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Pensamentos Nómadas

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Passeios interessantes e encontros oportunos, por Luís Garcia

 

 

 Cartas da Síria - 3

Passeios interessantes e encontros oportunos

  

Luís Garcia  POLITICA  SOCIEDADE 

 

08.08.2017

Além de muítissimo caro o hostel em que ficámos 2 noites, o seu ambiente social era horrível em todos os aspectos. As empregadas africanas trabalhavam que nem escravas (e não é ironia minha) enquanto que as putinhas europeias (uma francesa e uma alemã) não faziam coisa nenhuma além de trocar mensagens no telemóvel, mostrar as belas perninhas e perguntar de 5 em 5 minutos se queríamos comprar uma bebida ao preço do ouro! Pior, diria, este pessoal que se mete a fazer intercâmbios da treta trabalhando de graça em hostéis de luxo sem ter a mínima empatia pelo pessoal que lá trabalha a sério e que não pensam que estão a roubar os empregos mais aprazíveis a imigrantes e refugiados que bem precisariam deles, sinceramente, provoca-me um profundo nojo. Em vez de mandarem mensagens e perguntarem-me se queria um café a 5$, que fossem antes limpar a nojice de casas de banho do piso de cima junto aos dormitórios! E não, não era culpa das miúdas africanas pois essas não paravam um minuto de tantas tarefas que tinham a realizar. Quanto ao dono e ao gerente, prefiro nem falar, não quero provocar más indisposições aí do outro lado. 

 

- link para o hostel de lixo para new-agers aparvalhados aqui

 

Por tudo isto e muito mais, mudámo-nos para um hostel bem mais barato (al-Nazih), bem mais limpo, de gente muito boa e no qual os empregados (um refugiado sírio e uma emigrante etíope) são tratados de igual para igual pelo sábio e muito simpático dono. Um magnífico ambiente familiar onde dono e empregados partilhavam comida connosco e não nos deixavam pagar os cafés. Boas amizades que fiz ali, sobretudo com o dono, Mikael, graças ao seu melhor inglês, com quem passei serões discutindo/aprendendo política e história do Médio Oriente. Mas também com a sempre sorridente Lina e o muito querido George, refugiado sírio no Líbano e descendente de refugiados arménios na Síria. Portanto, uma escolha perfeita que se transformou em 2ª casa, graças ao excelente conselho do brasileiro-libanês de quem já falei por aqui.

 

- link para o hostel al-Nazih aqui

 

Pouco tempo de pois de termos chegado a este segundo hostel (al-Nazih), apareceu uma miúda espanhola (Julia) acabada de chegar de uma escola para crianças sírias algures junto a campos de refugiados no norte do país. Caía-nos do céu informação preciosa, da boca de gente boa e simpática, sobre aquilo que pretendíamos encontrar por conta própria nos próximos dias. Quem tem um mínimo de noção sobre o tema de voluntariado (e quem não tem, basta que faça uma pesquisa rápida na net), está farto de saber que quase todas as organizações de voluntariado ou ajuda humanitária, sobretudo as maiores, são, pelo menos, formas obscuras de lavar dinheiro sujo e, no máximo, organizações criminoso-mafiosas. O tema hoje não é esse, mas um dia haverá de aparecer aqui um artigo sobre este tema. Dizia eu, é difícil confiar em organizações do género, daí que, por defeito, não confiamos em nenhuma. Depois, para encontrar alguma pequena, honesta e com trabalho genuíno de louvar, há que procurar no terreno, e analisar caso a caso. Pelo que nos contou Julia, a Escola de Malaak parecia encaixar na perfeição no conceito de verdadeiro voluntariado em pequena escala. Pedimos-lhe, claro, os contactos, de forma a dar início à interacção. Também não é o tema de hoje, mas vou já adiantando que esta escola também não é o que pensámos ser depois de ouvir Julia. Enfim.

 

- link para o sítio da Escola de Malaak

 

Julia esperava a companhia de uma amiga também espanhola que chegaria mais tarde e, portanto, encontrava-se temporariamente sozinha. Com tanto para explorar em Beirute mas também com tanto a perguntar-lhe sobre a escola para refugiados sírios, convidámos Julia para se juntar a nós num longo passeio a pé pela capital libanesa no qual percorremos 14km. O plano geral era caminhar para sul, na direcção do campo de refugiados (permanente) palestinianos de Chátila, uns quilómetros a sul do hostel, e a mais de meio caminho do aeroporto internacionald e Beirute, onde Júlia iria esperar a chegada de uma amiga sua, enquanto que Claire e eu voltaríamos a pé, por outros caminhos, rumo ao hostel.

 

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Beirute é uma cidade que surpreende a cada esquina, sobretudo pelos extremos que se tocam tão de perto, tudo co-existe lado a lado, até super-modernos edíficios ao estilo norte-americano junto a bairros de casas semi-destruídas cujas paredes ainda mostram milhares de balas cravadas durante os diferentes conflictos que ocorreram aqui nas últimas décadas. E não é só a arquitectura ou o que sobra dela que se misturam. As várias culturas, línguas e religiões formam um cocktail díficil de dissecar para um estrangeiro que não fale árabe. Ainda assim é possível detectar alguma desta riqueza e variedade, como quando nos aproximámos de um vendedor de café ambulante que perguntou-nos se queríamos café ou café turco. Após alguma hesitação, perguntámos e confirmámos que era turco o senhor, e trocámos algumas palavras em turco (que conhecemos das viagens pela Turquia, poucas, mas que nos permitiram falar um pouco mais que o nada do costume (em árabe). Pois sim, pedimos café turco, e pois sim, foi oferta da casa! :)

 

Muitas horas caminhando sob um calor sofocante dá fome, sobretudo quando se partiu do hostel já com fome e, portanto, mais cedo ou mais tarde, teríamos de parar para comer. Escolhemos um restaurante de shaorma num bairro pobre e muito degradado não muito longe da zona de Chátila. Ninguém falava inglês ou francês mas a boa vontade e simpatia do pessoal, sobretudo do jovem que preparava as shaormas, tornou muito fácil o que poderia ter sido díficil. Não é paranóia minha nem da Claire mas sim fruto das memórias de viagem na Síria. Tal como o sírio empregado do hostel de Mikael, o rapaz que preparava a comida era muito gentil, mas de uma gentileza calma e comedida, não como a gentileza turca ou iraniana de obrigar uma pessoa a comer e beber até mais não da melhor comida e bebida do mundo, hehe. Não, é outro tipo de gentiliza delicada, muito comum na Síria que conheci antes da guerra. E portanto sim, depois de acabado o almoço tardio, perguntámos ao jovem a sua nacionalidade. Sírio, pois claro.

 

De volta à estrada, caminhámos as centenas de metros que faltavam para chegar ao tristemente famoso bairro palestiniano de Chátila, fruto ignóbil do excepcionalismo criminoso do estado de Israel que rouba, conquista, humilha, aterroriza, tortura e mata palestinianos de forma absolutamente impune, graças à complacência ignorante-zombie da plebe ocidental.

 

Palestina - História de Uma Terra

 (link alternativo, se necessário, aqui)

 

Apesar do aparato dos check-points e do controlo militar, foi muito fácil de entrar no bairro. À entrada fizeram-nos umas perguntas sobre a nossa presença ali e sobre os motivos da nossa visita, de forma muito cordial, explicámos de boa-vontade e com sorrisos, e fomos gentilmente convidados a entrar. Como bem esperávamos, fomos encontrar um campo de refugiados urbanizado mas sem condições devido ao excesso de população e ao défice de recursos. Ainda assim, dentro de Chátila, quem lá mora tenta levar a vida da forma mais normal possível, como qualquer outro ser humano, ora que espanto! :p Fazer desporto, conversar no café, ocupar-se da loja à beira da estrada, ler um jornal e por aí fora. Mas não é fácil quando falta tanto, sobretudo espaço e empregos (bem ou mal pagos) e quando, para juntarem-se aos milhares de refugiados palesrtinianos permanentes de há quase 70 anos, se juntam nos últimos anos mais uns milhares de refugiados sírios. Miséria acumulada por cima de miséria, criada sempre pelos mesmos países (EUA e Israel), esquecida sempre pelos mesmos estados vassalos (Europa e companhia). Melhor do que ler ou ouvir falar de Chátila, é pegar um voo até ao Líbano e visitar este e outros campos de refugiados permanentes, testemunhos flagrantes da barbárie ocidental.

 

- Chatila

Massacre de Sabra e Chatila

 

De volta ao passeio em si, um dos momentos mais belos do dia aconteceu já na saída sul do bairro (tinhamos entrado pelo norte). Bancas de venda de roupa é coisa que não falta por aquelas bandas, e o que mais se encontram são t-shirts de grandes clubes europeus. O que não estava à espera era de encontrar à venda, numa dessas bancas, a camisola da selecção da Síria. Não resisti e aproximei-me para a comprar. Não me espanta que fique contente um vendedor por ter alguém disposto a comprar-lhe algo, pois claro que não. O que me espantou foi o seu entusiasmado espanto acompanhado de uma infinita gentileza e um belo sorriso (como podem ver na capa do artigo). Perguntei-lhe se era sírio, e pois sim, era. :)

 

Depois de sairmos de Chátila, mudámos de direcção ruma à costa e encontrámos, pelo caminho, uma enorme rotunda com um carro em ruínas no meio, usado como banco pelos adultos, como motivo de brincadeira pela miudagem, e como desculpa para uma pausa e sessão de fotografias por nós. Por não falarmo árabe, não deu para conversar com a criançada que nos rodeava e nos exigia fotos atrás de fotos, mas deu para perceber quem nem todos falavam árabe. Havia línguas estranhas (para nós) por entre o grupo de eufóricos pequenos diabinhos sempre prontos para gritar e para se espancarem uns aos outros. Que loucura. Só quando nos preparávamos para "fugir" da rotunda, cansados de tanta balbúrdia, apareceu um miúdo muito calmo, limpo (em contraste total com o resto dos diabretes), com uma postura de adulto e que falava muito bem inglês. Ficámos então mais uns minutos, trocando ideias e fazendo perguntas ao rapaz e ele a nós, numa conversa imporvável mas interessante até que nos disse que era sírio. Aí claro, para a conversa e tirámos uma foto juntos, para variar. :p

 

Pouco depois de despedirmo-nos do miúdo sírio, despedimo-nos também de Julia que pegou um autocarro rumo ao aeroporto. Claire e eu continuámos a nossa caminhada rumo ao hostel ainda a vários quilómetros de distância, passando por campos de refugiados à beira de estradas onde passam Ferraris e Lamborghinis, por um bairro palestiniano onde se pode encontrar um graffiti gigante com o retrato de Arafat e, já noite bem escura, por bairros tradicionais onde não se encontram estrangeiros nenhuns mas onde se pode facilmente encontrar gentileza libanesa assim como boa comida local. Numa das muitas lojinhas à beira da estrada comprámos pão árabe, queijo fresco e azeitonas para o jantar no hostel e, já bem perto do centro (e portanto do nosso hostel), encontrámos, para nosso encanto, um bar/caravana com uma grande pintura de Fairuz (mítica cantora libanesa de quem somos fãs). Infelizmente estava fechado o bar e não havia ninguém por perto. No dia seguinte voltámos, mas essa é uma alucinante estória que fica para o próximo artigo. :p

 

- Fairuz

 

De volta ao hostel, após a exaustiva mas muito enriquecedora caminhada de 14km, foi tempo de jantarada, cafés com a malta, e conversas até às tantas com empregado sírio, depois com o Mikael (o dono) e por fim com Julia e sua amiga que entretanto chegara. Um dia memorável! Pena que as palavras não me saiam bem e que eu não consiga explicar neste texto o quão excepcional foi este dia. Fica a ideai aproximada. Obrigado pela leitura! :)

 

Álbuns de fotografia

Beirute 2     Beirute 3     Beirute 2

 

Luís Garcia, 31.08.2017, Minyara, Líbano

 

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Carta aberta aos arrogantes intelectuais, por Ricardo Lopes

 

 

Carta aberta aos arrogantes intelectuais

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE 

 

Meus queridos, meus chuchus, meus Eusebiozinhos, meus Narcisos, meus profissionais dos chiliques, meus vanguardistas oráculos do Quinto Império, meus arrogantes intelectuais, tenho alguns factos para suas altíssimas excelências.


