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A caminho do Líbano, por Luís Garcia

 

 Cartas da Síria - 1

Cartas da Síria 1 - a caminho do Líbano

 

Luís Garcia  POLITICA  SOCIEDADE 

 

Porquê "cartas da síria" para quem se desloca para o Líbano e não para a Síria? Simples, porque, apesar desse facto, a nossa estadia no Líbano tem muito mais a ver com a Síria do que com o Líbano, como bem poderá descobrir nos próximos episódios...

 

05/06-08-2017

Era suposto partir para o Líbano no fim do mês, e aproveitar uns belos dias de sol na praia que pareciam por fim aparecer lá pela minha Ribamar, mas não, súbita mudança de planos, voo comprado no lastminute e, quando demos por ela, estávamos deitados no chão do aeroporto de Cartago na Tunísia esperando por um voo até ao Líbano.

 

Claro que antes tivemos de fazer as malas e apanhar um voo de Lisboa para a Tunísia. Como a prioridade sempre vai para o mais barato, esse mais barato por norma vem acompanhado com as escalas mais chatas. Chegámos à noite em Tunes mas o voo seguinte, Tunes-Beirute, estava marcado para as 7h30 da manhã. Pensámos na ideia de ficar na zona de trânsito do aeroporto de Cartago em Tunes mas, após breve inspecção àquela mini-realidade paralela tirada de um episódio de Twilight Zone, não hesitámos em preencher o papel da emigração, passar o controlo de fronteira e ir para fora mais ou menos disfrutar umas horitas na Tunísia. E assim fizemos, viemos até a rua e bebemos uns cafés até que por fim, rendemo-nos ao cansaço e abancámos os sacos-cama no chão do aeroporto onde semi-dormimos umas horinhas até à hora do voo seguinte.

 

 Álbum 1

01 - Tunis

 

Como os lugares dentro do avião estavam distribuídos em filas de 3 e nós éramos 2, sabíamos que por certo teríamos companhia de alguém. Só não me tinha passado pela cabeça que essa companhia fosse a bela jovem árabe de vestido bem curto que tinha feito um mega-sucesso aos olhos de todos os homens da sala de espera junto à porta de embarque. Metemos conversa, crendo que a miúda fosse libanesa, pois queríamos recolher umas informações valiosas acerca de preços e pousadas e tal. Mas não, não era libanesa. Era síria, sim, Síria! Uma síria de classe alta com estatuto de refugiada vivendo no Canadá, de onde partira horas antes a caminho do Líbano para se poder encontrar com alguns dos seus amigos que nesse momento estavam a viajar de carro da Síria até ao Líbano! Acredite quem quiser, apesar de por norma os leitores deste blog serem pessoas informadas com que buscam deveras por informação, pois sim, sem espanto, a miúda síria defendia Assad e o governo de Assad, os únicos com legitimidade para defender a soberania desse estado tão agredido pelo ocidente. Não tendo sequer necessidade de averiguar "de que lado estaria", passámos directamente para a conversa sobre o conflito sírio. Muito interessante a conversa, apesar de, pelos vistos, estármos bem mais informados que ela acerca dos detalhes do conflito. E claro, ficou encantada ao descobrir que, anos antes, quer eu quer a Claire, termos viajado pelo seu país e inclusive pela sua terra natal, a eterna Aleppo!

 

Graças a Myriam, a tal miúda síria, chegámos ao aeroporto já com um plano de como sair dele e onde encontrar alojamento o mais barato possível. Tínhamos combinado ir juntos do aeroporto para o centro da cidade juntos, partilhando transporte, assim como usufruir da sua vontade de ajudárnos a encontrar e negociar um preço de pousada mas, com muito azar, apanhámos com um troglodita no controlo de passaportes que nos criou inúmeras complicações desnecessárias que nos levaram a perder imenso tempo. E claro, quando por fim passámos o controlo e recolhemos as malas, Myriam já tinha partido. Que frustração.

 

Para compensar a perda, enquanto procurávamos por transporte barato (ou melhor, menos caro), para nos deslocarmos do aeroporto ao centro, metemos conversa com um casal de libaneses e um amigo seu também libanês que esperava a chegada da sua namorada alemã. Gentilmente, convidaram-nos a esperar pela chegada da alemã, pois em seguida levar-nos-iam de graça até Bourj Hamoud, a zona de Beirute que Myriam nos tinha aconselhado.

 

No bairro de Bourj Hamoud, sobre intenso calor, cheios de fome, cansado e cheios de sono, fomos descobrir que naquele dia, Domingo, estava tudo fechado e que não se avistava nada com aspecto de pousada ou hotel. Apenas dava para perceber que estávamos num bairro arménio, tamanha era a quantidade de referências a esse país: bandeiras, associações, igrejas, monumentos, inscrições em arménio, fotografias de Ararat, nomes tipicamente arménios etc. Como onde há tantas referências arménias, terá necessariamente de haver arménios, um simpático senhor com família de origem nesse nosso querido país, veio perguntar-nos em bom inglês se precisávamos de ajuda. A resposta era óbvia, e a ajuda foi boa. 

 

Metemo-nos ao caminho, seguindo as coordenadas do senhor e, após paragem num bar arménio para uns refrescantes sumos de limão, uma paragem para reparar uma asa da mala de Claire que se partira entretanto, e de vários quilómetros caminhados, por fim demos com a zona que nos indicara e, inclusive, com a pousada de que nos tinha falado. Pena que já só tinham lugares de dormitórios para mulheres nesta pousada. Não desesperámos, pedimos ajuda ao simpático funcionário da pousada que nos aconselhou uma outra não muito longe mas bem mais cara. Ora, precisamente por serem muito caros os preços nos sites de booking online, dias antes havíamos abandonado a ideia de reservar pousadas caras e tentar encontrar outras mais baratas in loco. Quase noite e desfalecendo, optámos por ficar nessa pousada cara, carinha, apesar da má impressão de superficialidade americanizada aparvalhada à la new-ager. Sim, estávamos certos sobre a tal superficialidade americanizada aparvalhada, e era bem pior do que imagináramos, mas bom, essa uma outra história que fica para o próximo episódio.

 

Ah, antes de acabar. à noite, quando abri a minha conta facebook e procurei pela conta de Myriam, para meu espanto (ou não), descobri que tínhamos um amigo facebook em comum. Um sírio refugiado no Chipre. Quis-lhe contar a alucinante mas, apesar de pasmado com a coincidência, claro, já sabia que Myriam (a sua melhor amiga de acordo com ele) se encontrava a caminho de Beirute onde iria se encontrar com amigos que têm em comum, pois claro! 

 

Luís Garcia, 10.08.2017, Beirute, Líbano

 

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