Dara'a al-Balad, Síria.

 

Maxim Grigoriev, director da Fundação para o Estudo da Democracia (membro da rede global de pesquisa antiterrorista da ONU) discursou durante muito tempo, falando em detalhe sobre algumas das mais de 100 testemunhas oculares com as quais a sua fundação realizou entrevistas.

 

Estas incluem mais de 40 membros de White Helmets, 15 ex-terroristas, 50 pessoas de áreas onde operavam terroristas e White Helmets,  e mais 500 entrevistados através de uma sondagem em Aleppo e Daraa.

 

Entre os testemunhos apresentados por Grigoriev havia numerosos relatos sobre o envolvimento dos White Helmets no roubo de órgãos.

 

Um chefe de enfermagem em Aleppo é citado como tendo visto o corpo de um vizinho seu que tinha sido levado pelos White Helmets para a Turquia para "tratamento". "Levantei o lençol e vi uma grande cicatriz da garganta ao estômago... toquei-lhe com a mão e percebi que não havia órgãos.”

 

Outro entrevistado disse: "uma pessoa com uma pequena lesão é socorrida... e depois trazida de volta com o estômago aberto e sem os órgãos internos.”

 

As entrevistas com civis, com os White Helmets e mesmo com terroristas puseram fim às explicações da NATO e dos seus subservientes meios de comunicação de que nos White Helmets há algumas maçãs podres, mas que, no geral, são constituídos por humanitários socorristas.

 

Por exemplo, um civil sírio, Omar al-Mustafa, é citado dizendo:

Quase todas as pessoas que trabalhavam em centros próximos dos White Helmets eram membros da al-Nusra [al-Qaeda na Síria] ou estavam ligados a ela. Eu tentei me juntar aos White Helmets, mas disseram-me que se eu não pertencesse à al-Nusra, eles não poderiam me empregar.”

 

Outras testemunhas detalharam os encenados e falsos resgates e ataques químicos. Omar al-Mustafa foi citado afirmando que:

Eu vi-os (White Helmets) trazer crianças que estavam vivas e colocá-las no chão como se tivessem morrido num ataque químico.”

 

Os testemunhos incriminam não só a organização dos White Helmets, como também os médicos que, em 2016, eram bajulados pelos média corporativos.

 

De acordo com um entrevistado, Mohamed Bashir Biram, a sua tentativa de levar o seu pai para o hospital Al-Bayan, afiliado aos White Helmets, fracassou. Ele disse: "Como o meu pai não era um guerrilheiro, os médicos do hospital recusaram ajudá-lo e ele acabou por morrer.”

 

Mas, em 2016, os média ocidentais elogiavam os mesmos valentes médicos, no seu crescendo de propaganda de guerra em torno de Aleppo.

 

Muitos outros jornalistas independentes têm corroborado aspectos daquilo que os palestrantes (incluindo também o jornalista Sírio Rafiq Lotef e representantes russos e sírios para a ONU, os embaixadores Vassily Nebenzia e Bashar al-Ja'afari) descreveram em detalhe.

 

Nas minhas próprias visitas às vilas de Guta oriental entre Abril e Maio passados, os moradores também me falaram de roubo de órgãos, encenações de resgates e o White Helmets trabalhando com o Jaysh al-Islam [uma organização terrorista particularmente bárbara]. Um homem de Aleppo também me os descreveu como ladrões que roubam civis e não como socorristas.

 

Silêncio copy-paste dos média corporativos

Os jornalistas presentes na apresentação não mostraram interesse em colocar consequentes questões sobre roubo de órgãos, resgates encenados ou qualquer um dos outros conteúdos apresentados. Sem surpresa, preferiram fazer perguntas sobre outras questões relacionadas com a Síria.

 

Um jornalista da CBS não tinha uma única pergunta sobre o que havia sido apresentado, embora a CBS tenha relatado repetidamente sobre os White Helmets. Mas, as suas reportagens, tal como a maioria das dos média corporativos, eram daquela clara propaganda que é a cobertura dada pelos meios informação corporativos.

 

Tanto quanto sei, quatro dias após a apresentação nas Nações Unidas, nenhum meio de comunicação corporativo escreveu sobre o evento nem o seu crítico conteúdo.

 

Isto apesar do facto dos média corporativos ocidental terem, durante anos, voluntariamente feito propaganda sobre os White Helmets e atacado todos aqueles que ousam apresentar testemunhos e elementos de prova recolhidos no terreno (na Síria), contradizendo a narrativa oficial.

 

Média russos, sírios e libaneses fizeram reportagens sobre a apresentação. Os jornalistas dos média corporativos ocidentais, pois claro, se um dia se derem ao trabalho de mencioná-la, irão por certo ignorar as provas incriminatórias apresentadas pelos convidados e, em vez disso, acusarão a Rússia de andar a perseguir os White Helmets.

 

Antes da apresentação, uma série de publicações saíram com artigos fazendo referência uns aos outros e, de facto, ecoando reivindicações já repetidamente pronunciadas sobre uma "campanha de desinformação russa" contra os White Helmets.

 

Isso mesmo, é isto o melhor que eles têm para apresentar.

 

"Grande Rússia má" manchando a puríssima imagem dos White Helmets, um tema reutilizado ad nauseum ao longo do último ano ou dois, e que eu abordei no início de Janeiro de 2018, quando estava sendo atacada por questionar os White Helmets.

 

Na minha refutação contra uma difamação do The Guardian de meados de Dezembro de 2017, ressaltei que não foi a Rússia quem começou a tomar atenção às afiliações dos White Helmets, ao seu financiamento e ao seu papel na guerra de propaganda, mas sim dois investigadores americanos independentes.

 

O jornalista canadiano Cory Morningstar, em Setembro de 2014, expôs o papel da Purpose Inc, uma empresa de Relações Públicas de Nova Iorque, em campanhas de marketing para os White Helmets.

 

E, como eu escrevi, "Em Abril de 2015, o jornalista independente americano revelou que os White Helmets tinham sido fundados por potências ocidentais e geridos por um ex-soldado britânico", e chamei à atenção para "o papel dos 'socorristas' nos seus apelos a um intervenção ocidental: uma zona de exclusão aérea na Síria.”

 

Estes e as numerosas subsequentes investigações de Vanessa Beeley, inclusive no terreno, na Síria, onde recolheu inúmeros testemunhos de civis sírios sobre a questão dos White Helmets, são bem anteriores a qualquer notícia dos meios de comunicação russos sobre o grupo.

 

Que média e outros organismos russos tenham feito as suas próprias investigações, desde então, não equivale a uma "campanha de desinformação", mas sim a fazer o trabalho que os média corporativos são, claramente, incapaz de fazer, e que não estão dispostos a fazer.

 

Por que razão os média não escreveram sobre esta apresentação ou, como é seu costume, não emitiram ainda mais difamações contra os convidados presentes?

 

Não o fizeram porque estão encurralados e, embora sempre possam tentar usar as suas calúnias de carácter juvenil, estes não podem refutar os factos, nem os inúmeros testemunhos que corroboram ainda mais testemunhos já recolhidos por jornalistas independentes ao longo destes anos.

 

Ou como afirmou o embaixador Nebenzia: 

Compreendemos por que razão os White Helmets estão sendo defendidos pelas capitais dos países ocidentais. Estes não escondem que forneceram substancial apoio financeiro a esta organização e que instrumentalizaram-na de forma a perseguir objectivos políticos disfarçados de assistência humanitária. É lógico [que queiram] proteger os seus activos."

 

Na semana passada, soube-se que o repórter alemão do Der Spiegel, Claas Relotius, vencedor do prémio de repórter Alemão 2018, tinha falsificado vários dos seus artigos. Um artigo sobre essas falsas produções chama atenção para o facto de Relotius ter "confessado ter fabricado pelo menos 14 dos seus 55 artigos", incluindo uma "história sobre um menino sírio que acreditava ter desencadeado a guerra civil no país graças ao seu graffiti, um artigo que venceu o Prémio de Repórter Alemão há apenas três semanas atrás e que, afinal, foi inventado.”

 

Um ex-jornalista alemão, Udo Ulfkotte, em 2014, atingiu o seu ponto de inflexão e admitiu ter, durante anos, mentindo a pedido de ocidentais e de interesses anti-Rússia, admitindo ter feito propaganda contra a Rússia depois de ter sido subornado por bilionários e pelos norte-americanos para "não relatar exactamente a verdade.”

 

Agora que 2018, um ano de incríveis notícias falsas produzidas pelos média corporativos, chega ao fim, também quase ao fim chega a credibilidade dos média que louvam os White Helmets.

 

Dada a escandalosa profundidade das suas mentiras, é improvável que os jornalistas corporativos tenham um momento Ulfkotte e admitam as suas inúmeras falsidades.

 

Mas isso nem sequer é relevante, visto que os média corporativos ocidentais e o órgão de propaganda conhecido como White Helmets, por eles apoiado, estão se tornando cada vez mais irrelevantes.

 

Eva Bartlett 

 

Eva Bartlett é uma jornalista freelancer e activista com uma longa experiência em Gaza e na Síria. O seu trabalho pode ser lido no seu site In Gaza e noutros meios de comunicação alternativos como a RT.

 

traduzido para o português por Luís Garcia

versão original em inglês aqui.

 

 

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Chipre: mortíferas bases militares britânicas, campos de refugiados… e turistas, por André Vltchek

27.12.18 | Pensamentos Nómadas

Chipre mortíferas bases militares britânicas

 

Andre Vltchek Política Sociedade  

 

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Acreditem ou não, mas há pouco tempo o Chipre era o único país da União Europeia governado por um Partido Comunista. Sim, há pouco tempo atrás: entre 2008 e 2013.

 

Além disso, há relativamente pouco tempo, a unificação da República de Chipre com a parte norte da ilha administrada pela Turquia parecia ser algo de alcançável.

 

E quando o Chipre, tal como a Grécia, quase entrou em colapso financeiro, foi a Rússia que se ofereceu para resgatá-lo (antes da UE ter feito tudo o que podia para evitar que esse resgate acontecesse).

 

Agora, tudo isto parece história bem antiga.

 

A cidade de Nicósia continua dividida, com os postos de controlo de imigração cipriotas gregos e cipriotas turcos localizados mesmo no centro da cidade velha. Os grafites pintados em "terra de ninguém" exigem o fim imediato do conflito: "um país, uma nação".

 

O posto fronteiriço está sempre ocupado. E, talvez, para torná-lo de alguma forma mais vivo, nele encontra-se um enorme pitbull branco, vagarosamente andando às volta entre a área de fronteira. Não ladra; apenas ali está. Ninguém sabe se ele pertence ao lado turco ou ao lado grego, mas parece que ele passa mais tempo com os turcos, os quais, suponho, devem alimentá-lo melhor.

 

O lado de língua grega de Nicósia parece uma cansada pequena cidade provincial da UE. Mesmo ao lado, os turcos fumam narguilé (tradicional cachimbo de água do Médio Oriente), os seus cafés parecem ser mais tradicionais e a antiga arquitectura é mais elegante. Na parte sul, o café preparado na hora é chamado de "grego", enquanto que, alguns metros mais a norte, você tem que pedir por um "turco" ou pelo menos um "café árabe". Escusado será dizer que receberá a mesmíssima coisa, quer num lado quer no outro.

 

Caso contrário, é uma só ilha, uma só história e uma triste e desnecessária partição.

*

A divisão da nação não é a única loucura presente no local. Antes de se habituar à ideia, uma pessoa quase que dá em doida quando descobre que existem dois territórios na ilha ainda sobre administração britânica. 

 

Se você por lá conduzir, não notará nunca que, de facto, você saí do Chipre e entre no Reino Unido. Algumas matrículas de carros são diferentes das normais matrículas cipriotas, mas é tudo.

 

Você atravessa uma linha invisível e entra no Reino Unido, historicamente a nação mais agressiva (militar e ideologicamente) à face da terra.

 

Você dirige passando por alguns campos agrícolas mas, de repente, você vê algo muito estranho ao redor da estrada: alguns quilómetros depois de passar o histórico Castelo Kolossi, dos Cruzados, há um infinidade de mastros de diferentes alturas e formas, assim como instalações militares fortificadas com betão. Os mastros estão "decorados" com fios estranhos. Parece um filme de ficção científica.

 

É claro que, se você vier "preparado", deverá saber que o que se encontra à sua frente são enormes instalações do aparelho de propaganda da BBC que visam desestabilizar e doutrinar o Médio Oriente. Mas não é tudo.Todo este enclave da "Base Área Soberana de Akrotiri", bem como o de Dhekelia a algumas dezenas de quilómetros a leste, está aqui, principalmente, para espionar o "vizinho" Médio Oriente. Enquanto Londres está a cerca de 4 horas de voo, a Síria, e também o Líbano, estão a uma curta distância por mar.

 

Mais a sul, depois das instalações de propaganda e espionagem, fica a pequena aldeia de Akrotiri; um típica e pitoresca aldeia cipriota de encantar, com uma velha igreja, ruas estreitas e humildes cafés locais. Fica no topo da colina. Se aqui vier, tecnicamente, você encontrar-se-á no Reino Unido. Terá vista para o mar azul, para um lago salgado e para a cidade de Limassol, mas você está em Território Britânico. Porquê? Simples: depois que o Chipre obteve a independência do Império Britânico, em 1960, os Britânicos recearam vir a perder o controlo sobre as suas bases militares no Chipre e, em parte, a sua influência sobre o Médio Oriente. Como tal era inimaginável nas mentes imperialistas britânicas, o Reino Unido forçou os cipriotas a aceitar este bizarro acordo que se mantém até hoje.

 

Mais um quilómetro para sul e você dá de caras com uma parede e um portão decorado com ameaçadores avisos. Está no perímetro da Base Akrotiri da Força Área Britânica (RAF). É desde este lugar que, desde Dezembro de 2015, a RAF tem vindo a realizar ataques aéreos ilegais (de acordo com o direito internacional) contra a soberana República Árabe Síria.

 

De acordo com Jeffrey Richelson & Desmond Ball e seu livro The Ties That Bind: Intelligence Cooperation between the UKUSA Countries (Unwin Hyman, Boston/Londres e outros, 1990, página 194, nota 145):

Em 2010, havia cerca de 3.000 tropas das forças britânicas do Chipre instaladas em Akrotiri e Dhekelia. A estação Ayios Nikolaos, na ESBA, é uma estação de escuta ELINT (electronic intelligence) incluída no Acordo UKUSA de redes de espionagem”

 

Isso era na altura. Agora, as coisas estão a ficar bem mais letais. Na prática, o Reino Unido está em guerra com a Síria. Muitos no Chipre estão profundamente preocupados com o facto da Síria poder retaliar, enviando mísseis contra as bases da RAF a partir das quais está a ser bombardeada (legalmente, o estado independente da Síria tem todo o direito de se defender contra ataques vindos do estrangeiro). Tal retaliação poderia pôr em perigo a vida dos habitantes de Chipre.

 

Tem havido protestos exigindo que as forças britânicas devolvam ambas as "bases soberanas" ao Chipre, mas o Reino Unido não mostra qualquer interesse em ceder aquilo que controla.

 

Já em 2008, o então presidente de esquerda Demetris Christofias (que também era Secretário-Geral do AKEL, o Partido Comunista de Chipre) tentou remover todas as forças britânicas da ilha, chamando-as de "mancha de sangue colonial". No entanto, não conseguiu e, em 2013, podia ter tentado a reeleição mas optou por não o fazer.

 

A base de Dhekelia foi escavada na parte oriental do Chipre, estranhamente rodeando aldeias controladas quer por falantes de turco quer por falantes de grego.

 

No passado, os cipriotas lutaram contra a presença britânica. Hoje em dia, na era da omnipresente vigilância, sabotagem e resistência foram substituídos por inconsequentes protestos. Ainda assim, têm sido detidos centenas de locais exigindo a saída das tropas britânicas da ilha.

*

O Chipre ainda se encontra dividido, embora conversações sobre a reunificação tenham começado, mais uma vez, em 2015. Agora é possível caminhar entre a República do Chipre e o norte do Chipre (controlado pela Turquia).

 

Nem sempre foi assim, como escreveu Papadakis Yiannis:

No dia 15 de Julho de 1974 a junta militar grega, sob o comando de Dimitrios Ioannides, realizou um golpe de estado no Chipre, com o intuito de reunificar a ilha com a Grécia.”

 

Milhares de residentes turcos foram desalojados, muitos mortos. A Turquia invadiu a ilha e esta foi dividida. Mas a violência inter-étnica é anterior a 1974. A história pode ser sentida a cada esquina de Nicósia e em muitas aldeias da ilha. O norte de Chipre nunca foi reconhecido por nenhum outro país além da Turquia, mas a divisão ainda lá está. Há ainda cidades inteiras despovoadas que pertenciam a habitantes turcos e gregos entretanto deslocados.

 

Um das mais assustadoras é Kofinou, no sul da ilha, que sofreu, pelo menos duas vezes, violência étnica sem precedentes que poderia ser definida como "limpeza [étnica]". Outrora habitada principalmente por cipriotas turcos, Kofinou é agora uma cidade fantasma, repleta de casas destruídas e estruturas agrícolas, com trabalhadores estrangeiros e animais de criação vivendo em horríveis condições.

*

O Chipre tem duas caras. Orgulha-se de ser um dos mais famosos destinos turísticos europeus. É membro da UE.

 

Ao mesmo tempo, é um símbolo de divisão.

 

Cercas fronteiriças entre a República do Chipre e o Chipre do Norte ferem a sua bela paisagem rural. Mortíferas instalações militares britânicas (as bases da força aérea), assim como campanhas de propaganda e desinformação, estão brutalizando, física e moralmente, quase todo o Médio Oriente .

 

Aqui, no Chipre, os turistas europeus e russos coexistem com patente mal-estar. A guerra ideológica entre o Ocidente e o resto do planeta é claramente sentida em Pathos e noutras zonas históricas da ilha.

 

Alguns residentes britânicos (cerca de 50.000), bem como inúmeros turistas britânicos, comportam-se muitas vezes de forma insultuosa para com os geralmente humildes visitantes russos. Aqui, o Império Britânico ainda parece estar "ao comando".

 

No porto de Pathos, passei por um casal de idosos russos que parecia estar simplesmente admirando um velho castelo de água. Um casal britânico, que estava passando, olhou para trás e forçou umas sarcásticas e rudes caretas. "Aqueles Russos", proferiu o homem. Este não foi o único caso em que testemunhei este tipo de comportamento.

 

No Chipre, dirigi exactamente 750 quilómetros ao redor da ilha, tentando entender e definir a sua actual posição e o seu papel na "região" e no mundo.

 

Esperava encontrar reminiscências de pelo menos algum espírito revolucionário do governo comunista (AKEL). Mas quase só encontrei pragmatismo, tão típico de quase todos os países da União Europeia. Só se ouve perguntas do estilo: "Será o Brexit bom ou mau para Chipre?" Ou: "Será que os bombardeamentos à Síria põem em perigo os cidadãos do Chipre?".

 

Simbolicamente, perto da aldeia de Kofinou destruída pela violência inter-étnica de há várias décadas atrás, encontrei um campo de refugiados com mau aspecto, construído principalmente para os imigrantes provenientes do desestabilizado Médio Oriente. Parece um campo de concentração. Os locais chamam-lhe realisticamente de "prisão". Provavelmente, é mesmo.

 

Enquanto conduzia pela zona vi, a apenas alguns quilómetros do acampamento e em frente a uma sinistra e semi-abandonada fazenda, uma cabra enorme. Estava deitada de lado, morrendo em agonia no meio do caminho.

 

Chipre tornou-se numa ilha dividida, com alguns hedonistas resorts e também comunidades terrivelmente marginalizadas, ambas espalhadas por todo o seu território.

 

Poderia facilmente concluir-se que: esta antiga colónia britânica continua a permitir, em troca de uma taxa de aluguer, a tremenda presença de forças militares britânicas da NATO, assim como várias instalações de espionagem e de propaganda. Os caças de guerra Tornado da RAF executam "missões" contra a Síria. Os mísseis estão sendo disparados a partir de Akrotiri. As pessoas que fogem dos países destruídos do Médio Oriente são depois detidas no Chipre, como criminosos, atrás de arame farpado.

 

Entretanto, o povo de Chipre está equacionando se tudo isto é realmente exequível ou não. Se ser um posto avançado do Império for um bom negócio, com remunerações vantajosas, os cipriotas pouco farão para mudar a situação. Apesar do seu complexo passado e presente, bem como da sua proximidade com o Médio Oriente, o Chipre é, afinal de contas, parte integrante da Europa e, portanto, parte do Império Ocidental.

 

André Vltchek, 21 de Dezembro de 2018

 

Traduzido para o português por Luís Garcia

Versão original em inglês aqui.

 

Por Lula, de Andre Vltchek

André Vltchek é um filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação. Cobriu e cobre guerras e conflitos em dezenas de países. Três dos seus últimos livros são  Revolutionary Optimism, Western Nihilism, o revolucionário romance Aurora e um trabalho best-seller de análise política: “Exposing Lies Of The Empire”. Em português, Vltchek vem de publicar o livro Por Lula. Veja os seus outros livros aqui. Assista ao Rwanda Gambit, o seu documentário inovador sobre o Ruanda e a República Democrática do Congo, assim como ao seu filme/diálogo com Noam Chomsky On Western Terrorism. Pode contactar André Vltchek através do seu site ou da sua conta no Twitter.

 

Foto no Chipre: de André Vltchek.

 

 

 

 

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Pena de morte para os jornalistas tugas que usarem eufemismos para esconder barbárie, por Luís Garcia

27.12.18 | Pensamentos Nómadas

 

Desespero Mediático 27

fuck RTPiças

 

Luís Garcia  POLITICA  Sociedade

 

Vejam este pró-sionista lixo jornalístico da RTP:

 

Não, a sério, leram bem este disparate de título? 16 ataques aéreos malta, e não um "ataque"! Dois dos mísseis não foram interceptados e caíram nos arredores de Damasco provocando destruição e possíveis vítimas sírias, mas a preocupação do "jornalista" da RTP vai para o risco colocado a voos civis?

 

E a ilegalidade do acto Israelita? E a perversa (tão típica de israelitas) ilegalidade da violação e uso do espaço aéreo libanês para levarem a cabo este acto terrorista sem terem de temer mísseis sírios ou russos interceptando os caças israelitas?

 

E as condenações? Então condenam a Rússia por realizar democráticos referendos na Crimeia e não condenam os constantes, criminosos e ilegais ataques aéreos israelitas à Síria? 

 

Escrevi, há um ano atrás, o artigo "A guerra civil síria" dos ataques aéreos israelitas, onde faºo referência a algumas dezenas das centenas de ilegais, criminosos e terroristas ataques israelitas dos últimos anos contra a sofrida, agredida e dilacerada (mas VICTORIOSA) Síria. Não vou portanto me repetir.

 

Só lembrar que a RTP se oferece como órgão de propaganda do estado terrorista de Israel. Mas porquê? Porque sugere, erradamente, e sem poder provar, que os sírios teriam atacado primeiro. Admitamos que fosse verdade este disparate sem explicação estratégica ou lógica para o lado sírio.

 

Ainda assim, pergunto eu aos prostituídos "jornalistas" portugueses aldrabões ou ignorantes ou as duas coisas: e as outras centenas de ataques israelitas, também se seguiram, "muito provavelmente", a anteriores ataques sírios contra Israel?

 

Claro que não, e claro que "jornalistas" da RTP e de semelhantes órgãos de propaganda da guerra e do caos têm de se calar, sim, calar bem caladinhos perante questões como estas. Por isso que, quando escrevo algo do género e envio ao senhor Paulo Dentinho ou ao "jornalista" responsável por uma específica Orwelliana peça de propaganda, nunca me respondem, e "bloqueiam-me" no Facebook e Twitter, bando de millenials mimados enclausurados em "progressivos" safe-spaces.

*

Na semana passada, o primeiro-ministro israelita já tinha avisado que o país defenderia os seus interesses e a sua segurança na região, assegurando a proteção do território israelita “perante a nova situação”."  (no artigo de propaganda da RTP)

 

Ahhhh, a guerra "civil" síria dos CONSTANTES ataques aéreos às forças armadas do país e seus aliados. Podre Ocidente! Podre RTP! Podre jornalista. Podres eufemismos. Podre desconstrução da realidade. Podre Ocidente!  Podre Ocidente!

 

E tadinhos dos israelitas que, tão assustadinhos, atacam tudo e todos, o tempo todo, desrespeitando todas as leis internacionais. Mas são eles os tadinhos, os coitadinhos, os assustadinhos... e que coninhas que são os propagandistas tuginhas! 

 

Pensemos bem no que fazemos nós, nós Ocidente.

Armamos organizações fundamentalistas terroristas para "libertar" a Síria.

Ocupamos 1/4 do país com ilegais bases militares inglesas, francesas e norte-americanas.
Cometemos 3 ou 4 massacres por semana com ilegais ataques aéreos da NATO que resultam sempre em 20 ou 30 ou 60 ou mais civis sírios mortos, inclusive crianças.
Permitimos que Israel ande desde o início da guerra "civil" síria bombardeando bases militares e centros de investigação sírios e dos seus aliados LEGALMENTE instalados no país. 
Fazemos o mesmo que Israel com a nossa terrorista NATO da qual tanto nos orgulhamos!

 

E no final, claro, a culpa é do Irão. O Irão é culpado de EXISTIR e de agir de acordo com a lei internacional. 


Os culpados são Putin e a sua Rússia, por ousarem defender a sua própria dignidade, a sua integridade territorial e a integridade territorial dos seus aliados. 


A culpa é de Assad, eleito democraticamente (ao contrário do presidente da Comissão Europeia e a sua ditatorialmente imposta Constituição Europeia) por ousar defender militarmente o seu país de agressões militares vindas do exterior: dezenas de organizações terroristas pagas pelo ocidente e a própria NATO.


A culpa é dos libaneses por usarem democracia ("inventada" por nós) para correrem com a podridão política libanesa vendida à Arábia Saudita, UE e EUA, e, muito DEMOCRATICAMENTE, elegerem o Ézbolá (a única organização libanesa que defende a integridade territorial do Líbano assim como os direitos fundamentais de libaneses a um verdadeiro estado social) para governar o país!

 

O Ocidente pilha o planeta inteiro.


O Ocidente ameaça, sanciona, embarga, castiga, bombardeia, viola, pilha, envenena, queima, invade e rouba todos aqueles que não se submetem ao imperialismo ocidental.


Os "jornalistas" ocidentais, como os desta RTP apologista do terror e imensamente mentirosa, não sabem nada, não querem saber nada e, quando sabem: MENTEM! Inventam, aldrabam, dizem o contrário da verdade! Mentem!

 

E assim é que conseguem transformar o ilegal e criminoso ataque aéreo do criminoso e nazi Estado Sionista de Israel nos arredores da capital da sofrida e dilacerada Síria... em algo prostituidamente "legítimo"!

 

Querem uma porra de título adequado para a vossa peça de propaganda pró-regime nazi de Israel? Aqui vai um título bem mais verdadeiro e rigoroso:

"Estado pária de Israel, uma vez mais, ataca ilegal e criminosamente a capital síria, lançando 16 mísseis"

 

Este sim deveria ser o título, irra! Uma porra de título em condições! Factual! Objectivo! Irra!

*

E já agora ovelhada da RTP, não são os russos que afirmam, irra! É a realidade, a factual e observável realidade real, disponível em mídias (como a RT e a Sputnik, apelidados por vós de "fakenews") que mostram os vídeos.

 

Vocês não os mostram porque  defendem a censura e, quando e sempre o Ocidente ou a besta israelita cometem algum crime ou alguma ilegalidade (ou seja, o tempo todo), vocês maquievelicamente adoram fazer subentender que provavelmente é tudo treta russa, tudo fakenews da propaganda russa, e que, imagine-se, vocês muito queridamente decidem "partilhar" com os vossos caros leitores-ovelhas. Bravo!