As artes não estão em declínio, em termos de haver cada vez menos pessoas a visitar museus, ler livros, ir ao teatro e ao cinema, etc. Não, minhas cavalgaduras de cuja dureza de cabeça nem a tão grande erudição da qual se gabam a cada expiração as livra, há, isso sim, cada vez mais pessoas a prestar atenção às mais diversas formas de arte.


Particularmente, no que se refere à leitura, cada vez se leem mais livros, as tiragens são maiores, o número total de livros impressos por ano ao redor do mundo é exponencialmente superior ao que era há 100 anos atrás, para não falar do tempo depois de o Gutenberg se ter esfalfado para criar a máquina que agora permite a muitos de vós serem mantidos como burro a pão-de-ló. E falo em serem mantidos como burro a pão-de-ló, porque muitos de vós pretendem fazer vida de ficar com a peida alapada o dia inteiro em algo almofadado – e nada, da minha parte, contra pessoas que pretendem fazer vida de ficar com a peida alapada o dia inteiro em algo almofadado; várias as houve, e há muito que agradecer-lhes o sacrifício da aptidão física -, sem esperar sequer ter o trabalho de produzir algo que agrade aos desgraçados que querem que gostem do que produzem à força. Porquê? Porque os meninos têm de viver disso, está claro. Como bons juízes em causa própria, reconhecem a si próprios o incomensurável valor das vossas produções literárias e, portanto, é um sacrilégio do maior grau que não vendam o que precisam de vender. Mas não, não se leem menos livros, e ninguém tem culpa de não gostar dos vossos.


E, um aparte, ninguém é mais ou menos burro por não gostar de ler. Ler não é algo natural. Falar, sim. Ler, não. Antes da prensa, virtualmente ninguém lia, porque também não havia livros produzidos em massa. E olhem que não foi por isso que faltou inteligência humana para construir as grandes civilizações que, com o tempo, progrediram ao ponto de permitir que imbecis tivessem acesso a uma máquina de pequenas dimensões com capacidades praticamente ilimitadas de acesso a conhecimento e a usassem, antes, para debitar verborreia na internet.

 


Outra coisa, a língua portuguesa, ou qualquer outra que seja, não vai acabar nem ficar adulterada pelo facto de os seus utilizadores começarem a incluir nela progressivamente mais estrangeirismos. Não existem línguas puras, meus vitorianos disfarçados, a não ser que pretendam voltar ao Proto-Indo-Europeu. E, mesmo essa língua provavelmente resultou de milhares de anos de línguas que apenas existiam na sua forma falada em interação umas com as outras. Portanto, o caso está negro. As palavras são símbolos, meus bebés de berço, e a língua é uma ferramenta para veicular informação. Se, com o tempo, se passasse a escrever oficialmente como faziam os adolescentes há 10 anos atrás nas SMS, não seria preciso soar as cornetas e mandar vir os anjos do apocalipse, meus hipersensivelzinhos. Não, desde que os nossos símbolos ou palavra fossem eficazes para transmitir a informação pretendida, então o mundo não acabaria para ninguém, nem a civilização humana ruiria com toda a sua cultura. 


Agora, particularmente para os meninos e meninas das pós-modernices. Meus amigos, e amigas, o que vocês fazem e apreciam tem um nome…e parece-me que é MERDA. Lamento ofender as vossas requintadas mentes, mas tudo o que resulta do pós-modernismo, e agora vou referir-se particularmente às artes, é lixo. Está provado que a arte antiga é muito mais apreciada pelas pessoas do que a porra de um urinol virado ao contrário ou uma tela em branco com uma descrição. As pessoas gostam da arte que seguia técnicas com critérios bem definidos, da arte feita com rigor e gosto pelo rigor, da arte que pretende representar de forma mais distinta e elevada possível o belo. Por isso, é que sítios como Roma são os mais visitados do mundo. As pessoas gostam de ver os detalhes da arquitetura antiga; as pessoas gostam das lindíssimas pinturas clássicas, do Renascimento, do Iluminismo; as pessoas gostam de escultura clássica; as pessoas gostam de música clássica; as pessoas gostam de ficção que segue determinadas linhas narrativas. Por isso é que tudo isso, mesmo após séculos e milénios, e apreciado pela vasta maioria das pessoas, por isso é que continua a vender e a atrair a atenção das pessoas para galerias, exposições, salas de espetáculos, e assim será, muito provavelmente, enquanto existir ser humano. 


Por isso, meus grandes misantropos, antes de desatarem a passar atestados de incompetência intelectual à populaça, estudem mais um pouco, e talvez ainda consigam chegar à conclusão que, afinal de contas, sempre que decidiam espezinhar o que é popular, o que faltava, na verdade, era mais espelhos em vossa casa.

 

Ricardo Lopes

 

 
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Promenade à Beyrouth, par Claire Fighiera

 

 

 Lettres de Syrie - 2

Promenade à Beyrouth.jpg

 

  

Claire    SOCIEDADE   en français  

 

Comme nous avions toujours entendu parler de Beyrouth comme du “Paris du Moyen-Orient”, capitale de la “Suisse du Moyen-Orient”, on a trouvé à l’arrivée ce à quoi on s’attendait : un endroit cher et occidentalisé. Malgré tout, en tant qu’étrangers nous avons été beaucoup mieux reçus que les étrangers qui arivent à Paris ou en Suisse.

 

Nous nous sommes retrouvés malgré nous dans la zone touristique de Beyrouth, Gemmayzeh, qui ressemble exactement au Beyrouth auquel on s’attendait : des endroits chics, lounge, des hypsters, des prix élevés. Morts de fatigue et de faim on se résigne à rester dans une auberge à contrecœur, le genre d’endroit cool où tout et tout le monde est de bon goût, mais où ça ne sent pas très bon quand on creuse un peu, et où l’on ne se sent vraiment pas à l’aise parce que, par exemple, on nous regarde bizarrement parce qu’on ne consomme pas consommer de cafés à 3,50€.


Cette ville est manifestement une porte sur le monde, un monde des possibles et des impossibles, ça dépend pour qui. Ça parle beaucoup d’argent, de très grosses sommes, en dollars. Ici on peut payer en dollars sans problèmes, et même en euros. Les touristes de Gemmayzeh peuvent passer tout leur séjour à Beyrouth, à Gemmayzeh, et rentrer chez eux en disant que Beyrouth est merveilleux, tellement moderne et cosmopolite.

 

Je dirai que c’est vrai ça l’est, mais j’ai peur que de nombreux touristes de Beyrouth aient trop peur de découvrir la ville par eux-mêmes, au point de payer pour faire ça :

 

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Marcher, oui, c’est ce qu’il faut faire pour découvrir une ville. Mais l’atmosphère n’est pas très détendue pour un marcheur. Il y a des militaires et des check-point militaires partout. Même si, être militaire au Liban ça n’est pas la même chose que l’être en France ou au Portugal, et les militaires libanais sont contents quand on les salue et nous sourient chaleureusement, et nous disent « welcome to Lebanon », comme tous les libanais qu’on rencontre.

 

Ça n’est pas du tourisme morbide que nous avons cherché à faire, comme partout on a marché, et quand on marche dans Beyrouth on ne peut s’empêcher de penser que c’est une ville meurtrie. Dès la sortie de Gemmayzeh il est facile de trouver des immeubles avec des traces de tirs, beaucoup d’entre eux. Un très grand nombre de logements sont inoccupés, constatation frustrante au possible quand on sait que le Liban accueille 2 millions de réfugiés syriens, que leur arrivée a fait considérablement grimper les prix à Beyrouth, et que nombre d’entre eux ne peuvent pas se loger. Le downtown, centre géographique et commercial, a des allures post-apocalyptiques. Il est fermé aux voitures (au moment où on y est allés) et il s’y trouvent autant de militaires que de piétons, ce qui fait qu’on croit chaque rue fermée au public, mais non, on peut se rendre dans ces artères bordées de vitrines de magasins fermés contenant des restes de marchandises exposées, comme si leurs propriétaires étaient partis brusquement. On n’a pas envie de s’éterniser dans cette atmosphère glauque et lorsqu’on en sort on tombe sur le palais présidentiel, que l’on a déjà vu tant de fois apparaître en fond dans l’émission de géopolitique Cross Talk sur RT, lorsqu’un intervenant s’exprime de Beyrouth. Mais lorsqu’on veut prendre une photo de l’édifice un militaire nous fait signe que non. Juste à côté se trouve …… , mais on ne s’essaiera pas de le prendre en photo, bien-sûr . On ne visitera pas non plus le cimetière druze que nous avons vu sur la carte, puisque le militaire à l’entrée nous fait signe que « ça ne va pas être possible ». La partie « normale » de la ville que nous visitons, c’est-à dire après le centre touristique et la zone ultra-militarisée en direction de l’ouest est assez agréable, on y retrouve le Moyen-Orient qu’on aime, des produits qu’on connaît de Turquie, Syrie, Iran, des boutiques familières, des gens simples et accueillants, et, bien-sûr, pas un seul touriste.

 

Nous nous rendons au « rocher » (à prononcer avec l’accent arabe), quartiers chics au bord de la mer, bordés par de majestueux rochers dans l’eau. Si l’on reste à l’une des nombreuses terrasses qui bordent la falaise, on peut jouir de la vue et apprécier l’un des spots les plus prisés de la ville. Mais si l’on s’approche du bord on peut voir que le rocher si convoité est entouré d’ordure, en bas de la corniche qui jouxte les falaises, et que les gens n’ont aucun scrupule à jeter des détritus en tout genre qui resteront flotter en bas de ce panorama idyllique.

 

Non loin du Rocher se trouve la plage, vision de paradis pour nous qui avons marché tout l’après-midi et qui sommes sales, collants et morts de chauds. Nous nous y rendons, il y a déjà des gens qui y sont s’y baignent, fument le narguilé, boivent du thé. Côte à côte on peut voir une femme entièrement voilée se baigner et une autre en maillot de bain. A croire qu’il n’y a qu’en Europe que ça pose des problèmes ! L’heure est parfaite, la lumière du soleil couchant se répand sur l’eau et la fait briller d’une lumière métallique.  A l’approche de l’eau on ne peut pas en croire nos narines : la mer sent littéralement les égouts ! On s’est déjà baignés dans des endroits douteux mais là, la mer, une plage entière on n’a jamais vu ça. On abandonne l’idée d’aller au bain, oui, Beyrouth a des problèmes d’eau courante, et là on dirait que les égouts se déversent littéralement dans la mer!

 

Notre séjour à Beyrouth s’est nettement amélioré lorsqu’on a changé de logement pour aller à Al-Nazzih, un vrai hôtel, avec de vrai gens et aussi de vrais clients, comme Julia qui, avec son association Contaminando Sorrisas, une association qui pratique les arts du cirque avec les enfants, revenait d’une école qui donne des cours à des réfugiés syriens, qui a bien besoin de professeurs. Julia allait nous accompagner dans notre excursion à Shatila (voire article 1), et surtout, nous donner le contact de Vittorio, d’une ONG qui s’occupe de l’école Malaak. Flor a suivi Julia d’un jour, arrivée dans la même pension elle revenait aussi de l’école Malaak. Comme elle est mexicaine,  photographe et journaliste, on a des informations très intéressantes à partager. On parle de l’enfer que vivent les mexicains au quotidien avec la violence qui y règne dans un contexte de guerre des cartels de drogue mais dont on ne parle pas ou peu. Là-bas la vie ou la mort est une question de chance et il n’est pas si rare de recevoir une balle perdue pendant son sommeil, comme cela a failli lui arriver. Elle nous apprend aussi, entre autre, que lorsque qu’un ressortissant mexicain prend un vol pour un autre pays et doit survoler l’espace aérien américain il doit obtenir un visa pour les Etats-Unis OU fournir le mot de passe de son compte facebook aux autorités américaines (non, ça n’est pas une blague), et lorsque l’avion survol ce beau pays, les passagers ont pour consigne de baisser les stores… intéressant ! Flor nous raconte aussi son expérience à l’école et nous confirme qu’ils ont besoin de volontaires. Nous appelons le contact que les filles nous ont donné, il est très enthousiaste à l’idée de notre venue car il n’y a plus aucun volontaire à l’école pour le moment. Nous nous y rendrons le surlendemain.

