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Pensamentos Nómadas

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Vivendo em Doğubeyazıt - IV, por Luís Garcia

 

 

DOS BALCÃS AO CÁUCASO – EPISÓDIO 22  

Vivendo em Doğubeyazıt - IV

 

bw  Luís Garcia VIAGENS  

 

Estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem... aonde não estou. (Estou Além, António Variações)

 

29.06.2014

A manhã começou como uma divertida conversa (para mim) com o tal turco que tem medo dos curdos e que no entanto vem passear de bicicleta para aqui, onde foi hospedado à grande por curdos vítimas do terrorismo de estado turco. Bom moço, sem dúvida, mas vítima da enorme lavagem cerebral nacionalista. Perante todo o que lhe disse, mais ou menos ou que escrevi no artigo anterior, só me sabe responder incoerentemente que se posiciona politicamente contra os curdos pois estes chegaram as estas terras à força, trazendo violência e terror. Que piada. Respondi-lhe perguntando que país, que povo, que nação não fez o mesmo? Como foi criado o Brasil pelos portugueses senão pela escravização, tortura e morte? E os EUA? E todos os outros países? Ahhh, e a Turquia? Se os curdos chegaram a estas terras com violência, terá sido há milhares de anos. Os turcos apenas à 500 anos com igual terror e violência! Brincamos? Coitado, fez-me pena ver esta muito boa pessoa sem resposta, clara vítima de ridículos clichés nacionalistas anti-curdos repetidos sem cessar aos seus ouvidos.

 

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Claire e eu decidimos ir passear de novo até ao Palácio de Ishak Pasha, não sem antes ir devolver a chave de fendas emprestada. A ideia era ir a pé, mas as boleias aparecem do nada, mesmo sem que as procuremos, de modos que a maior parte do percurso fizemos num autocarro que nos levou ao cimo do monte de graça. Para baixo igual, um carro de 2 técnicos da rádio e televisão turca que vinham de reparar a antena de retransmissão por detrás de Ishak Pasha levaram-nos para baixo. Não fomos até à cidade. Pedimos para nos deixarem 2 km antes junto a Yunus, a nossa amiga que andava a pastar as suas ovelhas. Conversámos um pouco e aceitámos o convite para jantar em sua casa à noite. Dali fomos até ao Restaurante Lalezar, uns metros mais abaixo, para visitar o dono do grandioso estabelecimento, um nosso conhecido e amigo de Mehmet, que nos ofereceu chás e cafés, e que nos fez saber que era familiar da pastora Yunus!

 

De volta a casa, mais viajantes! Uma alemã muito simpática e poliglota, que ficou na nossa companhia uma noite, e uma iraniana tresloucada que desapareceu meia hora depois de termos chegado!

 

Tal como combinado, por volta das 20h30 saímos de casa para ir ao encontro de Yunus e da sua família. Numa cidade praticamente sem iluminação nocturna e com os subúrbios 100% às escuras, foi um grande filme encontrar a casa. Avançámos à boleia até junto ao bairro que Yunus nos falara, mas uma vez chegados, não sabíamos como dar com a casa. Andámos às voltas, fomos perguntando pela Yunus a quem passava na rua (pelos vistos existem dezenas de Yunus na zona) e, pouco a pouco, fomos ter à casa, sem ter a certeza de estarmos no sítio certo. Faltava bater à porta ou chamar pela pastora, no entanto dois cães enormes e soltos ladrando para nós na escuridão fizeram-nos hesitar. Tão perto e tão longe, acabámos por caminhar passo a passo até à entrada e batemos à porta. Nada. Gritámos pelo nome Yunus. Também nada. Vimo-nos obrigados a espreitar e bater nas janelas com luz! Aleluia, a insistência deu os seus frutos e da casa saiu uma Yunus muito assustada com uma lanterna na mão. Em poucos minutos montou-se uma sala de jantar no jardim, com a ajuda dos 2 irmãos de 11 e 12 anos, enquanto a mãe aqueceu e preparou comida enquanto o diabo esfregou um olho! A comida era maravilhosa, mas ainda mais foi alegria com que a sua mãe nos acolheu em sua casa. Ao invés de Yunus e os 2 irmãos, a sua mãe era uma fala-barato, eufórica pelo enorme prazer de ter estrangeiros a jantar em sua casa. Contou-nos que desde há 17 anos recebe pelo menos uma visita por ano de estrangeiros viajantes como nós! Confessa que adora estes encontros fortuitos e afirma se encontrarem por entre os mais belos momentos da sua vida. Não admira. A querida senhora não parava de falar um segundo enquanto os seus 3 filhos mais pareciam surdos-mudos! Ahah! Era já muito tarde quando fomos embora, para desconsolo da mãe de Yunus que nos abraçou e beijou com ternura, repetindo eufórica uma miríade de diferentes formas de despedida em turco e curdo, implorando pelo meio para que voltássemos a visitá-la um dia! Que experiência intensa, dificilmente olvidável… 

 

Álbuns de fotografia

Luís Garcia, 23.04.2017, Ribamar, Portugal

 

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