 

Só que não, não vale a pena subentender que é treta russa. Primeiro, porque não é. Depois, porque os factos factuais da realidade real estão disponíveis online, fornecidos por locais sírios que filmam e fazem upload das provas dos crimes sionistas e ocidentais na Síria. Pena que 99% dos ocidentais não se dê ao trabalho de procurar e prefira quem lhes mente desde sempre!

 

"Méééééé", dizem esses 99% nas suas línguas maternas...

*

 

 

Luís Garcia, 27.12.2018, Rayong, Tailândia

 

 

 

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Como eu me tornei um revolucionário internacionalista, por André Vltchek

25.12.18 | Pensamentos Nómadas

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Andre Vltchek Política

 

Entrevista de Binu Mathew (editor do Countercurrents.org) com André Vltchek.

 

Binu Mathew( BM): Você é um dos principais críticos do imperialismo. Pode dizer-nos como se tornou no que é hoje? Pode falar-nos dos seus anos de formação?

André Vltchek (AV): anos de formação... foram muitos e, na verdade, sinto que continuo evoluindo até ao dia de hoje. É o que fazem as pessoas, creio e espero eu. 

 

Nasci na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, na incrivelmente bela cidade de Leninegrado, construída pelo louco Pedro O Grande e por alguns não menos loucos arquitectos italianos e franceses, nas margens do vasto e poderoso rio Neva, mesmo em frente a pântanos infestados de mosquitos.

 

Não vivi lá muito tempo, apenas pouco mais de três anos, mas a cidade ficou para sempre no meu coração.

 

A minha mãe é metade russa e metade chinesa, enquanto que o meu pai é um cientista checo. Com a idade de três anos fui levado para a chata e industrial cidade de Pilsen (Plzen) na então Checoslováquia, cidade também conhecida pela sua cerveja e a sua proximidade com a Baviera.

 

O meu pai pertence àquela velha geração de cientistas que acreditavam que podiam mudar e melhorar o mundo. Ele adorava música clássica, filosofia, literatura e bom vinho. Para ele, tudo isso era inseparável dos conceitos científicos, dos sonhos e da imaginação. Ele explicou-me a teoria da Relatividade de Einstein quando eu tinha 8 anos, e ensinou-me a jogar xadrez e a pensar logicamente.

 

1934, União Soviética - Os meus avós

 

A minha mãe era apenas um bebé quando começou a segunda guerra mundial. Metade da minha família morreu durante o cerco de Leninegrado, esfomeada e bombardeada pelos Alemanha nazi. Ela quase morreu de fome. A minha avó lutou contra os alemães, foi condecorada pela sua bravura, e ajudou a defender e depois a reconstruir a sua amada cidade. O marido dela, o meu avô, era comunista, ministro soviético e etnicamente um chinês do Cazaquistão. Ocupou cargos ministeriais nas áreas de cuidados médicos e de abastecimento alimentar. Foi denunciado como espião japonês antes da guerra (durante o tempo em que a rede de espionagem alemã conseguiu se infiltrar na rede de comunicação de inteligência soviética e literalmente dar informações falsas à liderança soviética, enfraquecendo-a significativamente antes dessa guerra). O meu avô foi executado. Mais tarde foi "reabilitado", postumamente, quando a verdade veio por fim ao de cima. Ele era o amor da vida da minha avó; ela nunca mais voltou a casar-se.

 

Por que te conto eu tudo isto, Binu? Porque os meus anos de formação começaram quando eu tinha 3 anos. A minha família estava a partir-me em pedaços. A minha avó e a minha mãe educaram-me enquanto menino soviético: grande literatura russa, música e poesia. Todos os anos eu era enviado 2 ou 3 meses para Leninegrado, para junto da minha avó; ela mimava-me até mais não, arrastando-me para salas de ópera, para concertos, para museus. Eu amava e sentia enorme falta da Rússia, quando vivia a maior parte do ano na emocionalmente fria e pragmática Checoslováquia .

 

 

Ambas as mulheres, mãe e avó, nunca tentaram me poupar de todos os horrores aos quais sobreviveram durante a guerra. Vivi as histórias que tiveram de passar durante o cerco da cidade. A minha mãe costumava ler-me poesia russa, e chorava. Ela tinha muitas saudades do seu país e da sua cidade. Ela ainda se sentia aterrorizada pela guerra, mesmo muitos anos depois de ter acabado. Eu também tinha saudades de Leninegrado. Ainda tenho.

 

Em 1971 com a minha avó russa de visita a Pilsen

 

Depois veio 1968, e eu tinha apenas 5 anos. Desde então, não houve infância. Desde o primeiro ano de escola primária, a minha vida foi uma grande batalha pela sobrevivência. Entre cada aula, vários rapazes vinham e batiam-me sem cerimónias, só por eu ter uma mãe russa. Primeiro sofri em silêncio. Depois comecei a ripostar. Você sabe como os europeus são racistas. Eu era constantemente atacado, não só porque a minha mãe era "russa", mas sobretudo porque ela tinha traços asiáticos. Ainda me lembro de ouvir "olha para as tuas nojentas orelhas asiáticas, seu merda". Quando jogava badminton num ginásio, os miúdos mijavam-me nos sapatos durante o inverno e a urina transformava-se em gelo.

 

Os meus pais divorciaram-se. O casamento deles ruiu. Além do mais, as suas visões políticas divergiam. O meu pai deixou o Partido Comunista da Checoslováquia. Desde os meus 5 anos de idade, eu andava recebendo duas interpretações totalmente diferentes dos mesmos eventos políticos. A partir [do que ouvia] de indivíduos altamente intelectuais e brilhantes dentro da minha família, eu tinha de decidir o que estava certo e o que estava errado.

 

Eles destruíram a minha infância, mas bem cedo fizeram de mim um duro escritor.

 

Nunca os perdoei. Ao mesmo tempo, estou-lhes imensamente grato. Sobretudo à minha avó, que partiu já lá vão 20 anos. Tenho saudades dela e admiro-a cada vez mais.

 

BM: Você tornou-se cidadão dos EUA quando era adolescente. Pode falar-nos da política por detrás disso?

AV: Para ser mais preciso, tornei-me cidadão norte-americano quando tinha 20 anos. Mas eu deixei a Checoslováquia com um passaporte soviético, quando era ainda muito jovem.

 

Veja, esta é uma longa história que já contei muitas vezes, de forma abreviada, mas deixe-me aqui tentar explicá-la de uma forma mais detalhada:

 

No final da minha adolescência, finalmente "cedi". De uma certa forma, já começava a ser "demais": a minha família, a minha infância confusa e toda aquela podridão e falta de sinceridade ao meu redor. Os checos estavam determinados a odiar os russos/soviéticos mas, ao mesmo tempo, eles estavam vergonhosamente colaborando com o sistema. Eles sempre foram assim: com o Império Austro-Húngaro, com os nazis e, agora, com o Ocidente. Eles sempre se foram queixando ao longo da sua história moderna, mas sempre foram servindo todos aqueles que se encontravam no poder. E sempre iam vivendo muitíssimo bem. Sob o "comunismo", eles tinham os seus confortáveis apartamentos, as casas de verão, carros.

 

Quando cresci, nada era "sagrado". As pessoas faziam piadas muito vulgares sobre tudo, nenhuma mulher se encontrava "fora do alcance", as orgias de bebida eram abusivas. Acho que, enquanto jovem escritor, eu ansiava por pelo menos um pouco de pureza.

 

Também enfrascava. E fumava dois maços por dia. Estando numa escola secundária de elite, o meu "ser diferente" era, de repente, uma mais-valia. Quase podia ter qualquer rapariga que eu desejasse. Mas, de alguma forma, estava tudo a ir pelo caminho errado.

 

Comecei a ouvir os meios de propaganda ocidentais. Em Pilsen, eles estavam em todo o lado: nas ondas curtas de rádio, nos programas de televisão provenientes da Alemanha Ocidental e na samizdat (literatura "proibida", principalmente propaganda Ocidental, imprimida sobretudo nas fotocopiadoras dos escritórios do governo após o horário laboral). Comecei a ouvir a Voice of America, Radio Free Europe e a BBC em inglês, em russo e em checo. Foi-me feita uma completa lavagem cerebral, de forma a eu aceitar a narrativa oficial Ocidental sobre os "acontecimentos de 1968". Fizeram-me uma lavagem cerebral para que eu visse o envolvimento soviético no Afeganistão como um "crime".

 

O divórcio dos meus pais significava que eu era, desde tenra idade, livre para basicamente fazer o que bem desejasse. E então viajei, a pé, de comboio, por toda a Europa oriental, dos Balcãs à Polónia, sozinho. Acho que tinha 15 anos quando comecei a viajar.

 

Arranjei uma namorada na Polónia, que era membro da associação de estudantes da "Solidariedade". Fizemos algumas viagens a Gdansk durante protestos. Comecei a sentir-me como um jovem dissidente, a escrever poesia erótica/revolucionária, fazendo correspondência para a BBC. Não me importava muito com as notas. Quando precisava de dinheiro, fazia algumas traduções, visto que eu falava fluentemente várias línguas.

 

Olhando para trás, [reconheço que] eu era muito jovem para isto tudo, pois claro que era. Mas, mais uma vez, como disse anteriormente, eu não tive infância, nem sentimento de pertença, nem pátria. A minha vida não tinha estrutura. Eu não tentei ser diferente; eu era diferente, principalmente por causa das circunstâncias. Naquela época eu pensava que era comunista, mas "reformista". Na verdade, estava cada vez mais influenciado pela propaganda Ocidental e estava perdendo a minha cabeça.

 

Para avançar rapidamente, eu enviei o meu primeiro livro de poesia para o ocidente e, a dada altura, fui ordenado a deixar o país. Afinal de contas, eu tinha cidadania soviética e as autoridades checoslovacas viam-me como um embaraço. Não sabiam o que haviam de fazer comigo.

 

Depois de uma dramática travessia à boleia de metade da Europa, passei algum tempo em Itália. E depois, muito rapidamente, consegui obter asilo político e mudei-me para Nova Iorque.

 

Estudei cinema. Trabalhei simultaneamente como intérprete. A minha primeira mulher foi uma pianista extremamente talentosa de Houston.

 

Logo desde o início, apercebi-me que tinha sido doutrinado e que a realidade do Ocidente era totalmente diferente do que eu ouvira nos seus meios de propaganda.

 

Eu estava rodeado por colegas na Escola de cinema da Universidade de Columbia, quando ocorreu o primeiro ataque contra a Líbia. Foi-me prontamente explicado o que se estava a passar. Enquanto vinha do Campus Leste da Universidade de Columbia, pude ver, à noite, fogueiras a arder por todo o Harlem. Isto foi antes de Harlem se ter transformado num bairro de classe média, antes dos pobres terem sido forçados a mudar-se. Era o verdadeiro Harlem. Eu costumava estar lá o tempo todo, num antigo clube de jazz chamado Baby Grand, bebendo com locais, aprendendo sobre as suas vidas.

 

BM: O que o levou a sair da toca do diabo, os EUA, e tomar o lado do povo? Por que razão escolheu o caminho mais difícil?

AV: Durante esses anos eu vi a verdadeira América. Viajei muito e, acima de tudo, foi-me permitido ver o que era de facto esse "maravilhoso" capitalismo. A minha primeira mulher era de uma família muito rica. Estavam no negócio do petróleo. Se eu tivesse querido, podia ter tudo o que desejasse. Nunca o fiz. E vi com muito clareza como esse mundo funcionava. Imagine: uns anos antes, os vizinhos da sua família tiveram a Lady D como au pair. E coisas do género...

 

Ainda não estava pronto para realizar filmes. Escrevi o meu primeiro romance, em checo, e comecei também a "ganhar dinheiro" como intérprete. E foi aí que eu "vi tudo", durante esses anos em que a União Soviética se desmoronava e o Ocidente tentava roubar praticamente tudo o que podia.

 

Eu presenciei essas negociações por telefone, nas quais a totalidade de grandes cidades soviéticas estavam sendo "privatizadas" e navios científicos soviéticos, orgulhos da nação, eram vendidos como sucata a empresas alimentares multinacionais para poderem ser usados na pesca de lagostas em águas profundas algures ao largo da costa do Chile e do Peru. Traduzi e, por isso, estive presente em reuniões à porta fechada. Nunca imaginei que tal cinismo e tal degeneração moral pudessem existir. Era o capitalismo completamente a nu. As antigas repúblicas soviéticas, mas também a antiga Checoslováquia, estavam a ser completamente limpas. E eu vi o que ninguém era suposto ver.

 

Pagavam bem pela "tradução de alto nível". Naquela época, os honorários andavam entre os 500 e os 1000 dólares por dia mais despesas. Mesmo que "apenas" traduzindo, eu sentia-me imundo, enojado comigo mesmo e com o mundo.

 

Senti-me deprimido, com ideias suicidas. Não via razão nenhuma para continuar com este tipo de existência. Queria fugir. Precisava de fugir.

 

E no final, foi o que fiz. Separei-me da minha mulher. Abandonei tudo. E parti, quase sem nada (não dá para poupar nada em Nova Iorque, seja qual for o seu salário), para o Peru.

 

O Peru, naqueles dias, durante a chamada "Guerra Suja", era descrito por muitos como "o lugar mais triste da Terra". Era um lugar realmente despedaçado, sem esperança, perigoso e extremamente duro.

 

Cortei por completo com o passado. Eu precisava de um novo começo.

 

Eu sempre afirmei que, apesar de tudo, era comunista. Esta era a altura de o provar. Este era o momento de provar que eu ainda tinha espinha e bolas e algum coração onde eram supostos estar: à esquerda.

 

BM: Como lidou com isso tudo depois de rejeitar os EUA e a sua política? Como sobreviveu? Deve ter sido cá uma luta!

AV: Primeiro foi duro, muito duro. Mas sempre acreditei que podia escrever, fazer filmes, e que podia fazê-lo bem.

 

Mas, está ver, as minhas decisões foram tomadas por razões morais. Eu não rejeitei o sistema ocidental e o seu imperialismo porque "eu não podia lá chegar". Pelo contrário: "eu cheguei lá", eu cheguei lá por "demais, à grande". Eu tinha tudo com que a maioria dos imigrantes só podiam sonhar e mais, muito mais. Mas precisamente isso, o que os outros apenas podiam desejar, deixou-me doente e enojado com a própria vida.

 

Não foi apenas a rejeição dos EUA; eu rejeitei o Ocidente na sua totalidade, principalmente a Europa. Vejo e sempre vi a Europa como a raiz de todos os problemas (e horrores) que o mundo enfrenta. Os EUA são apenas a descendência que a Europa deixou. Uma versão vulgar e musculada. Mas a verdadeira essência do mal por detrás deste global projecto colonialista ocidental tem origem na Europa. Até os crimes mais terríveis cometidos no território dos EUA foram cometidos pela primeira e segunda geração de europeus: o holocausto contra os povos indígenas e a introdução da escravatura.

 

Você pode claramente constatar esse padrão ainda hoje: quase toda a propaganda anti-russa é criada e produzida no Reino Unido. O mesmo se aplica a toda a narrativa neocolonial.

 

Mas, voltando à sua pergunta e às minhas dificuldades enquanto lutava contra o imperialismo ocidental, eu nunca vi a minha escolha como um sacrifício. É um grande privilégio, uma honra, lutar contra o Ocidente colonialista. Eu confronto sobretudo a sua narrativa de lavagem cerebral, em todos os continentes e em todos os cantos do mundo. É uma grande luta e eu adoro levá-la avante. 

 

Com frequência sinto-se traído, inclusive abandonado, por alguns dos meus camaradas (embora nunca por pessoas como você, Binu). Às vezes sucumbo de exaustão ou ferido. Mas nunca me arrependo de ter enveredado por este caminho. É minha obrigação lutar por um mundo melhor, um mundo socialista. Nunca o vejo como um sacrifício.

 

BM: Qual foi o seu primeiro projecto anti-imperialista, depois de ter saído do "império"?

AV: Como mencionei anteriormente: o Peru. Mas o Peru não foi apenas Peru. Trabalhei também, de forma intensa, na Bolívia, no Equador e no Chile pós-Pinochet. Eu rapidamente entendi e comecei a descrever o que foi feito aos povos nativos da América Latina. Eu vi e entendi que a riqueza do Ocidente se baseia na pilhagem dos outros. Eu entendi o quão incríveis são as culturas "pré-colombianas" das Américas.

 

2018, Cidade do México - com Irma Sandoval,  Ministra da Administração Pública

André Vltchek – Colonia Dignidad, Chile, fotografia de Alejandro Wagner

Com Eduardo Galeano

BM: Trabalhou longos anos na América Latina. Pode-nos contar mais sobre o seu trabalho ali?

AV: Eu fiz muito por lá, em praticamente todos os países de língua espanhola, mais o Brasil e as Caraíbas. Entre outras temas, eu cobri as guerras no Peru e na Colômbia, mas sobretudo as grandes lutas revolucionárias na Venezuela, na Bolívia e no Equador. Volto sempre a Cuba, periodicamente, país esse que é meu lar intelectual e emocional. Escrevi muito sobre o Brasil durante os governos de Lula e de Dilma, percorrendo esse enorme país. Investiguei os "Arquivos do Terror" deixados pela ditadura de Strossner no Paraguai. Trabalhei com o grande escritor uruguaio Eduardo Galeano, autor de "As Veias Abertas da América Latina" e, no Chile, trabalhei para expor a colónia nazi alemã "Colonia Dignidad". Escrevi sobre os horríveis gangues na Guatemala, El Salvador e Honduras, e escrevi sobre as consequências do ataque dos EUA contra o Panamá, particularmente na cidade de Colón. E passo muito tempo no México... a minha última visita foi em Setembro de 2018, depois de AMLO ter ganho as eleições e os mexicanos terem escolhido o seu primeiro governo de esquerda em décadas. Durante três semanas filmei por todo o país, de Tijuana a Merida, e no Iucatão.

 

No total, passei cerca de 5 anos na América Latina.

 

Filmando num campo de refugiados somalis no Quénia

Zona de guerra, Goma, R.D. do Congo

No Quénia, durante o impasse em torno de Al-Shabaab


BM: Você também trabalhou em África. Pode nos contar algo sobre o trabalho que lá produziu?

AV: África é o continente mais sofrido da Terra.

 

O mundo inteiro sofreu com o imperialismo ocidental e com a sua pilhagem, mas a África é "única", porque em nenhum outro lugar, durante a história moderna, a brutalidade dos ocidentais atingiu níveis tão elevados. Bom, com excepção, talvez, para o Sudeste Asiático.

 

Eu andava nas favelas mais difíceis do Quénia e do Uganda a filmar para a Telesur, um canal de televisão da América Latina. Realizei um documentário sobre o horrífico campo de Dadaab, construído no meio do deserto, destinado principalmente a refugiados somalis. Produzi e dirigi o meu grande documentário de 90 minutos "Ruanda Gambit", cobrindo o modo como o Ocidente criou uma narrativa absolutamente falsa sobre o genocídio do Ruanda e como o Ocidente se mantém em silêncio sobre um dos mais monstruosos genocídios de todos os tempo, o da República Democrática do Congo (RDC), onde o Ruanda e o Uganda, em nome do Ocidente, têm vindo a pilhar esse país rico em minérios. A RDC tem tudo, do coltan ao urânio, do ouro aos diamantes. Desde a invasão do Ruanda, já morreram cerca de 9 milhões de congoleses.

 

BM: Eu acho que você tem um caso amoroso com a Ásia. Viveu longos anos na Ásia e trabalhou em prol da Ásia, especialmente na Indonésia. Como é que isso aconteceu?

AV: A Ásia é a minha casa. Culturalmente sou asiático e parte do meu sangue vem de lá.

 

Adoro a China, mas também me sinto muito confortável no Japão e noutros países.

 

A Indonésia definitivamente não é um deles. Não vivo lá nem poderia fazé-lo, aliás, preferiria morrer. Sinto-me tão horrorizado com a Indonésia que escrevo com frequência e faço filmes sobre esse país. Faço-o como um aviso ao mundo. Estou na Indonésia por razões totalmente opostas ao "amor": depois de 1965, este que é o quarto país mais populoso da terra, foi transformado pelo Ocidente num enorme laboratório. A Indonésia não é um país, é um "conceito".

 

Antes de 1965, sob o governo do anti-imperialista Presidente Sukarno, a Indonésia era um país progressista, berço do Movimento dos Países Não Alinhados. Todos os recursos naturais se encontravam nacionalizados.

 

O Ocidente derrubou Sukarno no golpe mais sangrento do século XX. Entre 1 e 3 milhões de pessoas foram massacradas, e rios foram entupidos com cadáveres de membros do Partido Comunista (PKI), intelectuais, professores, sindicalistas.

 

Chamo-o de "Hiroshima intelectual". O Ocidente sugeriu que todos os teatros e estúdios de cinema fossem fechados, que as línguas chinesa e russa fossem banidas, juntamente com a ideologia comunista. Quase todos os escritores e pintores foram presos no campo de concentração de Buru.

 

Violações em massa tiveram lugar por todo o arquipélago.

 

Aqueles que pensavam foram assassinados ou silenciados para sempre. No seu lugar, injectou-se e promoveu-se pop barato, filmes de Hollywood e junk food. Em muitos aspectos, a cultura indonésia deixou de existir e sua diversidade foi aniquilada.

 

A Indonésia cometeu, com uma grande ajuda do Ocidente, três genocídios em pouco mais de meio século: o genocídio de 1965, depois o de Timor Leste e agora o genocídio em curso na Papua Ocidental.

 

A nação tornou-se extremamente religiosa, opressiva e dogmática. Ao mesmo tempo, esta nação de mais de 300 milhões (estatísticas oficiais mentem, colocando o número de habitantes em cerca de 250 milhões) não tem nenhum grande escritor, cineasta, pensador ou cientista.

 

Todos pensam o mesmo (da forma que supõem "pensar"): amam o capitalismo, odeiam os comunistas, vêem a destruição dos seus próprios recursos naturais como "progresso", todos ouvem a mesma ultrapassada música pop ocidental, assistem todos às mais patéticas produções de Hollywood, bem como aos filmes de terror locais e têm o mais baixo número de leitura de livros per capita.

 

Eu tento explicar e analisar o que lá aconteceu. Eu estou simultaneamente filmando dois grandes documentários: um sobre a total destruição da natureza, na terceira maior ilhas da terra, o Bornéu (conhecido na Indonésia como Kalimantan), e um outro sobre o colapso de Jacarta, que é agora a mais poluída e talvez uma das mais "inabitáveis" grandes cidades do planeta. É claro que o faço sem qualquer financiamento visto que, no Ocidente e no Sudeste Asiático, a Indonésia é "intocável". Esta faz exactamente o que o Ocidente quer que ela faça: sacrificar centenas de milhões do seu povo, bem como a sua natureza, para que a população Ocidental possa prosperar. E portanto, quase nunca é criticada.

 

É isto que eu tenho a dizer sobre a Indonésia. 

 

No geral, eu amo a Ásia. Ela é minha casa, sobretudo o norte da Ásia. China, Japão, Coreia(s) e o "Extremo Oriente" russo.

 

O Sudeste Asiático é uma história completamente diferente. É uma poderosa "história negra" que continuo a documentar. Sofreu enormemente nos últimos 60 anos: Vietname, Laos, Cambodja, Timor Leste, Papua Ocidental, Indonésia, até mesmo a Tailândia. Tem sofrido precisamente por causa do imperialismo ocidental. Mas as pessoas foram condicionadas a não ver, a não compreender o que lhes foi feito. E portanto eu lá trabalho, escrevendo livros e produzindo filmes. Alguém tem de o fazer...

 

BM: Você também é correspondente de guerra. Deve ter tido muitos eventos memoráveis como correspondente de guerra. Alguma coisa em particular que queira partilhar connosco?

 

AV: Sim. Mas a guerra está em todo o lado, não apenas naqueles poucos lugares onde é oficialmente reconhecida.

 

Mas claro, trabalhei no Afeganistão, na Síria, no Iraque.

 

Mas também trabalho em Caxemira ou nas favelas mais duras de África, em terras da América Central controladas por gangues, ou em Gaza. Estas são também zonas de guerra. A guerra é onde a justiça, incluindo a justiça social, entrou em colapso onde foi destruída.

 

Concordo plenamente com o que Hemingway escreveu uma vez: "há dois tipos de escritores: aqueles que foram para a guerra e aqueles que têm inveja deles.”

 

Visto que guerra existe em quase todo o lado, um escritor que não esteja em contacto com ela é um mentiroso.

 

A guerra é a realidade. É terrível, mas quando se luta pela justiça e pela liberdade, é muito melhor do que uma falsa paz criada pelos colonizadores ocidentais. Nesse tipo de "paz", estão presentes todos os índices de saúde e esperança média de vida típicos de uma zona em guerra. Violações, ferimentos... tudo como numa zona de guerra.

 

Os propagandistas ocidentais criaram um muito perigoso "culto da paz". Para o Ocidente, a paz é quando um país sacrifica totalmente os seus recursos naturais e o seu povo, povo entretanto submisso e resignado, e tudo isto em prol das corporações e dos cidadãos ocidentais.

 

Na América Latina dizem frequente e muito correctamente: sem justiça não há paz!

 

BM: Você trabalhou com Noam Chomsky num livro e num documentário. Pode dizer alguma coisa sobre este homem lendário? Algum segredo sobre a pessoa de Chomsky?

AV: Noam adora rosas. E bom vinho. E, na sua essência, ele é um homem muito gentil, com grande sentido de humor.

 

É pena que ultimamente estejamos em desacordo sobre a Rússia, a Síria e a China, por exemplo.

 

Mas respeito uma grande parte do seu trabalho e devo dizer que ele fez muito, fez muito pela nossa humanidade e por este planeta.

 

BM: Noam Chomsky disse, sobre o seu livro Oceania, que lhe evoca "a realidade do mundo contemporâneo". Ele também não deixou de delinear a dolorosa (em particular para o Ocidente) realidade vergonhosa das suas raízes históricas. Algum comentário sobre isto?

AV: Noam gentilmente apoiou vários dos meus livros e até escreveu prefácios.

 

Quando à escrita de Noam e àquilo que você apelida de "realidade vergonhosa das suas raízes históricas", ele é particularmente duro quando descreve a conquista do "novo mundo", sobretudo aquilo que é hoje chamado de América Latina, mas também os Estados Unidos e o Canadá. Creio que a sua escrita sobre estes assuntos abriu os olhos a milhões de pessoas em todas as partes do mundo.

 

BM: Você escreve muitos livros sobre história, política contemporânea, filosofia, ficção, etc. Qual dos seus livros teve melhor recepção?

AV: O livro mais aclamado pela crítica é a minha ficção revolucionária Point of No Return. Até recebeu críticas muito positivas dos críticos mais temidos do Le Monde, Le Figaro e Paris Match.

 

Outro grande sucesso tem sido o meu livro de 840 páginas Exposing Lies of the Empire, um livro que compila o meu trabalho de investigação em todos os continentes e que conta onde anda o imperialismo roubando, destruindo e manipulando as pessoas. Está escrito num estilo completamente novo e experimental, mas foi muito bem recebido pelos leitores: algures entre o romance e a ficção política, entre a filosofia e o jornalismo.

 

É claro que o meu livro com Noam Chomsky sobre Terrorismo ocidental: De Hiroshima À Guerra de de Drones tem estado muito bem e foi traduzido em cerca de 35 línguas (na verdade, já perdi a conta).

 

BM: Você é também um realizador de documentários. Como é que salta de autor para cineasta tão facilmente?

AV: Na verdade não o faço. Faz tudo parte de uma enorme luta contra o imperialismo ocidental e pelos brilhantes dias do comunismo global, não é?

 

O meu trabalho é como um enorme mosaico e como uma grande batalha. Uso armas diferentes, como uso várias maneiras de me expressar. Pode ser através de romances, de jornalismo de investigação, de filosofia, de livros não-ficcionais, de filmes, de fotografias, mas também com entrevistas que eu constantemente dou, ou falando em público ou nas principais universidades.