 

Claire Fighiera, 30.08.2017, Minyara, Liban

 

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A Beyrouth il y a des libanais, mais pas seulement, par Claire Fighiera

 

 

 Lettres de Syrie - 1

A Beyrouth il y a des libanais, mais pas seulement

   

Claire  POLITICA  SOCIEDADE   en français  

 

Premier récit de notre voyage au Liban, qui sans être un manque d’intérêt pour le Liban et ses habitants, nous permet d’aller à la rencontre des syriens et de leur histoire…

 

A Beyrouth il y a des arméniens

A notre arrivées à Beyrouth, nous nous sommes retrouvés tout d’abord à Bourj Hammour, là un habitant nous affiche la couleur: il s’extasie en voyant les drapeaux sur le sac de Luís, et surtout le drapeau arménien et nous demande une photo. Puis des morceaux d’Arménie défile sous nos yeux : nous marchons rue d’Arménie, les graffitis et flyers collés au mur sont écrits en arménien, des drapeaux arméniens, des églises arméniennes, dans des boutiques de jus de fruits on peut voir des icônes de l’église arménienne, des photos du mont Ararat, des miniatures de tapis arméniens, etc. J’apprendrai plus tard sur internet que les libanais arméniens représentent 4% de la population et qu’ils ont même 5 sièges assurés au Parlement libanais sur 128 sièges.

 

A Beyrouth il y a des Palestiniens

On accède au camp de réfugiés palestinien de Shatila  après un checkpoint de l’armée libanaise (l’un des nombreux de la ville), où des soldats nous arrêtent gentiment, plus par curiosité que pour  un vrai contrôle. Construit en 1949 pour accueillir 3000 personnes, le recensement très difficile à effectuer dénombrerait aujourd’hui 22500 personnes, palestiniens, libanais pauvres, réfugiés syriens et autres. Julia, l’espagnole qui nous accompagne ce jour-là, a été logée chez des gens du quartier et nous raconte qu’il y a de gros problèmes d’approvisionnement et d’assainissement de l’eau, autant dire que les gens se lavent avec de l’eau des égouts très mal traitée, entre autres problèmes. Le marché couvre une grande zone du quartier, c’est très mouvementé, avec une grande concentration de gens, on étouffe. On essaie toujours de se mettre à la place des gens quand on essaie de comprendre les choses, je m’imagine devoir venir habiter ici du jour au lendemain et je comprends mieux pourquoi les gens ont l’air dur. Shatila n’est clairement pas soutenu par la municipalité et le travail d’amélioration est laissé aux ONG, on ne cesse d’être écœurés quand on voit la richesse qui règne dans cette ville. Et, oui, il doit y avoir beaucoup de commerce illégal et autre, quand on n’a pas le minimum vital dans une des plus grandes villes du Moyen-Orient, sans se cautionner ça se comprend. J’ai appris plus tard avec effroi que c’est là que s’est déroulé le massacre de palestiniens et de chiites libanais organisé par l’armée israélienne en 1982 pour  y supprimer des présumés combattants palestiniens. L’arrivée des syriens, bien-sûr, n’a rien arrangé aux problèmes de surpopulation du camp. A la fin de la rue du marché Luís se dirige vers un vendeur qui vend des maillots de foot, la plus grande partie des maillots est du Barça ou de Real Madrid. Quand Luís choisit un maillot avec un drapeau syrien on peut lire l’effarement  sur le visage du vendeur. Il nous gratifie d’un beau sourire et d’une photo:

 

Nous continuons notre marche pour aller voir une fresque que nous avions aperçue en voiture :

 

A Beyrouth il y a des éthiopiens

En marchant dans la ville on ne peut pas ne pas remarquer qu’il y a beaucoup de gens venus d’Afrique. A la pension où nous dormons il y a une employée noire, parlant parfaitement l’arabe, et qui discute avec le patron, l’autre employé et les clients comme si elle était de leur famille. Elle est éthiopienne, nous imaginons donc qu’il doit y avoir beaucoup d’autres immigrés au Liban, à d’autres visages croisés dans la rue nous supposons qu’il y a aussi beaucoup de soudanais, ainsi que d’autres communautés africaines.


Une autre chose que l’on ne peut s’empêcher de voir est la manière dont les libanais et africains vivent bien ensemble : à de nombreuses reprises on a pu voir un libanais et un/e africain/e assis ensemble à discuter, faire un jogging, ou même mariés, comme l’est notre adorable employée d’Al-Nazzih.

 

A Beyrouth il y a des syriens

A l’aéroport de Tunis, d’où nous avons pris le vol pour Beyrouth, tout le monde a remarqué la magnifique jeune fille blonde et à la robe très courte dans la file d’attente pour embarquer. Le hasard l’a placée à côté de nous dans l’avion, et je pense que personne parmi nos connaissances n’aurait pu deviner qu’elle était originaire… de Syrie. Myriam, c’est son nom, est une réfugiées bien différente de ceux qui vivent à Shatila, puisqu’elle faisait le trajet du Canada jusqu’à Beyrouth pour rendre visite à ses amis d’Alep, d’où elle est originaire. Ce qui montre que le terme « réfugié » peut englober une incroyable diversité de personnes. Myriam est sans aucun doute issue d’une famille aisée, et il n’y a pas l’ombre d’une hésitation lors de notre discussion sur « de quel côté » elle se trouve. Bien-sûr elle trouve aberrante la propagande médiatique qui a lieu contre son pays et son président, et, bien-sûr, soutenir Bashar al Assad et l’armée syrienne, c’est soutenir la Syrie entière, et la paix.


Quelques jours après être entrés à la pension on découvre que l’autre employé qui y travaille est…arménien… de Syrie. George est un exemple de ce que nous avons du mal à concevoir en France : issu d’une famille arménienne, il parle arménien, et la culture arménienne est la sienne, mais il est syrien. Il est heureux de constater qu’on aime son pays et, pour lui non plus il n’y a aucune ambigüité sur le « côté » duquel il se trouve Bien-sûr que la Syrie est souveraine et qu’elle doit être libérée de l’invasion étrangère.


Nous avons rencontré d’autres syriens pendant ces jours passés à Beyrouth, et que pouvions-nous échanger d’autre qu’un sourire, quand nous leur avons dit que nous avions déjà visité leur pays, et qu’il est beau.

 

A Beyrouth il y a des turcs

Dans une rue authentique pleine de boutiques d’artisanat où ne passe aucun touriste, un vieux monsieur faisait du café dans une toute petite roulotte improvisée en café-mobile. Nous commandons un café et l’homme nous demande si nous voulons du café turc ce qui est plutôt étrange puisque les libanais appellent café libanais ce que nous appelons café turc. Nous commandons donc des cafés turcs, et comme je demande au monsieur d’où il vient, il me dit qu’il est turc. Une joyeuse conversation commence en turc, mal parlé pour ma part, mais assez intelligible pour avoir un sympathique échange. Je me demande vraiment ce qu’un monsieur de Turquie, où la qualité de vie est bien plus élevée qu’ici, fait dans ce quartier pauvre de Beyrouth, mais il me manque beaucoup trop de vocabulaire pour le faire. Alors on lui dit au revoir, et bien-sûr, il nous offre des cafés.

 

A Beyrouth il y a des Libanais

On appelle Beyrouth le « Paris du Moyen-Orient », capitale de la « Suisse du Moyen-Orient ».


D’abord il faut dire que le traitement des étrangers ici est bien différent de celui de Paris ou de Bern : à l’aéroport, nid de vautours guettant tous les paumés comme nous n’ayant aucune idée de comment se rendre au centre-ville, prêts à se jeter sur leur portefeuille,  nous avons rencontré 3 jeunes libanais qui ont à peine réfléchi avant de nous proposer de nous emmener au centre avec leur voiture.


Nous sommes surpris de la quantité de gens qui parle anglais, des chauffeurs de «service» (voiture privées aux plaques d’immatriculation rouges faisant office de taxi collectifs), au commerçant d’épiceries en tout genre. Encore une preuve que les petits pays sont plus doués que les grands pour les langues, sans parler des millions de libanais disséminés à travers le monde. Au Liban il y a des libanais, mais moins qu’en dehors du Liban ! La diaspora de ce petit pays d’environ 4 millions de libanais s’estime, au minimum, à une douzaine de millions à l’étranger, sur tous les continents. On comprend mieux leur habilité à parler plusieurs langues.


Parmi ceux qui vivent entre le Liban et ailleurs, nous nous sommes fait plusieurs amis dont un épicier qui a vécu la plus grande partie de sa vie au Brésil. Quel plaisir d’aller lui rendre visite et de prendre les cafés qu’il nous offre dans son magasin, et d’entendre des histoires drôles et sulfureuses comme les raconterait un brésilien, et des anecdotes de chocs culturels vécus par des libanais au Brésil et vice-versa. On a pu le voir échanger des blagues salaces avec une cliente libanaise habituées qu’il nous traduisait en direct, ce qui était vraiment intéressant car on n’aurait jamais imaginé  qu’en tel échange était en train de se passer sous nos yeux et nos oreilles!


Un autre ami qu’on s’est fait à Beyrouth est le patron de la pension Al-Nazzih, la merveilleuse pension où nous avons logé. Mikhaïl le patron, vit entre le Liban et le Canada. Il aime les deux et en même temps ne les aime pas, pour différentes raisons. Ses nombreuses qualités de générosité, d’empathie, d’intelligence sociale et d’analyse font qu’on peut avoir les discussions les plus intéressantes avec lui, sur tous les sujets possibles. Il est encore une preuve qu’on peut comprendre ce qui se passe dans le monde, notamment au sujet de la Syrie, d’une manière rationnelle, sans lire énormément les informations, mais en utilisant son esprit critique.

 

Une autre magnifique rencontre s’est produite grâce à Fairuz, en passant devant une camionnette avec le visage de Fairuz peint dessus. Cette camionnette s’est avérée être un café mobile et une caverne aux merveilles.

 

Le propriétaire de ce café, en voyant notre enthousiasme pour la mythique chanteuse libanaise, nous offre de luxe d’écouter Fairuz, en prenant un café au café Fairuz, au Liban, et pas seulement. Il nous offre des cartes de Fairuz, et fait des allers retours au  camion pour nous montrer des trésors, les uns après les autres. D’abord un énorme pot en verre rempli de pièces du monde entier, dans lequel il nous invite à prendre tout ce qu’on veut, des timbres anciens, des billets de banque, et surtout un très important : un billet de Cuba, le seul pays où il ait envie de voyager. Pourquoi ? Pour son amour inconditionnel pour Che Guevara, c’est lui-même qui place le Che juste en dessous de Dieu, et au-dessus de toute sa famille, héhé ! Et c’est peu dire qu’il l’a dans la peau, puisqu’il a « Che » tatoué à l’intérieur de la lèvre inférieure, et un portrait de lui gravé sur l’épaule. Mais le plus beau cadeau restait à venir. Quand Ahmad nous a demandé si nous voulions voir le vieux Beyrouth, nous étions loin d’imaginer que, là, juste à côté de la rue du camion, sur ce que nous imaginions être un site de travaux, se trouve un énorme site de ruines phéniciennes ! Et voilà, c’était là, sous nos yeux, le « vieux Beyrouth » de plus de 2000 ans, et on n’a eu qu’à se baisser pour recueillir des morceaux de vases anciens éparpillés par terre!

 

A Beyrouth il y a sûrement des gens venus de bien d’autres pays, et, on l’aura compris, il est toujours intéressant de demander aux gens d’où ils viennent.

 

Claire Fighiera, 12.08.2017, Minyara, Liban

 

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Visita à embaixada da Síria em Beirute, por Luís Garcia

 

 

 Cartas da Síria - 2

Visita à embaixada da Síria em Beirute

 

Luís Garcia  POLITICA  SOCIEDADE 

 

Ah, no artigo anterior esqueci-me de mencionar a nova amizade com um divertidíssimo libanês do Brasil que nos oferece cafés na sua lojinha e com quem temos tido alucinantes conversas para desanuviar um pouco! Fica aqui a emenda. 

