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Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

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A mentalidade artística e o seu papel num sistema de escassez - Parte 4, por Ricardo Lopes

 

 

A mentalidade artística e o seu papel num sistema

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE

 

4 - Considerações finais

O que está por detrás do papel que a arte ocupa na cultura humana e, principalmente, na cultura moderna é algo extremamente complexo, e que eu poderia explicar, pelo menos na extensão até à qual tenho conhecimento sobre o assunto, mas que demoraria mesmo muito tempo.

 

O que me apraz acrescentar acerca do assunto é que é muito importante aprender a comunicar com os outros, adaptar-se e fazer cedências para promover a cooperação e o bom funcionamento social e as relações interpessoais. A solução não passa por suprimir emoções ou banir as artes. Nada disso. Aliás, eu sou contra proibições e banimentos de qualquer tipo, que apenas conduzem à alienação social das pessoas que se identificam com elas e à sua prática clandestina. Proibições, banimentos e linchamento público não servem, a não ser como solução precária num sistema que precisa que se mude muita coisa, nomeadamente a nível cultural.

 

Ao contrário do que se possa pensar, eu não sou contra a arte por ser contra tudo o que existe de emocional no ser humano. Pelo contrário, acho que as pessoas deveriam comunicar muito mais honestamente e exprimir o que sentem, porque não o fazerem é que cria a necessidade de arranjar subterfúgios como a arte, que acaba por ser também um subterfúgio à realidade. A questão é que para comunicar é preciso aprender a fazê-lo, e adaptá-lo a cada pessoa. Isso não é fácil, e nem sempre dá resultado, mas é muito melhor do que atacar os outros porque não se concorda com as suas ideias. É um equilíbrio muito frágil, porque as pessoas estabelecem relações de identidade com determinadas coisas e principalmente com ideologias.

 

Quanto ao que eu espero da humanidade, eu não espero absolutamente nada. Aliás, tanto que eu não prevejo o que vai acontecer no futuro. Aquilo que eu faço é pegar no conhecimento que adquiri através de diversas áreas científicas, principalmente ciência social, comportamento humano e biologia, entre outras disciplinas aplicadas, para me reportar à forma como se poderia empregar esse conhecimento, que corresponde mesmo a algo de real acerca do mundo e das pessoas com as quais vivemos, para mudar aspetos da cultura que representam entraves culturais, como sejam acreditar que o que se tem na cabeça sob a forma de ideias corresponde a algo de real, que a linguagem, sendo simbólica, corresponde a algo de real, questões de propriedade intelectual, de imposição pessoal, de ego, de ostentação de status moral, de ostentação de status material, e tudo o mais que são aspetos do comportamento humano que derivam do facto de vivermos num sistema cultural que foi criado e se desenvolveu em condições de escassez material e de conhecimento, e que já não faz sentido perpetuar-se artificialmente, como acontece no mundo moderno através do sistema económico vigente. É com base nisto que estabeleço a previsão de que, provavelmente, no futuro, num sistema no qual impere a sanidade mental e se tenham ultrapassado determinados preceitos culturais, e se atribua muito mais importância às evidências e à validação empírica do conhecimento, não existam atividades como a arte, tal como hoje já existe muita gente que olha para a religião da mesma maneira e considera que não faz sentido existir numa civilização avançada, na qual a vida é pautada pela ciência.

 

Agora, nem a religião, nem a arte, nem qualquer outra atividade ideológica são a causa ou a fonte dos problemas que existem no mundo. Pelo menos, não se pode, de todo, considerar que estejam na sua origem. Todos esses métodos ideológicos são, essencialmente, formas primitivas de tentativas de conhecer o mundo ou de lidar com fenómenos inexplicáveis. Mas o comportamento humano deriva, primordialmente, do facto de se viver em sistemas de escassez consecutivos. Por isso, é tão fácil identificar características comuns, em termos comportamentais, entre pessoas que viveram em qualquer época histórica anterior àquela em que vivemos, e os nossos coetâneos. Aquilo que considero importante é que as pessoas sejam imunizadas contra os perigos inerentes à atividade artística, tal como muita gente já o é em relação à religião, podendo ter contacto com ela e não se deixar afetar, nem por isso a adotar como sistema de crenças. Também é importante que se faça oposição aberta ao que artistas, tal como se deveria fazer a outros ideólogos, transmitem em praça pública, e que, infelizmente, é considerado ainda por muitos como informação relevante acerca do assunto que estiver a ser tratado, para além de ensinar as pessoas tudo o que se sabe acerca da mentalidade artística e, principalmente, fazê-las perceber que, tal como acontece com a religião, tudo o que provém das artes não passa de algo fictício e que em nada corresponde ao mundo real. A mim, preocupa-me muito aquilo que pessoas que têm muita atenção e a quem é dado tempo de antena na praça pública transmitem como informação e a forma como influenciam as outras pessoas, que é algo muito mais importante e abrangente do que um dito anónimo pode fazer. Uma ideia como a do amor romântico pode disseminar-se (e disseminou-se, efetivamente) na cultura e ter uma força enorme na forma como, hoje em dia, as pessoas lidam umas com as outras em termos de relacionamento amoroso e como constroem as suas relações com base nesses ideais. E, neste caso, até foi algo criado pelos artistas e da sua inteira responsabilidade.