 

BM: Você viajou por 160 países ao redor do mundo. Em que país preferirá residir quando se reformar? É óbvio que sei que é um lutador que nem sequer pensa em se reformar.

AV: Certíssimo, numa me reformarei. Esse seria o meu fim.

 

A minha história é a minha vida; a minha jornada é a minha história.

 

A revolução é chamada de "processo" em muitos países da América Latina. É uma jornada contínua, não pode jamais terminar. Se alguém está cansado desta jornada, esse alguém está farto do mundo e da própria vida.

 

Sobre onde viver, se eu pudesse escolher? Ficaria surpreendido, pois não teria nada a ver com a minha luta revolucionária:

 

Bem, não necessariamente, porque um dos países seria a minha amada Cuba.

 

Outro seria o Japão. De facto, vivo lá desde há muitos, muitos anos. Ou, mais precisamente, é um dos países onde tenho vivido, uma das minhas "bases" até agora. É claro que o Japão tem uma política externa absolutamente aterradora, mas admiro a sua cultura, a sua natureza, a poesia, a literatura, o cinema, a comida. Viajo para todos os cantos, sinto-me seguro no Japão e escrevo bem quando lá estou.

 

No Chile

E o Chile. Vivi lá, por diversas ocasiões, cerca de 4 anos no total. E, mais uma vez, o Chile tem uma natureza deslumbrante, uma profunda cultura, uma incrível poesia, literatura, excelente comida e vinho.

 

BM: Visto que viajou por todo o mundo, que país você acha que está fazendo o melhor pelos seus cidadãos?

AV: Na verdade, há duas perguntas escondidas dentro da sua pergunta:

 

Primeira: que país está fazendo o melhor pelos seus cidadãos, à custa dos países pilhados e colonizados? A resposta a essa pergunta seria, sem dúvida, quase toda a Europa.

 

Segunda: que país está fazendo o melhor pelos seus cidadãos sem pilhar o mundo? A resposta é: Bolívia, Cuba, China, Rússia, Irão, Coreia do Norte (na medida do possível), Venezuela (na medida do possível, tendo em conta o terror lá implementado desde o exterior.)

 

BM: Qual é a sua ideia para acabar com a fortaleza do imperialismo?

AV: Não se pode negociar com o fascismo nem com o imperialismo.

 

Os países oprimidos e pilhados têm de se unir e lutar.

 

A primeira ronda já foi ganha no passado. Por exemplo, a heróica nação vietnamita, militarmente, derrotou quer os colonizadores franceses quer os imperialistas norte-americanos.

 

Mas, depois, os imperialistas ocidentais voltaram a reagrupar-se. Encorajados primeiro pela divisão bem sucedida entre a China e a União Soviética e depois pela ruína da União Soviética sob o comando daquele imbecil Gorbachev e daquele alcoólico criminoso Iéltsin, arrebataram de novo o que haviam perdido, gritando "Paz, Paz!", que significa "não se atreva a lutar contra nós, apenas aceite e submeta-se!”

 

Os imperialistas podem ser derrotados. Isto mesmo foi claramente demonstrado na Síria e, agora, tanto a China como a Rússia estão firmes, enfrentando ameaças, provocações, sanções e intimidações ocidentais.

 

Nunca se deve mostrar fraqueza quando confrontado com o terror ocidental.

 

Vejam o planeta; veja o que aconteceu com os países que se renderam, que se ajoelharam; veja todo esse horror na Indonésia, na África Oriental, no Médio Oriente, no Sudeste Asiático. Olhe para a Índia desde que começou a idolatrar o fundamentalismo de mercado. É este o mundo que queremos? Se não é, então há que unir todas as forças anti-imperialistas.

 

E não deveremos nunca esperar que o público ocidental se junte a nós. O público ocidental estragou-se, mimado de privilégios, e já não tem esquerda nenhuma, apenas auto-bajulação e choradeiras em clubes de discussão. Os países que lutam verdadeiramente contra o imperialismo ocidental quase não têm aliados no Ocidente.

 

Na Índia com Arundhati Roy

BM: Como é que vê a ascensão de líderes autocráticos como Trump nos EUA, Modi na Índia ou Bolsonaro no Brasil? Achas que há um padrão? Alguma corrente subjacente?

AV: Sim. Em nações onde reina a confusão, onde os mestres ocidentais, os meios de comunicação de direita e os sistemas de educação fabricam, com sucesso, obedientes e egocêntricos "elites" sem escrúpulos, que mais se pode esperar? Eles vilipendiaram a esquerda, colocaram partidos e movimentos de esquerda sob total vigilância e lavaram os cérebros dos eleitores ou pelo menos confundiram-lhes as ideias. 

 

Acreditem ou não, a grande maioria das pessoas, mesmo nos países governados por governos de esquerda como o Brasil ou o Equador, quase não tinha acesso a meios de comunicação de esquerda. São horríveis meios de propaganda, como a CNN em espanhol ou a FOX em espanhol, que "informam" as pessoas. No Brasil, a situação era igual ou pior.

 

Durante anos, eu fui chamando a atenção para este problema. A esquerda tem de "investir" nos seus meios de comunicação, na educação e até em meios de contra-propaganda.

 

Eu falei muito com Chomsky sobre esta questão. Ele entende muito bem o que se passa. No nosso livro, eu contei como fui vítima de lavagem cerebral, quando era criança, realizada por estações de rádio e televisão pró-ocidentais e pró-imperialistas. E, claro, não sou só eu: todos correm perigo, na Síria e no Irão, na China e na Rússia, em toda a América Latina.

 

Portanto, temos de nos unir, temos de duplicar os nossos esforços e fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para contar a nossa versão da história.

 

E temos de interligar os nossos esforços. Como esta entrevista: adoro fazê-lo. Um meu irmão indiano e eu, um internacionalista soviético educado com pensamento cubano, trocando ideias! Pública e francamente.

 

BM: As alterações climáticas e a crise de recursos estão a conduzir o mundo ao colapso. Acha que o mundo ainda pode ser salvo? Quais são as suas sugestões?

AV: Pode ser salvo mas, uma vez mais, somente se o imperialismo e o neocolonialismo forem destruídos.

 

O melhor exemplo é a Indonésia e o filme que estou fazendo sobre a destruição da Ilha de Bornéu. No ocidente, as pessoas, para se sentirem bem, desligam todas as luzes quando saem da sala e desligam a água. Mas as suas empresas estão pilhando o pouco que resta da floresta tropical nativa e arrasando montanhas inteiras.

 

Devido à sobre-produção ocidental e ao seu excesso de consumo, a totalidade de nações insulares da Oceânia estão se tornando inabitáveis.

 

O que é necessário é repensar toda a "ordem mundial". Será que precisamos realmente de crescimento económico? Ou devíamos nos focar em redistribuição?

 

E vem aí a China! Apesar daquilo que as pessoas são levadas a acreditar (mais uma vez, pelos meios de propaganda ocidentais), a China está na vanguarda da luta pela chamada "civilização ecológica". Sei muito sobre isso, porque estou trabalhando com o grande filósofo John Cobb Jr., o qual tem uma enorme influência na liderança chinesa, inclusive na sua histórica decisão de incluir a civilização ecológica na sua constituição. Juntos, estamos neste momento a escrever um livro sobre o tema. A China está intencionalmente a abrandar o seu crescimento económico, está a regressar à sua sabedoria tradicional e conseguiu também inverter a migração do campo para as cidades, melhorando grandemente a vida rural. O livro estará disponível em menos de um mês.

 

Lémure em cima de mim, Madagáscar

BM: É feliz?

AV: Sim. Completamente. Mesmo quando estou todo fxxxxo e mal me consigo mexer.

 

Sou um lutador, um internacionalista, um comunista. Estamos a ganhar. Devagar, muito devagar, mas a ganhar.

 

A jornada é dura, é perigosa. Mas não quero outra viagem nem qualquer outro destino.

 

A minha vida não é perfeita, mas não a trocaria por outra. Faço o meu melhor. E adoro a minha vida do jeito que é.

 

E adoro histórias. Sem boas histórias, não há vida. Ao longo da viagem, da estrada, há milhões de histórias. Estas definem e ilustram a nossa espécie humana. Com base nestas histórias, há uma grande luta revolucionária incendiando uma vez mais o nosso planeta.

 

Os imperialistas querem que esqueçamos as histórias. Querem que vivamos de histórias pré-fabricadas de Hollywood e da Disney. É nosso dever contar as histórias reais, porque elas são muito mais bonitas do que as geradas por computador e são verdadeiras.

 

É por isso que crio, escrevo e filmo. Sem histórias não há revolução!

 

E quanto mais eu ouço, vejo e crio, mais feliz fico.

 

André Vltchek, 4 de Dezembro de 2018

 

Traduzido para o português por Luís Garcia

Versão original em inglês aqui.

 

André Vltchek é um filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação. Cobriu e cobre guerras e conflitos em dezenas de países. Em português, Vltchek vem de publicar o livro Por Lula

 

Fotos de André Vltchek.

 

 

 

 

 

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Palangkaraya: Sonhando com a capital "soviética" da Indonésia, por André Vltchek

24.12.18 | Pensamentos Nómadas

 

Andre Vltchek Política Sociedade  

 

Acredite ou não, há décadas atrás, a Indonésia era um país socialista, o berço do "Movimento dos Países Não Alinhados", uma nação liderada pelo progressista e impetuoso Presidente Soekarno. O Partido Comunista da Indonésia (PKI) era então o terceiro maior Partido Comunista do mundo, atrás dos da China e da União Soviética e, se não fosse pelo golpe orquestrado pelos EUA em 1965, teria confortável e democraticamente ganho as eleições de 1966.

 

Todos os estratégicos recursos naturais da Indonésia estavam nas mãos do seu povo e do seu governo, que era firme e intransigente. A Indonésia estava se tornando num dos países líderes do mundo: ainda pobre, mas optimista, determinado e cheio de esperança.

 

Soekarno era um sonhador, e assim eram os seus camaradas comunistas.

 

Mas, além de ser um "poeta político", Soekarno era também um pragmático engenheiro civil que sabia uma coisa ou duas sobre arquitectura e planeamento urbano.

 

Uma de suas grandes visões nascidas no final da década de 1950 foi a de construir uma nova capital para o seu enorme país com milhares de ilhas. Há quem diga que um dia ele calculou a localização precisa do "centro geográfico" da Indonésia, espetou um pionés nesse ponto, e depois declarou que seria aí que a nova ibu kota (capital ou "cidade mãe") viria a ser construída.

 

O proverbial pionés marcava uma área que, na realidade, se encontrava no meio da selva impenetrável de Kalimantan (a parte Indonésia do Bornéu), a cerca de 200 quilómetros da cidade mais próxima, Banjarmasin.

 

Antes do início da construção, em 1957, ali havia apenas uma aldeia, Pahandut, a qual pouco depois se tornou a capital da Nova Região Autónoma de Kalimantan Central, com Tjilik Riwut, um camarada de Soekarno, aceitando as funções de primeiro governador. Um ano depois, a futura cidade foi renomeada, passando a chamar-se Palangkaraya.

 

A ideia de projectar esta área urbana veio do camarada Semaun, que foi um dos fundadores e o primeiro presidente do PKI. Graduou-se na "Universidade Comunista dos Trabalhadores do Leste", na União Soviética. Semaun realizava com frequência tarefas de urbanista e, juntamente com Soekarno, estava determinado em erguer a "segunda Moscovo" no meio de Kalimantan/Bornéu, com magníficos centros de pesquisa, teatros, salas de concertos, bibliotecas, museus e transportes públicos, bem como fontes, avenidas largas, praças, parques e marginais.

 

Arquitectos, engenheiros e trabalhadores soviéticos (mas também professores) foram convidados para os ajudar neste gigantesco desafio.

 

No meio da floresta, entre dois rios tropicais, Kahayan e Sabangau, um dos maiores projectos Asiáticos de todos os tempos começava lentamente a ganhar forma.

 

O projecto foi lançado pelo próprio Presidente Soekarno a 17 de Julho de 1957, com a inauguração de um monumento no meio de uma nova rotunda que, mais tarde, deveria vir a tornar-se o centro da nova cidade, da nova província e, por fim, o centro de toda a República da Indonésia (RI).

 

O projecto começou a avançar de forma enérgica. Os soviéticos, lado a lado com os seus camaradas indonésios, iam construindo estradas e erigindo infraestrutura.

 

Havia inclusive planos para a construção de túneis; abrigos antibombas para se protegerem de potenciais ataques das forças malaias e britânicas; túneis preparados para poderem mais tarde ser aprofundados, alargados e servirem como infraestrutura de base para o sistema de transporte público subterrâneo da cidade (metro).

 

O zelo revolucionário do idealismo de Soekarno impulsionava quer construtores locais quer estrangeiros (soviéticos). Esse caótico mas maravilhoso período de "construção de carácter e da nação", como com muita frequência era descrito pelo maior romancista indonésio Pramoedya Ananta Toer,  foi sem dúvida o mais glorioso período da por norma sombria história do arquipélago.

*

E depois, tudo parou de repente!

 

Entre 30 de Setembro e 1 de Outubro de 1965, o Ocidente, juntamente com quadros militares indonésios traidores liderados pelo General Suharto e por religiosos, derrubou a jovem Democracia Socialista e instalou uma das mais brutais ditaduras fascistas do século XX.

 

O que se seguiu foi um genocídio. O país perdeu entre 1 e 3 milhões de intelectuais, comunistas, ateus, artistas e professores. Os rios entupiam-se de cadáveres, mulheres e crianças violadas por gangues, quase toda a cultura progressista proibida, juntamente com as línguas chinesa e russa.

 

O comunismo e o ateísmo também foram banidos. Mesmo palavras como "classe" foram proibidas, juntamente com os dragões chineses, bolos [tradicionais chineses] e lâmpadas vermelhas [também chinesas].

 

O "projecto" Palangkaraya foi subitamente interrompido. Soekarno foi colocado em prisão domiciliar no Palácio de Bogor, onde morreu mais tarde.

 

Engenheiros e trabalhadores soviéticos foram levados para Jacarta e deportados sem cerimónias. Todos os indonésios que tiveram contacto com eles, sem excepção alguma, foram mortos ou "pelo menos" detidos durante um período mínimo de um ano, interrogados na prisão, torturados e, no caso das mulheres, violadas.

 

Os "campos de extermínio" não se encontravam apenas em Java, mas também a norte e a oeste da cidade de Palangkaraya.

 

O plano-mestre, os desenhos e, na verdade, quase todas a informação relacionada com a "segunda Moscovo" no meio de Bornéu "desapareceu" de repente .

 

Geograficamente, Palangkaraya é hoje a maior cidade da Indonésia, mas conta com apenas cerca de 250.000 habitantes.

 

Tal como todas as outras cidades do arquipélago, a sua infraestrutura é inadequada, com notória ausência de vida cultural e está repleta de miseráveis favelas. Não tem absolutamente nenhum transporte público.

 

Grandes sonhos desmoronaram-se por completo. Mas não foi só isso: agora, quase ninguém na cidade ou em qualquer lugar do país está sequer ciente desses grandiosos planos do passado, daquele enorme projecto de construir uma "Indonésia diferente". Um país verdadeiramente independente, anti-imperialista, liderado pelo Presidente Soekarno e pelo Partido Comunista da Indonésia (PKI), morreu, foi partido em pedaços. A demissão do General Suharto não mudou nada. Nunca chegou a acontecer um renascimento do socialismo. O Partido Comunista e o acto de pensar continuam sendo proibidos.

*

Enquanto trabalhava num documentário sobre a devastação natural e o colapso da terceira maior ilha do planeta, o Bornéu, viemos pela primeira vez para Palangkaraya em Outubro de 2018.

 

O que mais nos impressionou foi a forma como o regime limpou por completo tudo o que se relacionasse com o passado da cidade.

 

As pessoas tinham medo de falar, ou simplesmente "não sabiam" de nada. Tal como registei em filme, as crianças não sabiam absolutamente nada sobre o passado, com excepção para aqueles poucos enganosos e primitivos latidos que foram injectados à força nos seus cérebros.

 

Pesquisámos, mas não conseguimos encontrar nenhumas referências ou desenhos detalhados. Aqui como em Jacarta, Bandung e no estrangeiro, tudo desapareceu!

 

É evidente que o grande passado da Indonésia continua a ser classificado como "ultra-secreto". Assim é porque o contraste entre os sonhos revolucionários e a monstruosa realidade dos dias de hoje é demasiado grande e, potencialmente, "demasiado explosivo".

*

Aldeia De Pararapak, Distrito de Barito do Sul, Província de Kalimantan Central.

Lenenson

 

O senhor Lanenson, um homem de 78 anos, de Dayak, parece ser a única pessoa que ainda consegue "lembrar-se" e estar disposto a falar abertamente sobre o povo soviético e sobre o seu envolvimento neste país.

 

O senhor Lanenson é um homem forte e determinado, um homem com orgulho. O seu rosto mostra-se animado, fala alto, apaixonadamente, como quase todos os homens progressistas da sua geração (sejam eles o maior escritor indonésio, Pramoedya Ananta Toer, que já faleceu, ou o extremamente talentoso pintor javanês, Djokopekik, que ainda trabalha e que mostra um profundo despeito pelo actual regime) são capazes de falar.

 

Ele trabalhou com os soviéticos, de perto, lado a lado, como um camarada. Antes de 1965, ele era empregado da Agência do Projecto Rodoviário de Kalimantan (PROJAKAL), trabalhando na Divisão de Recursos Humanos.

 

E ele foi um daqueles que mais tarde foram capturados, presos e brutalmente interrogados, simplesmente porque haviam interagido com cidadãos soviéticos e porque estavam tentando construir, junto com seus amigos estrangeiros, uma muito melhor Indonésia. Ele passou um ano inteiro nas prisões de Suharto, sem que uma única acusação tenha oficialmente sido apresentada contra si.

Após o golpe de 1965 que ocorreu em Jacarta, houve prisões e massacres de pessoas suspeitas de estarem relacionadas com o PKI, ou por serem "Soekarnistas". Todos os que tinham alguma relação com a Rússia foram levados. Eu fui posto num campo de detenção em Palangkaraya.

O exército tratava os prisioneiros de forma desumana. Todas as manhãs acordávamos e depois batiam-nos e insultavam-nos. Os guardas estavam nos brutalizando.”

 

Os olhos do senhor Lanenson começaram a brilhar de emoção quando a sua mente começou a vaguear pelos passados anterior a 1965:

Os russos, eles são pessoas muito trabalhadoras e boas; eles nunca foram conflituosos para com a população local. Até me lembro de pormenores sobre como passava o tempo com o povo russo. À tarde, depois de acabarmos de trabalhar, jogávamos badminton e às vezes futebol, todos juntos. Às vezes, os amigos russos pediam-me para apanhar um porco selvagem, um javali, para podermos assar e comê-lo juntos. Ainda me lembro do nome de uma professora russa, a senhora Valentina. Mas os muçulmanos, já naquela altura, eram muito conflituosos; alguns eram «anti-soviéticos» apenas porque a maioria do povo soviético não era religioso.

 

Será que ele ainda se lembra do entusiasmo da era Soekarno, da "diferente Indonésia" de fazer sonhar, do trabalho duro e da "construção de carácter e da nação"? 

O optimismo e o entusiasmo estavam presentes; senti-o quando trabalhei em colaboração com o povo soviético, construindo a cidade de Palangkaraya.”

 

Ele também acredita fortemente que se o golpe de 1965 não tivesse acontecido, Palangkaraya seria um lugar absolutamente diferente.

 

Ele proferiu algumas palavras em russo, simples palavras, sem nexo mas, surpreendentemente, com uma perfeita pronúncia. Rabota: trabalho. Zdrastvuite: bom dia…

 

A certa altura começou a chover. Uma chuva forte e tropical. Eu não conseguia gravar em condições, mas ele não queria parar.

 

"Podes passar aqui a noite ", sugeriu ele.

 

"Como no Afeganistão", pensei eu, "sempre que eu lá trabalho e que começo a falar russo", as pessoas querem me hospedar e me alimentar. Querem falar e recordar-se. Porque os sonhos do passado são tudo o que lhes resta agora.

*

De volta a Palangkaraya, a senhora Ida, filha de Tjilik Riwut, senta-se no café que é sua propriedade, cercada por fotos a preto e branco do seu pai, o ex-governador da província, nas quais se pode vê-lo trabalhando, conversando e viajando com o Presidente Soekarno e vários outros altos funcionários, bem como com muitas pessoas locais.

 

Ela e a sua filha Putri não sabem muito sobre os massacres de 1965. Ou dizem que não sabem. Muitos tópicos, incluindo este, são ainda hoje um absoluto tabu. Ou especialmente agora, agora que a ilha do Bornéu se encontra completamente arruinada, minada, desflorestada e envenenada por corporações estrangeiras e bandidos locais descritos como "empresários", os mesmo que passaram a conduzir os destinos do país após o genocídio de 1965. Talvez simplesmente não queiram abordar o assunto. Nunca o saberei. Seja como for, "elas não sabem".

 

Mas a senhora Ida fala abertamente sobre esses dias do nascimento da cidade:

Ainda me lembro de quando os engenheiros russos estavam a construir a infraestrutura daqui. Palangkaraya foi construída a partir do zero. Os russos, juntamente com o povo Dayak local, desbravavam a floresta, fazendo um esforço tremendo para converter a selva numa cidade.”

 

Atrás dela está uma foto antiga de seu pai, com a sua famosa citação escrita por cima:

É minha obrigação lutar por esta região. E é também minha obrigação ouvir as vozes do povo. Assim é porque somos servos do povo e da nossa nação."

 

Ouvimos basicamente o mesmo da boca de um famoso jornalista local, o senhor T. T. Suan. Infelizmente, encontrámo-lo acamado, gravemente doente. Não queríamos incomodá-lo, mas a sua família insistiu que entrássemos e nos sentássemos à beira da sua cama. Durante a troca de palavras, a sua filha segurou a sua mão e gritou-lhe ao ouvido (ele ficou surdo do outro ouvido depois de ter sido brutalmente espancado, após o golpe de 1965, quando foi acusado de "colaborar com Tjilik Riwut").

 

Com uma voz fraca mas determinada, explicou:

Ainda me lembro daquela época em que nós, juntamente com os soviéticos, estávamos a construir a progressista cidade de Palangkaraya. Dessa época plena de entusiasmo e disciplina. Sim, os russos realmente nos ensinaram muito sobre disciplina: quando chegávamos ao escritório de manhã e planeávamos as nossas actividades, podíamos apostar que à noite tudo seria implementado.”

 

Perguntámos-lhe sobre o plano-mestre da cidade, entretanto desaparecido.

 

Perdido em sonhos, ele começou a recordar detalhes que ainda lembrava de cor:

A rotunda principal, onde era suposto ficar o grande lago. Esse seria o centro da cidade, de onde todas as planeadas estradas haveriam de partir. À sua volta ficariam os edifícios mais importantes e mais impressionantes: escritórios do governo, o Hospital Nacional, a biblioteca, a universidade, museus, teatros, assim como o Rádio Nacional da Indonésia.”

 

O povo indonésio e o mundo não são supostos saber estas coisas. Mas elas têm de ser conhecidas, documentadas e explicadas. Antes que seja tarde demais, antes que tudo desapareça, antes que morram as pessoas que ainda se lembram.

 

De uma forma enérgica, temos andado telefonando e contactando a família Tjilik Riwut que se encontra agora espalhada por toda a Indonésia. Dizem-nos que alguns membros desta família possam estar na posse do plano-mestre da cidade. Mas ainda não recebemos nenhuma resposta. O plano-mestre, ou foi destruído, ou foi convertido num documento "ultra secreto" e estará apodrecendo algures num cofre de metal. O optimismo da era socialista foi banido, fortemente desencorajado e quase nunca é discutido. Grandiosos projectos públicos foram interrompidos, depois da imposição a partir exterior de um regime capitalista estremista pró-ocidental, em 1965, que paralisou a nação.

 

Como noutros lugares da Indonésia, a propaganda e a censura são omnipresentes. Tanto a imprensa como os académicos são cúmplices..

 

Um arquitecto e professor da Universidade de Palangkaraya, o senhor Wijanarka, autor de um livro sobre o plano de Soekarno para a cidade de Palangkaraya (Sukarno dan Desain RencanaI bukota RI di Palangkaraya), não quis nos encontrar e recusou-se a comentar o contexto político deste tema:

Leia simplesmente o meu livro. O livro fala da pesquisa sobre a estrutura arquitectónica da cidade. Se você me perguntar algo relacionado com a União Soviética, eu lhe direi que não sei, pois apenas me interesso pelo aspecto arquitectónico e não por política.”

 

Como é óbvio, um socialista plano-mestre da cidade, de estilo soviético, faz parte da "política" pela qual ele diz não se interessar.

*

Na nossa segunda visita à cidade, uma torre eléctrica desabou depois de uma tempestade. Toda a cidade ficou às escuras, sem electricidade. Ficava desesperantemente escuro à noite, à excepção de alguns painéis publicitários de cigarros ridiculamente iluminados, assim como alguns bancos e hotéis usando os seus próprios geradores privados.

 

Quando chegámos à aldeia de Kelampangan, onde se encontravam por terra os destroços da torre de alta-voltagem, vimos dezenas de trabalhadores a fumar, a rir e a não fazer nada.

 

De facto, alguns deles chamaram-me "bule", um insulto indonésio violentamente racista e muito comum, que significa "albino".

 

"Estamos à espera das gruas", disse um deles, depois de eu lhe ter perguntado por que razão estavam todos conversando, fumando e fazendo nada.

 

Alguém estava a pilotar um drone por cima do local do acidente. Os polícias riam-se. A cidade sofreu durante alguns vários dias, antes da "grua chegar" e a linha ser reparada. Ninguém se queixou. As pessoas estão habituadas ao colapso total da sua ilha e do seu país. Nada é esperado, nada é exigido ao sistema. Nem em Palangkaraya nem em qualquer outro lugar da Indonésia.

*

Na Biblioteca Central de Kalimantan, um empregada começou a falar entusiasmada para a minha câmara e para o meu gravador:

Naquele tempo, depois de 1965, a maioria das pessoas cultas da cidade foram mortas ou presas sem acusações nenhumas... por vezes tudo ficava confuso: nunca soubemos exactamente o que estava de facto acontecendo em Jacarta, tudo eram apenas rumores... Não há um único livro ou referência sobre o quilómetro 27, onde ocorreram os assassinatos em massa, ou sobre os assassinatos na aldeia de Pararapak... E mais, nas bibliotecas, nunca vimos nada parecido com o plano-mestre da cidade…”

 

No entanto, assim que se apercebeu do real propósito da nossa visita e que viu o cartão com o meu nome, recuou dizendo:

Não use o meu nome, ouviu? Se o fizer, eu processo-o!"

*

A vila ao lado do quilómetro 27 (de Palangkaraya) chama-se Marang. Aí filmo barcos e plataformas ilegais de mineração de ouro, flutuando no rio. Não há protecção, não há medo de ser apanhado enquanto se arruína ilegalmente o ambiente.

 

A miséria é omnipresente. 

 

Uma vez mais, ninguém sabe de nada. As pessoas riem-se abertamente da nossa cara quando perguntamos sobre os assassínios em massa e as valas comuns.

 

Por fim, uma senhora idosa, a senhora Aminah, abre a porta da sua casa de madeira e conta-nos sobre esses terríveis acontecimentos do golpe de 1965. Foi como se ela estivesse à nossa espera. Ela veio à porta, ouviu a nossa introdução e as nossas perguntas, e depois começou a falar:

Naquela época eu era ainda adolescente. Só sei dessas histórias da boca de pessoas mais velhas. Nós, na aldeia de Marang, não sabemos o que de facto aconteceu em Palangkaraya ou em Jacarta. Só sabíamos que as pessoas que estavam registadas no PKI haviam sido presas e mortas. Lembro-me que nessa altura, na nossa aldeia, reinava o medo e o obscurantismo. Mas aqui, felizmente, ninguém foi preso, pois não tínhamos membros oficiais do PKI.