 

07-08-2017

Depois de por fim termos dormido umas horas decentes de sono desde que partiramos de Portugal, tomámos o pequeno-almoço no ninho de new-agers (Meshmosh Hostel) e partimos rumo à embaixada da Síria em Damascos, que se encontra a quase 10km de distância de Beirute Central. Apesar do imenso controlo militar e dos vários checkpoints e revistas necessárias passar antes de alcançar o edifício da embaixada, a visita é fácil de realizar, bem fácil diria até. Ao contrário das filas intermináveis de refugiados sírios esperando para tratar de papelada, na rua, sob um calor intenso pois dentro da embaixada não cabem todos ao mesmo tempo, nós fomos gentilmente convidados a avançar até ao último controlo e entrar. Não porque haja tratamento desigual, mas apenas porque não viemos para o mesmo e estrangeiros na embaixada síria é uma raridade. Já dentro do edifício e em processo de revista às malas e roupa, começaram os inconfundíveis sorrisos sírios de simpatia e acolhimento... "welcome my friend, welcome". Por isso tenho afirmado estes últimos dias que, apesar de muito apreciar a simpatia libanesa, na embaixada síria sentia-me deveras em casa!

 

Finda a visita, voltamos ao centro no táxi de um jovem muito simpático que além de ter nos feito um verdadeiro desconto, cantou-nos com a sua bela voz canções árabes. Como por aqui faz mesmo muito calor, ficamos uma boa parte da tarde em casa, antes de partirmos finalmente à descoberta de Beirute. 

 

Álbum 2

02 - Beirut 1

 

Beirute é uma cidade apertada entre mar e montes, antiga, com demasiada gente e sem espaço por onde construir mais. Portanto, cada milímetro está tomado, mesmo que seja por casas abandonadas que tanto jeito dariam aos 2 milhões de refugiados sírios. E quando se vê uma nova construção, é porque primeiro houve uma demolição. Incrível. 

 

Depois não é só a falta de espaço. Acumulação de lixo, má organização, resquícios das agressões israelitas, controlos militares em todo o lado, zonas de acesso interdito que obrigam a enormes desvios, trânsito infernal, muito calor e ar húmido e muito poluído. Ainda assim, não há como nos convencer a voltar para trás quando decidimos ir dar umas voltas de máquina na mão. O nosso plano era bastante simples, ir da pousada até à costa oeste de Beirute, desse por onde desse, e assim fizemos. Pena que, uma vez chegado à costa, numa bela praia ainda antes do pôr-do-sol, não tenhamos tomado um banho no Mediterrâneo para refrescar. Bem que apetecia, e nós somos suficientemente malucos para tomar um banho em água relativamente poluída assim uma vez por acaso, mas naquela praia, uí, nem pensar. A ETAR junto à minha casa em Portugal cheira bem melhor,  não exagero! Enfim, há problemas bem mais graves que este em Beirute, e realidades mais chocantes, como a quantidade de Porches e Ferraris num país com milhões de refugiados sírios e palestinianos tentando apenas sobreviver dia após dia...

 

Luís Garcia, 12.08.2017, Minyara, Líbano

 

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A caminho do Líbano, por Luís Garcia

 

 Cartas da Síria - 1

Cartas da Síria 1 - a caminho do Líbano

 

Luís Garcia  POLITICA  SOCIEDADE 

 

Porquê "cartas da síria" para quem se desloca para o Líbano e não para a Síria? Simples, porque, apesar desse facto, a nossa estadia no Líbano tem muito mais a ver com a Síria do que com o Líbano, como bem poderá descobrir nos próximos episódios...

 

05/06-08-2017

Era suposto partir para o Líbano no fim do mês, e aproveitar uns belos dias de sol na praia que pareciam por fim aparecer lá pela minha Ribamar, mas não, súbita mudança de planos, voo comprado no lastminute e, quando demos por ela, estávamos deitados no chão do aeroporto de Cartago na Tunísia esperando por um voo até ao Líbano.

 

Claro que antes tivemos de fazer as malas e apanhar um voo de Lisboa para a Tunísia. Como a prioridade sempre vai para o mais barato, esse mais barato por norma vem acompanhado com as escalas mais chatas. Chegámos à noite em Tunes mas o voo seguinte, Tunes-Beirute, estava marcado para as 7h30 da manhã. Pensámos na ideia de ficar na zona de trânsito do aeroporto de Cartago em Tunes mas, após breve inspecção àquela mini-realidade paralela tirada de um episódio de Twilight Zone, não hesitámos em preencher o papel da emigração, passar o controlo de fronteira e ir para fora mais ou menos disfrutar umas horitas na Tunísia. E assim fizemos, viemos até a rua e bebemos uns cafés até que por fim, rendemo-nos ao cansaço e abancámos os sacos-cama no chão do aeroporto onde semi-dormimos umas horinhas até à hora do voo seguinte.

 

 Álbum 1

01 - Tunis

 

Como os lugares dentro do avião estavam distribuídos em filas de 3 e nós éramos 2, sabíamos que por certo teríamos companhia de alguém. Só não me tinha passado pela cabeça que essa companhia fosse a bela jovem árabe de vestido bem curto que tinha feito um mega-sucesso aos olhos de todos os homens da sala de espera junto à porta de embarque. Metemos conversa, crendo que a miúda fosse libanesa, pois queríamos recolher umas informações valiosas acerca de preços e pousadas e tal. Mas não, não era libanesa. Era síria, sim, Síria! Uma síria de classe alta com estatuto de refugiada vivendo no Canadá, de onde partira horas antes a caminho do Líbano para se poder encontrar com alguns dos seus amigos que nesse momento estavam a viajar de carro da Síria até ao Líbano! Acredite quem quiser, apesar de por norma os leitores deste blog serem pessoas informadas com que buscam deveras por informação, pois sim, sem espanto, a miúda síria defendia Assad e o governo de Assad, os únicos com legitimidade para defender a soberania desse estado tão agredido pelo ocidente. Não tendo sequer necessidade de averiguar "de que lado estaria", passámos directamente para a conversa sobre o conflito sírio. Muito interessante a conversa, apesar de, pelos vistos, estármos bem mais informados que ela acerca dos detalhes do conflito. E claro, ficou encantada ao descobrir que, anos antes, quer eu quer a Claire, termos viajado pelo seu país e inclusive pela sua terra natal, a eterna Aleppo!

 

Graças a Myriam, a tal miúda síria, chegámos ao aeroporto já com um plano de como sair dele e onde encontrar alojamento o mais barato possível. Tínhamos combinado ir juntos do aeroporto para o centro da cidade juntos, partilhando transporte, assim como usufruir da sua vontade de ajudárnos a encontrar e negociar um preço de pousada mas, com muito azar, apanhámos com um troglodita no controlo de passaportes que nos criou inúmeras complicações desnecessárias que nos levaram a perder imenso tempo. E claro, quando por fim passámos o controlo e recolhemos as malas, Myriam já tinha partido. Que frustração.

 

Para compensar a perda, enquanto procurávamos por transporte barato (ou melhor, menos caro), para nos deslocarmos do aeroporto ao centro, metemos conversa com um casal de libaneses e um amigo seu também libanês que esperava a chegada da sua namorada alemã. Gentilmente, convidaram-nos a esperar pela chegada da alemã, pois em seguida levar-nos-iam de graça até Bourj Hamoud, a zona de Beirute que Myriam nos tinha aconselhado.

 

No bairro de Bourj Hamoud, sobre intenso calor, cheios de fome, cansado e cheios de sono, fomos descobrir que naquele dia, Domingo, estava tudo fechado e que não se avistava nada com aspecto de pousada ou hotel. Apenas dava para perceber que estávamos num bairro arménio, tamanha era a quantidade de referências a esse país: bandeiras, associações, igrejas, monumentos, inscrições em arménio, fotografias de Ararat, nomes tipicamente arménios etc. Como onde há tantas referências arménias, terá necessariamente de haver arménios, um simpático senhor com família de origem nesse nosso querido país, veio perguntar-nos em bom inglês se precisávamos de ajuda. A resposta era óbvia, e a ajuda foi boa. 

 

Metemo-nos ao caminho, seguindo as coordenadas do senhor e, após paragem num bar arménio para uns refrescantes sumos de limão, uma paragem para reparar uma asa da mala de Claire que se partira entretanto, e de vários quilómetros caminhados, por fim demos com a zona que nos indicara e, inclusive, com a pousada de que nos tinha falado. Pena que já só tinham lugares de dormitórios para mulheres nesta pousada. Não desesperámos, pedimos ajuda ao simpático funcionário da pousada que nos aconselhou uma outra não muito longe mas bem mais cara. Ora, precisamente por serem muito caros os preços nos sites de booking online, dias antes havíamos abandonado a ideia de reservar pousadas caras e tentar encontrar outras mais baratas in loco. Quase noite e desfalecendo, optámos por ficar nessa pousada cara, carinha, apesar da má impressão de superficialidade americanizada aparvalhada à la new-ager. Sim, estávamos certos sobre a tal superficialidade americanizada aparvalhada, e era bem pior do que imagináramos, mas bom, essa uma outra história que fica para o próximo episódio.

 

Ah, antes de acabar. à noite, quando abri a minha conta facebook e procurei pela conta de Myriam, para meu espanto (ou não), descobri que tínhamos um amigo facebook em comum. Um sírio refugiado no Chipre. Quis-lhe contar a alucinante mas, apesar de pasmado com a coincidência, claro, já sabia que Myriam (a sua melhor amiga de acordo com ele) se encontrava a caminho de Beirute onde iria se encontrar com amigos que têm em comum, pois claro! 

 

Luís Garcia, 10.08.2017, Beirute, Líbano

 

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Meias-verdades e deturpações ao serviço da mentira manipuladora, por Luís Garcia

 

 

Desespero Mediático 22

DESESPERO MEDIÁTICO - venezuela.jpg

 

Luís Garcia  POLITICA   

 

 

Em modos de introdução

Tinha prometido, na última vez que escrevi um artigo sobre a Venezuela por estas paragens, que tão depressa não escreveria nada mais, dada a infinita clareza da questão, corroborada com milhares de vídeos, fotografias, depoimentos, documentação legal e literatura séria sobre o tema. A Venezuela sofre desde 2001, mas sobretudo desde 2013, uma muito agressiva e vergonhosa agressão gringa a vários níveis, sobretudo na sabotagem económica e no apoio e financiamento de terrorismo. Não há espaço neste artigo para viajar no tempo até, por exemplo, o golpe de estado em 2002 organizado pela oligarquia de tiques vassalo-coloniais do Império da Guerra (aka EUA). Nem do golpe nem de inúmeros temas de enorme relevância para a compreensão do bullying imperial de que é vítima a Venezuela. Se estiver interessado em perceber os antecedentes históricos desta infinita agressão, pegue caro leitor no artigo da hiperligação abaixo no qual encontrará ligações para (quase) tudo o que precisa de saber e ruminar antes de poder formar uma opinião objectiva e válida sobre as acções e reacções que ocorrem na Venezuela desde o início do muito positivo período Chávez-Maduro.

 

Ainda assim, perante a descida infinita dos média nacionais a esse poço sem fundo de mentira, engano, manipulação, deturpação, má fé, cinismo e falta de escrúpulos que levam a maioria alienada (da complexa realidade do conflito Venezuela vs capitalismo bélico) a acreditar ser verdade o preciso contrário daquilo que de facto é verdade, perante a infinita frustração de me deparar com este pesadelo de distopia orwelliana que já ultrapassou e muito todas as características que faziam 1984 parecer uma longínqua e futurista maldição, não dá para ficar quieto a observar. É de um profundo mau gosto o serviço que TODOS os média portugueses de alcance nacional realizam no intuito de nos fazer crer que a democracia é ditadura, que votar é negativo, que matar pessoas a tiro é um acto de protesto pacífico, que criminosos detidos por matar ou mandar mandar seres humanos são prisioneiros políticos, etc e por aí fora que até me vêm os ácidos do estômago à goela!

 

Descubra as diferenças

  

O desespero mediático do dia - Expresso

Andava entre o "escrevo ou não escrevo um artigo sobre as eleições de Domingo passado na Venezuela até que, após vários lixos jornalistas portugueses lidos, dei de caras com este supra-lixo Porque é surrealista a votação deste domingo na Venezuela e decidi-me pelo "escrevo". Antes de o desmontar ponto por ponto, proponho ao leitor que o leia na íntegra:

 

"Oposição afastada, pressões sobre funcionários e pensionistas e possibilidade de se votar duas vezes. Eis o retrato das eleições para a Assembleia Constituinte venezuelana que decorreu este domingo, marcada por incidentes nas ruas que, para já, causaram nove mortos

Há algo de realismo mágico nestas eleições venezuelanas que um Garcia Marquez não teria desdenhado como tema. De facto, na votação para a Assembleia Constituinte, convocada para este domingo pelo presidente Nicolás Maduro, só há uma possibilidade de escolha, já que a oposição se recusou a participar. A votação é electrónica mas as máquinas não estão programadas para aceitar o voto branco. E cada eleitor pode, em plena legalidade, votar duas vezes…

Esta votação peculiar serve, para além de reforçar os poderes de Maduro, que perdeu as eleições legislativas de Dezembro de 2015, também para medir forças com a oposição que, a 16 de Julho e com a cobertura da Assembleia Nacional, promoveu um referendo à margem do chavismo no qual votaram 7,1 milhões de pessoas (comparáveis à votação nas eleições legislativas de 2015: 7,7 milhões para a oposição e 5,7 para o chavismo).

