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Pensamentos Nómadas

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De Ananuri a Stepantsminda, por Luís Garcia

 

 

DOS BALCÃS AO CÁUCASO – EPISÓDIO 28 

De Ananuri a Stepantsminda

 

bw  Luís Garcia  VIAGENS 

 

Estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem... aonde não estou. (Estou Além, António Variações)

 

12/13.06.2014

O dia à beira-lago começou com banhos e muita moleza. A meio da manhã por fim ganhámos coragem para preparar um pequeno almoço e depois ainda houve tempo para um longo jogo de xadrez antes de partir. Por fim sentíamos deveras o prazer de viajar, tranquilos e felizes por o fazer…  Era já 1 da tarde quando pegámos as malas e nos pusemos a andar, 15 minutos a pé até à estrada principal e em seguida 15 minutos à espera para apanhar boleia. Que sorte incrível, logo à primeira encontrámos o carro que nos levaria a Stepantsminda. O condutor e o seu filho de 10 anos, arménios, estavam de viajem rumo a Rostov na Rússia. Stepantsminda fica a apenas 15 km da fronteira da Geórgia com a região russa da Tchétchénia! Por que caminhos foram se meter, hehe!

 

Logo ao início ofereceram 2 pêssegos a cada, mostrando a sua sincera hospitalidade. Como a paisagem é linda, o simpático senhor fez umas pausas estratégicas nas quais fizemos fotos magníficas, não só da natureza mas também de todas as relíquias soviéticas espalhadas pelo percurso. Fizemos uma outra paragem estratégica para encher as garrafas com água gelada e mais à frente uma paragem para almoçar os produtos caseiros que traziam na bagagem: ovos, queijo, pão, mel, galinha cozida, legumes, vodka e vinho! Que regalo. Poucos quilómetros à frente parámos num indescritível e belo miradouro soviético onde bebemos uns cafés oferecidos pelo condutor. Uns quilómetros antes do nosso destino houve tempo para uma última paragem numa fonte de água com gás que parece um mini-Pamukkale versão cor-de-laranja.

 

À chegada a Stepantsminda veio o momento mais difícil: como se separar de gente tão boa e querida, ainda mais com o miúdo arménio abraçado a nós quase a chorar! Que sufoco, mas enfim, fazem parte da viagem estas separações dolorosas. Fica a memória destas pessoas adoráveis que tão bem nos trataram e que encheram este dia passado nas montanhas da Geórgia.

 

Em Stepantsminda fomos dar com frio. Se no planalto central da Geórgia de onde saíramos pela manhã fazia mais de 35 graus, aqui, dada à elevada altitude, a temperatura era de 22 graus. De dia, porque de noite então era mesmo gelado! Como passámos quase o dia inteiro na estrada, à chegada a Stepantsminda era já hora de organizar sítio para dormir. O plano inicial era montar a tenda, mas com tanto frio e ameaça de chuva, decidimos dar uma volta pelos bairros mais pobres e “soviéticos” da “cidade” em busca de alguém para nos ajudar. O primeiro grupo de pessoas que falámos nem sequer perceberam o que queríamos. À segunda falámos com uma dona-de-casa que nem sequer deixava por a tenda no seu jardim! À terceira vimos espantados um adolescente passar (numa zona onde só se avistavam velhos) e pedimos ajuda. Falava um inglês excelente, chamava-se Tornike e 2 minutos depois já estávamos confortavelmente sentados na mesa da cozinha da casa que partilhava com outros colegas de trabalho (todos adolescentes, trabalhando num hotel de luxo ao lado, durante o verão). Uns minutos antes não sabíamos que fazer da vida nesta montanhas gigantes de clima ameaçador, agora tínhamos casa para 2 noites, jantar, banho quente, internet wifi, companhia divertida e inteligente e uma cama para cada um! Que luxuosa hospitalidade!