No edifício chamado Ureh (Gedung Ureh, na cidade de Palangkaraya), todos os suspeitos de apoiar o PKI ou, de alguma forma, relacionados com ele, foram detidos. Sim, centenas de pessoas foram detidas lá, sem instalações adequadas. Homens e mulheres foram forçados a se misturar. Algumas mulheres foram violadas e engravidaram. A tortura era comum. De lá, pessoas foram trazidas para aqui, para o quilómetro 27, e depois mortas.”

 

Quantos? "Muitos, muitos..." ela não sabe ao certo. Ela era muito nova, estava muito assustada.

 

Conduzimos até ao quilómetro 27. Há um rio, uma "floresta secundária". Silêncio. Ninguém sabe. Ninguém sabe nada aqui ou na aldeia de Pararapak. Em ambos os lugares, há um silêncio mortal, periodicamente interrompido pelos motores mal afinados das scooters dos locais.

 

Encontrámos um riacho onde milhares de corpos foram despejados. Todos aqueles que tentamos abordar, riem-se. É um pouco como no filme de Oppenheimer "O Acto de Matar".

 

Estes lugares costumavam ser campos de concentração indonésios, dos quais o maior localizava-se na Ilha de Buru, onde quase todos os intelectuais que não foram assassinados, foram detidos após os chamados "acontecimentos de 1965". Aqui, fora de Palangkaraya, aqueles que não têm medo de falar chamam a estes campos de matança mais pequenos: "Buru nos arrozais".

 

O Ocidente, que tira pleno partido da pilhagem massiva do Bornéu e de toda a Indonésia, apelida este país de "normal", "democrático" e "tolerante".

*

sovin

 

Museu de Balanga, Palangkaraya. Este era suposto ter sido um magnífico Museu Nacional, se os planos de Soekarno tivessem sido implementados.

 

Agora é apenas um complexo de barracas de um andar, com fraca manutenção, subfinanciadas e com falta de pessoal.

 

Visitámos um edifício dedicado à colecção de fotos e artefactos da era Tjilik Riwut.

 

Duas curadoras do museu, ou chame-as de atendedoras, não tinham absolutamente nenhuma ideia sobre como Palangkaraya foi de facto construída. Nada sobre o seu plano-mestre, nem mesmo sobre no que consistia o "plano-mestre".

 

"Passado socialista da Indonésia?" interroga-se uma delas, depois de eu lhe perguntar. "Na verdade sim, sinceramente, nós aqui socializamos, mesmo agora.”

 

A curadora do museu não sabia nada sobre os assassinatos em massa na região. Quando insistimos, ela começou a olhar para nós com medo. Queria-nos ver longe dali, longe, mas era demasiado educada para insistir que saíssemos do local.

 

A outra mulher começou a explicar, sobre o genocídio, que:

Toda a gente sabe, mas as provas foram todas destruídas. As histórias passam de avós para pais, e deles para nós, os filhos. Mas apenas histórias, nada de concreto.”

 

Meninas, alunas de um colégio local, algumas com 12 anos, outras com 13, primeiro riram-se, depois coraram, quando perguntadas sobre a cidade e sua história. Não sabiam absolutamente nada sobre o passado de Palangkaraya. Perguntadas sobre as condições da cidade, responderam, em uníssono:

A cidade é fixe.”

 

E o que dizem sobre o futuro da cidade? Recebemos pré-fabricadas respostas "pop":

No futuro, esperamos uma cidade cheia de carros, escolas…”

*

O escritor Indonésio J. J. Kushnir, que nasceu no centro de Kalimantan, mas que passou muitos anos em França, está agora de volta. Vive com a sua mulher em Palangkaraya.

 

Até agora, não é claro se ele esteve exilado em França ou se ele foi para a Europa estudar e lá ficou durante décadas. O que se sabe é que durante a Orde Baru (a "nova ordem" fascista de Suharto), ele foi proibido de entrar na Indonésia.

 

Encontrámo-nos com ele, que nos explicou que agora ele se oporia a transferir a capital da Indonésia de Jacarta para Palangkaraya, porque as condições mudaram após estas várias décadas:

Acredito que agora Palangkaraya e Kalimantan Central têm características de semi-colónias. Nos tempos de Seokarno era muito diferente, tudo fazia sentido: se você mudasse a capital para Palangkaraya, militarmente, teríamos espaço de manobra. E os outros, a Malásia e os britânicos. não seriam capazes de nos atacar facilmente. Kalimantan Central encontra-se no meio do país.”

 

J. J. Khushi conta-nos sobre os campos de concentração e os campos de matança. Ele também descreve um sombrio cenário de desespero, quando fala sobre o actual estado da cidade e da província.

*

Poderia Palangkaraya ser descrita como um fracasso total, um cemitério de sonhos?


Sem dúvida!

 

Um enorme área da cidade encontra-se repleta, tal como no resto das cidades indonésias, de bairros mal planeados. Há favelas nas margens dos rios, grotescos bairros de lata, alguns sobre estacas, sem saneamento básico e com um extremamente escasso fornecimento de água e de electricidade.

 

Enormes mesquitas estão sendo construídas um pouco por todo o lado.

 

Aqui não há cultura e há muito poucos espaços públicos.

 

Apenas uma cidade indonésia mediana, onde o "estado é incapaz de fornecer serviços básicos aos seus cidadãos" (a definição de um estado fracassado, em teoria).

 

Kiwi D. Rampai, um arqueólogo de 74 anos, conhecido pelos seus muitos estudos sobre a história de Kalimantan Central, em particular a cultura do povo Dayak, gosta de falar sobre o optimismo trazido para Palangkaraya pelas mãos de Soekarno:

Lembro-me da era Soekarno como um período de grande optimismo e entusiasmo. Palangkaraya foi construída por Soekarno, juntamente com o povo Dayak de Kalimantan Central e os trabalhadores estrangeiros, especialmente os dos Sindicatos Soviéticos. Tudo foi feito com grande dedicação…”

 

Infelizmente, os estudos históricos conduzidos pelo senhor Kiwok durante décadas nunca receberam o necessária apreço. Alegadamente, houve mesmo uma tentativa de eliminar os documentos, muito provavelmente por razões políticas.

*

Na biblioteca, perguntámos se há muitos investigadores ou pesquisadores indonésios e estrangeiros interessados na história da cidade.

 

"Nunca ninguém vem fazer perguntas semelhantes às que você fez" é a resposta.

 

Os soviéticos foram-se embora de Palangkaraya. O seu legado foi aniquilado pelos ensurdecedores gritos de ódio, pelo derramamento de sangue, pela impingida ignorância e por determinadas campanhas de propaganda e intimidação.

 

 

Hoje a União Soviética já não existe, embora a forte Rússia anti-imperialista a tenha substituído em muitos aspectos na arena global.

 

Todos se lembram da "estrada russa", aquela que parte da rotunda e se dirige para oeste.

 

É permitido mencionar, até mesmo glorificar esta bem-construída via. Mas só se for "fora de contexto". "Os russos construíram a estrada; boa estrada, talvez a melhor estrada jamais construída na Indonésia.” Ponto. Nada sobre socialismo, comunismo, União Soviética. Nada sobre Soekarno, o PKI e nada sobre o estado de espírito anti-imperialista do jovem independente, sim, verdadeiramente independente país.

 

Na realidade, os russos (não apenas "russos", mas pessoas de todas as partes da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), vieram a Kalimantan para apoiar a recém-independente República Socialista da Indonésia. Vieram para oferecer ajuda e solidariedade internacionalistas, para construir a capital e, eventualmente, a indústria, a infraestrutura, os hospitais e as escolas. Era isso que os soviéticos faziam regularmente em África, no Vietname, no Afeganistão ou no Médio Oriente.

 

Após o golpe de 1965 apoiado pelos EUA, chegou um novo tipo de pessoas, principalmente do Ocidente, mas muitos de Java tambémm e até mesmo do próprio Kalimantan. Ajudaram a cortar a bela e imaculada floresta tropical, a aplanar as montanhas, a envenenar os rios e a exterminar inúmeras espécies endémicas. Implementaram malignas plantações de óleo de palma. Roubaram ao povo local as suas terras e tudo o que tinham e aconselharam o regime Indonésio a levar a cabo a "transmigrasi": um programa concebido para transformar a população nativa numa minoria na sua própria terra, para que nunca pudessem ter como objectivo a independência. Eles também educaram, ou melhor, "re-educaram" toda uma nação, incluindo a Província Central de Kalimantan: "Eles forçaram as massas a amar os seus carrascos. Transformaram-nos em seres obedientes. Destruíram a sua capacidade de sonhar, de voar, de lutar por um futuro melhor".

 

A Palangkaraya de Soekarno colapsou. Já não existe.

 

Tentámos encontrar um lugar sossegado para falar sobre a cidade com a neta de Tjilik Riwut, que voltou recentemente de Jacarta.

 

Ela tinha pensado em dois lugares. Um deles era um bar cheio de fumo e barulento, com monstruosa "música" rock e pop. Mas era impossível ter uma conversa lá, devido aos decibéis.

 

O segundo seria um dos dois hotéis mais ou menos decentes que, afinal, era um prostíbulo disfarçado de karaoke bar.

 

Acabámos por ficar no jardim do hotel.

 

"O que fazem as pessoas nesta cidade de um quarto de milhão?" perguntávamo-nos nós.

 

Não havia muito em que ela pudesse pensar. Também não havia muito em que pudéssemos pensar.

 

Mencionámos o metro, o Teatro Nacional, os grandes belos museus, galerias, salas de concerto, o circo, institutos de pesquisa, parques com fontes, hospitais públicos e universidades com bibliotecas bem abastecidas. Todos públicos, todos para o público. Tentámos envolvê-la numa conversa sobre os sonhos de Soekarno e do seu avô.

 

Ela mudou de tema.

 

Nós não.

 

E o resultado é este ensaio e, em breve, um livro sobre o grande sonho socialista que nunca chegou a ser realizado. Um sonho que foi silenciado, esmagado e denegrido pelo niilismo, servilismo e egoísmo. Mas, quiçá, só por enquanto.

 

O sonho chamava-se Palangkaraya. E era feito de coisas incríveis: de zelo, de homens e mulheres, lado a lado, altruisticamente construindo uma nova capital para a sua nova e amada Indonésia, no meio do nada, para o povo, sempre para o povo!

 

Este sonho é demasiado belo. Não poderá jamais ser traído. Não deverá nunca ser esquecido. E portanto, não permitiremos que seja esquecido.

 

André Vltchek, 2 de Dezembro de 2018

 

Traduzido para o português por Luís Garcia

Versão original em inglês aqui.

 

Por Lula, de Andre Vltchek

André Vltchek é um filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação. Cobriu e cobre guerras e conflitos em dezenas de países. Três dos seus últimos livros são  Revolutionary Optimism, Western Nihilism, o revolucionário romance Aurora e um trabalho best-seller de análise política: “Exposing Lies Of The Empire”. Em português, Vltchek vem de publicar o livro Por Lula. Veja os seus outros livros aqui. Assista ao Rwanda Gambit, o seu documentário inovador sobre o Ruanda e a República Democrática do Congo, assim como ao seu filme/diálogo com Noam Chomsky On Western Terrorism. Pode contactar André Vltchek através do seu site ou da sua conta no Twitter.

 

Todas as fotos do artigo por: André Vltchek.

 

 

 

 

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Na Síria, a nação inteira foi mobilizada e ganhou, por André Vltchek

23.12.18 | Pensamentos Nómadas

 

Homs - destruição total

 

Andre Vltchek Política Sociedade

 

Sim, há montes de escombros, inclusive total destruição nalguns bairros de Homs, de Aleppo, nos subúrbios de Damasco e um pouco por todo o lado.

 

Sim, há terroristas e "forças estrangeiras" em Idlib e vários pequenas bolsas nalgumas partes do país.

 

Sim, centenas de milhares de pessoas perderam as suas vidas e milhões estão no exílio ou são refugiados internos.

 

Mas a nação síria está firmemente de pé. Não desmoronou como a Líbia ou o Iraque. Nunca se rendeu. Nunca colocou a hipótese de se render. Passou por uma enorme agonia, sofreu fogo e inimaginável dor, mas no fim ganhou. Quase ganhou. E a vitória, muito provavelmente, finalizar-se-á em 2019.

 

Apesar do seu relativamente pequeno tamanho, não ganhou como uma "pequena nação", lutando uma guerra de guerrilha. Está vencendo como se de um grande e forte estado se tratasse: lutou com orgulho, frontalmente, abertamente, contra todas as probabilidades. Confrontou os invasores com tremenda coragem e resistência, em nome da justiça e da liberdade.

 

A Síria está ganhando, pois a única alternativa seria a escravatura e a subserviência, e estas não fazem parte do léxico das gentes daqui. Os sírios ganharam porque tinham de ganhar ou, caso contrário, enfrentar a inevitável morte do seu país e o colapso do seu sonho de uma pátria Pan-árabe.

 

A Síria está a ganhar e, se tudo correr bem, nada aqui no Médio Oriente voltará a ser o mesmo. As longas décadas de humilhação árabe acabaram. Agora, toda "a vizinhança" está a assistir [ao que se passa na Síria]. Agora toda a gente sabe: o Ocidente e seus aliados podem ser combatidos e detidos; eles não são invencíveis. São tremendamente agressivos e implacáveis, sim, mas não invencíveis. As mais vis infiltrações de fundamentalistas religiosos também podem ser esmagadas. Já o disse antes e volto a repeti-lo aqui: Aleppo tem sido a Estalinegrado do Médio Oriente. Aleppo, e Homs, e outras grandes e corajosas cidades sírias. Aqui, o fascismo foi confrontado, combatido com todo a força e com grande sacrifício, e foi por fim detido.

*

 

Com o general sírio Akhtan Ahmad

 

Estou sentado no gabinete do general sírio Akhtan Ahmad. Falamos russo. Pergunto-lhe sobre a situação da segurança em Damasco, embora já saiba a resposta. Há várias tardes e noites que tenho vindo a caminhar pelas estradas estreitas e sinuosas da Cidade Velha, um dos berços da humanidade. Mulheres e até jovens raparigas também por lá caminhavam. A cidade é segura.

É segura", sorri o General Akhtan Ahmad, com orgulho. “Sabe que é segura, não sabe?”

 

Aceno com a cabeça. Ele é um dos principais comandantes dos serviços de informações sírios. Deveria ter perguntado mais, muito mais. Detalhes e mais detalhes. Mas eu não quero saber de detalhes; não agora. Quero ouvir uma e outra vez que Damasco é segura, para ele, para os meus amigos, para os que passam.

A situação é agora muito boa. Saia à noite…”

 

Digo-lhe que o faço. Digo-lhe que o tenho feito desde que cheguei.

Já ninguém tem medo”, continua ele. “Mesmo em lugares onde grupos terroristas costumavam operar, a vida está a voltar ao normal… O governo sírio está agora fornecendo água e electricidade. As pessoas estão a regressar às regiões libertadas. O leste de Guta foi libertado há apenas 5 meses e agora você pode ver lojas abrindo lá, umas atrás das outras.”

 

Obtenho várias licenças assinadas. Tiro uma foto com o General. Fui fotografado com ele. Ele não tem nada a esconder. Ele não tem medo.

 

Digo-lhe que no final de Janeiro de 2019, ou em Fevereiro, o mais tardar, quero viajar a Idlib, ou pelo menos aos subúrbios daquela cidade. Tudo bem, só tenho que avisá-los com alguns dias de antecedência. Palmira, tudo bem. Aleppo, não há problema.

 

Apertamos as mãos. Eles confiam em mim. Eu confio neles. É o único caminho a seguir, isto ainda é uma guerra. Uma guerra terrível e brutal. Apesar do facto de Damasco estar agora livre e segura.

*

Depois de sair do escritório do General, vamos a Jobar, nos arredores de Damasco. E depois a Ein-Tarma.

 

É uma loucura total.

 

Jobar costumava ser uma área predominantemente industrial e Ein-Tarma um bairro residencial. Ambos foram reduzidos quase inteiramente a escombros. Em Jobar, é-me permitido filmar dentro dos túneis que costumavam ser usados pelos terroristas; pelas Brigadas Rahman e por outros grupos com ligações directas à Frente al-Nusra.

 

O cenário é assustador. Antigamente estas fábricas ofereciam dezenas de milhares de empregos para a população da capital. Nada funciona aqui. Silêncio mortal, só pó e destroços.

 

O tenente Ali acompanha-me, enquanto eu caminho sobre os escombros. Perguntei-lhe o que aconteceu aqui. Ele responde, através do meu intérprete:

Este lugar só foi libertado em Abril de 2018. Foi um dos últimos lugares a ser recuperado das mãos dos terroristas. Durante 6 anos, uma parte foi controlada pelos "rebeldes" e a outra pelo exército. Os inimigos cavaram túneis e foi muito difícil derrotá-los. Eles usaram todas as infraestruturas que puderam, incluindo escolas. A maioria dos civis conseguiu escapar a partir deste lugar.”

 

Eu questionei-o sobre a destruição, embora soubesse a resposta, visto que sírios amigos meus costumavam viver nesta área e contaram-me as suas histórias em detalhe. O tenente Ali confirmou:

O Ocidente alimentava o mundo com propaganda, dizendo que esta destruição era causada pelo exército. De facto, o exército sírio entrava em confronto com os rebeldes apenas quando estes atacavam Damasco. Por fim, os rebeldes retiraram-se daqui, depois das conversações com o governo mediadas pela Rússia.”

*

Alguns quilómetros mais a leste, em Ein-Tarma, as coisas são bem diferentes. Antes da guerra, este era um bairro residencial. As pessoas costumavam viver aqui, na sua maior parte em edifícios de vários andares. Aqui os terroristas atacaram os civis com força. Durante meses e anos, famílias inteiras tiveram de viver com medo e sofrendo terríveis privações.

 

Parámos numa humilde loja onde se vendiam vegetais. Aí, aproximei-me de uma senhora idosa e, depois de ela concordar, comecei a filmar.

 

Ela falou, e depois gritou, directamente para a câmara, abanando as suas mãos:

Vivíamos aqui como se fossemos gado. Os terroristas trataram-nos como animais. Estávamos assustados, famintos, humilhados. Mulheres: os terroristas pegavam em 4 ou 5 esposas, forçando as meninas e as mulheres para o que eles chamavam de casamentos. Não tínhamos nada, não sobrou nada!”

 

"E agora?" perguntei eu.

Agora? Veja! Agora vivemos de novo. Temos um futuro. Obrigado, obrigado Bashar!"

 

Ela chama o seu presidente pelo nome próprio. Coloca as palmas das mãos contra o seu coração e, depois de as beijar, voltar a acenar com as suas mãos. 

 

De facto, não há nada a perguntar. Apenas filmo. Em dois minutos, esta senhora disse tudo.

 

À medida que nos afastávamos, apercebo-me que provavelmente ela não é velha, mesmo nada velha. Mas o que aqui aconteceu despedaçou-a. Ela agora vive; agora vive e de novo têm esperanças.

 

Peço ao meu motorista que dirija devagar e começo a filmar a estrada, destruída e empoeirada, mas cheia de trânsito: pessoas caminhando, bicicletas e carros passando, evitando os buracos. Nas ruas adjacentes, as pessoas trabalham duro, reconstroem, limpam escombros, cortam vigas caídas. A electricidade está a ser restaurada. Vidros são montados nos caixilhos de madeira danificados. Vida. Vitória. Tudo isto é agridoce, pois tantas pessoas morreram; pois tanto foi destruído. Mas é vida, apesar de tudo; é de novo vida. E esperança, tanta esperança.

*

Com os meus amigos Yamen e Fida no Café Havana, Damasco.

 

Sento-me com os meus amigos, Yamen e Fida, num clássico café de Damasco, chamado Havana. É uma verdadeira instituição; um lugar onde os membros do Partido Baath se encontravam durante os velhos e turbulentos dias. Há fotografias do Presidente Bashar al-Assad exibidas em destaque.

 

Yamen, professor, recorda como ele teve que se mudar de um apartamento para outro, por várias ocasiões, durante os últimos anos:

A minha família vivia mesmo ao lado de Jobar. Tudo à volta estava sendo destruído. Tivemos de nos mudar. Então, num novo local, andava eu caminhando com o meu filho quando um morteiro aterrou perto de nós. Uma vez vi um edifício em chamas. O meu filho chorava horrorizado. Uma mulher ao nosso lado gemia, tentando lançar-se ela própria nas chamas: «O meu filho está lá dentro, preciso do meu filho, dêem-me o meu filho!» Naquela altura, não conseguíamos prever de onde e quando o perigo chegaria. Perdi vários parentes, familiares. Todos nós perdemos.”

 

Fida, colega de Yamen, está tomando conta da sua mãe idosa, todos os dias, depois de voltar do trabalho. A vida ainda é dura, mas os meus amigos são verdadeiros patriotas e isso os ajuda a lidar com os desafios diários.

 

Enquanto tomamos uma chávena de um forte café árabe, Fida explica:

[Você] vê-nos rindo e brincando mas, no fundo, quase todos sofremos de um profundo trauma psicológico. O que aqui aconteceu foi duríssimo; todos vimos coisas terríveis e perdemos nossos entes queridos. Tudo isto permanecerá connosco por muitos anos. A Síria não tem suficientes psicólogos e psiquiatras profissionais para lidar com a situação. Tantas vidas foram danificadas. Ainda sinto medo. Todos os dias. Muitas pessoas foram terrivelmente abaladas.

Tenho pena dos filhos do meu irmão. Nasceram no meios deste caos. O meu sobrinho mais pequeno... uma vez estávamos sob um ataque com morteiros. Ele estava tão assustado. As crianças são terrivelmente afectadas! Pessoalmente, não tenho medo de ser morta. Tenho medo de perder um braço, ou uma perna, ou de não poder levar a minha mãe ao hospital se ela se sentir mal. Pelo menos a minha cidade ancestral, Safita, sempre esteve segura, mesmo nos piores dias do conflito.”

 

“A minha Salamiyah não,” lamenta Yamen:

Salamiyah costumava ser pura e simplesmente horrível. Muitas aldeias tiveram de ser evacuadas... muitas pessoas morreram lá. Para o leste da cidade onde estavam posicionada al-Nusra, enquanto a parte ocidental estava ocupada pelo ISIS".

 

Sim, centenas de milhares de sírios foram mortos. Milhões de pessoas forçadas a abandonar o país, escapando tanto dos terroristas como do conflito, bem como à pobreza que vem a seguir aos combates. Milhões foram internamente deslocados; toda uma nação em movimento.

 

No dia anterior, depois de deixar Ein-Tarma, andámos de carro perto de Zamalka e Harasta. A totalidade de enormes bairros foram arrasados ou, pelo menos, terrivelmente danificados.

 

O esplêndido Museu Nacional 

A cidade velha de Damasco à noite

 

Quando você vê os subúrbios orientais de Damasco, quando você vê os edifícios fantasmas sem paredes nem janelas, com buracos de balas pontilhando os pilares, você pensa que você já viu tudo. A destruição é tão grande. Parece que a totalidade de uma enorme cidade foi desfeita em pedaços. Dizem que esta paisagem sinistra não muda durante pelo menos 15 quilómetros. O pesadelo continua, sem interrupção.

 

Então sim, você tende a pensar que já viu tudo, mas na verdade não, não viu tudo. E isto porque ainda não visitou Aleppo ou Homs.

*

Durante anos, tenho lutado pela Síria. Fui fazendo-o a partir da periferia.

 

Consegui entrar nos Montes Golã ocupados por Israel e acumular provas sobre a brutalidade e o cinismo dos ocupantes.

 

Durante anos, fiz a cobertura da vida em campos de refugiados e "à sua volta". Alguns campos eram campos de verdade, mas outros eram na realidade fortalezas onde se treinavam terroristas, mais tarde injectados pela NATO em território sírio. Uma vez quase desapareci enquanto filmava Apayadin, uma dessas "instituições", erguida não muito longe da cidade turca de Hattay (Antakya).

 

"Quase" desapareci, mas outros morreram mesmo. Cobrir o que o Ocidente e os seus aliados têm feito à Síria é tão perigoso como cobrir a guerra dentro da própria Síria.

 

Trabalhei na Jordânia, escrevendo sobre os refugiados, mas também sobre o cinismo da colaboração jordana com o Ocidente. Trabalhei no Iraque onde, num campo perto de Erbil, os sírios eram forçados tanto pelas ONGs como pelo pessoal da ONU a denunciar o presidente Assad, caso quisessem receber pelo menos alguns serviços básicos. E, é claro, trabalhei no Líbano, onde mais de um milhão de sírios têm vivido, muitas vezes enfrentando condições inimaginavelmente terríveis e também discriminação (muitos estão agora regressando a casa).

 

E, agora que finalmente eu me encontrava do lado de dentro, tudo me parecia surreal. Mas bem.


A Síria pareceu-me ser o que eu esperava que fosse: heróica, corajosa, determinada e inequivocamente socialista.

*

Celebrações do aniversário do Profeta Maomé em Homs

A vida continua em Homs

Determinado, o governador de Homs marcha em frente

Famílias visitando as suas ruas destruídas em Homs

Veja como combatentes islâmicos ali implantados tratavam as mesquitas de Homs

 

Homs. Antes de lá ir, pensei que já nada me poderia surpreender. Trabalhei por todo o Afeganistão, no Iraque, no Sri Lanka, em Timor Leste. Mas logo me percebi que, antes de visitar Homs, ainda não tinha visto nada.

 

A destruição de várias partes da cidade é tão grave que se assemelha à face de um outro planeta, ou a um fragmento de um qualquer filme de terror apocalíptico.

 

Pessoas caminhando sobre ruínas, um casal de idosos visitando o que costumava ser o seu apartamento, um sapato de menina que encontro no meio da estrada, coberto de poeira. Uma cadeira no meio de um cruzamento, a partir do qual todas as quatro estradas conduzem a horríveis ruínas.

 

Homs foi onde o conflito começou.

 

O meu amigo Yamen explicou-me, quando conduzíamos em direcção ao centro, que:

Aqui, os meios de comunicação atiçaram o ódio, sobretudo os meios de comunicação ocidentais. Mas havia também os canais do Golfo: a al-Jazeera, bem como as estações de televisão e rádio da Arábia Saudita. O Xeque Adnan Mohammed al-Aroor aparecia duas vezes por semana num programa de televisão, no qual dizia às pessoas para irem para as ruas, para baterem em tachos e panelas, para lutarem contra o governo.”

 

Homs foi onde a rebelião anti-governo começou, em 2011. A propaganda anti-Assad vinda do exterior logo alcançou um crescendo. A oposição foi ideologicamente apoiada pelo Ocidente e pelos seus aliados. Rapidamente o apoio tornou-se tangível e passou a incluir armas e munições, assim como milhares de combatentes jiadistas.

 

Uma cidade outrora tolerante e moderna (num país secular), Homs começou a mudar, dividindo-se em grupos religiosos. Com a divisão veio a radicalização.

 

Um bom amigo meu, um sírio que agora vive na Síria e no Líbano, contou-me a sua história.:

Eu era muito jovem quando a revolta começou. Alguns de nós tinham certas queixas legítimas e começámos a protestar, esperando que as coisas pudessem mudar para melhor. Mas muitos de nós logo perceberam que os nossos protestos estavam literalmente sendo sequestrados a partir do exterior. Queríamos um conjunto de mudanças positivas, enquanto alguns líderes fora da Síria queriam derrubar o nosso governo. Consequentemente, deixei o movimento.