 

Todas as artes têm as mesmas características em comum, no que concerne à forma de apreender o mundo, que eu enumerei e descrevi. A palavra é um símbolo de algo, e não esse algo. A língua não corresponde a algo de real. E, mesmo em ciência, a linguagem que se usa é uma representação da realidade. E o ser humano está sempre limitado. A questão é que, dentro dessas limitações, que vão reduzindo também com a criação de instrumentos de estudo do universo cada vez mais aprimorados e rigorosos, a ciência é uma atividade na qual se valida o conhecimento empiricamente. Ou seja, não interessa o que quer que seja que alguém pense, se isso não for validado empiricamente através de experiências, recolha e tratamento de dados, então não constitui conhecimento. Este é o aspeto que diferencia o método científico e uma atitude empirista de todas as atividades a que eu costumo chamar de "ideológicas", como as artes, a filosofia, a política, a economia, o misticismo, a religião, etc.

 

O que eu quero dizer e reforçar, é que eu percebo porque é que existe arte e determinadas pessoas sentem necessidade de se exprimir dessa maneira. O problema está naquilo que eu referi, quando as pessoas começam a confundir ideias com realidade, símbolos com a realidade.

 

É óbvio que se eu ler, vir ou ouvir uma obra artística, eu sinto qualquer coisa, seja o que for, sinto-me bem ou mal, dependendo. Agora, a questão aqui é que a arte não tem o monopólio da expressão emocional nem das emoções. As emoções não são um exclusivo da atividade artística.

 

Para começar, aquilo que eu (ou outra pessoa) possa sentir quando vejo, leio ou oiço algo depende daquilo para o qual fui condicionado. Como deve ser fácil de perceber, pessoas de culturas diferentes, acham piada a coisas diferentes, experimentam emoções diferentes perante coisas semelhantes ou emoções semelhantes perante coisas diferentes. E o condicionamento a que somos sujeitos não depende apenas da cultura em que estamos inseridos, mas sim também da nossa própria experiência, que pode reforçar ou não o que a cultura nos transmite. Pode-se receber influências de diversos tipos, e tudo aquilo com que temos contacto nos molda enquanto pessoas, até porque aquilo que nós somos está contido no nosso cérebro, e já está demonstrado através da neurociência, que o cérebro é plástico e permeável, ou seja, muda, as conexões neuronais mudam, através da influência exercida por fatores externos, e é permeável a esses fatores que provêm do ambiente (que é tudo, desde a cultura à nossa experiência pessoal).

 

Portanto, como cada artista é apenas capaz de se reportar a si próprio, uma vez que a arte gira em torno da componente emocional do ser humano, e ninguém tem acesso direto ao que outras pessoas sentem, e pode apenas recolher informação disso através de símbolos, que são as palavras e a linguagem no geral, então aquilo que resulta da arte só pode ser o que o indivíduo experimenta na sua vida emocional e que tenta traduzir, seja em palavras, em sons, em imagens, em pinturas, a dançar, a esculpir, ou o que quer que seja a forma como decide exprimi-lo.