Embora realizado em condições precárias, o referendo oposicionista teve uma participação que inevitavelmente será comparada com a deste domingo. A 17 de Julho, a oposição, além de instalar mesas de voto em toda a Venezuela, mesmo em regiões de maioria chavista, alargou a votação à diáspora venezuelana promovendo-a em 559 cidades de 101 países, incluindo as principais capitais da Europa e de toda a América Latina, mas também em Maputo (Moçambique), Durban (África do Sul) e Arequipa (Peru).

EM BUSCA DO PODER PERDIDO
Maduro, que está em minoria na Assembleia Nacional, quer substituí-la por uma Assembleia Constituinte com poderes para rever, não só a lei fundamental (datada de 1999 ainda do tempo de Hugo Chavez), como o funcionamento de todas as instituições e da economia do país. “Será o grande poder de que precisamos para meter a Venezuela na ordem. Precisamos de um poder acima dos que sabotam o desenvolvimento do país” e esse voto, garantiu o presidente, “será directo, universal e secreto”. Sê-lo-á?

PARTIDOS NÃO ENTRAM… SE FOREM DA OPOSIÇÃO
A nova assembleia eleita este domingo tem 545 membros que deverão tomar posse a 2 de Agosto, substituindo os deputados eleitos nas legislativas de Dezembro de 2015. A duração do seu mandato não está definida. Só 6 120 dos 50 000 candidatos foram aceites, isto porque as regras fixadas por Maduro e aplicadas pela comissão eleitoral proibiram candidatos ligados a partidos. No entanto não faltam elementos do PSUV (partido do poder) desde o deputado Diosdado a Adan Chavez, irmão do falecido Hugo Chavez.

UMA ESTRANHA FORMA DE ELEIÇÃO
Dos referidos 545 elementos, 364 representam os municípios, à razão de um eleito por cada, excepto nas capitais dos estados federados que elegem dois, independentemente da sua população. 173 representam as “organizações sociais” (trabalhadores, estudantes, reformados, deficientes, chefes de empresa, etc) e oito as comunidades indígenas. Neste sistema, decalcado do corporativismo, cada eleitor pode votar duas vezes: uma no seu círculo eleitoral (município) e outra pela corporação a que pertence…

O voto será electrónico mas as máquinas não estão programadas para lidar com o voto branco. E junto às mesas de voto, representantes das ditas corporações anotam quem foi e não foi votar, o que pode implicar retaliações sobre funcionários públicos, pessoas dependentes da distribuição de ajudas alimentares estatais, etc.

OPOSIÇÃO BOICOTA ELEIÇÕES
Perante tudo isto a oposição diz não estarem reunidas condições mínimas de democraticidade e apelou ao boicote, marcado por incidentes que fizeram nove mortos. E lembra que a convocação de eleições constituintes – que estas objectivamente são – teria que ter sido precedida por um referendo, coisa que não foi. De resto, nem as eleições para governadores de estado previstas para o ano passado, nem as eleições municipais deste ano se realizaram, entre outras coisas porque o governo sabe que se tornou minoritário no eleitorado nacional. Se puder, Maduro também tentará adiar as eleições presidenciais previstas para o ano que vem…" 

RUI CARDOSO, Expresso, 30.07.2017 às 22h20

Líde

Comecemos a desmontagem pelo início, pelo lide do artigo. Não, a oposição não foi afastada, a oposição afastou-se ou, para ser mais preciso, auto-excluiu-se de uma eleição democrática conforme a constituição do país porque, como sempre, e por temer a derrota nas urnas, prefere o apelo ilegal à violência em detrimento de actos eleitorais. Boatos de pressões sobre funcionários, como são acusações extraordinárias, requerem provas extraordinárias. Como as provas sobre as supostas pressões por enquanto resumem-se a zero, não há ponta por onde pegar. Quanto a votar 2 vezes, sim em forma de meia-verdade manipuladora, mas já lá vamos. Incidentes na rua, sim da criminosa oposição, e não, não são incidentes, pois atentados à bomba e polícias e cidadãos pró-governo mortos a tiro não são incidentes, são actos de terrorismo ou crimes de enorme gravidade. Matar candidatos é crime, queimar casas de candidatos é crime, queimar salas e equipamento de voto é crime, sabotar eleições é crime. Agora, "incidentes", a sério? Terá noção da gravidade daquilo que profere este jornalista? Mas também já lá vamos. 

 

1º parágrafo

Dispensava-se as bacocas e parvas alusões a realismo mágico de um Garcia Márquez ("Márquez" com acento no "á" e não "Marquez" como escreveu o autor que não faz verificação de factos) que sem dúvida teria dito o preciso contrário do que foi dito neste artigo do Expresso, mas enfim, respeitemos a liberdade de expressão do senhor, deixemo-lo babosar. Agora dizer que só havia uma opção de votação é pura e simplesmente mentira. Aliás, a prova de que mente descaradamente vem pouco abaixo no mesmo texto quando o jornalista diz que havia 6120 candidatos para 545 lugares, ou seja, não 1 mas sim uma média de 11,2 "possibilidades de escolha". E depois, aí está, mais auto-desmentidos. Se o jornalista diz que a "oposição se recusou a participar", então, por seguimento lógico, conclui-se que, mesmo que só houvesse um "possibilidade de escolha", tal escassez dever-se-ia à auto-exclusão da oposição a que se referia e não ao suposto carácter "ditatorial" do governo.

 

Agora começa a aquecer. "Cada eleitor pode, em plena legalidade, votar duas vezes". Sim podia, mas há que tomar atenção às maquiavélicas reticências de quem de forma mal intencionada lá as colocou no lugar onde deveria vir o esclarecimento desta meia-verdade que induz propositadamente o leitor ao erro e, quiçá, comentar "epá, que pouca vergonha, então aquele bandido do Maduro afinal é mesmo uma porra de um ditador que deixa os seus apoiantes fazem o que querem". E já está, resultado atingido. Mas não, tudo isto é um perfeito e facilmente desmontável disparate. Sim, podia se votar 2 vezes, mas não no mesmo candidato, fundamental informação intencionalmente omitida. Podia-se sim, votar zero vezes (bastava ficar em casa quieto), uma vez no seu candidato preferido do seu município, uma vez no seu candidato preferido da sua categoria social (pensionista, estudante, etc) ou votar para os 2, pois sim, cada cidadão pode escolher 2 representantes para a assembleia constituinte. E? Eu quando voto para as eleições legislativas em Portugal não voto num só candidato mas sim em vários cuja quantidade depende do peso demográfico do distrito onde estou registado. E depois? Vota-se em 2 representantes mas, claro, votando uma só vez em cada candidato. Onde está o espanto? Quanto ao conteúdo deste primeiro parágrafo, mais não é que meia-verdade e deturpação grosseira ao serviço da mentira, do engano e da manipulação, para que o leitor final compreenda o contrário daquilo que de facto se passou!

 

2º parágrafo

Dizer que a "votação peculiar" reforça os poderes de alguém é um perfeito disparate além de um fútil exercício de futurologia de eventos altamente improváveis. A votação na eleição constituinte serve para escolher de forma democrática, e de acordo com a legítima constituição venezuelana, os representantes (do povo venezuelano) que os representarão (aí está, pois não dá para discutir nada a 32 milhões de vozes e que daí mesmo em Portugal o sistema político seja apelidado de "representativo") para o processo de revisão constitucional que levará meses a discutir. Após a discussão e a criação de um projecto de nova constituição, esta ainda terá de ser aprovada com maioria qualificada num referendo popular, ao contrário do muito menos democrático processo de revisão constitucional português. Portanto, poderá um candidato pró-Maduro propor uma alteração da constituição que possibilite a permanência de Maduro na presidência até à sua morte? Sim, pode, mas muito provavelmente nem passará sequer na primeira de muitas fases de discussão. Depois, mesmo que passe todas e entre no projecto final de nova constituição, esta ainda tem de ser aprovada em referendo como ainda agora dizia. Mais, relembremos que em Dezembro 2007 a proposta de revisão constitucional apoiada por Chávez propunha o fim do limite de 2 mandatos presidenciais por pessoa, alteração que permitiria Chávez candidatar-se as vezes que quisesse (candidatar-te e submeter-se ao voto democrático, não confundir com balelas de ditadura por decreto) à presidência da República. E o que aconteceu? A proposta foi recusada em referendo e Chávez respeitou, pois claro, a vontade popular democraticamente exercida, ora essa!

 

"Medir forças com a oposição" também não porque, primeiro, a eleição constituinte para a possível revisão constitucional é para todos os cidadãos e nada tem a ver com partidos. Segundo, porque é objectivamente estúpido comparar um eleição constitucional normal e na qual todos podem participar quer como candidatos quer como eleitores, com uma parvalheira ilegítima organizada e convocada por um partido da oposição. Sim, sim, parvalheira, isso mesmo, objectivamente parvo aquilo que fizeram, tecnicamente parvo aquilo que fizeram há duas semanas. Porquê? Uiii, vamos por partes, aliás algumas apenas pois as partes parvas da parvalheira são mais que muitas:

  1. A farsa de eleição não foi convocada por quem tem o direito legal de o fazer. Oposição em parte nenhuma convoca eleições! Onde já viram isso, onde, em Portugal, nos EUA, na França? Digam-me, onde? Só na Venezuela mesmo onde tudo é permitido em prol da paz social e ainda assim se acusa o democrático e tolerante governo de ser um "regime ditatorial";
  2. A farsa de eleição não foi organizada pelo único órgão competente que, segundo a constituição, o poderia fazer, e que é a Comissão Nacional Eleições (CNE), tal como acontece em todos os sistemas democráticos conhecidos, Portugal incluído;
  3. Não havendo organização da CNE, ninguém pode, de for legal e até mesmo funcional, verificar se houve ou não, por exemplo, quem votasse 2 vezes (aqui sim) ou 3 ou 7 como aliás ficou provado por imagens em vídeo. E os exemplos do que pode correr mal em plebiscitos não organizados pelos órgãos competentes são inúmeros, nem vale a pena ir por aí.
  4. O resultado dessa farsa de eleições foi duplamente um não resultado. Primeiro porque foi apenas apresentado o objectivamente nada fiável número de 7,1 milhões de votantes, mas não as percentagens de quem votou no quê! Nada, apenas ficámos a saber que supostamente 7,1 milhões teriam votando em algo. Segundo, porque não só não contaram os votos daquela farsa como ainda se lembraram de os queimar em fogueiras nas ruas, e filmaram-no contentíssimos enquanto entoavam risíveis cânticos com alusões a "democracia". E pior, depois partilharam os vídeos nas redes sociais para que ninguém ficasse com a mínima dúvida que de facto a oposição queimou os votos não contados da sua farsa de eleição! Nem Orwell ou Huxley se lembrariam duma destas!
  5. Não participou nestas parvas eleições ilegítimas nenhum observador internacional credenciado. Uí, depois "ditador" é o democraticamente eleito Maduro, pois sim! Eleito numa votação cujo processo foi observado por dezenas de organizações, boa parte delas provenientes dos EUA e União Europeia, os quais detectaram zero problemas durante a votação. Até o The Carter Center de um ex-presidente dos EUA participou como observador internacional nessas eleições de 2012!
  6. Para esta farsa podia-se por exemplo, votar numa clínica dentária no Algarve ou num Starbucks em Praga, República Checa e em várias centenas mais de insólitas localizações espalhadas por esse planeta fora. Sim, pode parecer mas não é troça minha, e já vêm aí as provas. Aliás, a lista de anedóticos lugares é imensa, convido-o a constatar com os seus próprios olhos que era possível, por exemplo, votar no Erasmus Bar, Rua de José Falcão, N° 4, Porto, Portugal! As fontes são (eram) duas, o site oficial da coligação de oposição MUD que precisamente havia convocado esta farsa e uma conta facebook de um membro da MUD. Ora, e invertendo o provérbio, quem deve, teme, e portanto elimina da internet páginas que serviam de prova à parvalheira que havia feito, daí que as duas fontes que eu me referia já não estejam disponíveis, como pode constatar aqui e aqui. Ou sim, pois esta gente que esconde o que fez, visto que sabe bem que não faz sentido aquilo que fez, é, no entanto, muitíssimo amadora e esquece-se que existe uma coisa chamada webcache, ferramenta com a qual se pode aceder ao conteúdo passado de páginas entretanto eliminadas. Daí que, das duas eliminadas, posso felizmente vos apresentar o conteúdo existente há 2 semanas atrás: clique aqui.
  7. As 3 perguntas do parvo plebiscito, e deixando de parte o facto deste não ser de forma alguma válido, propunham acções inconstitucionais e que representam crimes perante a lei do país caso fossem levadas a cabo. Leia caro leitor o que diz o boletim abaixo, antes de continuar com a explicação:

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    Analisemos as 3 perguntas. Primeiro, "recusa e renega a realização de uma constituinte proposta por Maduro sem a aprovação prévia do povo venezuelano"? Essa aprovação prévia não é requerida e, bem pior, não faz sentido convocar uma ilegítima votação para perguntar ao povo se quer ou não votar para uma assembleia constituinte. Sentido faz, isso sim, que a oposição (supostamente maioritária) vote nos seus candidatos à assembleia constituinte, os quais posteriormente proporão mudança nenhuma na constituição e que, por fim, a suposta maioria opositora ratifique em referendo a vontade de não mudar nada na constituição! Simples, democrático e eficaz. Quem não deve não teme e quem tem (supostamente) a maioria não deve temer eleições democráticas. 
    Segunda, "exigência às forças armadas nacionais e a todo o funcionário público de obedecer e defender a constituição de 1999 e apoiar as decisões da Assembleia nacional [parlamento]". Ora, a exigência é estúpida pois aqueles em questão já o fazem. Apoiar as decisões da Assembleia Nacional (de maioria opositora, prova evidente de que na Venezuela há democracia) é que não, caso estejam a referir-se à ilegítima e ilegal exigência para que Maduro se demita antes do fim do mandato contra a sua vontade, assim como a decisão ilegal e inconstitucional de tentar formar um "governo paralelo". Tal decisão, essa sim, seria exemplo escandaloso de desobediência e ataque à constituição de 1999 e mereceria da parte das forças armas e funcionários públicos a total condenação! E não o contrário!
    Terceira, "aprova que se proceda à renovação dos poderes públicos de acordo com o estabelecido na constituição e a realização de eleições livres e transparentes, assim como a formação de um Governo de União Nacional para restituir a ordem constitucional". Ah, tantas meias-afirmações! Não há que aprovar renovações nenhumas, há que esperar para as eleições presidenciais do ano que vem (2018) e votar nelas. Não, a constituição não estabelece que o povo vote em ilegítimos plebiscitos que acabam em queima de votos como forma de antecipar eleições, ora essa! Eleições livres e transparente sim, vão haver em 2018 para a presidência da república, só há que esperar uns meses. Não, qual formação de "Governo de União Nacional", flagrante sinónimo de ditadura carmoniana por decreto como a que aconteceu no golpe de estado falhado em 2002 contra Hugo Chávez. É que não dá para esquecer que as pessoas que organizaram este ilegítimo plebiscito no qual pedem a criação de um Governo de União Nacional, foram as mesmíssimas que de forma directa e indirecta participaram no inconstitucional golpe de estado e que na manhã seguinte, sem perguntar coisíssima nenhuma ao povo venezuelano, já haviam alterado 49 artigos da constituição do país! Para quem não está dentro do assunto, aconselho que se informe pelo menos através das hiperligações seguintes: 
    Abril golpe adentro, Guerra contra a DemocraciaA revolução não será televisionadaPonte Llaguno - As chaves de um massacre e Asedio a una Embajada. E relembro mais, que o mesmo Leopoldo López de novo detido, foi o mesmo que afirmou que ""não estamos para esperar 6 anos para que ocorra uma mudança na Venezuela", em consequência da derrota eleitoral de 2012. Se não acredita que Leopoldo López proferiu tal barbaridade, oiça aqui as suas palavras. Se ouviu, diga-me como se pode defender alguém que renega de forma tão escandalosa a decisão popular! Pelos vistos a RTP pode e fá-lo, ao ponto de chamar "prisioneiro político" a este criminoso e terrorista bombista. Irra!

  8. E, para acabar com esta lista que já vai longa, não poderia deixar de relembrar as palavras que Freddy Guevara (membro da opositora MUD) proferiu em 2014 a propósito da possibilidade de ser convocada uma eleição constituinte (sim, isso, uma eleição como esta de anteontem criticado no artigo do Expresso) num contexto considerado (erradamente, por ele,) como sendo propício à organização do dito evento. A prova de que estava errado veio quando o próprio abandonou-a, então possivelmente já ao corrente da necessidade (irrealizável) de ter o apoio de 2/3 dos votantes para que pudesse ser aprovada a sua visão ditatorial de concentração de poderes que pode ler na imagem abaixo. Claro que tresloucadas ideias nunca passariam em referendo de ratificação de nova constituição! Só a ignorância da lei e a efusividade pós-vitória da oposição nas eleições de 2014 para a Assembleia Nacional onde se ganha sem maioria qualificada é que poderão ter levado o senhor a proferir tamanhas barbaridades. E por falar nisso, já viram quão estranha é a "ditadura" venezuelana, na qual a oposição ganha eleições democráticas para a Assembleia Nacional e o "ditador" de serviço acata a escolha democrática do povo! Sim, eis a imagem prometida:

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Perante os números apresentados no parágrafo em análise, apenas quero acrescentar números bem mais pertinentes. Sim, mesmo que fosse possível provar que a farsa de dia 16 de Julho tenha recebido 7,1 milhões de votos que não foram nem poderão ser contados pois foram queimados, mesmo aceitando que todos os votantes tenham colocado cruzes dizendo sim aos 3 apelos inconstitucionais, ainda assim, 7,1 milhões de votos num país cuja população é de 32 milhões da qual 19,5 milhóes se encontraram em idade de votar, os supostos votantes anti-Maduro não representam "uma clara maioria de opositores descontentes com o trabalho de Maduro" como tive a oportunidade de ouvir em directo da boca de um analista político da RTP há dias atrás. Porquê? Porque 7,1 é menos de metade de 19,5, ora essa!

 

3º parágrafo

Não, as condições da farsa de plebiscito convocadas pela oposição no dia 16 de Julho não foram "precárias", como aqui já foi demonstrado, mas sim parvas, insisto. Depois, no 2º parágrafo o jornalista do Expresso referia-se e bem a dia "16 de Julho". Agora, neste parágrafo refere-se e mal a dia "17 de Julho". Tire o leitor as condições que por bem achar a propósito da seriedade deste trabalho jornalístico. E não, diga o que quiser o senhor Rui Cardoso sobre a farsa de eleição opositora de dia 16 de Julho e o que quiser sobre a legítima eleição constituinte de dia 30 de Julho convocada pelos órgãos competentes, tudo bem, mas não me compare por favor parvalheira infantil com legitimidade e legalidade constitucional, senão também quero vê-lo a defender as eleições constituintes de Portugal que vou organizar para semana aqui no meu sótão com a malta do bairro com as que por norma são organizadas pela nossa comissão nacional de eleições!

 

4º parágrafo

"Maduro, que está em minoria na Assembleia Nacional, quer substituí-la por uma Assembleia Constituinte"! Ui, mas onde é que este senhor foi buscar tamanha barbaridade? Maduro não está em minoria na Assembleia Nacional, quem está nessa situação é o partido do qual Maduro é membro. Maduro é o presidente eleito da Venezuela e como tal exerce a chefia do poder executivo, enquanto que a Assembleia Nacional exerce o poder legislativo. Este senhor escreve num jornal para a elite de direita abastada nacional e no entanto nem sequer domina os mais básicos conceitos políticos necessários para se poder analisar o tema! Que lástima! E por isso mistura conceitos que nada têm a ver uns com os outros, pois Assembleia Constituinte é um órgão temporário e previsto pela constituição que tem como função realizar revisões à constituição. Assembleia Nacional, apesar de conter uma palavra em comum, é o nome do parlamento venezuelano eleito para um determinado período de tempo findo o qual se realizarão novas eleições das quais resultarão a formação de uma nova Assembleia Nacional igualmente a prazo (como em Portugal). Portanto não há substituição de coisíssima nenhuma, nem poderia haver, nem nunca Maduro propôs tal barbaridade, nem tampouco poderia fazê-lo se fosse esse o seu desejo! Aqui estamos no capítulo da divagação imbecil!

 

Sim, o processo de revisão constitucional serve precisamente para isso, para rever a constituição ou, como diz o senhor, "a lei fundamental". Não, Maduro não substituiu coisas incompatíveis! O governo legítimo e democraticamente eleito convocou, de acordo com o que prevê a constituição em vigor, uma revisão constitucional. Sim, no limite, caso seja proposto pelos membros da assembleia constituinte democraticamente eleitos no dia 30 de Julho, poderá ser proposta a alteração do "funcionamento de todas as instituições e da economia do país" mas, primeiro Maduro não tem competência para o fazer pois tal competência está nas mãos dos 545 membros da assembleia constituinte e, segundo, o que quer que seja que apareça na proposta final de revisão constitucional não entra em vigor sem antes ser referendado e aprovado com uma maioria qualificada dos votos dos venezuelanos. Portanto, quanto mais extraordinárias forem as propostas de revisão, menor será a possibilidade dessas serem aceites pelo povo no tal referendo. E mais, se 2/3 do povo a aprovarem (como exige a constituição), que problema encontra este senhor (português) no acto de aprovação de uma nova constituição da Venezuela através de escolha popular de venezuelanos? Quem, afinal, apresenta aqui comportamento de ditador, Maduro ou o jornalista do Expresso?

 

Jornalista que em seguida oferece citações de Maduro para ver se o faz passar por ditador, mas não pega! Sim a Venezuela precisa de ordem para que acabem os atentados à bomba, a morte de polícias a tiro, os linchamentos de cidadãos pró-governo, o chantagear com morte ou destruição comerciantes que tem o direito de recusar participar em "greves gerais" das quais quase ninguém participa, etc, daí que faça sentido a ideia/proposta de passar a ser proibido aos venezuelanos manifestarem-se de cara tapada. Manifestações sim mas de cara destapada para que, quando alguém se lembrar de lançar um roquete ou abater um transeunte a tiro, se possa ver ou filmar a cara do criminoso que, mesmo que fuja  no meio da trupe de opositores terroristas, possa posteriormente ser detido e levado a julgamento. Isto é só uma ideia de alteração a propor na revisão constitucional. Convém lembrar que todas as propostas têm de ser aprovadas e por fim ratificadas pelo povo através de referendo. Outra proposta muito interessante, a propósito da segunda citação do 4º parágrafo, é a de acabar com a imunidade dos deputados, de forma a que todos eles possam ser julgados pelos crimes que entretanto cometerem. Sim todos, não como li há dias num artigo da RTP onde era afirmado que Maduro pretendia remover a imunidade dos deputados da oposição! Imagine-se! Num país no qual a oposição em plena assembleia apela a crimes económicos, assassínios, destruição e sabotagem, seria salutar tal medida, caso esta passasse nos vários passos de revisão constitucional Eu, ao contrário do jornalista da RTP que divagava à parva, gostaria que o mesmo fosse aprovado em Portugal! Sim, acabe-se com a imunidade dessa malta, o quanto antes! Ah, é verdade, não dá, pois quem revê constituições em Portugal são os próprios deputados em questão! Ahahahah, deixem-me rir!