 

Depois partilhou comigo o seu mais doloroso segredo:

No passado, Homs era uma cidade extremamente tolerante. Sou um muçulmano moderado e a minha noiva era um cristã moderada. Éramos muito chegados. Mas, depois de 2011, a situação na cidade foi mudando rapidamente. O radicalismo não parava de crescer. Pedi-lhe repetidamente para cobrir o seu cabelo quando passasse por bairros muçulmanos. Fazia-o por preocupação, porque começava a ver com clareza o que estava a acontecer à nossa volta. Ela nunca aceitou fazê-lo. Um dia, foi baleada no meio da rua. Eles mataram-na. A vida nunca mais foi a mesma.

 

No Ocidente, muitas vezes dizem que o governo sírio foi, pelo menos parcialmente, responsável pela destruição da cidade. Mas a lógica de tais acusações é absolutamente perversa. Imagine Estalinegrado. Imagine uma invasão estrangeira, uma invasão apoiada por várias potências fascistas hostis. A cidade riposta e o governo tenta parar o avanço das tropas inimigas. A luta, horrível, uma épica luta pela sobrevivência da nação, continua. De quem é a culpa? Dos invasores ou das forças governamentais que defendem a sua própria pátria? Poderá alguém criticar as tropas soviéticas por terem lutado nas ruas das suas próprias cidades atacadas pela Alemanha Nazi?

 

Talvez a propaganda Ocidental seja capaz de realizar tais "análises"; seres humanos racionais não.

 

A lógica aplicada a Estalinegrado deve também ser aplicada a Homs, a Aleppo e a várias outras cidades sírias. Tendo literalmente feito a cobertura de dezenas de conflitos iniciados pelo Ocidente em todo o mundo (e descrito esses conflitos em detalhe no meu livro de 840 páginas Exposing Lies Of The Empire), não tenho dúvidas nenhumas: a total responsabilidade por esta destruição recai sobre os invasores.

*

A senhora Hayat relembrando o seu filho em Homs

 

Estou face a face com a senhora Hayat Awad, num restaurante antigo chamado Julia Palace e que costumava ser uma fortaleza terrorista. Terroristas ocupavam este lindo lugar, localizado no coração da Cidade Velha de Homs. Agora, as coisas estão lentamente renascendo aqui, pelo menos em várias partes da cidade. O mercado antigo está em funcionamento e a universidade está aberta, assim como estão vários edifícios governamentais e hotéis. Mas a Senhora Hayat vive simultaneamente no passado e no futuro.

 

A senhora Hayat perdeu o filho, Mahmood, durante a guerra. O seu retrato está sempre com ela, gravado num pendente que leva sempre ao peito.

Ele tinha apenas 21 anos, estudante ainda, quando decidiu se juntar ao exército sírio. Ele disse-me que a Síria é como uma mãe para ele. Ele ama-a, como me ama a mim. Ele estava lutando contra a frente al-Nusra e a batalha era muito dura. Ao final do dia ligou-me, só para me dizer que a situação não era muito boa. Na sua última chamada, pediu-me que o perdoasse. Ele disse: «Talvez eu não volte. Por favor, perdoa-me. Eu amo-te!».”

 

Haverá muitas mais mães como ela, aqui em Homs, que perderam os seus filhos?

Sim, conheço muitas mulheres que perderam os seus filhos; e não apenas um filho, por vezes dois ou mesmo três. Conheço uma senhora que perdeu os seus dois únicos filhos. Esta guerra tirou-nos tudo. Não só os nossos filhos. Eu culpo os países que apoiaram essas ideologias extremistas trazidas para a Síria; países como os Estados Unidos e os países europeus.”

 

Obrigado Rússia! [em russo e árabe]

 

Depois de eu parar de filmar, ela agradece à Rússia pelo apoio prestado. Ela agradece a todos os países que estiveram ao lado da Síria durante estes anos difíceis.

 

Não muito longe de Julia Palace, os trabalhos de reconstrução está em pleno andamento. E, a poucos metros de distância, uma mesquita restaurada está a ser reaberta. As pessoas dançam e celebram. É o aniversário do Profeta Maomé. O governador de Homs marcha rumo às festividades, na companhia de membros do seu governo. Não há quase nenhuma segurança à volta deles.

 

Se o Ocidente não desencadear mais uma onda de terror contra o seu povo, Homs ficará bem. Não de imediato, talvez não em breve, mas ficará um dia, com a resoluta ajuda de russos, chineses, iranianos e outros camaradas. A própria Síria é forte e determinada. E os seus aliados são poderosos.

 

Quero acreditar que os anos mais horríveis já passaram. Quero acreditar que a Síria já ganhou.

 

Mas eu sei que ainda há Idlib, e há também bolsas ocupadas por forças turcas e forças ocidentais. Ainda não acabou. Os terroristas não foram totalmente derrotados. O Ocidente disparará mísseis seus. Israel enviará a sua força aérea para agredir o país. E os meios de comunicação do Ocidente e do Golfo continuarão com a sua guerra mediática, agitando e confundindo certos segmentos do povo sírio.

 

Ainda assim, ao sair de Homs, vejo lojas (até de roupa) sendo abertas no meio dos escombros. Algumas pessoas estão de novo se vestindo elegantemente, como forma de mostrar a sua força, a sua determinação de deixar para trás o passado e de viver, mais uma vez, as suas vidas normais.

*

De volta a Damasco, a auto-estrada está em perfeitas condições e a área industrial de Hassia está a ser reconstruida e ampliada. Há uma enorme central eléctrica, apoiada pelos iranianos, segundo me disseram. Apesar da guerra, a Síria continua a fornecer electricidade ao vizinho Líbano.

 

Yamen dirige a 120 km/h e nós divertimo-nos com a piada: assim que passamos a ter medo de radares de velocidade e não de snipers, podemos afirmar que a situação no país está melhorando drasticamente.

 

Encontramos um comboio militar russo estacionado numa área de repouso. Os soldados estão bebendo café. Não há receio. Os sírios tratam-nos como se fossem o seu próprio povo.

 

Sobre o deserto, vejo o mais espectacular dos pores-do-sol.

 

Depois, uma vez mais, passamos por Harasta, desta vez à noite.

 

Apetece-me praguejar. Não o faço; praguejar é demasiado fácil. Preciso de pegar no meu computador o mais rápido possível. Tenho de escrever, trabalhar. Trabalhar muito, o melhor que puder.

*

É fácil sentir-se em casa na Síria. Talvez porque o russo é a minha língua materna ou talvez porque as pessoas aqui sabem que eu sempre defendi o seu país.

 

Alguns obstáculos burocráticos foram resolvidos rapidamente.

 

Trabalhando com o Ministro da Educação da Síria

 

Encontrei-me com o ministro cessante da Educação, o Dr. Hazwan Al-Waz, também romancista. Falámos sobre a sua escrita, sobre o seu último livro Amor e Guerra. Ele confirmou-me o que eu sempre soube, como romancista revolucionário:

Durante a guerra, tudo é politizado, mesmo o amor."

 

E depois, algo que eu nunca esquecerei:

O meu Ministério da Educação tem sido, de facto, o Ministério da Defesa."

 

Ontem à noite, em Damasco, andei por toda a cidade velha até de manhã cedo. A certa altura, aproximei-me da espectacular Mesquita dos Omíadas e, logo atrás dela, o mausoléu do sultão Saladino.

 

Não pude entrar. A esta hora da noite encontrava-se encerrado. Mas podia facilmente vê-lo através das barras de metal do portão.

 

Este corajoso comandante e líder lutou contra os enormes exércitos dos invasores ocidentais, os Cruzados. Tendo vencido quase todas as batalhas que participou, encontra a sua paz e o seu lugar de descanso final aqui, em Damasco.

 

Prestei homenagem a este antigo companheiro internacionalista, e depois pus-me a pensar, enquanto bebia um forte café numa tenda ali perto, a meio da noite: "Terá Saladino participado nesta última épica batalha travada pela nação Síria contra as hordas de bárbaros estrangeiros?”

 

Talvez o seu espírito tenha. Ou, mais provavelmente, algumas batalhas tenham sido lutadas e ganhas com o seu nome nome por entre os lábios.

 

"Eu voltarei", disse eu, caminhando de volta para o meu hotel, poucos minutos depois da meia-noite. Dois grandes gatos peludos acompanharam-me, seguindo os meus passos até à primeira esquina. "Voltarei muito em breve".

 

A Síria mantém-se de pé. E é isso que realmente importa. Nunca se ajoelhou. E nunca o fará. Nós não permitiremos que o faça.

 

E maldito seja o imperialismo!

 

André Vltchek, 11 de Dezembro de 2018

Traduzido para o português por Luís Garcia.

Versão original em inglês aqui (também publicado aqui e aqui).

 

Por Lula, de Andre Vltchek

André Vltchek é um filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação. Cobriu e cobre guerras e conflitos em dezenas de países. Três dos seus últimos livros são  Revolutionary Optimism, Western Nihilism, o revolucionário romance Aurora e um trabalho best-seller de análise política: “Exposing Lies Of The Empire”. Em português, Vltchek vem de publicar o livro Por Lula. Veja os seus outros livros aqui. Assista ao Rwanda Gambit, o seu documentário inovador sobre o Ruanda e a República Democrática do Congo, assim como ao seu filme/diálogo com Noam Chomsky On Western Terrorism. Pode contactar André Vltchek através do seu site ou da sua conta no Twitter.

 

Todas as fotos do artigo por: André Vltchek.

 

 

 

 

 

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O que acontecerá se os Coletes Amarelos franceses ganharem?, por André Vltchek

20.12.18 | Pensamentos Nómadas

O que acontecerá se os Coletes Amarelos franceses ganharem?

 

Andre Vltchek Política Sociedade  ECONOMIA 

 

O que acontecerá se os protestantes em Paris ganharem e o governo francês ceder às suas exigências?

 

O que acontecerá se os impostos forem reduzidos, os salários forem aumentados e o presidente Macron se retirar?

 

Não me refiro apenas ao imposto sobre os combustíveis, pois a tentativa de impor [um aumento] já foi abandonada. Não me refiro ao aumento do salário mínimo, pois o governo já concordou em aumentá-lo em 100 euro por mês.

 

Eu refiro-me a reais mudanças de fundo que muitos dos protestantes parecem desejar: uma substancial redução de impostos para a maioria dos cidadãos franceses, um generoso aumento dos salários e uma melhoria nos benefícios social para todos.

 

Portanto, se os Coletes Amarelos conseguirem obter tudo isto, o que acontecerá? Quem sairá beneficiado? E, por outro lado, quem sairá prejudicado?

*

Um dos meus leitores escreveu-me recentemente dizendo que a França deveria reduzir o seu orçamento militar e, com esses milhares de milhões de euros poupados, poderia facilmente financiar as exigências dos protestantes.

 

Um outro leitor escreveu-me dizendo que os cidadãos mais ricos de França (as "elites", se preferir) deveriam ser fortemente taxados e que o dinheiro recolhido desta forma poderia ser distribuído pelos pobres e pela classe média-baixa.

 

Soa "razoável"? Sim, sem dúvida; razoável e lógico. O único minúsculo problema é que todos sabemos que tal nunca acontecerá.

 

O presidente Macron foi levado ao trono precisamente por essas assim chamadas elites. Em troca, esse pessoal rico espera ver garantidos os seus privilégios, ou até mesmo aumentados.

 

E imaginar que um país membro da NATO (neste caso a França) reduziria repentinamente o seu orçamento militar e que, com o dinheiro economizado, começaria a financiar vários novos programas sociais para os pobres e para a classe média, é irrealista, é infantil até.

 

Portanto, de onde virão os fundos se o governo francês decidir fazer algo verdadeiramente "radical"; radical pelo menos segundo os padrões do nosso turbo-capitalismo: ouvir o seu próprio povo?

 

Vou deixar-me de rodeios e colocar a minha questão de forma brutal e concreta: "Se todas as exigências dos Coletes Amarelos forem satisfeitas, quem pagará a conta?"

*

Para pôr tudo isto num outro contexto: escrevo este ensaio em Hanói, capital do socialista Vietname. 

 

Há uns tempos atrás, eu costumava viver nesta cidade. Passei mais de três anos aqui, quando [a cidade] ainda era pobre e as pessoas ainda se lembravam da guerra, algumas até [se lembravam] inclusive do colonialismo francês. 

 

Imediatamente após a minha chegada, o que mais me chocou foi que, enquanto o povo vietnamita parecia ter "perdoado" os EUA,  nunca tinham chegado a perdoar os colonialistas franceses. 

 

"Porquê?", perguntei eu aos meus amigos. "Como é que isto é possível? Não foram os bombardeamentos e as campanhas de assassinatos durante a «Guerra Americana» (que é conhecida no ocidente como «Guerra do Vietname») terrivelmente brutais, levando à perda de milhões de vidas vietnamitas, cambojanas e laocianas?" 

 

"Claro que foi", foi-me prontamente dito. "Mas nós lutámos e, apesar das horríveis perdas e dificuldades, nós derrotámos os americanos num relativamente curto espaço de tempo. E, de qualquer modo, não foram apenas eles; a coligação era também composta por países como a Coreia do Sul, a Austrália, a Nova Zelândia, o Canadá, a Tailândia e, claro, a França."

 

E a história continuou:

Os franceses ocuparam-nos e atormentaram-nos durante muito mais tempo. E também humilhavam continuamente o nosso povo. Eles escravizaram-nos, torturaram-nos, levaram as nossas mulheres, violaram-nas e roubaram-nos tudo o que tínhamos."

 

Perto do local onde costumava morar, havia uma famosa "Prisão Central", equipada com guilhotinas, salas de tortura, células para confinamento solitário. Agora, em exibição, encontram-se monstruosos instrumentos usados pelos colonizadores franceses para torturar e violar patrióticas mulheres vietnamitas capturadas: garrafas de cerveja, cabos eléctricos, bengalas.

 

O que quer que a colonizada Indochina tinha, foi roubado: levado até França, de forma a financiar a construção de grandiosos teatros, caminhos de ferros, metros, parques e universidades. E sim, para subsidiar a criação desse famoso sistema social francês que, como correctamente é dito agora pelos Coletes Amarelos, está sendo desmantelado pelas "elites" francesas e pelo sistema político que estes controlam por completo.

 

O povo vietnamita lutou com bravura contra os franceses, acabando finalmente por derrotá-los na icónica batalha de Điện Biên Phủ. Mas as vitoriosas forças comunistas vietnamitas herdaram uma terra saqueada e dividida, destituída de seus recursos e até mesmo dos seu trabalho artísticos (vários intelectuais franceses, incluindo o famoso escritor e depois Ministro da Cultura no governo de De Gaulle, André Malraux, que lá viveu quando era jovem, confessaram ter roubado objectos de arte de Indochina).

 

É desnecessário dizer que, até aos dias de hoje, empresas francesas continuam pilhando de forma selvagem muitas partes do Sudeste Asiático, por meio de projectos de mineração e outros projectos neocolonialistas, como acontece em várias outras partes de África, do Médio Oriente e da América Latina.

 

 

Agora pergunte em Hanói, pergunte em Phnom Penh ou em Vientiane, se o povo da "Indochina" (que insultuoso e bizarro nome foi dado a esta parte do planeta pelos franceses durante o período colonial) apoia os Coletes Amarelos em Paris? Pergunte-lhes se eles acham que, se [os Coletes Amarelos] obtiverem em Paris as concessões [que exigem], será melhorada a vida na Ásia. 

 

Consegue adivinhar o tipo de respostas?

*

Eu não digo que sejam erradas as exigências do povo que luta nas ruas de Paris. Não, não são. São absolutamente legítimas. 

 

As elites francesas são selvagens, egoístas e até perversas. O actual governo francês está simplesmente ao seu serviço, tal como todos os presidentes dos EUA estão ao serviço das grandes corporações, incluindo aqueles mortíferos conglomerados militares. "Eles devem ir embora", devem desaparecer e dar lugar àquilo que é o lógico padrão evolucionário humano: uma sociedade socialista e igualitária.

 

Só que estes não estão prontos para partir. Pelo contrário. Há séculos que vêm roubando o planeta inteiro e, agora, vão tão longe como pilhar o seu próprio povo (que estava habituado a receber uma parte do saque).

 

Os cidadãos franceses não estão habituados a ser pilhados. Durante séculos viveram bem e, durante as últimas décadas, viveram "extremamente bem". Desfrutaram de alguns dos mais generosos benefícios do mundo inteiro.

 

Quem pagava por tudo isso? E quem se importava com esta questão? Alguma vez foi esta questão importante para os habitantes de Paris, de outras grandes cidades ou do interior francês? Questionavam-se os agricultores franceses sobre a razão pela qual recebiam generosos subsídios quando produziam excessivas quantidades de comida e vinho e, também, quando lhes era pedido pelo governo que não produzissem grande coisa? Tinham eles o hábito de viajar até ao Senegal ou até outros lugares da África Ocidental e investigar como esses subsídios destruíram completamente o sector agrícola de várias antigas colónias francesas? Preocupavam-se eles com o facto de que milhões de vidas foram ali arruinadas por completo? Ou que, em lugares tão longínquos como a Indonésia ou o Brasil, corporações francesas têm agressivamente vindo a tomar conta da produção de comida e bebidas, assim como a distribuição de comida, e que, em resultado disso, o preço da comida tenha disparado para o dobro ou o triplo daquilo que custa em Paris, enquanto os salários locais continuam a ser, nalguns casos, apenas 10% dos salários em França?

 

E a comida é só um dos exemplos. Mas este ensaio era suposto ser sobre algo ligeiramente diferente: sobre os Coletes Amarelos e sobre o que acontecerá se todas as suas exigências forem satisfeitas.

*

Se concordarmos que o regime que governa a França, todo o ocidente e muitas das suas colónias e neocolónias é verdadeiramente monstruoso, perverso e brutal, então temos de chegar à lógica conclusão de que este não irá pagar as facturas de um melhor serviço médico ou melhor [sistema de] educação, nem tampouco baixará impostos nem aumentará salários aos cidadãos comuns franceses.

 

Se as exigências dos protestantes forem atendidas, haverá outros que serão obrigados a pagar a conta. Muito provavelmente dezenas de milhões ou centenas de milhões serão "taxados". E esses não estão vivendo em França, na União Europeia ou sequer nas redondezas desta.

 

Será que os manifestantes do Movimento Coletes Amarelos estão a pensar neste problema? Será que se importam, um pouco que seja, com este problema?

 

Também não o fizeram no passado. Talvez quando umas poucas quantas pessoas como Jean Paul Sartre ainda estavam vivas, estas questões eram periodicamente perguntadas. Mas depois disso não; agora não. Durante esta rebelião dos Campos Elísios não. 

 

Será que as pessoas em França se questionam sobre quantos milhões terão de morrer para que se possa melhorar a qualidade de vida nas cidades francesas e no interior francês?

 

Ou quiçá, para "compensar", para cobrir as despesas sociais, algum país "teria de ser" invadido? Teria de ser o Irão? Ou talvez a Venezuela?

 

The New York Times, num dos seus artigos sobre o interior francês, mencionou o facto de que há quem se queixe de já não terem poder de compra para levar a sua esposa a jantar ao restaurante. Problema deveras sério, mas será que justificaria uma batalha pelo Irão ou pela Venezuela, e sua consequente pilhagem? Ou será que justificaria o massacre de mais umas centenas de milhares na Papua Ocidental? 

*

Eu sugeriria algo que ajudaria a convencer os verdadeiros internacionalistas, bem como as pessoas em todo o mundo pilhado, de que o Mouvement des Gilets Jaunes não está apenas lutando de forma egoista pelos benefícios que melhorariam a vida dos cidadãos franceses à custa de muitos outros em todo o mundo:

 

Esses devem explicitar que compreendem e que não são indiferentes aos outros. Digam claramente que são contra o capitalismo e o imperialismo, contra o colonialismo e a pilhagem dos povos e dos seus recursos em absolutamente todas as partes do nosso Planeta!

 

Digam que são pela liberdade, igualdade e fraternidade de todos os seres humanos, não apenas de franceses!

 

Digam que isto é revolução de verdade, uma verdadeira batalha para melhorar o mundo, não apenas por mais dinheiro, impostos mais baixos e melhores benefícios exclusivamente para aqueles que vivem em França!

 

Digam que nunca aceitariam quaisquer benefícios ou dinheiro extra, se fossem fruto do roubo do pouco que sobra em nações pobres e colonizadas.

 

Se disserem tudo isto, e se demonstrarem que realmente falam a sério, então terei de gritar Vive la Révolution!, e juntar-me-ei a eles (os manifestantes) do fundo do meu coração.

 

Mas até que o façam, até que eu esteja convencido de que a sua vitória não prejudicaria outros, milhões de outros, eu continuarei muito mais preocupado com as pessoas do Vietname e da Papua, com o Irão, com África, com a Síria ou com todo o Médio Oriente, do que com a possibilidade de um qualquer indivíduo do interior francês poder se dar ao luxo de levar a sua esposa a jantar fora num restaurante.

 

André Vltchek, 17 de Dezembro de 2018

Traduzido para o português por Luís Garcia

Versão original em inglês aqui.

 

Por Lula, de Andre Vltchek

André Vltchek é um filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação. Cobriu e cobre guerras e conflitos em dezenas de países. Três dos seus últimos livros são  Revolutionary Optimism, Western Nihilism, o revolucionário romance Aurora e um trabalho best-seller de análise política: “Exposing Lies Of The Empire”. Em português, Vltchek vem de publicar o livro Por Lula. Veja os seus outros livros aqui. Assista ao Rwanda Gambit, o seu documentário inovador sobre o Ruanda e a República Democrática do Congo, assim como ao seu filme/diálogo com Noam Chomsky On Western Terrorism. Pode contactar André Vltchek através do seu site ou da sua conta no Twitter.

 

 

 

 

 

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Por que razão a Venezuela e a Síria não podem cair, por André Vltchek

19.12.18 | Pensamentos Nómadas

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Andre Vltchek Política Sociedade

 

AVISO: A versão original em inglês deste artigo é antiga e data de 10 de Junho de 2018. 

 

Apesar das tremendas dificuldades que o povo venezuelano tem vindo enfrentando, apesar das sanções e das intimidações vindas do exterior, o presidente Nicolás Maduro ganhou um segundo mandato de seis anos.

 

Há duas semanas atrás, na embaixada da Venezuela em Nairobi, no Quénia, onde me dirigi a vários líderes de oposição de esquerda da África Oriental, um Charge d’ Affaires, Jose Ávila Torres, declarou: "O povo da Venezuela está agora enfrentando uma situação semelhante à do povo sírio".

 

Verdade. Ambas nações, Venezuela e Síria, estão separadas por uma tremenda distância geográfica, mas estão unidas pelo mesmo destino, pela mesma determinação e pela mesma coragem.

 

Durante a Guerra Civil Espanhola, combatentes anti-fascistas checos, voluntários das Brigadas Internacionais, costumavam dizer: "Em Madrid, estamos lutando por Praga". Madrid caiu nas mãos dos fascistas de Franco em Outubro de 1939. Praga fora ocupada por tropas alemãs vários meses antes, em Março de 1939. Foram a cegueira e a cobardia dos líderes europeus, assim como o apoio que as hordas fascistas assassinas receberam das populações de todas as partes do continente, que levaram a uma das maiores tragédias da história moderna: uma tragédia que apenas terminou a 9 de maio de 1945, quando as tropas soviéticas libertaram Praga, derrotando a Alemanha nazi e, de facto, salvando o mundo.

 

Mais de 70 anos depois, o mundo enfrenta uma outra calamidade. O Ocidente, mentalmente incapaz de terminar pacificamente com os seus vários séculos de assassino reinado sobre o planeta, um reinado que já ceifou centenas de milhões de vidas humanas, está concentrando as suas forças e precipitando-se de forma tresloucada em todas as direcções, provocando, antagonizando e até mesmo atacando directamente países tão longínquos como a Coreia do Norte (RPDC), China, Irão, Rússia, Síria e Venezuela.

 

O que está acontecendo agora não é chamado de fascismo ou nazismo, mas é precisamente isso, visto que o [seu] bárbaro domínio é baseado no desprezo pelas vidas humanas não-ocidentais, em fanáticos dogmas de extra-direita que fedem a excepcionalismo e num desejo desenfreado de controlar o mundo.

 
Muitos dos países que se recusaram a vergar-se à brutal força ocidental foram recente e literalmente reduzidos a escombros, incluindo o Afeganistão, a Líbia e o Iraque. Em muitos outros países, os governos foram derrubados por intervenções directas e indirectas, assim como trapaceados, como foi o caso do mais poderoso país da América Latina: o Brasil. Inúmeras "revoluções coloridas",  "revoluções guarda-chuva" e outros tipos de revoluções como as "primaveras" têm sido patrocinadas por Washington, Londres e outras capitais ocidentais.

 

Mas o mundo está acordando, lenta mas irreversivelmente, e a luta pela sobrevivência da nossa espécie já se encontra em andamento. 

 

A Venezuela e a Síria estão, sem margem para dúvidas, na vanguarda desta luta. 

 

Contra todas as expectativas, sangrando mas mantendo-se heroicamente de pé, estes países posicionam-se contra poderes esmagadoramente mais fortes, e recusam desistir.

 

"Aqui ninguém se rende!", Gritou Hugo Chávez, já careca devido à quimioterapia, morrendo de cancro que muitos na América Latina acreditam ter sido obra dos Estados Unidos. O seu punho estava cerrado e pesada chuva caía sobre o seu rosto. Assim morreu um dos maiores revolucionários dos nossos tempos. Mas a sua revolução sobreviveu e continua marchando em frente!

*

Estou bem consciente do facto que muito dos meus leitores são ocidentais. Por alguma razão, especialmente a europeus, já não consigo explicar o que significa ser um revolucionário. Recentemente discursei perante uma grande assembleia de professores "progressistas" que teve lugar na Escandinávia. Tentei despertá-los da letargia, tentei explicar-lhes que monstruosos crimes o Ocidente tem vindo a cometer pelo mundo inteiro durante séculos.

 

Tentei mas falhei. Quando as luzes se acenderam, senti-me perfurado pelos olhares penetrantes. Sim, houve aplausos, e muitos levantaram-se com aquele falso cliché de ovação em pé. Mas eu tinha plena noção que os nossos mundos encontravam-se separados por uma enorme distância. 

 

O que se seguiu foram pré-fabricadas e superficiais questões sobre direitos humanos na China, sobre o "regime de Assad", mas nada sobre a responsabilidade dos povos ocidentais. 

 

Para se perceber o que se passa na Síria e na Venezuela, é preciso sair da mentalidade ocidental. Não pode ser compreendido por egoístas mentes obcecadas exclusivamente com sexualidade, orientação sexual e com interesses pessoais. 

 

Há algo de fundamental, algo muito elementar e humano que está ocorrendo quer na Síria quer na Venezuela. Trata-se de orgulho humano, de amor à pátria, de amor pela justiça e por sonhos, por uma muito melhor configuração do mundo. Não é algo mesquinho, é de facto algo enorme. Algo grande o suficiente pelo qual vale a pena lutar e morrer. 

 

Em ambos os países, o ocidente fez um erro de cálculo, tal como claramente fez erros de cálculo nos "casos" de Cuba, da Rússia, da China, do Irão e da Coreia do Norte. 

 

“Patria no se vende!” ("A Pátria não se vende!") tem sido repetido durante décadas em Cuba.

 

Lucro não é tudo. Ganho pessoal não é tudo. Egoísmo e minúsculos embora inflamados egos não são tudo. Justiça e dignidade valem muito mais. Ideais humanos valem muito mais. Para algumas pessoas é de facto mais valioso. Sim, sem dúvida, são, acredite em mim, por mais absurdo que possa isto soar no Ocidente. 

 

A Síria está sangrando, mas recusa render-se ao terrorismo injectado pelos ocidentais e seus aliados. Aleppo transformou-se na Estalinegrado dos tempos modernos. A troco de um enorme preço, a cidade resistiu a todos os viciosos ataques, conseguiu alterar o curso da guerra e, graças a isso, salvou o país. 