 

O que eu também quero dizer com isto tudo é que nem as artes são necessárias ao desenvolvimento emocional das pessoas, nem pessoas que não se interessem pelas artes são mais pobres emocionalmente do que quem é. Os artistas, ou os apreciadores de arte, simplesmente desenvolvem maneiras de se expressar emocionalmente de formas mais diversificadas, mas não necessariamente menos limitadas do que as outras pessoas. Por isso, também, é que eu digo que é tão importante que as pessoas aprendam a comunicar e a serem honestas umas com as outras, porque terminantemente nós apenas temos acesso ao "universo" emocional do outro se ele nos comunicar acerca de tal, sempre limitado pelo simbolismo da linguagem. A linguagem é altamente limitada quando se trata de alguém se reportar ao que pensa e sente. E simbolismo pode ser qualquer coisa, desde a palavra falada, à escrita (que não são equivalentes), à expressão corporal, à composição musical, etc.

 

Agora, como eu disse, não faz sentido banir nada disso, e eu compreendo que haja pessoas que sentem necessidade de ter contacto com arte e produzi-la para se expressarem. Mas, isso resulta de um condicionamento cultural e circunstancial para isso. Assim como percebo que haja pessoas que tenham necessidade de religião ou de outra coisa qualquer, porque isso faz parte da sua identidade pessoal. Agora isso não torna imperativo que alguém, para ser humano, necessite também disso.

 

O grande problema das atividades ideológicas, e em particular a arte, reside principalmente em não se conseguir ter contacto com algo inventado e lidar com isso como aquilo que é.

 

Como disse, uma pessoa não religiosa pode ter contacto com religião e não se torna religiosa nem se deixa influenciar necessariamente. Claro que pode ficar sempre exposta às ideias e numa determinada situação futura de, por exemplo, grande stress emocional sentir-se tentada a ou até aderir a elas, mais uma vez por desespero e por não encontrar recursos para lidar com a situação de outra maneira. O busílis do comportamento humano em todas as culturas que existiram até agora é escassez de recursos. Sempre. Numa situação de abundância, como nunca existiu até agora, muita coisa simplesmente não seria necessária ou não se criaria, de todo, para lidar com determinadas situações. E custa muito às pessoas perceber, mas tudo o que existe de ideológico brotou de uma condição de escassez e da necessidade de controlar o comportamento humano em tais circunstâncias. Tudo o que há de ideológico não é causa de nada no comportamento humano, a não ser a posteriori, quando integrado culturalmente e exercendo influência sobre os indivíduos. Mas, primordialmente, provém de uma situação de escassez. Escassez de recursos intelectuais para explicar determinados fenómenos naturais e o comportamento humano que resulta de uma situação de escassez.

 

Escassez de recursos materiais que conduz à necessidade de desenvolver determinados aspetos em termos de personalidade para poder sobreviver. Moralidade para controlar o comportamento humano, que não se consegue explicar de uma forma científica. Leis derivadas dessa moral para coagir o comportamento humano pela via física. Hierarquização social para proteger os privilégios de acesso a recursos escassos. Entre outras finalidades e outras ferramentas de controlo social, mas sempre tudo a girar em torno da escassez de recursos.

 

E o mesmo se aplica às relações humanas. Um número limitado de pessoas com quem alguém se pode relacionar modela o tratamento que é dado às relações e as ideias desenvolvidas em torno da forma como as pessoas se devem relacionar. Por que é que convém um modelo de relacionamento eterno entre duas pessoas? Porque a perda de uma relação, num mundo de relacionamentos escassos, é muito penosa emocionalmente, e convém que a pessoa por quem nos apaixonamos corresponda ao nosso ideal, porque há outra coisa que também é naturalmente escassa, e que até ver não há solução artificial para isso: o tempo de vida.

 

Portanto, principais fatores que determinam a vida em sociedade num sistema de escassez: escassez de tempo, escassez de recursos materiais indispensáveis à vida, escassez de relacionamentos humanos, escassez de conhecimento.

 

Solução para a escassez de recursos materiais: tecnologia. Solução para a escassez de relacionamentos humanos: comunicação real e efetiva. Solução para a escassez de conhecimento: ciência. Solução para a escassez de tempo: até agora, não há, mas é sempre possível aumentar a esperança média de vida através do desenvolvimento científico e tecnológico.