 

Mas eu sei o que queria este senhor subentender de forma mal-intencionada. Durante a revisão constitucional é interrompido o poder legislativo (Assembleia Nacional na Venezuela, Parlamento em Portugal) pois não faz sentido que se produzam leis segundo os princípios de uma lei fundamental (constituição) que esteja em processo de revisão nesse momento. Sabendo que é possível parar temporariamente os trabalhos legislativos de forma legal e constitucional (o exemplo agora dado), o governo presidido por Maduro decidiu convocar a discutida revisão constitucional. Os meus parabéns ao senhor Maduro e aos seus colegas do governo por terem optado por um mecanismo legal e pacífico como ferramenta pragmática de tentativa de congelamento temporário da ingerência e do terrorismo da oposição. Compreenderia que o senhor Rui Cardoso tivesse explicado o que agora expliquei, e depois seguisse criticando a decisão pragmática ou maquiavélica do governo de Maduro para, por fim, analisar o porquê. Mas nada. O porquê é a guerra económica, a sabotagem económica, a ingerência internacional e o terrorismo de "opositores pacíficos" apoiados pelos EUA e UE. Ora, no meu ver, os criminosos porquês são mais do que suficientes e violentos para receberem uma resposta legal e pacífica vinda do governo, como é o caso da revisão constitucional convocada. Este senhor Rui Cardoso não critica a destruição de toneladas de comida, a hiper-inflação aplicada artificialmente pelo sector privado, os atentados à bomba, a morte de dezenas civis neutrais ou pró-governo, a morte de policiais, a destruição de universidades, de linhas de metro, de autocarros, a invasão de edifícios públicos, os linchamentos nas ruas, etc. Tudo bem, tem o direito de fechar os olhos e não criticar nada disto, mas depois, por favor, não critique quem de forma legal e pacífica tenta abrandar o nível de terrorismo, criminalidade e sabotagem imposta à Venezuela!

 

A terceira citação do 4ª parágrafo é uma divagação (referente ao voto do passado dia 30 de Julho) de fazer perder a esperança na espécie humana '“será directo, universal e secreto”. Sê-lo-á?' Simples, basta ver o que se passou! Sim, foi directo, universal e secreto, ao contrário dos votinhos queimados da parvalheira ilegítima de dia 16 de Julho. Este último não foi nem directo nem universal, talvez secreto para sempre visto que a oposição queimou os votos, hehe, mas ainda assim, não dá para supor mal-intencionadamente o que se apetece sobre um processo legal e constitucional se antes se elogiou uma infinita parvalheira! Coerência? Uí, que bixo é esse?

 

5º parágrafo

Sim, partidos da oposição não entraram nas eleições de membros para a assembleia porque, como já antes afirmou Rui Cardoso, não quiseram participar! Cada qual sabe de si! E, quem por medo de perder uma eleição democrática, prefere fazer birra e não participar nela, depois não tem moral para se queixar da falta de membros de partidos da oposição na Assembleia Constituinte! Mas será que este Rui Cardoso percebe sequer aquilo que escreve e que vezes sem conta contradiz-se naquilo que escreve?

 

Espantar-se com a duração indeterminada assembleia constituinte é como espantar com a duração indeterminada da vida de uma pessoa. Pois não, não dá para determinar Quando todas as propostas de revisão tiverem sido apresentadas e discutidas, chegará ao fim a assembleia constituinte. Sim, é isso, e quê? Que risada!

 

"Só 6 120 dos 50 000 candidatos foram aceites, isto porque as regras fixadas por Maduro e aplicadas pela comissão eleitoral proibiram candidatos ligados a partidos. No entanto não faltam elementos do PSUV (partido do poder)"! Ena, isto será mentira ou manipulação de meias-verdades? As duas, como veremos. Sim, das 50.000 propostas, apenas 6120 cumpriram as condições necessárias para se ser candidato a membro da assembleia constituinte. Mas porquê? Porque como esta eleição não se organiza em função de partidos mas sim de indivíduos, para que se possa ser um candidato, primeiro há que recolher o número mínimo de assinaturas estipulado por lei. O mesmo se passa em Portugal no processo de pré-candidatura à presidência do país, ora que espanto! Não, Maduro não fixou regras nenhumas, e quem o afirma mente descaradamente. Quem fixa regras eleitorais é a Comissão Nacional de Eleições (não "comissão eleitoral" como escreveu erradamente o jornalista) de acordo com o que diz a constituição e a CNE já as havia criado muito antes de Maduro ser presidente da Venezuela. Não valia a pena mentir sobre factos facilmente comprováveis, ora essa!

 

Não, ninguém proibiu candidatos ligados a partidos. As eleições não são realizadas por partidos mas sim por indivíduos. No entanto indivíduos podem se candidatar enquanto pessoas, ainda que pertençam a algum partido! Tal e qual como em Portugal, para as eleições presidenciais são apresentadas candidaturas pessoais e não partidárias, sem que no entanto se proíba essa pessoa de ter determinadas convicções políticas ou que faça(fizesse) parte de um determinado partido político. Isto é pura divagação para confundir! Imagine caro leitor se um jornalista venezuelano escrevesse isto mesmo a propósito das presidenciais portuguesas com o mesmo objectivo de confundir os leitores do seu país e denegrir as instituições democráticas do nosso país, teria alguma piada?

 

E portanto sim, pessoas afectas ao partido do governo candidataram-se a membros da assembleia constituinte, ora que raio de espanto! E sim, da coligação partidária da oposição (MUD) não houve candidatos (que eu tenha conhecimento). Porquê? Porque, como muito bem disse este senhor no início do seu artigo, a oposição decidiu não participar! Ora que tamanha incoerência! Insisto, caro leitor, não podiam participar partidos, mas pessoas membros de partidos sim, o que não é de todo a mesma coisa! E este senhor Rui Cardoso, no mesmo artigo, consegue, imagine-se, afirmar que a oposição decidiu não participar por não gostar das condições e, ao mesmo tempo, afirmar que a oposição não participou porque Maduro não deixou. Em que ficamos?

 

Ah, Adán Chávez (e não "Adan Chavez" como escreveu o jornalista), um irmão do falecido Hugo Chávez também candidatou-se! Sim, OK, e? Deixem-me rir! Bush pai foi presidente dos EUA, Bush filho também, e? Bill Clinton foi presidente dos EUA, Hillary Clinton foi candidata derrotada, e? Sim, deixem-me rir, pois nem sei o que dizer desta infra-falácia!

 

6º parágrafo

"Uma estranha forma de eleição" sim, concordo. É estranho para nós portugueses depararmo-nos com as características excepcionalmente democráticas desta eleição. Só posso lamentar que não tenhamos o direito à mesma qualidade democrática aqui neste cantinho lusitano.

 

Este senhor que no início, e de forma intencionalmente manipuladora, havia escrito "votar duas vezes" seguido de reticências, agora, num outro contexto, deixa fugir a boca para a verdade e explica de onde vinha afinal o "votar duas vezes". Duas vezes em candidatos diferentes, ora pois sim!

 

É subjectivo, compreendo, mas para mim a possibilidade de votar em 2 candidatos de 2 temas diferentes é muito positiva e interessante. Primeiro, pode-se votar no candidato preferido do nosso município que, supúnhamos, encarregar-se-á de questões de organização territorial ou de modernização da burocracia autárquica. E pode-se também votar no candidato preferido do grupo social no qual especificamente nos inserimos e que, no caso do grupo dos pensionistas, bater-se-á pelas reformas que tenham como objectivo melhorias na legislação referente à idade de reforma, descontos sociais ou valor das reformas. Onde está o problema deste sistema?

 

E bravo, mil vezes bravo à democratíssima Venezuela! Ao contrário do Brasil no qual ainda hoje indígenas são violados, torturados, mutilados, vendidos, escravizados e assassinados impunemente, na República Bolivariana da Venezuela onde é lei fundamental a invejável constituição de 1999, indígenas tem direito a fazer ouvir as suas vozes! Sim, têm, e para tal podem apresentar 8 membros para a assembleia constituinte escolhidos não por voto democrático secreto mas sim pela forma que bem entenderem, de acordo com os princípios de regulação das suas sociedades bem diferentes da ocidentalizada Venezuela urbana! Bravo, bravo, bravo, um milhão de vezes bravo! Pena que o destilador de ódio e funcionário do Expresso prefira inventar e deturpar, em vez de valorizar este interessante exemplo de honestidade e empatia política! Faz-me lembrar o direito que a comunidade judia no Irão tem de fazer-se representar por um deputado no parlamento iraniano, pese embora a percentagem populacional da minoria judia que, por ser diminuta, não lhes permitiria nunca obter esse tal deputado por eleição directa. Enfim, pormenores que não interessam à máquina de propaganda ocidental que se alimenta de ignorância e credulidade!

 

Depois, sim, uma "corporação" define-se enquanto "conjunto de pessoas com afinidades, nomeadamente profissionais ou ideológicas, que se unem ou organizam com vista a interesses comuns" de acordo, neste caso, com o dicionário Priberam. E qual é o problema? Nenhum, excepto a má-vontade e a divagação propositada do jornalista em torno do conceito de "corporativismo", assim como a sua manipuladora insistência em falar de "votar duas vezes" quando na realidade o que se podia fazer era votar uma vez em casa um dos 2 tipos de representantes. A escrita da expressão "votar duas vezes" deixa implícita a vontade deturpadora de fazer crer ao leitor que um venezuelano pró-Maduro poderia votar a dobrar num candidato pró-Maduro, o que é objectivamente falso!

 

7º parágrafo

"O voto será electrónico mas as máquinas não estão programadas para lidar com o voto branco." Sim, o voto foi electrónico. Não, não é verdade que as máquinas não estejam programadas para lidar com votos brancos. Para o confirmar, basta ler, por exemplo, este artigo de um média opositor no qual se ensina e se incentiva o leitor a utilizar 1 das 2 formas de votar em branco! 

 

Não, não havia representantes de "corporações" nenhumas fazendo coisíssima nenhuma "junto às mesas de voto". O que havia era representantes da CNE fazendo o trabalho para o qual estão legalmente creditados. Qual trabalho? Certificarem-se que ninguém vota, aí está, duas vezes ou mais. Em Portugal, quando voto, também "anotam" o meu nome na lista de pessoas que já votaram, de forma a evitar fraudes eleitorais. Na Venezuela, quando o mesmo acontece, e bem, o senhor Rui Cardoso conclui infundadamente (por tanto, invalidamente) que as referidas anotações implicariam "retaliações sobre funcionários públicos, pessoas dependentes da distribuição de ajudas alimentares estatais, etc." Prove que é esse o caso na Venezuela. Prove que não é esse o caso em Portugal. Ou cale-se! É que especulação futurológica pode ser feita até ao infinito sem que, pois claro, tal tenha o mínimo de relação com a realidade.

 

8º parágrafo

O partido de Maduro ganhou 18 das 20 eleições em que participou, portanto está duplamente provado que não receia derrotas eleitorais. Primeiro porque ganhou 90% das eleições em que participou, segundo porque respeitou democraticamente as 10% de derrotas que sofreu.

 

Informa Rui Cardoso que "a oposição diz não estarem reunidas condições mínimas de democraticidade e apelou ao boicote". Ah, sim, não havia condições para uma revisão constitucional de acordo com a lei a 30 de Julho!?! Então e no dia 16 de Julho havia condições para convocar um ilegítimo plebiscito no qual se perguntava precisamente se a oposição terrorista quereria ou não ter um eleição constituinte seguida de um referendo constituinte!?! Mas será possível não detectar a incoerência deste argumento?


E as condições de voto em Starbucks e Clínicas Dentárias foram boas? E a queima de votos no dia 16 foi realizada em boas condições (de higiene), hehe? Deixem-me rir!

 

Mais, o jornalista do Expresso, por um lado defende a recusa da oposição em participar numa eleição (constituinte) por achar também que não estão reunidas as condições mínimas de "democraticidade" (apesar de apresentar como supostos argumentos apenas interpretações mal-intencionadas de leis, acontecimentos e decisões) e, por outro, queixa-se das eleições previstas na Venezuela no ano passado e que não se realizaram (ainda) por manifesta falta de condições mínimas de democraticidade pois, com oposição queimando pessoas vivas ou atacando a polícia com roquetes, pois claro que as condições são fracas, fraquinhas. Pior, constate-se os crimes da oposição terrorista nas vésperas e no dia das eleições constituintes: assassínio de candidatos, destruição de casas de candidatos, impedimento violento da ida às urnas de eleitores pró-Maduro, destruição de centros de voto, destruição de equipamento de voto! Este Rui Cardoso deverá sofrer de uma profunda disfunção cognitiva para se perder em choradeiras baseadas em vazio enquanto se mostra indiferente a flagrantes e horrendos crimes!