 

Venezuela, tal como Cuba nos anos 90, encontra-se sozinha, abandonada, cuspida e demonizada. Mas não se ajoelhou.  

 

Na Europa e na América do Norte, análises do que se está ali passando têm sido feitas de forma "lógica" e "racional". Ou será mesmo assim?

 

Será que os ocidentais sabem de facto o que significa ser colonizado? Será que sabem quem são os "opositores venezuelanos"?

 

Será que estão a par da forma persistente com que terror tem sido espalhado pelo ocidente, durante séculos, por toda a América Latina, desde lugares como a República Dominicana e Honduras, até ao Chile e Argentina nos confins do continente?

 

Não, não sabem nada, ou quase nada, como aqueles alemães que viviam mesmo ao lado de campos de exterminação e que, depois da guerra, defendia-se dizendo que não tinham ideia sobre a natureza daquele tal fumo saindo de chaminés.

 

Não há praticamente um país da América Central e do Sul cujo governo não tenha sido derrubado pelo menos uma vez pelo Norte, a toda a vez que se decidiu trabalhar em prol do povo.

 

E o Brasil, no ano passado, transformou-se na "última edição" dos pesadelos, das campanhas de desinformação, das "fake news" e de golpes, espalhados em conjunto com "elogios" vindos do Norte, por intermédio de "elites" locais.

*

Está a ver, não vale de todo a pena discutir demasiados assuntos com a "oposição" de países como a Venezuela, Cuba ou a Bolívia. O que há a dizer já foi dito. 

 

O que está ocorrendo não são discussões académicas mas sim guerra: uma real e brutal guerra civil.

 

Eu conheço a "oposição" nos países da América Latina, e conheço as suas "elites". Sim, claro que conheço muitos dos meus camaradas, os revolucionários, mas também estou bem familiarizado com as "elites".

 

Só para dar uma ideia, deixe-me relembrar aqui uma conversa que tive uma vez na Bolívia com o filho de um poderoso senador de direita, que era ao mesmo tempo um magnata dos meios de comunicação. Num estado ligeiramente ébrio, ele insistia em repetir que:

“Em breve correremos a pontapé com esse índio de merda [presidente da Bolívia, Evo Morales] ... Acha que nos preocupamos com dinheiro? Temos montes de dinheiro! Não queremos saber se perdemos uns milhões de dólares, mesmo 10 milhões de dólares! Nós iremos espalhar insegurança, incerteza, medo, deficits e, se for preciso, até fome... Sangraremos esses índios até à morte!"  

 

Tudo isto poderá soar "irracional" e indo contra o seus próprio evangelho capitalista. Mas eles não se preocupam com racionalidade, apenas pensam em poder. E, de qualquer das formas, aqueles que os manipulam a partir do Norte, compensarão as suas perdas.

 

Não há forma de negociar ou de debater com este tipo de pessoas. São traidores, ladrões e assassinos.

 

Há décadas e décadas que vêm usando a mesma estratégia, apostando na candura e no humanismo dos seus oponentes socialistas. Arrastavam governos progressistas para infinitos e fúteis debates, usando depois os seus próprios média e também média ocidentais para os difamar. Se não funcionasse, sufocavam as suas próprias economias, criando deficits como no Chile antes do golpe de estado de Pinochet de 1973. Quando nada disto funcionava, usavam terror às claras e de forma implacável. E por fim, como último recurso, recorriam a intervenções ocidentais directas. 

 

Não estão lá pela "democracia" ou sequer pelo "livre mercado". Estão lá para servir os mestres ocidentais e os seus próprios interesses feudais.

 

Negociar com eles é perder. É o mesmo que jogar o jogo com as suas próprias regras. Porque por detrás deles está toda a propaganda ocidental, assim como a maquinaria financeira e militar. 

 

A única maneira de sobreviver é endurecer, cerrar os dentes e lutar. Como Cuba tem feito desde há décadas e, sim, como a Venezuela está fazendo agora.

 

Essa abordagem não parece muito "adorável"; nem sempre é "clara", mas é o único caminho a seguir, o único caminho para o progresso e único que garante a sobrevivência da revolução .

 

Antes de Dilma ter sido "impugnada" por esse bando de corruptos tresloucados pró-Ocidente, eu sugeri, no meu ensaio que foi censurado pelo Counterpunch mas que foi publicado em dezenas de outros média em todo o mundo e em muitas línguas, que ela deveria ter enviado tanques para as ruas de Brasília. Sugeri que era essa a sua obrigação, em nome do povo brasileiro que votou nela e que beneficiou enormemente com o governo do seu PT. 

 

Ela não o fez, e agora tenho quase a certeza que ela se arrepende de não o ter feito. O seu povo está novamente sendo roubado; está sofrendo. E, como resultado, toda a América do Sul está em desordem.

*

Corrupção? Má administração? Durante décadas e séculos, os povos da América Latina foram governados e roubados por bandidos corruptos que usavam o seu continente como uma vaca leiteira, enquanto viviam na repulsiva opulência da aristocracia ocidental. Obviamente, tudo o que foi feito em nome da "democracia" foi uma tremenda trapalhada. 

 

A Venezuela ainda existe, sofrendo horrivelmente e quase morrendo de fome, mas em recuperação, e com o povo se unindo em apoio ao governo. É que, para muitas pessoas, os interesses pessoais são secundários. O que de facto importa é o seu país, a ideologia socialista e a grande pátria sul-americana. Patria grande.

 

Tudo isto é impossível de explicar. Não é racional, é intuitivo, profundo, fundamental e humano.

 

Aqueles sem ideologia nem capacidade de se comprometer, nunca o entenderão. E, sinceramente, que importa se o fazem ou não.

 

Esperemos que em breve o Brasil e o México (os dois mais populosos países da América Latina) votem em novos governos de esquerda. Então as coisas mudarão e tornar-se-ão bem melhores para a Venezuela.

 

Até lá, Caracas tem de contar com os seus distantes mas chegados camaradas e a amigos, China, Irão e Rússia, e também com a sua linda e destemida irmã: Cuba.

 

Evo Morales recentemente alertou que o Ocidente está planeando um golpe na Venezuela.
 

O governo de Maduro tem de sobreviver mais alguns meses, até o Brasil regressar e o México se juntar ao grupo.

 

Será uma luta dura, quem sabe até sangrenta. Mas a história não se faz com fracos compromissos e capitulações. Não se pode negociar com o fascismo. A França tentou, durante a segunda guerra mundial, e todos sabemos no que deu.

 

O ocidente e o seu fascismo só podem ser combatidos, jamais apaziguados.

 

Quando alguém defende o seu país, as coisas não podem ser todas certinhas. Não existem santos. Santidade conduz à derrota. Os santos nascem depois, depois de obtida a vitória e quando a nação puder se dar ao luxo de os ter.

 

A Venezuela e a Síria têm de ser apoiadas e defendidas, custe o que custar.

 

Essas maravilhosas pessoas, venezuelanos e sírios, estão agora sangrando, lutando em nome de todo o mundo oprimido e não-Ocidental. Em Caracas e Damasco, as pessoas estão lutando, lutando e morrendo pelas Honduras e pelo Irão, pelo Afeganistão e pela África Ocidental.

 

Os seus inimigos apenas podem ser parados pela força.

*

Na Escandinávia, um verme sírio, que mora no Ocidente, que vilipendia o presidente Assad e que é totalmente recompensado por o fazer, desafiou-me, assim como ao "regime" sírio e ao Irão, durante uma sessão de perguntas e respostas. Eu disse que me recuso a discutir isto com ele, pois mesmo que passássemos duas horas gritando um com o outro, em público, nunca encontraríamos um ponto em comum. Foram pessoas como ele que começaram a guerra, e guerra é o que merecem ter. Eu disse-lhe que ele é sem dúvida pago pelos seus esforços e que a única maneira de resolvermos o assunto seria "lá fora", na rua.

 

A Venezuela e a Síria não podem cair. Há demasiadas coisas em jogo. Ambos lutam neste momento contra algo enorme e sinistro: lutam contra o imperialismo ocidental no seu todo. Não se trata apenas de alguma "oposição" ou de alguns elementos traidores dentros das suas sociedades.

 

Trata-se de algo bem maior. Está em jogo o futuro e a sobrevivência da humanidade.

 

Milhares de milhões de pessoas em todo o mundo têm seguido de perto as eleições na república bolivariana. Lá, o povo votou. O presidente Maduro ganhou. Uma vez mais ganhou. Com cicatrizes e marcas, mas ganhou. Uma vez mais, o socialismo derrotou o fascismo. Viva a Venezuela, irra!

 

André Vltchek, 10 de Junho de 2018

Traduzido para o português por Luís Garcia

Versão original em inglês aqui.

 

Por Lula, de Andre Vltchek

André Vltchek é um filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação. Cobriu e cobre guerras e conflitos em dezenas de países. Três dos seus últimos livros são  Revolutionary Optimism, Western Nihilism, o revolucionário romance Aurora e um trabalho best-seller de análise política: “Exposing Lies Of The Empire”. Em português, Vltchek vem de publicar o livro Por Lula. Veja os seus outros livros aqui. Assista ao Rwanda Gambit, o seu documentário inovador sobre o Ruanda e a República Democrática do Congo, assim como ao seu filme/diálogo com Noam Chomsky On Western Terrorism. Pode contactar André Vltchek através do seu site ou da sua conta no Twitter.

 

 

 

 

 

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André Vltchek entrevistado por Alessandro Bianchi

09.12.18 | Pensamentos Nómadas

 

Andre Vltchek Política Sociedade

 

Entrevista para o L’Antidiplomatico 

 

Alessandro Bianchi (AB): Comecemos com a crise de hoje no Mar de Azov. A União Europeia e a NATO deram apoio total à Ucrânia após a violação da soberania russa cometida por duas embarcações ucranianas. O Secretário Geral da NATO Jens Stoltenberg deu o seu total apoio a Poroshenko, o qual declarou lei marcial. Que riscos corre um país como a Itália ao continuar a ser membro da NATO?

 

André Vltchek (AV): A Rússia interceptou 3 navios ucranianos no estreito de Kerch. Mesmo de acordo com as autoridades ucranianas, havia a bordo dos navios vários agentes de inteligência, assim como várias armas ligeiras e metralhadoras. Foi uma clara provocação, visto que os navios recusaram informar as autoridades russas acerca das suas intenções e comportaram-se de maneira agressiva. Estavam a passar por águas territoriais russas. É óbvio que oficiais da inteligência ucraniana estiveram no controlo de toda a operação. Portanto, o que é de facto "alarmante" para o ocidente? Os navios foram parados, a suas tripulações foram detidas e há uma séria investigação em curso.

 

O "incidente" teve lugar apenas uns dias antes do encontro dos G20 na Argentina, onde era suposto os presidentes Trump e Putin se encontrarem. Mais, ocorreu apenas 4 meses antes das eleições presidenciais ucranianas (Março de 2019), e Poroshenko está atrás dos dois candidatos favoritos, com apenas 8% de apoio popular. A Ucrânia, sob a sua liderança, está em tão caótico estado que alguns apartamentos da capital (Kiev) não serão aquecidos durante este inverno. Logicamente, Poroshenko provocou esta crise para passar uma imagem de homem forte, esperançoso de obter alguma popularidade. Poroshenko impôs lei marcial por 30 dias, embora originalmente quisesse fazê-la durar 2 meses. Que significa esta lei marcial? A imprensa será censurada e as críticas ao governo irão ser limitadas. Bom para o  grotescamente impopular presidente? Sim, sem dúvida.

 

E mais, é óbvio que o Ocidente, em particular a UE e a NATO, estão por detrás desta nova vaga de perigosa loucura. 

 

A Itália  faz parte quer da UE quer da NATO. Tal como estou a escrever no meu novo ensaio, não faz sentido acreditar que "os europeus sejam lavados do cérebro ou que não saibam o que o Ocidente está fazendo pelo mundo inteiro". A maior parte deles sabe ou, pelo menos, suspeita. Só que fingem não saber. Na Europa, há um sombrio acordo entre governos, corporações e o povo. O povo quer mais benefícios, e não se importa que os benefícios sejam fruto da pilhagem do planeta. Desde que obtenham os seus beníficios, calam-se. E se acharem que não estão obtendo o suficiente, protestam, como recentemente em Paris. Mas preocupam-se eles com as dezenas de milhões de "não-pessoas" que morrem pelos seus benefícios? Claro que não!

 

O mesmo se passa com a Rússia, a China ou o Irão. Europeus em geral e italianos em particular, sabem bem que há uma espécie de perversa propaganda contra aqueles países que recusam vergar-se ao diktat Ocidental. Mas não farão nada para acabar com isto. Sabe tão bem, não sabe, sentir-se superior, "democrático" e "livre"? E é horrível admitir que uma pessoa vive num lugar que espalha terror pelos quatros cantos do mundo, roubando mesmo tudo o que os pobres têm. Estas seis semanas de férias poderiam tornar-se amargas, se os italianos se decidissem a ver quem de facto paga para eles. E por isso calam-se, e ficarão calados até que seja "demasiado tarde".

 

Lembre-se, países como a Rússia e a China têm as suas próprias "democracias" (governo do povo). Não o sistema ocidental. Governantes e as massas comunicação e interagem de forma directa, de uma forma bem distinta. E quer num quer noutro país, o povo já teve "o que bastasse" de intimidação e brutalidade infligida pelo Ocidente, durante séculos e séculos. Só um pouco mais e as coisas rebentam. Se se pressionar ainda mais, a Rússia e a China responderão. Se militarmente provocados, defender-se-ão. O mesmo se aplica ao Irão. Fazendo parte do grupo que terroriza o mundo, a Itália também terá de pagar o preço.

 

AB: O ministro russo Sergei Lavrov pediu aos Aliados Ocidentais para "intervirem" e "acalmarem" as autoridades ucranianas, avisando sobre o perigo de ser cruzado "o ponto de não retorno" entre a Rússia e o Ocidente. Será real o risco guerra, mesmo perante a enorme acumulação de tropas da NATO na fronteira?

 

AV: Sim, claro que é real. Imagine uma inversão de papéis: se o Irão ou a China ou a Rússia ou a Venezuela ou a Síria ou Cuba fizessem ao Ocidente aquilo que o Ocidente lhes está fazendo, haveria nesse caso um risco real de guerra?

 

Esta impunidade e crença racista numa total impunidade, que é tão prevalecente no Ocidente, tem que acabar. E há-de acabar em breve. Como se diz no Chile: "Pela razão ou pela força".

 

AB: Você esteve recentemente na Síria, um país que, graças à intervenção russa e a resistência do povo sírio apoiado por aliados regionais (sobretudo o Irão e o Ézbolá), está pouco a pouco tentando voltar à normalidade. Que país encontrou lá?

 

AV: Encontrei um lindo, confiante e orgulhoso país. Estou também escrevendo um grande artigo sobre esta visita.

 

Encontrei-me com muitas vítimas, pessoas normais, mas também com um general e com o Ministro da Educação, o qual é também um bem-sucedido escritor. As suas palavras de ordem são: "O Ministério da Educação é como o Ministério da Defesa". Exactamente: educação sem ideologia e paixão é apenas uma perda de tempo. 

 

A Síria ganhou. E por lá, a totalidade do mundo árabe ganhou também com isso. Durante décadas os árabes foram completamente humilhados, humilhados pelo Ocidente, por Israel e pelos seus próprios líderes escolhidos por Londres, Paris e Washington.

 

Como já escrevi muitas vezes, Aleppo é a Estalinegrado do Médio Oriente. As perdas foram tremendas, por toda a Síria. Mas a vitória é igualmente tremenda. O pan-arabismo florescerá de novo. As pessoas em todos os países da região estão assistindo e agora sabem que é possível derrotar o imperialismo ocidental, os seus espiões e os seus terroristas.

 

A Rússia manteve-se ao lado da sua irmã árabe com determinação, mas também de forma sábia. A Rússia utilizou diplomacia sempre que pôde, e apenas usou força quando não havia outra solução. Na Síria, os russos conquistaram os corações dos locais. Por todo o lado se pode ler "Obrigado Rússia", inclusive gravado em tradicionais caixas de madeira. Sendo a língua russa a minha língua materna, esta abriu-me muitíssimas portas, abriu-me milhares de portas no Afeganistão (algo que não estava nada à espera).

 

A Síria tem de finalizar a sua vitória para breve. E eu lá estarei de volta, cobrindo os eventos. Na frente, se necessário.

 

É incrivelmente belo e positivo estar num país que não se deixou prostituir, um país que se manteve firme e de pé, que lutou com dureza, pelo seu povo e pela totalidade da região. Nota-se grande confiança e delicadeza nas caras das pessoas. As celebrações não são efusivas porque, como é sabido, muita gente morreu. Mas as pessoas saem para a rua, até ao amanhecer, homens e mulheres, rapazes e raparigas. Os cafés sobrelotados, as ruas de Damasco super movimentadas. Mesmo em Homs e nos destruídos subúrbios de Damasco a vida está desafiadoramente voltando ao normal.

 

Que nação! Sim, eles dizem "Obrigado Rússia!". Como internacionalista que sou, digo "Obrigado Síria!".

 

AB: O ataque químico perpetrado por "rebeldes" ontem em Aleppo desmascara as mentiras dos média mainstream dos últimos anos. Que papel desempenharam os média na legitimação da destruição [da Síria] realizada pelos grupos terroristas apoiados e financiados pelo Ocidente e pelos seus aliados do Golfo?

 

AV: Um enorme papel. Na Síria, por fim, os meios de comunicação mainstream ocidentais deixaram de existir. Tornaram-se numa prostituída força do Império, nada mais. Mas todos nosso sabemos que quer os média quer [os sistemas de] educação são, no fundo, usados para doutrinar as pessoas, pelo menos no Ocidente e nos seus estados "clientes".  

 

Há tanta provocação. As companhias de comunicação do Golfo e do Ocidente literalmente atearam o conflito, espalhando mentiras, incentivando as pessoas a rebelar-se contra o governo. Essas companhias têm as mãos manchadas de sangue, tal como a Pashtun Service e a BBC têm as mãos manchadas de sangue, tal como a VOA, a Radio Free Europe e "livres qualquer coisa" estão manchadas de sangue dos pés à cabeça.

 

AB: Antes da Síria, você realizou duas importantes reportagens na Argentina e no México, sobre as mudanças em curso na América Latina. Bolsonaro ganhou no Brasil, enquanto que nos próximos dias Lopez Obrador se preparará para tomar conta de um México que virou à esquerda. Em que ponto está a disputa na América Latina e quais são as perspectivas para a esquerda no continente [sul americano]?

 

AV: Sim, trabalhei três semanas um pouco por todo o México, antes de visitar a Síria. O meu grande trabalho, quer na Argentina quer no Brasil, foi feito anteriormente.

 

Veja, Ale, ambos sabemos e ambos estamos bem familiarizados com a América Latina. Eu vivi  no México, no Chile, no Peru (durante a chamada Guerra Suja) e na Costa Rica. Eu trabalhei no continente inteiro.

 

O que está a acontecer no México é incrível, embora uma pessoa possa afirmar que "já vem tarde". Agora, esperemos que o presidente eleito Obrador seja capaz de transformar o seu magnificente país, rumo ao socialismo. Não será fácil. Existe uma terrível inércia. Existem horríveis "elites" de casta europeia. E há os EUA ali mesmo ao lado, sempre pronto para "intervir". Mas acredito que ele o possa fazer. Eu confio nele. Viajei imenso por esse enorme país, falei com as suas gentes. Tudo foi bem resumido por um gangster em Tijuana, um homem que, por desespero, se tornou num criminoso. Ele disse-me, e passo a citar: "Acredito que seja quase impossível para Obrador mudar o estado das coisas mas, se ele fizer o que está prometendo, largarei tudo e apoiá-lo-ei. Esta é a última oportunidade para o México mudar as coisas de forma pacífica. Se falhar, pegaremos em armas". 

 

O Brasil é muito difícil de explicar. Mas, em resumo, na América Latina, mais do que em qualquer outro lugar, os média mainstream, controlados pela direita, jogam um extremamente significativo e profundamente destrutivo papel. Quando visitei a Amazónia, na zona de Manaus e Belém, ou Salvador da Bahia, as pessoas diziam-me: "As nossas vidas melhoram de forma significativa. Agora temos isto e mais isto e aquilo. Mas Dilma tem de ir embora"! Ó meu Deus, pensei, estarei eu a sonhar? Não, não estava. No fundo, de alguma forma, martelaram nas cabeças das pessoas que se elas agora encontram-se em melhor situação, tal deve-se aos seus próprios sucessos pessoais. Mas, se algo não vai assim tão bem, então é culpa do governo. 

 

A [palavra] "corrupção" é sistematicamente utilizada no combate aos governos de esquerda da América Latina. Microscópicos são usados para encontrar toda e qual acção errada. Foi usada contra Kristina Kirschner, contra Lula, até mesmo contra Dilma que não era de todo corrupta, mas que foi vítima de um golpe "constitucional" da direita, apoiado pelo Ocidente. Imagine bem a estupidez, o absurdo: ditadores de direita do Cone Sul e também do Brasil usaram cães para violar mulheres, torturam prisioneiros, mataram, fizeram "desaparecer" pessoas, roubaram tudo o que puderam meter as mãos encima. E nada disto é corrupção, certo? Depois, uma empresa oferece-se para renovar um apartamento de Lula, e ele vai para a prisão! De repente, temos esses fascistas jogando a carta da moralidade. Sabe o que o Bolsonaro irá fazer agora? Vai dar cabo da Amazónia, e fazê-lo quase ao "estilo indonésio". Ele irá permitir que aquele horrendo acordo com corporações ocidentais para a privatização do aquífero partilhado com o Paraguai vá para a frente. A Embraer, terceira maior produtora de aviões de passageiros do mundo, será vendida à Boeing por meia dúzia de tostões. O Brasil perderá a sua floresta tropical, a sua indústria, e os pobres perderão o apoio governamental que os mantinha vivos. E nada disto é chamado de corrupção! A Argentina, sob o controlo de Macri, está permitindo aos EUA operar na Tierra del Fuego. O país inteiro está gritando de dor: os preços da electricidade aumentaram, a famosa indústria cinematográfica está perdendo apoio, e a classe média está indo pelo cano abaixo. 

 

Mas eu sou optimista. O povo da América Latina têm um grande desejo de socialismo e, nalguns lugares, por sociedades comunistas. Sempre que são abandonados, lutam por isso ou votam por isso. Depois são esmagados. O Ocidente, basicamente, derrubou todos os governos verdadeiramente de esquerda do continente, da República Dominicana até ao Chile. Mas o processo nunca acaba e tudo recomeça de novo.

 

Só espero que uma coisa mude: sabe, o Ocidente foi muito bem-sucedido na implementação nas cabeças latino-americanas a ideia de que, após tudo o que se passou, a Europa e até os EUA são, de alguma forma, nações superiores. E assim sendo, em lugares como o Brasil, as pessoas olham de cima para baixo para as verdadeiramente grandiosas nações como a China e a Rússia. Isto transtorna-me imenso. Eu falo a língua e vejo claramente o que se está a passar. Na Argentina, pouco há de verdadeira esquerda: os intelectuais do país identificam-se com teorias defuntas da Europa e América do Norte, como o "anarco-sindicalismo". E não há nada verdadeiramente revolucionário sobre essas ideias. Há demasiado ocidentais influenciando os movimentos revolucionários da América Latina. Perderam em casa, tornaram-se irrelevantes, mas ainda insistem em julgar o mundo a partir de uma perspectiva ocidental. Ainda assim, de alguma forma, muitos deles são admirados na América Latina. E o tiro sai sempre pela culatra: os ocidentais diluem o espírito revolucionário. E estes raptaram também a narrativa Sul-Sul. Adoraria ver camaradas russos, chineses, venezuelanos, cubanos, sírios, iranianos ou sul africanos tomando o controlo de média nacionais em países onde a verdadeira esquerda está ganhando. Tal situação faria uma grande diferença!

 

AB: A Argentina continua a afundar-se sobre o peso da austeridade neoliberal de Mauricio Macri, mas os média mainstream estão todos calados. Entretanto, a Bolívia de Evo Morales continua, pelo contrário, registando as maiores taxas de crescimento da região, num clima de estabilidade. Portanto, ao contrário do que tentam nos fazer crer, o socialismo funciona?

 

AV: Sim, é claro que o socialismo funciona Ale. Se deixado em paz, se não for banhado em pus e sangue, ele prospera. Infelizmente, até hoje, sempre que um país decide se tornar socialista, o Ocidente desencadeia as suas campanhas de terror, mentiras e banditismo económico. O socialismo não é um género de utopia extrema, mas sim a mais lógica meta. A maior parte das pessoas anseiam viver numa sociedade igualitária, onde se sintam protegidas e seguras, na qual possam ser cuidados quando adoecerem, na qual posso receber educação gratuita quando tiverem fome de conhecimento. Querem que o estado trabalhe para elas e não contra elas. Querem que os seus governos controlem as empresas, em vez de serem as empresas a controlar os seus governos. 

 

AB: Entretanto, na Venezuela, continua a guerra económica, psicológica e mediática. Será o governo bolivariano capaz de resistir a este ataque sem precedentes?

 

AV: Sim, será. Mas uma vez mais, veja quão fragmentada a América Latina se encontra. As pessoas no Chile e na Argentina vêm CNN e FOX e estão muito melhor informadas sobre Miami ou Paris do que sobre Caracas, O presidente eleito no Brasil afirmou que mataria Maduro e, ainda assim, foi eleito.

 

A América  Latina é controlada sobretudo pelas elites europeias. Estas roubaram o continente, tornaram-no a parte do planeta com as maiores disparidades. Para que qualquer revolução possa ser bem sucedida, essa terá de ser radical e decisiva. A democracia deveria ser directa e não esse idiotismo multipartidário implantado a partir do Ocidente, fácil de perverter e de manipular a partir de fora ou recorrendo-se ao uso de média sociais ou média mainstream. A América Latina não pode tentar imitar a Europa e esperar vir a prosperar. A Europa foca-se na pilhagem de outras partes do mundo. Os países latino-americanos não têm colónias  e o saqueio é interno. Os ricos de castas europeias saqueiam tanto a terra como os povos nativos.

 

AB: Num dos seus últimos artigos Fidel explicou como "a aliança entra a Rússia e a China é um poderoso escudo de paz capaz de garantir a sobrevivência da raça humana". Qual é o legado de Fidel Cartro hoje, dois anos após a sua morte?

 

AV: Simplesmente enorme! Mesmo quando a América Latina inteira traiu Cuba, Fidel e o seu povo nunca se renderam. É este o espírito que eu admiro. Cuba tem um enorme coração, lutou pela independência de várias nações africanas, ajudou tantos lugares do mundo com os seus médicos, professores e equipas de resgate durante catástrofes naturais. A arte cubana é uma das melhores do planeta. É por isso que Cuba teve um tremendo impacto na minha personalidade e também no meu trabalho. Eu orgulhosamente auto-denomino-me de "internacionalista ao estilo cubano". Sinto-me eternamente grato a Fidel, à revolução cubana e ao povo cubano. De muitas formas Cuba é, talvez, o mais admirável país do mundo. Um país pelo qual eu nunca hesitaria lutar ou, até, morrer. 

 

André Vltchek, Novembro de 2018

 

Por Lula, de Andre Vltchek

André Vltchek é um filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação. Cobriu e cobre guerras e conflitos em dezenas de países. Três dos seus últimos livros são  Revolutionary Optimism, Western Nihilism, o revolucionário romance Aurora e um trabalho best-seller de análise política: “Exposing Lies Of The Empire”. Em português, Vltchek vem de publicar o livro Por Lula. Veja os seus outros livros aqui. Assista ao Rwanda Gambit, o seu documentário inovador sobre o Ruanda e a República Democrática do Congo, assim como ao seu filme/diálogo com Noam Chomsky On Western Terrorism. Pode contactar André Vltchek através do seu site ou da sua conta no Twitter.

