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Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

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Crítica ao Black Mirror - Hang the DJ, por Ricardo Lopes

 

 

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RICARDO MINI copy     TECNOLOGIA  SOCIEDADE 

 

Black Mirror - Temporada 4

Episódio 4 - Hang the DJ

 

Ora bem, episódio 4, e acho que encontro um excelente exemplo daquilo a que o Jordan Peterson se refere quando diz que a criação artística é uma forma de expressão ainda pré-consciente e, portanto, os artistas não compreendem completamente as suas criações.


E, como se pode sempre recorrer a conhecimento empiricamente validado para tentar articular essas verdades obscuras e fugidias que a mente processa, vou tentar fazer aqui um exercício engraçado de análise deste episódio.

 

Começando pelo mais fácil, é curioso verificar como o autor constrói toda uma narrativa que apresenta como sendo antissistema, mas que acaba por criticar as atitudes modernas antissistema. Isto porque, e mesmo tratando-se de uma realidade simulada, e portanto moralmente neutra, a tecnologia faz com que as pessoas experimentem múltiplas relações ocasionais, mas isso é o que já acontece de qualquer maneira no mundo atual, por isso até se fica sem perceber se isto é mais uma manifestação de tecnofobia ou se é uma crítica social. O que quero dizer com isto é o seguinte. Acham mesmo que foi o Tinder ou qualquer outra aplicação de encontros que esteve na origem do aumento nas relações ocasionais ou de curta duração? Está bem está. O Tinder e demais aplicações vieram simplesmente facilitar e responder a uma demanda de mercado que ainda estava por satisfazer desde os anos 60. Foi a tecnologia a causar uma viragem cultural, e a fazer com que as pessoas deixassem de atribuir a extrema importância que antes tinham as relações de longo prazo? Um redondo não!

 

Outro reparo. Quando, a certa altura, um dos personagens faz referência ao conceito de "option paralysis", que faz todo o sentido que o Charlie Brooker conheça, já que foi cunhado por Barry Schwartz, aquele que terá de ser um dos ídolos dos tecnofóbicos, não se aplica a relações interpessoais, mas sim a produtos de consumo. "Uh, mas é uma metáfora". Não, é treta, porque as pessoas não tratam naturalmente outras pessoas como tratam produtos de consumo, ponto.


Em todo o caso, e quando um gajo ainda não fazia ideia que a história era uma simulação, e mesmo depois de ter ocorrido a cena em que a Amy faz uma manobra (e ainda por cima mal feita) para fazer o Frank expelir um objeto estranho que ele ainda não tinha aspirado porque ainda estava a tossir (não, não façam isto em casa, criançada, porque é completamente estúpido), a coisa até estava a ir bem. Isto até acontecer uma mulher muito bonita (Amy) apaixonar-se se apaixonar por um inepto social, ao invés de um gajo bem parecido, que faz bom sexo (incluindo sexo oral!), e com aptidões sociais ao máximo, e isto só porque o gajo tem um tique nervoso medianamente irritante. Vá, está bem, vou dar o braço a torcer e dizer que até percebo que ela tenha acabado por se fartar dele, porque afinal, pelo menos pelo que foi mostrado, ele não era uma pessoa propriamente afetiva, e nem mostrava sinais de ser fiel a longo prazo. Mas era a porra do padre dos Vikings. Caraças, pá, as mulheres não sabem mesmo aproveitar um bom partido! Enfim, não faz sentido, de qualquer maneira. Ok, ok, vou dar o braço a torcer outra vez, e, sim, uma mulher é capaz de escolher um inepto social se ele tiver outras qualidades, como fazê-la rir, ser minimamente inteligente, e, enfim, o gajo até fazia exercício físico regularmente, e mostrar fidelidade e dedicação. Ok, tudo bem, vou-me deixar de cinismos. 


E o pormenor de ter de dar o consentimento no dispositivo para se poder fazer sexo com a outra pessoa? Essa foi outra de partir a rir de crítica à hiperpaternalização exigida pelos SJWs hoje em dia. Qual é o mal, afinal?


Também não se vê um mundo de gente no evento do serviço, por isso também não é que se tenha espalhado mais do que o que seria normal na sociedade. Aliás, se calhar até se espalhou de menos, porque as pessoas que mais facilmente seriam atraídas pelo serviço seriam aquelas que mais dificuldade têm em assentar em relações, e que são bastantes.

 

Outra situação linda no episódio foi quando o Frank simulado quis ver o tempo que lhe sobrava para estar com a Amy e o sistema começou a dizer-lhe que tudo acontece por uma razão, e não é que a porra da inteligência artificial tinha razão? Afinal de contas, se as coisas lhe correram mal depois disso foi porque ele contribuiu pata que a confiança erodisse, ao falhar com uma promessa muito importante. Portanto, o problema nem sequer foi provocado nem facilitado pela tecnologia. Não é o sistema que é tirano, mas sim o facto de o gajo ter arruinado algo que é essencial para desenvolver e manter uma relação. Genius!

 

Agora, adentrando-me mais na ciência por detrás das relações amorosas humanas. Meus amigos, eu sei que isto tudo pode soar altamente horrível e cínico, mas a verdade é que nunca ninguém sabe porque é que se apaixonou ou gosta muito de outra pessoa. Estudos já mostraram que tanto homens como mulheres têm uma tendência natural para se sentirem mais atraídos por pessoas que têm um sistema imunitário diferente do delas, uma vez que um dos componentes do sistema imunitário (o complexo de histocompatibilidade major, ou MHC) é causa de um certo odor corporal, que processamos de forma inconsciente. Estudos já mostraram que as preferências físicas de homens e mulheres no sexo oposto são culturalmente universais. Para mulheres, homens com ombros largos, queixo quadrado, corpo e face simétrica, sem sinais de doença expressos cutaneamente. Para homens, mulheres com bochechas altas e rosadas, face e corpo simétrico, rácio peito/ancas de cerca de 0,7, e feições neoténicas (ou seja, ter uma cara mais semelhante à de uma criança). Estudos já mostraram que as mulheres preferem homens inteligentes, com bom sentido de humor, com status socioeconómico, fiéis e materialmente ambiciosos, e preferencialmente mais velhos. No caso dos homens, mulheres mais novas, com as características de beleza universal já descritas, e pouco mais, ahah. 


Por isso, meus caros, dizer que não é preciso praticamente tempo nenhum para alguém se apaixonar não é ser cínico, mas sim ser realista, porque em menos de nada já todos estes instintos operaram, juntamente com tudo o que se tiver recebido especificamente de cada cultura, que também passa a operar automaticamente com o hábito, e, a partir daí, tudo aquilo que se apresente como justificação para se estar apaixonado por determinada pessoa não é muito mais que racionalização post hoc. Sim, as qualidade que se detetam e confirmam na pessoa podem ser todas elas reais, mas psoso garantir que não foi nenhuma dessas observações conscientes que conduziram nem mantiveram a paixão.

 

Para finalizar, o Charlie Brooker bem que quis dar a entender que para uma relação ser frutífera tem de se quebrar com o sistema, como colocou os dois pombinhos simulados a fazer, mas, no fim, a verdade é que nem a aplicação que as pessoas estavam a usar era maléfica, nem ninguém escapa ao sistema, que na verdade é a natureza humana, como eu a descrevi aqui, embora não de uma forma exaustiva.

 

Ricardo Lopes

 

 
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