 

O nosso novo amigo Tornike não parava de nos surpreender com o seu nível de inglês e de cultura. Aos 19 anos tem já um conhecimento formidável de geografia, história, toca piano e clarinete, interessa-se por uma miríade de assuntos e consegue até dizer de cor os nomes de todas as equipas da 2º divisão portuguesa! Uma enciclopédia falante este rapaz! E não se calava um segundo, falava tão rápido que até se engasgava, eufórico, ansionso de contar mais e mais histórias e fazer-nos perguntas sem cessar! Que encanto! 

 

Além de Tornike, uma outra adolescente nos chamou a atenção pela sua extrema delicadeza, simpatia e altruísmo: Tamuna, uma jovem geórgia com origens na Abecázia e que também trabalha no restaurante de luxo. Apesar do manifesto cansaço, nunca nos deixou fazer nada, sempre pronta para nos ajudar e servir, teimosa em fazer valer a famosa hospitalidade geórgia (a vida dá muitas voltas e, hoje, os seus 2 irmãos e a sua mãe são amigos nossos, com quem mantemos contar regular via internet, mas isso é outra estória, um episódio ainda por vir deste Dos Balcãs ao Cáucaso)! 

 

Entre muita conversa e alegria a casa foi se enchendo de amigos deles e a noite avançou ao sabor de rabanadas (feitas com kefir na falta de leite) e de cerveja. Para o final uma das colegas de trabalho, Maya, até me fez o favor de cozer a recém-comprada bandeira da Geórgia na minha mochila de viagem! Enfim, um dia que deu para tudo… 

 

Pansheti

 

No dia seguinte de manhã pegámos em todo o equipamento fotográfico e fomos os 3 (eu, Claire e Diogo) caminhar 5 km pelo leito seco do rio, entre Stepantsminda e a aldeia de Pansheti onde ainda se encontram algumas casas antigas, em forma de torres e construídas exclusivamente em pedra. Foi uma caminhada de várias horas muito interessante, na qual podemos observar as magníficas montanhas em redor (a mais alta chama-se Kazbek e tem 5037 metros de altitude), as vacas de montanha pastado em precipícios, as relíquias do período soviético espalhadas um pouco por todo o lado e, claro, o elevado dinamismo do clima que pode mudar de um calor abrasador para chuva torrencial gelada em poucos minutos. Foi precisamente por esse tipo de chuva que nos vimos forçados a parar o passeio e correr para debaixo de uma ponte. Da ponte só saímos para apanhar uma boleia de um monge mudo que nos levou de volta ao centro de Stepantsminda. Com o tempo sempre a piorar não tivemos outra alternativa senão abrigarmo-nos na casa dos nossos hóspedes o resto da tarde onde comemos e descansámos. Ao lado da “nossa” casa havia uma pequeno casarote em ruínas e em remodelação, obra de 3 bêbados paranóicos. Sem darmos por ela, 2 deles entraram na “nossa” casa e “raptaram” o Diogo para o “obrigar” a beber vodka caseira. Quando voltou para contar a aventura, decidi ir lá eu, não para provar a terrível vodka mas sim para pedir pão. Consegui o pão, aliás, 4 pães velhos e secos mas gratuitos. Infelizmente tive de provar também da terrível vodka, não bebendo mais porque a garrafa estava no fim. Na sua primitivo-paranóica e ébria hospitalidade já não me queriam deixar sair, convidando-me a descansar numa das fétidas camas espalhadas pela caótica tentativa falhada de casa. Mas não, por entre abraços e baboseiras em russo lá consegui fugir a correr com os pães nas mãos! Ah, que alívio, longe da “malucada” e com pão para o almoço! Quando voltaram do trabalho os nossos hóspedes, juntámo-nos todos num tranquilo convívio que durou o resto do dia…

 

Stepantsminda

 

Álbuns de fotografia

 

Luís Garcia, 17.05.2017, Ribamar, Portugal

 

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