 

Traduzido para o português por Luís Garcia

Versão original em inglês aqui.

 

 

 

 

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Abaixo o regime opressor francês!, por Luís Garcia

09.12.18 | Pensamentos Nómadas

Abaixo o regime opressor francês!

 

Luís Garcia  POLITICA  Sociedade

 

Porque uma imagem vale mais que mil palavras, muitos vídeos valem mais que milhões de palavras. E vídeos é coisa que não falta sobre a violenta e criminosa opressão à qual o antidemocrático regime francês submete o seu povo.

 

 

Já por aqui partilhei provas e analisei a patética propaganda Ocidental contra Venezuela, Ucrânia e muitos outros. Partilhando e analisando imagens nas quais se vêm terroristas manifestantes "pacíficos", organizados por células de Gladio e suas irmãs, executando e queimando vivos polícias e apoiantes do governo de Maduro ou Yanukovich. Eis aqui um desses artigos por mim escritos a propósito:

 

Mas enfim, como afirma e muito bem o grande filósofo, pensador, viajante e escritor André Vltchek, os ocidentais não sabem porque não querem saber! Mééééééé...

 

Voltando às provas da violência das forças de opressão do antidemocrático regime francês:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aqui deixo só a hiperligação porque os filhos da puta de sionistas do FaceBook censuram sistemática e grotescamente a VERDADE: 

 

10ª

 

11ª

 

12ª

 

13ª

 

14ª

 

15ª

 

Hão de haver mais. E se assim for, hei-de fazer uma segunda e terceira parte se for necessário! Liberdade! Morte ao ditador Macron! Abaixo a ditadura!

Viva Che! Viva Fidel! Viva Chávez!

 

E  "não percam o proxímo episódio, porque nós também não"! Amén!

 

#MacronMustGo

#MacronCasseToi

 

Luís Garcia, 9.12.2018, Rayong, Tailândia

 

 

 

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O público ocidental "não sabe", ou "não quer saber"?, por André Vltchek

09.12.18 | Pensamentos Nómadas

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Andre Vltchek Política Sociedade

 

Vivemos numa era na qual a propaganda ocidental se tornou verdadeiramente intensa, surreal até. Sempre assim foi, não haja dúvida, mas agora quem a produz perdeu de todo o respeito pelo público. Quase como se os propagandistas estivessem se rindo entre si, nalgum luxuoso escritório no topo de um arranha-céus, apontando os dedos às massas lá em baixo e dizendo: "Esta gente não tem cérebro. E, de qualquer maneira, estão do nosso lado. Até agora têm engolido, felizmente, tudo o que lhes enfiamos pela goela abaixo. E agora sabemos que engoliriam mesmo a mais ridícula das invenções. Já não há necessidade de sermos cautelosos, podemos lhes servir o que quer que inventemos e o que quer que seja conveniente para o nosso regime".

 

Será que é mesmo assim? Provavelmente é, infelizmente.

 

Recentemente, houve um ataque químico contra a cidade síria de Aleppo, realizada por terroristas apoiados pelo Ocidente. De acordo com minhas fontes da ONU na cidade, especialistas médicos russos imediatamente correram para os hospitais, a fim de tratar as vítimas. Aviões a jacto russos foram enviados para atacar as posições dos terroristas. Todas as evidências apontam para a Jabhat al-Nusra. O cenário é absolutamente transparente. Sim, transparente para si e para mim, mas obviamente não para os meios de comunicação ocidentais que começaram a baralhar os seus relatos quase imediatamente após o ataque terrorista. No dia 26 de Novembro de 2018, a CBS News noticiou, usando uma típica e bizarra dupla linguagem, que:

Ambos os lados negaram o uso de armas químicas e culparam-se um ao outro pelo ataque de Sábado. O jogo de atirar as culpas uns aos outros tornou-se familiar na brutal guerra de 7 anos que o país tem sofrido.

Horríveis imagens de um anterior ataque químico levaram a uma acção militar dos EUA, Reino Unido e França que atacaram com mísseis três locais, os quais, segundo estes, estariam "especificamente associados ao programa de armas químicas do regime sírio."

 

Será que isto é mesmo possível? Sim, é.

 

Confrontado com tão absurdas reportagens ocidentais, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergey Lavrov, apenas comentou:

Washington não busca uma investigação objectiva sobre o uso de armas químicas na Síria.”

 

Mas você recebe o mesmo "relato" e a mesmíssima falta de objectividade de sempre, quando os meios de comunicação cobrem eventos na Venezuela, em Cuba, no Irão, na China, na Rússia, na África do Sul, na Coreia do Norte e em dezenas de outras nações que se recusam a se render ao diktat ocidental.

 

Navios ucranianos acabaram de violar as águas territoriais russas, provocando militarmente Moscovo, e o Ocidente imediatamente expressou o seu total apoio a Kiev. Fará isto algum sentido? Sim, claro que sim, se o "sentido" é definido pelos padrões do imperialismo ocidental.

 

Por outro lado, regimes genocidas totalmente criminosos, como os da Arábia Saudita ou da Indonésia, escapam impunes de assassinatos em massa (literalmente), embora você dificilmente ouça falar sobre isso, a menos que a vítima seja um correspondente de um grande jornal norte-americano.
 

Hoje em dia, até mesmo inocentes desenhos animados russos, como Masha e o Urso, não conseguem escapar à vitriólica campanha de difamação. Estas duas personagens, tão amadas em todo o mundo, são agora retratadas pelos meios de comunicação em massa do Reino Unido e dos EUA como sinistras personagens da "máquina de propaganda de Putin".

 

Ultimamente, no Ocidente, até mesmo as tentativas de se parecer, de alguma forma, "objectivo", foram pelo cano abaixo. Tudo, absolutamente tudo o que tenha a ver com os países que o Império considera serem "do mal" (leia-se: independentes), é agressivamente ridicularizado, sufocado e impiedosamente atacado: da cultura à política externa, do sistema económico até, sim, até  personagens de desenhos animados.

*

E o público ocidental, de forma obediente, consome todas estas invenções. Muitas vezes até parece que se "divertem com o espectáculo". A difamação, a humilhação e a ridicularização de todas as nações e culturas pelos doutrinadores ocidentais está se transformando num tipo de entretenimento sórdido, não muito diferente do "entretenimento" proporcionado por aqueles horríveis e vazios filmes de Hollywood que criam pseudo-realidades, esvaziando os cérebros de milhares de milhões de pessoas por todos os cantos do mundo.

 

Muitos dos meus leitores escrevem-me de volta, queixando-se que as suas próprias famílias, os seus bairros inteiros e os seus locais de trabalho foram irremediavelmente doutrinados, que as pessoas "não são mais capazes de ver".

 

Eu quero sempre saber mais; Sempre me questiono se: "Eles não vêem ou simplesmente não quererão ver?"

 

Por muito má e completa que seja a propaganda, há sempre muitas maneiras de descobrir a verdade, inclusive utilizando a internet. E muitos dos que vivem na Europa ou na América do Norte são certamente ricos o suficiente para poderem ver com os seus próprios olhos o que está acontecendo no mundo, particularmente nos países que estão sendo derrubados e destruídos devido à ganância das corporações e governos ocidentais. Em vez de fritarem seus corpos nas praias de ilhas das Caraíbas, ano após ano, podem voar até à Venezuela. Em vez de passarem férias na falsa ilha de Bali (ambientalmente arruinada, congestionada com os engarrafamentos, mas sendo vendida como um "paraíso na terra"), eles poderiam visitar o Bornéu e ver como todo o ecossistema está sendo arruinado pelo extremo capitalismo pró-ocidental. Não estou sugerindo que visitem uma zona de guerra real ou lugares onde ocorram genocídios, como a Papua Ocidental, Caxemira ou a República Democrática do Congo, mas poderiam pelo menos mostrar alguma curiosidade sobre aqueles lugares que estão sendo sacrificados para que possam ser mantidos os ridiculamente altos padrões de vida do Ocidente. Há tantos lugares na Terra onde anualmente milhares, inclusive centenas de milhares, morrem para que os europeus possam desfrutar dos seus cuidados médicos gratuitos, educação e os mais recentes modelos de automóveis.

 

A verdade é de facto muito "desconfortável". A ignorância é como um edredão num inverno frio: aconchegante, reconfortante e difícil de resistir.

 

Os propagandistas ocidentais sabem disso. E contam com isso, oferecendo aos ocidentais uma "fuga fácil" à responsabilidade de partilhar as culpas pelo estado do mundo.

 

“Deixai isso para nós”, dizem-no eles sem o pronunciar. “Deixai-nos ser os mauzões”. “Nós” aqui significa o mundo corporativo, os governos. “Você pode até mesmo gritar que nos odeia, de vez em quando, desde que não chame demasiada atenção, desde que você não comece a desafiar a essência da ordem mundial, desde que você apenas exija, de uma forma egoísta, melhorias nos seus próprios padrões de vida”.

*

Na Europa e na América do Norte, na Austrália e na Nova Zelândia, as pessoas são extremamente conhecedoras. Sabem perfeitamente que iPhone comprar: comparam modelos diferentes online, pesquisam cada detalhe de uma câmara, cada curva, cada função. Antes de partirem com seus dólares ou euros, garantem primeiro que estão realizando o melhor negócio possível. O mesmo se aplica aos carros, aos imóveis, às suas anuais viagens extravagantes a "lugares exóticos".

 

Em contrapartida, não mostram o mesmo zelo quando buscam a verdade. Não comparam a "pseudo-realidade" dos meios de comunicação ocidentais com o que se acredita na Rússia ou na China, ou em países revolucionários da América Latina, ou no Irão e na Síria, ou na Coreia do Norte. Em resumo: os ocidentais "não fazem compras em torno da verdade". E tal torna-os, pelo menos de uma perspectiva ideológica, totalmente fundamentalistas.
 

Mas porquê? Não é o conhecimento a maior das aventuras? E não é a "democracia" uma farsa quando quase toda a gente vê o mundo com os mesmos olhos?

 
A conclusão a que tenho chegado ultimamente é que os ocidentais não pesquisam, não comparam e "não querem saber" porque têm medo.

 

Medo de descobrir a realidade, a qual, por sua vez, os obrigaria a agir. Agir para, pelo menos, remover alguns dos privilégios básicos de que desfrutam os cidadãos dos países colonizadores .

 

Vamos lá dar uma olhada nas notícias sobre o mundo. Enquanto este ensaio está sendo escrito, e como foi mencionado acima, a Síria está se recuperando de mais um terrível ataque químico. A França está possivelmente envolvida. E isto enquanto em França manifestantes vão se confrontando com a polícia. Por que razão? Os altos preços dos combustíveis. Preços dos combustíveis em França. Isto é até onde a Europa está disposta a ir com os seus movimentos de protesto: preços, salários, privilégios, privilégios, privilégios! Quem paga pelos privilégios é irrelevante (para aqueles que vivem no Ocidente). Os europeus só conhecem e só se preocupam com os seus "direitos" e não com as suas "responsabilidades" em relação ao mundo. Querem justiça para si mesmos, mas nunca justiça para a humanidade inteira. Quando eu comparo o quão as pessoas na Ásia têm que trabalhar no duro para sustentar as suas sociedades, e quão pouco estão trabalhando na Europa, de imediato me vem à mente esta questão: quem paga a educação gratuita e os cuidados médicos em Paris ou Hamburgo, quem paga aquelas curtas horas de trabalho ou aquelas seis semanas anuais de férias? Definitivamente não são os próprios europeus. Provavelmente pagam aqueles que vivem em devastados países africanos, ou os papuanos, e seguramente os habitantes nativos da ilha do Bornéu, bem como os árabes e tantos outros.

 

Pensamentos muito desconfortáveis, não são? Para aqueles que os "têm".

 

É por isso que, há dois anos, quando me dirigia ao parlamento italiano, disse aos seus representantes: “Sou contra a assistência médica gratuita e a educação gratuita na Europa porque sou pela assistência médica e educação gratuitas no mundo inteiro”.

 

O Ocidente adora os seus privilégios. Muitas vezes, ou na maior parte das vezes, nem sequer vê privilégios enquanto privilégios, mas sim como direitos inerentes. Estas coisas não são para ser questionadas; vêm naturalmente com o ter-se nascido na França ou na Alemanha, no Canadá ou até, em menor medida, nos EUA (um país com políticas sociais verdadeiramente pavorosas, se medido pelos padrões ocidentais, mas ainda assim incrivelmente generoso se comparado com a África, a Ásia do Sul, o Sudeste Asiático ou o Médio Oriente.

 

Há pouco tempo atrás, andei filmando por todo o México, um país que acaba de eleger um presidente de esquerda pela primeira vez em décadas. Na cidade de Oaxaca, dezenas de mulheres indígenas bloqueavam a entrada do palácio do governador, dormindo em tendas improvisadas. Exigiam justiça. Os seus corpos e almas mostravam cicatrizes. As suas terras foram saqueadas, enquanto muitos delas foram violadas e espancadas por forças paramilitares com ligações ao anterior governo de direita. Parte dos seus amigos e familiares morreram. E tudo isto, simplesmente, porque as "suas terras eram ricas" e porque, no passado, várias empresas de mineração (incluindo empresas canadianas) contrataram exércitos particulares para obter o que queriam.
 

Uma muito mais brutal versão do mesmo está acontecendo na Papua Ocidental, onde empresas americanas, australianas e britânicas empregam exércitos indonésios privados para defender os seus "interesses comerciais". Centenas de milhares de pessoas já foram assassinadas neste processo e toda a ilha está sendo irreversivelmente destruída. Escusado será dizer que nenhum jornalista estrangeiro tem autorização para cobrir o que lá se passa. E nenhuma crítica, nenhuma sanção é imposta à Indonésia ou aos países que participam neste genocídio.

 

Depois do México, voei para a Coreia do Sul e, a caminho, passei dois dias em Vancouver, Canadá, uma das cidades "com melhor qualidade de vida do mundo".

 

Pois sim, é uma cidade incrível. Quem discordaria? Embora sabendo o que sei, ainda assim não consegui desfrutar por completo dos seus encantos.

 

Se você é canadiano e acredita em contos de fadas que dizem que tudo, incluindo riqueza, conforto e segurança, cai directa e milagrosamente do céu para o seu colo, então poderá viver uma vida tranquila cercada de serviços sociais, espaços públicos e magnífica natureza quase intocada (a natureza é saqueada para si em lugares bem distantes, de forma a que você não precise de ver a pilhagem e que o seu egoísta coração demasiado sensível não tenha de sangrar).

 

Muitos no Canadá e noutras partes do Ocidente acreditam em contos de fadas. É bem mais fácil assim, é "psicologicamente mais seguro". E portanto, a sério, se você é canadiano, será que você contrariaria os seus próprios privilégios? E se você é europeu, será que o faria? Procuraria você "a verdade"? Desafiaria você a propaganda do seu regime?

 

Alguns fá-lo-iam, meia-dúzia deles. Mas não a esmagadora maioria .

*

Na maior parte dos casos, não é verdade que a "população ocidental seja vítima de lavagem cerebral". Tal cenário seria de facto bem positivo e relativamente fácil de corrigir.

 

Só que o problema é bem maior: a população ocidental não quer saber porque, no fundo, não quer que o sistema mude. Não quer que a ordem mundial seja alterada.

 

Instintivamente sente que, se o que está sendo proposto pela Rússia, China, Cuba, Venezuela, Irão e outros países fosse implementado, os seus privilégios pessoais desapareceriam. Os seus países tornar-se-iam iguais a todos os outros países deste planeta; teriam que obedecer às leis internacionais e os seus povos serias forçados a trabalhar duro para sobreviver. Saquear o planeta seria banido. Acabar-se-iam os privilégios. 

 

E portanto, é melhor "não saber", não compreender. Dessa forma, não se fica sem a "fatia de bolo, ou a "cenoura", se preferirem. 

 

A "ignorância" no Ocidente é, creio eu, subconscientemente "auto-infligida". Com conhecimento, vem a responsabilidade. Com a responsabilidade vem a obrigação de actuar (visto que não actuar seria claramente imoral). Tudo isto levaria por certo à perda de privilégios. 

 

Os propagandistas ocidentais estão bem conscientes da situação. Alguns psicólogos de renome afirmaram-me que psiquiatras e psicólogos são empregues e usados no processo de "moldagem da opinião pública" e, portanto, trabalham para os criadores de propaganda. Eles estudam e analisam "o estado de espírito do público". Eles conhecem os desejos e as aspirações do público.

 

Tudo isto não é assim tão fácil como parece, certo?

 

Infelizmente, existe um acordo silencioso (sem anúncio nem assinatura) entre o público ocidental e o seu establishment, assim como com o mundo corporativo, de que o status quo deverá ser mantido a todo custo (pago pelos “outros”); o Ocidente deveria ficar com o controlo planeta, com pelo menos uma parte do saque compartilhada por entre as massas (ocidentais).

 

A razão pela qual estes [ocidentais] lutam agora nas ruas de Paris e outras cidades europeias, é saber "quão grande é fatia do bolo a atribuir ao bolso do europeu médio". Não há absolutamente nenhuma luta para acabar com a pilhagem ocidental do mundo inteiro.

 

Infelizmente, o mundo não pode contar com o apoio do público europeu ou o norte-americano na luta para acabar com o imperialismo, o neo-colonialismo e a sistemática e mortal pilhagem.

 

Não é porque o público no Ocidente "não sabe", mas sim porque faz tudo o que pode para não saber. E, se sabe ou suspeita de algo, certifica-se de agir como se tudo ignorasse. Pelos seus próprios interesses egoístas. Pelos seus próprios privilégios.

 

Por outro lado, países como a Rússia, a China, a Venezuela, Cuba, a Síria ou o Irão não conseguem "acalmar" o Ocidente. Enquanto exigirem justiça para todos e uma revisão da ordem global, estes serão difamados, demonizados e, mais cedo ou mais tarde, atacados. O confronto parece inevitável. E será o Ocidente que começará a guerra.

 

Há-de vir mudança e revolução, que até já começam a entrar vindas "de fora", vindas de países que recusam aceitar a brutalidade do Império e o controlo completamente antidemocrático de tantas partes do planeta.

 

E sejamos honestos: o Ocidente lutará, absolutamente unido e de todas as formas possíveis, contra qualquer mudança de relevo que ponha em causa a forma como o mundo se encontra actualmente organizado.

 

Em breve, será o Ocidente (incluindo governos, corporações e cidadãos extremamente obedientes e egoístas) contra o resto do planeta.

 

André Vltchek, 27 de Novembro de 2018

 

Por Lula, de Andre Vltchek

André Vltchek é um filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação. Cobriu e cobre guerras e conflitos em dezenas de países. Três dos seus últimos livros são  Revolutionary Optimism, Western Nihilism, o revolucionário romance Aurora e um trabalho best-seller de análise política: “Exposing Lies Of The Empire”. Em português, Vltchek vem de publicar o livro Por Lula. Veja os seus outros livros aqui. Assista ao Rwanda Gambit, o seu documentário inovador sobre o Ruanda e a República Democrática do Congo, assim como ao seu filme/diálogo com Noam Chomsky On Western Terrorism. Pode contactar André Vltchek através do seu site ou da sua conta no Twitter.

 

Foto da capa: André Vltchek

 

Traduzido para o português por Luís Garcia

Versão original em inglês aqui.

 

 

 

 

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Revolução na Ucrânia? Sim, por favor! Revolução em França? Estado de Direito!, por Danielle Ryan ‏

06.12.18 | Pensamentos Nómadas

Revolução na Ucrânia, Sim, por favor, Revoluç

 

Danielle Ryan Política Sociedade

 

Quando violentos protestos abalaram Kiev em 2013, analistas e líderes ocidentais rapidamente apoiaram a "revolução" anti-governo mas, depois de semanas de protestos dos Coletes Amarelos em França, a reacção tem sido muito diferente.

 

Se, há cinco anos atrás, governos e analistas acidentais condenaram o governo ucraniano de Viktor Yanukovych e pediram que este cedesse às exigências dos manifestantes, desta vez, estão condenando os manifestantes franceses e pedindo ao presidente Emmanuel Macron, cuja popularidade é de cerca de 25%,  se mantenha firme contra os insatisfeitos cidadãos .
 
 

A cobertura dos meios de comunicação ocidentais foi também drasticamente diferente, com relatos descrevendo manifestantes franceses como desordeiros, enquanto os manifestantes ucranianos foram descritos como revolucionários. Esta contrastante reacção levou muitos a perguntar-se: se uma suposta revolução é permitida (e até aplaudida) na Ucrânia, por que não o é na França?

 

 

 

A polícia francesa reprimiu os manifestantes "Coletes Amarelos" com sangrentos confrontos, durante os quais foram usados canhões de água e gás lacrimogéneo para dispersar enormes multidões, as quais responderam atirando pedras contra a polícia. A amplitude do caos gerado levou a que alguns funcionários do govenro chegassem a ponderar impor um estado de emergência e levantou preocupações sobre o possível alastrar do movimento protestante a outros países como a Alemanha ou a Holanda. Preocupados, funcionários do governo e comentadores políticos franceses e europeus têm avidamente apelado ao respeito pelo "Estado de Direito" e para que os manifestantes violentos respeitem as instituições francesas.

 

Em Kiev, no entanto, quando os manifestantes incendiaram carros, destruíram propriedade pública e atacaram policias, foram considerados como heróis. Lei e ordem eram de pouca importância para os meios de comunicação  ocidentais que apoiaram o movimento Maidan do fundo dos seus corações. Da mesma forma, quando os protestos contra o governo sírio começaram em 2011, os líderes e comentadores ocidentais defenderam o rápido derrube do governo e forneceram apoio moral (e material) aos rebeldes anti-governo durante a subsequente guerra civil  que dilacerou o país.

 

Durante a sua visita à Argentina para a Cimeria dos G20 do último fim de semana, Macron prometeu que "não concederia nada" aos "bandidos" que querem "destruição e desordem". A sua falta de vontade para ceder diante de um massivo movimento de protestos, no entanto, não despoletou apelos nenhuns para que Macron se demitisse e respeitasse a vontade popular, tal como tinha acontecido na Ucrânia e na Síria.

 

No Twitter, o famoso comentador político francês e personalidade mediática, Bernard-Henri Lévy, atacou os manifestantes Coletes Amarelos, acusando-os de "brincar com fogo" e dizendo que tudo o que importa é o respeito pelas instituições francesas e pelo presidente democraticamente eleito. 

 

 

Os seguidores de Lévy, no entanto, foram rápidos em lembrá-lo de que a sua reacção aos protestos na Ucrânia havia sido bem diferente. Lévy, que se encontrava na Ucrânia durante o movimento Euromaidan, promoveu-a activamente, fazendo discursos e tweetando entusiasticamente sobre os protestos. Quando Yanukovych foi derrubado, Lévy descreveu o acotecimento como uma "derrota histórica da tirania".

 

 

Enquanto os protestos continuavam na terceira semana, outros utilizadores do Twitter ridicularizavam a reacção ocidental contra movimentos governistas noutras regiões, com um utilizadora sugerindo, inclusive, que talvez centenas de especialistas árabes pudessem se reunir em extravagantes conferências com o intuito de decifrar as causas do fascinante movimento "Inverno Europeu".

 

 

 

Outro utilizador disse que é era hora de o presidente iraniano, Hassan Rouhani, pedir a Macron para mostrar “moderação” e garantir que a “liberdade de expressão e manifestação” seja respeitada em França.

 

 

Sarcasmo à parte, parece mesmo que revoluções violentas e mudanças de regime são apenas soluções suficientemente boas para crises em países distantes dos centros de influência e poder ocidentais, e que sejam liderados por governos que não cooperem [com a vontade dos poderes ocidentais]. Quando os rumores de revolução são ouvidos em Paris, onde Macron continua comprometido com a defesa de uma ordem mundial neoliberal centrada no Ocidente, a história é completamente diferente.

 

Danielle Ryan, 3 de Dezembro de 2018

 

Traduzido para o português por Luís Garcia

Versão original em inglês aqui.

 

 

 

 

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Como o “ocidente” fabrica “movimentos de oposição”, por André Vltchek

03.12.18 | Pensamentos Nómadas

Como o “ocidente” fabrica “movimentos de oposição

 

Andre Vltchek Sociedade  POLITICA

 

AVISO: A versão original em inglês deste artigo é antiga e data de 3 de Fevereiro de 2014. 

 

 

Prédios públicos sendo destruídos e saqueados. Tal está acontecendo em Kiev e em Banguecoque e, em ambas cidades, os governos mostram-se impotentes, demasiado assustados para intervir.

 

O que está acontecendo? Estão governos democraticamente eleitos tornando-se irrelevantes, um pouco por todo o lado, enquanto o regime “ocidental” cria e em seguida apoia “movimentos de oposição” nos quais só se vêem gangues armados que lá estão para desestabilizar todo e qualquer estado que resista ao desejo “ocidental” de controlar o planeta inteiro?

*

Há agora quem intimide e grite contra aqueles que querem votar no governo moderadamente progressivo que no momento dirige a Tailândia. Não há discussão alguma sobre o processo eleitoral: no geral, o voto é livre, como declaram tanto observadores internacionais como a maioria dos membros da Comissão Eleitoral.

 

Nem liberdade, nem legitimidade, nem sequer transparência estão sendo postas em causa.

 

A retórica varia mas, na sua em essência, os “manifestantes” que “protestam” exigem o desmantelamento da frágil democracia tailandesa. A maioria dos “protestantes” são pagos pelas classes média-alta e alta. Alguns são delinquentes e bandidos, muitos recebem 500 Baht por dia (cerca de 15 dólares dos EUA), recrutados nas vilas e aldeias das remotas províncias do sul do país. Estão habituados a usar violência, como bem mostra a sua linguagem corporal e facial.

 


Funcionários do governo legítimo têm de saltar por cima de barricadas ou suplicar que os manifestantes os deixem entrar no seus próprios gabinetes.

 

Eleitores que vinham para votar na ronda pré-eleitoral foram intimidados e insultados, e um homem quase foi morto por estrangulamento.

 

Embora a vida na capital tenha sido totalmente interrompida, o governo não se atreve a enviar tanques de guerra ou polícia para desobstruir as ruas. Deveria fazê-lo mas não o faz, pois teme por demais as forças armadas e a monarquia, dois pilares deste ultrajante híbrido entre capitalismo selvagem e feudalismo, comparável apenas aos piores pesadelos regionais como a Indonésia e as Filipinas.

 

Tudo é bem claro agora: enquanto o governo fala dos seus próprios medos, os militares, fazendo uso de meios de comunicação vendidos e de "vazamentos" ["leaks" no original], vão enviando venenosas ameaças.

 

Thaksin ShinawatraO que está acontecendo e o que é que está em jogo na Tailândia? Está em jogo Thaksin Shinawatra, irmão mais velho da actual primeira-ministra que, quando era primeiro-ministro, tentou instalar um capitalismo moderno no seu submisso e terrivelmente assustado país. Foi ele quem deu moradias aos mais pobres, introduziu um excelente sistema universal de saúde gratuito (muito mais avançado que qualquer proposta jamais feita nos EUA), educação primária e secundária gratuita e de excelente qualidade e outras ideias consideradas ameaçadoras pela “ordem mundial”, pelas elites feudais locais e pelo exército.

 

As elites tailandesas que, mais do que riqueza, adoram ser amadas, admiradas e temidas, reagiram quase de imediato. O primeiro-ministro foi exilado, impedido de voltar ao país e passou a ser alvo de intensa difamação. Houve golpes militares, misteriosas “alianças”, boatos e “mensagens secretas” emitidas por uma “muito elevada autoridade”. Houve matança, um verdadeiro massacre, quando os chamados camisas vermelhas apoiantes de Shinawatra (que vão desde reformistas até marxistas) foram executados por atiradores profissionais, vários deles com tiros na cabeça.