 

Segundo o jornalista, o boicote (ler "as eleições constituintes") terá sido "marcado por incidentes que fizeram nove mortos". Sim nove mortos de polícias e civis pacíficos, vítimas de tiros de balas e atentados à bomba da oposição terrorista no dia 30 de Julho! Portanto, qual era então o seu argumento caro Rui Cardoso? Um género de profecia auto-realizável? A oposição diz não haver condições para votar porque a oposição mata votantes a tiro e ataca à bomba polícias que tentam manter a ordem necessária para o normal desenrolar desse preciso processo eleitoral? Como assim? Que vergonha!

 

"Se puder, Maduro também tentará adiar as eleições presidenciais previstas para o ano que vem…", hehehehe! A última sugestão mal-intencionada do trabalho não-jornalístico de Rui Cardoso, a quem faço um convite: critique quem não permite ou não permitiu a realização de actos eleitorais usando para o efeito força violenta e ilegítima, como na Arábia Saudita e tantos outros estados vassalos dos EUA. Não critique de forma especulativa Maduro por aquilo que ainda não fez nem que ninguém pode saber se tentará fazer. Futurologia não é argumento, é falácia das fracas! Pior, bem pior, se o jornalista Rui Cardoso tivesse feito o trabalho de pesquisa que lhe compete, teria por certo encontrado este artigo contendo um discurso de Maduro que, precisamente, desmente a sua falaciosa especulação:

 

 A ingerência norte-americana e europeia

Como os EUA impõem sanções a tudo o que se mexe, inclusive a si próprios, enfim, nem vou pegar muito nesse tema por demais risível. Só relembrar que, na minha modesta opinião, as sanções norte-americanas ao petróleo venezuelano poderão ter consequências contrárias às desejadas. Explico-me. Embargo às exportações petrolíferas venezuelanas terão como objectivo sabotar a economia desse país mas, esse mesmo embargo poderá fazer subir o preço do petróleo, aliviando dessa forma os efeitos dessa sabotagem económica e, com mercados energéticos como o Chinês e outros para onde escoar petróleo, por certo a Venezuela encontrará destinos para o seu produto entretanto revalorizado.

 

Quanto à União Europeia, cuja constituição não foi aprovada pela população europeia através de um referendo, esta exigia, imagine-se, que o governo de Maduro cancelasse as eleições constituintes! Ou seja, a UE, pela voz da sua alta representante para a política Externa, Federica Mogherini, basicamente diz "façam como nós, impinjam constituições sem referendo pois perguntar ao povo que constituição querem é coisa de gente parola"!  Na "ditadura" da Venezuela, convoca-se uma eleição constituinte, depois realiza-se a revisão constitucional dando voz aos constituintes eleitos e, por fim, referendia-se a nova constituição que só é ratificada se obtiver maioria qualificada! Querem algo mais democrático que isto? Na UE, pelo contrário, um Presidente da Comissão Europeia não eleito e os seus colegas também não eleitos da Comissão Europeia impingem sem voto popular uma constituição indesejada pelos concidadãos europeus e chamam a isto "democracia"? E depois temos que levar com governantes ditadores europeus exigindo que democráticos governantes venezuelanos cancelem o democrático acto de convidar o povo venezuelano a votar? Mas haverá mais flagrante exemplo de orwellianismo do que este? Este supera de longe os clássicos "branco é preto" ou "guerra é paz", não?

 

Terrorismo opositor

Antes de partilhar grotescas e escandalosas provas do terrorismo opositor, queria fazer 3 convites ao leitor. Primeiro, que pense nos exemplos diários de pessoas torturadas e mortas todos os dias, sem motivo nenhum, pelas forças da ordem dos EUA, Colômbia ou México. Se não está a par, uma rápida pesquisa no youtube ou no google elucidá-lo-á na perfeição. Mais, repita o processo sobre o mesmo tipo de violência contra manifestantes (pacíficos ou violentos, não importa). Segundo, procure, pesquise e, se encontrar, mostre-me as provas de um só exemplo que haja de violência gratuita das forças de ordem venezuelanas contra a "oposição pacífica" que eu apelido de "terroristas opositores". Terceiro, diga-me se é normal aquilo que vai assistir a baixo. Diga-me se incendiar infantários, atacar à bomba edifícios ministeriais, assaltar quartéis militares, queimar pessoas vivas, matar a tiro, lançar roquetes e granadas nas ruas, realizar atentados à bomba, cortar e queimar árvores, arder os estabelecimentos de quem se recusa a fazer greve à força, queimar toneladas de comida, fechar estradas com óleo que provocam acidentes mortais, colocar arames de um lado a outro da estrada que resultam na decapitação de condutores de motas, linchar ou matar quem vem limpar barricadas ilegais que os impedem de circular a caminho de casa ou do trabalho, e por aí fora, diga-me, perguntava eu, se são, estes, exemplos de "oposição pacífica" como afirmam os jornalistas da RTP, SIC, TVI, Globo e companhia! E diga-me se acharia possível que 1% disto fosse feito nas ruas de Lisboa sem que todos fossem presos. E diga-me se acharia bem que esses criminosos fossem rotulados de "prisioneiros políticos" pelo canal público venezuelano? E diga-me se, um governo e respectivas forças da ordem que demonstram tão infinita paciência perante tanto crime e tanto acto terrorista, merecem ser rotuladps de "opressores" como leio todos os dias na RTP e companhia. Assista a tudo o que vem abaixo e depois reflicta na tremenda realidade paralela matrixiana que lhe andam há anos a vender em TV's e jornais! 

 

Obrigado pela leitura e pela paciência!

 

 Hiperligações com as provas do terrorismo opositor

 

"Opositores pacíficos"

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Diputado español deja en ridiculo a Julio Borges

 

Luís Garcia, 02.09.2017, Ribamar, Portugal

 

 
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Fabrique de victimes des zombies progressistes

 

 

Fabrique de victimes des zombies progressistes

 

Claire  SOCIEDADE   en français

 

Plusieurs faits d’actualité que je ne perdrai pas de temps à analyser ont attiré mon attention ces derniers mois, non seulement parce qu’ils sont de grossiers instruments de manipulation de l’opinion, en défaveur (bien-sûr) des étrangers et des hommes non «blancs», cibles préférées des médias de masse, mais aussi parce qu’au lieu d’apporter des solutions à des problèmes sociétaux, ils en créent de nouveaux.

 

Prenons d’abord l’exemple du  harcèlement de rue  dans la zone du métro La Chapelle à Paris, pour ceux qui n’en auraient pas entendu parler, voici l’un des nombreux articles d’une série de 5 publiée par Le Parisien à ce sujet:

 

 Le quotidien serait devenu invivable pour les femmes du quartier de La Chapelle qui ne peuvent plus sortir sans subir de pressions et de discriminations sexistes de la part des hommes, pardon, je reprends Le Parisien: «d’hommes seuls, vendeurs à la sauvette, dealeurs, migrants et passeurs» (que du beau monde!) ayant investi le quartier.
Je ne m’étendrai pas sur ces immondices journalistiques au service des zombies progressistes. Ah, je devrais définir ce concept avant de continuer.

 

Je ne suis évidemment pas contre le progrès, mais le progrès n’est pas fait d’avancées insignifiantes, de besoins superficiels, de médiocres lignes directrices qui définissent notre rôle de petits soldats défenseurs d’une société ultra capitaliste et repliée sur elle-même. Les luttes qui ont amené de véritables progrès sociaux et sociétaux (et dont on ne parle que trop peu) ont été oubliées et les luttes constructives  ont été remplacées par des crises d’hystérie collective, où tout débat d’idées libres, cohérentes, réfléchies est (amputé) par une bienséance et un puritanisme qui transforment toute critique constructive en attaque personnelle, entraînant une censure imposée ou volontaire, mettant fin au débat. Sans parler du fait que ce sont systématiquement les populations avec un fort pouvoir d’achat qui sont mises au cœur de ces nouvelles «luttes».


Zombie est un terme on ne peut mieux approprié pour les acteurs de ce progressisme. Les défenseurs de ces idées prétendument progressistes    sont dépourvus de toute connaissance des vrais problèmes sociétaux, de convictions, de démarche analytique, de culture, de volonté de changement, ou d’empathie envers les êtres qui les entourent.

 

Ce qui est intéressant dans le cas de La Chapelle, c’est que le quartier fait l’objet d’un processus de gentrification, ce qui veut dire qu’une population dotée d’un fort pouvoir d’achat s’empare d’un quartier (le plus souvent un quartier populaire et authentique) et que le marché qui va avec cette population va également s’y installer, expulsant les résidents d’origine qui n’ont plus les moyens d’y habiter. C’est drôle que ce phénomène de harcèlement de rue survienne en même temps que la gentrification de La Chapelle, non? Et c’est drôle qu’il y ait beaucoup d’habitantes originaires du quartier qu’on n’a pas entendues dans Le Parisien:

(Rappelons que Le Parisien appartient au groupe LVMH, de Bernard Arnault, première fortune de France).

 

Un autre exemple de «problème» sociétal, et chérit par les zombies progressistes est celui du manspreading. Cette pratique machiste consiste pour un homme à s’étaler le plus possible à côté d’une femme, notamment dans les transports en commun. Ce problème serait devenu tellement sérieux que le manspreading a été INTERDIT à Madrid:

 

Je suggère qu’on interdise également les haut-parleurs, les gens de petites taille car leurs yeux arrivent au niveau des seins des femmes, les kebabs-frites, les ongles trop longs, les gens qui se parfument trop (le smellspreading?), Les hommes obèses qui prennent toute la place sur les sièges dans le bus font-ils du manspreading ou pas?

 

Je pense que la plus grande partie des gens s’en contrefout, mais que, parmi les gens à qui on donne la parole il y a une poignée de petits zombies-progressistes capricieux en crise existentialiste et qui se sont choisi une noble cause à défendre, un engagement, une lutte, et c’est celle-ci.

 

Mais je ne viens pas analyser le contenu de ces campagnes qui ne sont absolument pas constructives mais plutôt destructives, et dont le contenu a déjà été très bien critiqué à de nombreuses reprises, en voici un exemple:

 

Maintenant il faut analyser les effets de telles campagnes. Comme tout sujet traité aujourd’hui dans nos médias de masse occidentaux il y a des bons et des mauvais, on doit être POUR ou CONTRE, tu es avec moi ou contre moi, c’est la bonne vieille recette sauce néo-maccarthiste made in USA en vigueur en occident.


Donc dans ces pseudo luttes pseudo-féministes il y a des méchants (les hommes, surtout non «blancs»), et des victimes (les femmes, surtout blanches, et oui on l’aura compris, les porte-paroles de ces mouvements féministes sont généralement issues d’une population à fort pouvoir d’achat, et bien que les statistiques ethniques soient interdites en France, on sait que ces populations contiennent peu de noirs et d’arabes). Ce sont bien les zombies-progressistes et leurs serviteurs les médias de masse (.. ou le contraire?) qui ont fait de ces non-évènements des problèmes sociétaux. Et ce sont eux, comme d’habitude, qui font non seulement naître la peur chez les potentielles victimes, mais aussi la perversité imaginaire chez les supposés pervers/oppresseurs de la gente féminine.


Pire, ces campagnes de victimisation des femmes sont non-seulement d’un paternalisme affligeant, les femmes étant trop faibles ne pouvant apparemment pas se défendre seules, mais elles sont aussi en elles-mêmes une véritable fabrique de victimes. Les hommes aux mauvaises intentions sont mis en lumière, et, selon les médias, il y en a beaucoup, ils sont partout, ils veulent du mal aux femmes, et nombre d’entre elles, au bout du compte, vont se sentir harcelées: «c’est vrai que les hommes me regardent, c’est vrai je n’ai pas de place dans le métro (… ou que les sièges sont trop petits ?)».

 

Nous avons conscience d’être poussés à nous recroqueviller toujours plus sur nous-même, de baigner sans-cesse dans une angoisse et une méfiance malsaine, de perdre tout lien social avec les autres. C’est exactement dans cette direction que ce genre de campagne nous oriente.

 

Où veut-on en venir avec tout cela ? Toujours à la même chose. Monter des individus les uns contre les autres pour les empêcher de se rassembler contre la vraie oppression. Faire taire les intellectuels (les vrais, ceux qui analysent, proposent de vraies réflexions pour nous mener vers l’émancipation collective). Créer des problèmes futiles qui détournent la population de l’essentiel: l’amenuisement de leurs droits, de leur autonomie et de leurs libertés.

 

J'SUIS PAS CONTENT ! - Manspreading, Photo pourrie & Cannibalisme en marche ! 

 

Claire Fighiera, 01.09.2017, Ribamar, Portugal

 

 
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