 

Mas o povo, os pobres, a maioria da população da Tailândia, sobretudo aqueles que vivem no norte e nordeste, reagiram de forma estóica e com muita determinação. Sempre que houve eleições, sempre que o regime ilegalizou partidos políticos pró-Shinawatra, novos partidos políticos surgiram, e estes continuaram vencendo eleições.

 

Yingluck Shinawatra

Em 2011 Yingluck, irmã de Shinawatra, com maioria no Parlamento, tornou-se primeira-ministra da Tailândia.

 

Os “manifestantes” bloquearam várias artérias centrais de Banguecoque e declararam que “a Tailândia não está preparada para a democracia” e que, por isso, “se mais eleições fossem realizadas para determinar o futuro do país, as forças pró-Shinawatra continuariam a ganhar eleições”.

 

Eleições “assim”, é claro,  seriam inaceitáveis para as elites tailandesas e para os vários países ocidentais que, por décadas, benificiaram das vantagens que o sistema feudal tailandês lhes garantia.

 

Um general tailandês declarou que “não descarto a possibilidade de outro golpe militar”. E o que a oposição propôs  foi um vago conceito de um governo de tecnocratas, que governaria até que a Tailândia estivesse “pronta” para votar (leia-se: até que todo o poder popular seja destruído e a eleição de um governo pró-elites, pró-monarquia e pró-exército possa ser  “garantida” através de eleições “livres”).

 

Enquanto isto, gangues de delinquentes armados bloqueiam as vias públicas e os centros culturais (mas não os shoppings). Tanto na Europa como nos EUA, estes são descritos como "manifestantes”.

 

E é aqui que chegamos ao centro da questão: o terrorismo dos militares e das elites feudais é disfarçado com uma roupagem de “rebelião”, até mesmo de “revolução”. Recebeu um manto de legitimidade e foi, inclusive, parcialmente romantizado. 

 

O fascismo volta a mostrar o seu lado mais negro. E o Ocidente sabe perfeitamente disso. E, de facto, está abertamente apoiando o regime que hoje, por trás das cortinas, governa de facto a Tailândia. Assim acontece porque é o regime que o Ocidente ajudou a criar.

*

Deixei Banguecoque e, já no avião, um pensamento não me saía da cabeça: em vários pontos do mundo sobre os quais escrevi nos últimos tempos, vivem-se realidades muito semelhantes à da Tailândia de hoje.

 

Governos democraticamente eleitos, governos progressistas em sua essência; pelo mundo inteiro este tipo de governos estão sendo severamente atacados por grupos de delinquentes armados, de bandidos, de elementos anti-sociais e até de conhecidos terroristas.

 

Vi a mesma coisa na fronteira sírio-turca. Ouvi as histórias de vários moradores daquela região, na cidade turca de Hatay e no interior da região que faz fronteira com a Síria.

 

Síria-Turquia-fronteira-instalações-turcas.jpg

 

Ali fui mandado parar e impedido de trabalhar, interrogado pela polícia local, pelo exército e por grupos religiosos armados quando tentava fotografar um daqueles “campos de refugiados” da região construídos especialmente pela NATO para opositores do governo sírio, onde os “refugiados” recebem casa e comida, assim como treino militar e armas.

 

Hatay encontra-se ocupada por jiadistas sauditas e cataris, organizados pelos EUA, União Europeia e Turquia, dos quais recebem apoio logístico, armas e dinheiro.

 

É quase impossível transcrever em palavras o terror que estes grupos têm vindo a espalhar nesta parte do mundo historicamente pacífica, multicultural e tolerante.

 

Crianças de uma vila da fronteira descreveram-me raides, roubos, violência e até assassinatos cometidos por “rebeldes” anti-Assad.

 

Aqui e em Istambul, onde trabalhei com intelectuais turcos progressistas, com jornalistas e com académicos, foi-me bem explicado, inúmeras vezes, que a “oposição” anti-Assad estava sendo treinada, financiada e “encorajada” pelo Ocidente e pela Turquia (membro NATO),  causando morte e destruição de milhões de vida em toda a região.

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Massacre de civis por jiadistas sauditas e cataris na cidade síria de Adra, próximo de Damasco, no início de Setembro de 2013

 

Agora, enquanto escrevo, o canal Russia Today está exibindo material exclusivo sobre a cidade síria de Adra que foi saqueada e destruída por grupos pró-al-Qaeda e por forças da “oposição” pró-Ocidente,  Exército de Libertação Sírio [FSA na sigla inglesa] incluído.

 

Há um mês atrás nessa cidade, alegadamente, pessoas foram assassinadas por apedrejamento, queimadas em barris e decapitadas.

 

Em vez de cortar todo o apoio à “oposição” síria que é racista, pervertida e extremamente brutal, Washington continua demonizando o governo de al-Assad e volta, outra vez, a ameaçar com uma acção militar.

*

Este tipo de bandidos, em países que elegeram governos progressistas ou patrióticos, são contratados e pagos pelas elites locais, operando em favor do Império Ocidental. Mais, antes disso, as mesmas chamadas “elites” foram contratadas e pagas ou, pelo menos, treinadas/”educadas” pelo Ocidente.

 

Num plano mais “intelectual”, os meios de comunicação privados competem entre si para ver qual deles é o mais servil, o mais submisso às ordens e desejos dos agentes externos que os comandam. Os militares e as forças feudais mais retrógradas, até forças completamente fascistas (veja-se a Ucrânia, por exemplo) estão, por todo o lado, claramente retomando as rédeas, beneficiando-se e extraindo a máxima vantagem da nova “tendência”.

 

Tudo isto tem vindo a acontecer em vários níveis de intensidade e de brutalidade na Tailândia, China, Egipto, Síria, Ucrânia, Venezuela, Bolívia, Brasil, Zimbabué e em vários outros pontos, um pouco por todo o mundo.

 

Pouco depois de ler o que escrevi sobre a Tailândia, publicado no dia 30 de Janeiro, um leitor meu brasileiro reagiu dizendo:

Parece o nosso Brasil: embora de forma mais suave, menos brutal, mas igual na sua essência (...) as elites locais, agora mesmo, em Janeiro de 2014, estão fazendo de tudo para impedir a reeleição da presidente Dilma Rousseff (…) Você, experiente observador da América Latina, sabe muito bem disso ”.

 

O processo e as tácticas são quase sempre as mesmas: meios de comunicação pagos pelo Ocidente, ou até mesmo meios de comunicação ocidentais, directamente, desacreditam determinados governos populares. Depois inventam "escândalos", atribuem cores a novos movimentos de "oposição" acabados de ser inventados, aparecem bandidos escolhidos e pagos e, por fim, armas letais "miraculosamente" aparecem em "zonas de protestos".

 

No Brasil os Black Bloc (manifestantes anti-governo) também atacam indiscriminadamente.

 

Desde que o governo seja "nacionalista", verdadeiramente patriótico e defenda os interesses do seu próprio povo contra a pilhagem internacional (não como o governo japonês de Abe, dito "nacionalista", mas na realidade completamente vendido aos interesses da política externa norte-americana na região), fica logo marcado, passa a constar de uma invisível lista de alvos a abater, ao bom velho estilo da máfia.

 

Como Michael Parenti muito correcta e vivamente descreveu: “Fazes o que queremos, ou quebramos-te uma perna, capice?”

 

Testemunhei o presidente Morsi do Egipto (de início,  fui critico do governo de Morsi, como também era crítico do governo de Shinawatra, antes do verdadeiro terror ter tomado conta do Egipto e da Tailândia) ser derrubado por militares que, enquanto mostravam o seu excesso de zelo, conseguiram, nesse processo, matar vários milhares de egípcios, na sua maioria pobres.

 

Na altura eu ia com frequência ao Egipto. Fui e vim, durante vários meses, para filmar um documentário para a cadeia de televisão sul-americana Telesur.

 

Incrédulo e desanimado, testemunhei os meus revolucionários amigos se escondendo, desaparecendo da face da terra. Isto enquanto famílias [ricas] revoltantemente arrogantes apoiavam publicamente os militares assassinos, sem qualquer pudor. 

 

A lógica e as tácticas no Egipto eram previsíveis: embora ainda capitalista e em certa medida ainda submisso ao FMI e ao Ocidente, o presidente Morsi e a Irmandade Muçulmana mostravam-se pouco entusiasmados em colaborar com o Ocidente. Nunca disseram de facto “não”, mas pelos visto isso não foi o suficiente para o regime euro-norte-americano, o qual, hoje em dia, exige obediência total, incondicional, e também o beija-mão e o beijar de outras partes do corpo. O regime exige total obediência ao velho estilo protestante, completado com auto-crítica e um constante sentimento de culpa. O regime ordena total e “sincero” servilismo.

 

Parece que quase nenhum país, nenhum governo não-alinhado, merece escapar do total aniquilamento se não se submeter por completo.

 

A coisa foi tão longe que, a menos que os governos em país em desenvolvimento como as Filipinas, a Indonésia, o Uganda ou o Ruanda enviem uma clara mensagem a Washington, Londres ou Paris de que “aqui estamos exclusivamente para vos fazer vocês felizes aí no Ocidente”, esses expõe-se ao risco de ser aniquilados, mesmo que tenham sido eleitos democraticamente, mesmo que (e, de facto, "especialmente se") sejam apoiados pela maioria do povo.

 

Nada disto é novo, pois claro que não. Mas, no passado, as coisas eram feitas um pouco mais “discretamente”. Hoje, é tudo às claras. Talvez tudo isto seja feito de propósito, para que ninguém se rebele, para que ninguém sonhe sequer.

 

E portanto, a revolução no Egipto foi desencaminhada, destruída e cruelmente sufocada até à morte. Já nada resta da chamada “Primavera Árabe”,  só um claro aviso: "nunca mais se atrevam a tentá-lo, senão...”.

 

No Egipto a Praça Tahrir está vazia... A Primavera Árabe acabou...

 

Sim, eu vi as "elites" do Egipto dançando e celebrando a vitória. As elites adoram o exército. O exército é a garantia do seu poder e de que permanecerão no topo. As elites até fazem as suas crianças carregar retratos dos líderes responsáveis pelo golpe, responsáveis por milhares de mortes, responsáveis pela destruição dos grandes sonhos e esperanças do mundo árabe.

 

O que vi no Egipto foi apavorante, parecido com o golpe de 1973 no Chile (país que considero meu segundo ou terceiro lar); golpe que não tenho idade para lembrar mas cujas imagens vi e revi muitas vezes, em silêncio e persistente horror.

 

“Senão...” poderia ser a tortura e a morte do povo bareinita [do Barém]. “Senão...” poderia ser a Indonésia de 1965-66. Ou poderia ser o “colapso” da União Soviética. “Senão...” poderiam ser aviões de passageiros explodidos em pleno voo; um avião cubano destruído por agentes da CIA. “Senão...” poderia ser o Iraque, a Líbia ou o Afeganistão reduzidos a ruínas, ou o Vietname, o Cambodja e o Laos bombardeados e reduzidos à Idade da Pedra.  “Senão...” poderia por certo ser algum país inteiramente devastado, como a Nicarágua, Granada, o Panamá ou a República Dominicana. “Senão...” poderia significar 10 milhões de pessoas assassinadas na República Democrática do Congo, para se saquear os recursos naturais do país ou devido à anti-imperialista expressividade do seu grande líder Patrice Lumumba.

 

Agora, no Egipto, o gangue de Mubarak está rapidamente voltando ao poder. Ele era o “demónio” em quem bem se confiava, e o Ocidente rapidamente percebeu que deixá-lo cair seria um grave erro estratégico; e portanto decidiu trazê-lo de volta, ele, pessoalmente ou, pelo menos, o seu legado. E isto às custas de milhares de (insignificantes) vidas egípcias e contra o desejo de praticamente um país inteiro.

 

Exército egípcio, traidor de seu povo e dos eleitores do Presidente Morsi, assim como o Exército brasileiro traiu o seu povo, os eleitores e o Presidente João Goulart em 1964.


E, depois, é claro que não se pode deixar cair o poder militar do Egipto. Os EUA investiram milhares de milhões de dólares no seu exército e os militares controlam hoje em dia metade do país, literalmente. E é um organização bem confiável: mata sem 
quaisquer escrúpulos quem quer que tente construir uma sociedade socialmente mais justa na mais populosa nação árabe do planeta. E o exército joga do lado de Israel. E ama o capitalismo.

 

Tailândia e Egipto: dois países separados por milhares de quilómetros, duas culturas diferentes, em dois continentes distintos. Nos dois países, o povo expressou-se e votou nos seus líderes. Não num governo comunista, volto-lhe a lembrar: na Tailândia, apenas num de tendências moderadamente sociais; no Egipto, num nacionalista-islâmico moderado.

 

Em ambos os casos, as elites feudais e fascistas entraram de imediato em acção. Para mim, é absolutamente claro que estes estão por detrás daqueles [militares golpistas], financiando-os e dando-lhes apoiam "moral".

*

A Ucrânia não é uma nova vítima das tácticas de desestabilização da União Europeia, UE tão doentiamente gananciosa que, pelos vistos, já não consegue sequer se controlar. Saliva, obcecada, pensando na enorme quantidade de recursos naturais que a Ucrânia possui. E treme de desejo sonhando com barata e altamente qualificada mão-de-obra. 

 

As empresas europeias querem entrar na Ucrânia, custe o que custar. Mas é preciso ter cuidado para que hordas de ucranianos não invadam essa sagrada e por demais racista fortaleza chamada União Europeia. A Europa pode saquear o planeta inteiro, mas é severa e brutal para com aqueles que tentem nela entrar e “roubar os seus empregos”.

 

É claro que a União Europeia não pode fazer na Ucrânia o que faz livremente em muitos outros lugares como a República Democrática do Congo. Não pode simplesmente chegar e pagar a alguns países para fazerem o seu trabalho por procuração, como é o caso dos governos do Ruanda e do Uganda (já responsáveis por mais de 10 milhões de congoleses mortos em menos de vinte anos), para que saqueiem a Ucrânia e matem quase todos aqueles que resistirem ao saqueamento.

 

Ao longo dos séculos, por repetidas vezes, a Europa provou ser capaz de massacrar sem piedade nações inteiras (e ao mesmo tempo guardar zero memórias históricas desses massacres), fazendo-o quase sem nenhum princípio moral, pelo menos quando comparada com o resto do mundo. Mas a Europa é astuta e, ao contrário dos EUA, sabe imenso sobre táctica, estratégia e relações públicas.

 

O que a União Europeia fez na Líbia é óbvio. Aqueles que argumentam que os EUA agem por conta própria, devem por certo exercer uma enorme auto-disciplina para não verem quão intimamente ligados são os interesses e as acções dos antigos e novos usurpadores da África, da Ásia, da América Latina, do Médio Oriente e da Oceânia. A França actua hoje, uma vez mais, enquanto arqui-bandido neo-colonial, sobretudo em África.

 

Líbia, antes e depois do "ataque humanitário" e o saqueio ainda hoje realizado pelos EUA-Europa.

 

Mas a Ucrânia está “logo ali ao lado”,  perto demais, em termos geográficos, da própria União Europeia. Tem de ser desestabilizada, mas a coisa tem de parecer bem legítima. A “rebelião”, a “revolução” e a “revolta dos povos”, estas sim, são a forma "adequada" de lidar com as coisas.

 

Há mais de um mês atrás, um bizarro negócio foi proposto, no qual as empresas europeias seriam autorizadas a entrar na Ucrânia e a limpar os seus recursos naturais mas, o povo ucraniano, não seria autorizado sequer a ir trabalhar na União Europeia.

 

O governo, de forma lógica e sensata, rejeitou o acordo. E então, de repente, à moda tailandesa e egípcia, as ruas de Kiev encheram-se de bandidos armados com bastões e até armas, destruindo a capital e exigindo a renúncia do governo democraticamente eleito.

 

Esses grupos de bandidos incluem neo-Nazis, anti-semitas e criminosos comuns, que foram encorajados pelo receio do governo ucraniano (igual ao que se viu na Tailândia) de usar força. Estão queimando polícias vivos, bloqueando e ocupando edifícios governamentais, impedindo a administração de servir o povo. 

 

Tal como os seus predecessores da “revolução laranja”, estes foram fabricados e cuidadosamente modelados antes de terem sido metidos à solta.

*

Em África, para citar apenas alguns casos, o minúsculo estado das Seicheles, possuidor do mais elevado IDH (Índice de Desenvolvimento Humano da PNUD) do continente, tem sido ao longo dos anos bombardeado com críticas e tentativas de desestabilização. O governo das Seicheles providencia, de forma absolutamente gratuita, um excelente serviço de saúde pública (remédios incluídos) e uma excelente educação pública universal. As gentes das Seicheles têm boa alimentação e moradia. Claro que não é uma sociedade perfeita mas, junto com a Maurícia, é o melhor que o continente africano tem para mostrar. Mas nada disto parece ser relevante.

 

Propaganda vinda de fora, assim como a imprensa opositora financiada sobretudo pelo Reino Unido, estão botando abaixo o sistema. 

 

Uma pessoa pergunta-se porquê mas, depois de um exame mais minucioso e com mais conhecimento sobre o império, tudo se torna óbvio: As Seicheles costumavam cooperar de forma íntima com Cuba e com a Coreia do Norte na frente educacional e noutras áreas. Tornaram-se demasiado "socialistas" para o Império. E, para aqueles aposentados buscando um esclusivo estilo devida hedonista, seria aceitável viver cercados de azul ou até mesmo de castanho, mas definitivamente não de vermelho.

 

A Eritreia, apelidada de “Cuba africana”, até pode ser uma nação orgulhosa e determinada, mas nunca foi rotulada de estado pária ou renegado pela maior parte das potências ocidentais. Foi apenas vítima de sanções e punida, sabe-se lá porquê.

 

Eritreia, com um dos mais elevados IDH da África. é país pária segundo o "Ocidente"

 

“Estamos trabalhando para ser um país inclusivo, democrático e justo”, disse-me recentemente o Director de Educação da Eritreia, no Quénia. “Mas, quanto mais fazemos, quanto mais nos preocupamos com o nosso povo, mais enfurecidos parecem ficar os países ocidentais". Era um pessoa muito sábia e não parecia nada surpreendido. Apenas estávamos, eu e ele, "comparando apontamentos".

 

O Zimbabué é outro caso claro e extremo. Ali, o Ocidente clara e abertamente apoia “a oposição” contra o governo amado e apoiado pela grande maioria da população; o governo de luta de libertação contra o colonialismo e o imperialismo.

 

Provocado pela imensa quantidade de mentiras espalhadas pelos meios de comunicação, sobretudo os britânicos, visitei o Zimbabué, no ano passado, de forma a poder questionar ponto por ponto todos os principais tópicos da propaganda anti-Harare. Nem vale a pena dizer que a minha reportagem, publicada pelo CounterPunch, provocou, por todo o continente africano, uma enorme onde de indignação contra a propaganda ocidental.

 

O ocidente cria e alimenta “rebeliões” e “oposição” contra a Venezuela, Bolívia, Cuba, Brasil e Equador, para citar apenas alguns dos países no topo da  lista de alvos a abater.

 

Na Venezuela, os EUA patrocinaram um golpe falhado e pagam directamente a centenas de organizações, "ONG's” e meios de comunicação, com o objectivo preciso de derrubar o governo e o processo revolucionário.

 

Em Cuba, o povo dessa orgulhosa e humanista nação tem vindo a sofrer durante décadas. Enfrentaram o que apenas pode ser descrito como terrorismo contra o seu belo país. Os EUA e o ocidente patrocinaram invasões, ataques terroristas e até tentativas de alterar padrões meteorológicos e provocar devastadoras secas. Culturas agrícolas foram envenenadas.

 

Qualquer “dissidente” cubano, qualquer bandido que levante armas contra o sistema e o governo cubano, é de imediato apoiado e financiado pelos EUA.

 

Mesmo os meios de comunicação ocidentais, que realizam pesquisas secretas em Cuba, frequentemente chegam à conclusão de que a maioria dos cidadãos cubanos apoia de facto o seu sistema. Mas isso só enfurece ainda mais o Ocidente. O povo cubano está pagando um alto preço pela sua liberdade, pelo seu orgulho, pela sua independência.

 

Há muitos outros exemplos de como a "oposição" e o terrorismo contra "impopulares" governos (aos olhos do Ocidente) são construídos.
 

Os bolivianos quase perderam a sua província "branca" de direita (Santa Cruz), graças ao apoio dos EUA. Muitos afirmam que os EUA financiaram o "movimento de independência" naquela província, obviamente para punir o governo extremamente popular de Evo Morales por ser tão socialista, tão nativo-americano e tão amado .

 

O Brasil, numa grande demonstração de solidariedade e internacionalismo, ameaçou invadir e resgatar o seu vizinho, preservando a sua integridade. E assim, apenas o peso desse gigante pacífico e altamente respeitável salvou a Bolívia da destruição certa.

 

Mas, agora, até o Brasil está sob ataque dos "fabricantes de oposição"!

 

Não quero me alongar muito sobre a China aqui, neste artigo. Os leitores já estão familiarizados com a minha posição mas, em resumo: quanto mais comboios de alta velocidade o governo comunista constrói, quanto mais parques públicos, mais máquinas de exercício gratuítas, mais linhas de transporte público e calçadas largas, quanto mais tenta tornar gratuitos os serviços médicos, quanto mais tenta tornar a educação livre e pública, mais difamada é a China, sendo acusada de ser "mais capitalistas que os estados capitalistas (enquanto mais de 50% da produção do país permanece firmemente nas mãos do estado).
 

A Rússia, tal como a China, Cuba ou Venezuela, é demonizada implacavelmente, todos os dias e a todas as horas. Qualquer oligarca ou qualquer demente figura pop que critique o governo do presidente Putin é imediatamente elevada pelos governos dos EUA, da Alemanha e de outros países ocidentais ao nível de santidade.

 

Por certo, tudo isto não se deve ao histórial russo de direitos humanos, mas sim ao facto de que a Rússia, tal como os países latino-americanos e a China, estar determinadamente bloqueando todas as tentativas ocidentais de desestabilizar e destruir países independentes e progressistas pelo mundo inteiro. E também se deve à crescente influência dos meios de comunicação  russos, especialmente a RT (Russia Today), que se tornou uma voz dominante da resistência à propaganda ocidental. Escusado será dizer que este escritor se associa orgulhosamente à RT e aos seus esforços.

*

É certo que o que o mundo está experimentando agora poderia ser descrito como uma "nova vaga" ofensiva do império ocidental. Essa ofensiva está ocorrendo em todas as frentes e encontra-se em rápida aceleração. Devido ao orgulho que sentem por Obama ter ganho o Prémio Nobel da Paz, ele e os seus neo-conservadores europeus mais próximos e "socialistas com toques de castanho", assim como o primeiro-ministro fascista reeleito do Japão, o mundo está se tornando um lugar extremamente perigoso. Parece uma cidade fronteiriça invadida por violentas hordas.
 

A percepção bíblico-apocalíptica segundo a qual “os que não estão comigo estão contra mim” está ganhando nova profundidade.

 

E fique atento às cores. Atenção às “revoltas” e aos “protestos” anti-governo. Quais são genuínos e quais são artificialmente criados pelo imperialismo e pelo neo-colonialismo?

 

Tudo parece ser extremamente confuso para a maioria das pessoas que se perdem na torrente de informação mainstream. De facto, a ideia é mesmo essa, ficarem confusos! Quanto mais confusas as pessoas ficam, menos capazes são de se rebelar contra os perigos reais e contra a opressão.

 

E no final, apesar de tudo, no dia 2 de Fevereiro, o povo da Tailândia votou! Escalaram barricadas e lutaram com aqueles que tentavam fechar as urnas de voto.

 

E na Ucrânia, a maioria ainda apoia o seu governo. 

 

E, a Venezuela e Cuba não caíram.

 

E os jiadistas ainda não controlam a Síria.

 

E a Eritreia e o Zimbabué ainda apoiam os seus governos.

 

Pessoas não são gado. Em muitos partes do mundo muitos já perceberam quem são os reais inimigos.

 

Manchetes da imprensa venezuelana logo após o golpe de 11/4/2002

 

Quando os EUA patrocinaram um golpe contra Chávez, os militares se recusaram a segui-lo e, quando um homem de negócios escolhido a dedo foi empossado como presidente, os militares começaram a transportar tanques para Caracas, em defesa do legítimo e eleito líder. E a revolução sobreviveu!

 

Chávez faleceu, e alguns dizem que foi envenenado; que o infectaram com cancro, que o Norte é o responsável. Não sei se é verdade mas, antes de morrer, Chávez foi fotografado inchado e suado, sofrendo de uma doença incurável, mas determinado e orgulhoso. Ele gritava: “Aqui ninguém se rende!” Esta visão e esta curta frase inspiraram milhões.

 

Lembro de estar no ano passado em Caracas, em frente a um enorme cartaz com o seu rosto, soletrando as suas palavras. Eu agradecer-lhe-ia, abraçá-lo-ia, se pudesse, se ele ainda estivesse vivo. Não porque fosse ele perfeito, coisa que não era. Mas porque a sua vida e as suas palavras e acções inspiraram milhões, tiraram nações inteiras da depressão, da melancolia, do fatalismo, da escravidão. No seu rosto eu li: “Eles tentam tramar-te, mas tu lutas... Cais, mas voltas a lutar. Tentam matar-te, mas tu resistes... Pela justiça, pelo teu país e por um mundo melhor. Chávez não me disse isto, como é óbvio, mas foi isto que senti enquanto olhava para a sua fotografia.
 

Naquele altura, grande parte da América do Sul se encontrava já livre e unida contra o imperialismo ocidental, e difícil de derrotar. Sim, aqui ninguém se rendeu.

 

O resto do mundo é ainda muito vulnerável e continua maioritariamente algemado.

 

O Ocidente fabricar constantemente, e depois apoia, forças opressivas, quer feudais quer religiosas. Quanto mais oprimido é o povo, menos disposição tem para lutar por justiça e pelos seus próprios direitos. Quanto mais assustadas se encontram as pessoas, mais fáceis são de controlar.

 

Feudalismo, opressão religiosa e sanguinárias ditaduras de direita, tudo isto serve perfeitamente o fundamentalismo de mercado do império e a sua obsessão por controlar o planeta inteiro.

 

Mas tal cenário mundial não é normal e, portanto, é temporário. Os seres humanos anseiam por justiça e, em sua essência, são uma espécie altruista e honesta. Albert Camus, no seu imponente romance “A Praga” (analogia da luta contra o fascismo), e com toda a razão, chegou à conclusão que: “há mais para admirar do que para desprezar nos seres humanos”.
 

O que o Ocidente está fazendo hoje ao mundo, acender conflitos, apoiar o banditismo e o terror, ou sacrificar milhões de pessoas em nome dos seus próprios interesses comerciais, não é nada de novo. Chama-se "fascismo vulgar". E, no passado, o fascismo veio e foi derrotado. E será novamente derrotado. Será derrotado porque está errado, porque é contra a evolução natural da espécie humana e porque as pessoas pelo mundo inteiro começam a aperceber-se de que as estruturas feudais com que o fascismo ocidental continua tentando administrar o planeta inteiro pertencem ao século XVIII e não a este, e que nunca mais [o fascismo] deverá ser tolerado.

 

André Vltchek

 

Por Lula, de Andre Vltchek

André Vltchek é um filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação. Cobriu e cobre guerras e conflitos em dezenas de países. Três dos seus últimos livros são  Revolutionary Optimism, Western Nihilism, o revolucionário romance Aurora e um trabalho best-seller de análise política: “Exposing Lies Of The Empire”. Em português, Vltchek vem de publicar o livro Por Lula. Veja os seus outros livros aqui. Assista ao Rwanda Gambit, o seu documentário inovador sobre o Ruanda e a República Democrática do Congo, assim como ao seu filme/diálogo com Noam Chomsky On Western Terrorism. Pode contactar André Vltchek através do seu site ou da sua conta no Twitter.

 

Tradução por Luís Garcia.

Versão original em inglês disponível aqui.

 

 

 

 

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