 

Por fim, é necessário alertar para a importância de tratar com cuidado toda a informação que se utiliza quando se estuda o comportamento humano, devendo-se sempre, dentro do possível, fazer correções para que os resultados sejam interpretados de acordo com o contexto em que se produz tal comportamento e não para supostos mecanismos inatos com que o cérebro vem incorporado desde o nascimento, ou ainda desde uma fase anterior ao desenvolvimento embrionário. Nunca é demais reforçar que algo que é comum, até ao momento, em todas as culturas que existiram e com as quais coabitamos atualmente, é o facto de se terem gerado e desenvolvido num sistema de escassez, aos níveis já apontados. Assim sendo, não é de estranhar que se encontrem manifestações semelhantes do comportamento humano. Daí provém o pessimismo até de muita gente das ciências sociais, de historiadores, e demais pessoas que se dedicam ao estudo de temas “transhistóricos” e transculturais. Perspetivando o comportamento humano como apresentando características universais e inalteráveis, e por não corrigir de acordo com o contexto, facilmente se cai no erro de considerar que, então, sempre tudo foi, é, e será de determinada maneira. Também tal conduz a menosprezar, ou desconsiderar completamente, a possibilidade de identificar os fatores ambientais que conduzem as pessoas a determinados comportamentos e arranjar soluções para os eliminar ou modificar. Tal crença pode ser reforçada quando se toma como modelos de estudo crianças já a partir do momento em que têm uma base de comunicação com elas, ou adultos.

 

Por não terem acesso ou ignorarem a importância destes conhecimentos, é que também se despreza o enorme potencial de mudar o mundo através da ciência e do método científico de aquisição de conhecimento (acerca do mundo real).

 

Também é comum, e isto é algo muito explorado por artistas, principalmente no domínio da ficção científica, interpretar negativamente o potencial da ciência para modificar o comportamento humano, associando a receios em torno das mais diversas ideias e projeções que fazem em torno da “engenharia social”, como se pode ler em obras como “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, ou “1984” de George Orwell.

 

Aquilo que estas pessoas que cultivam um discurso do medo realmente temem, quando falam em “engenharia social”, já existe, já se faz de qualquer maneira, e sempre se fez, através da cultura, do sistema de ensino, da televisão, dos meios de comunicação social no geral.  Não se trata de uma grande conspiração para tornar as pessoas em autómatos ou robotizá-las. Não tem de ter nada a ver com isso, é apenas uma questão de se fazer uma aplicação correta do conhecimento científico e da tecnologia. Tudo depende da forma como se aplica conhecimento relevante acerca do mundo real, e não de projeções que ideólogos se entretêm a fazer, extrapolando da “frieza” da tecnologia e da ciência para a “frieza” dos humanos resultado da “engenharia social”. O importante, no meio disto tudo, é perceber que as pessoas, por si só, não são nada nem carregam em si uma essência composta por ideias, valores, emoções, ou qualquer outro tipo de conteúdo. As pessoas são o resultado do ambiente em que vivem e das influências que recebem de tal ambiente, desde culturais a físicas.

 

Não queria terminar antes de fazer a ressalva de que este texto não procura esgotar, nem de perto, o tema da mentalidade artística, dos efeitos que tem no relacionamento interpessoal, das influências que a arte opera na componente abstrata da cultura humana. Utilizei aqui os conhecimentos que fui obtendo, não só em relação aos artistas e à sua forma de conceção artística, com quem fui tendo contacto ao longo da minha vida, de uma forma mais ou menos direta e mais ou menos pessoal. Procurei ser o mais rigoroso possível recorrendo a conhecimentos provenientes das ciências sociais, da neurociência e da biologia, evitando tratar tal informação de uma forma demasiado exaustiva, e pegando apenas nos pontos essenciais desse conhecimento para os aplicar ao tratamento deste tema. Procurei, também, evitar o recurso a conceitos da psicologia e psiquiatria, que são demasiado vagos. Ao mesmo tempo, tentei evitar tecer considerações acerca das emoções que os artistas sentem, tentando recorrer apenas a aspetos gerais do seu comportamento que permitem deduzir o seu comportamento psicológico. Recorri ao meu próprio caso, enquanto pessoa condicionada pela cultura artística e outrora produtor de arte, procurando sempre, dentro do possível, estabelecer paralelos com outros artistas, com todas as limitações que isso acarreta e, portanto, tudo o que aqui apresentei que não fundamentado cientificamente carece de validação empírica.

 

Ricardo Lopes

 

 

 
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A mentalidade artística e o seu papel num sistema de escassez - Parte 3, por Ricardo Lopes

 

 

A mentalidade artística e o seu papel num sistema

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE

 

3 – O contributo da arte em formas de cultura abstrata

Relativamente à cultura de género feminina, pelo menos no que se refere à cultura globalizada moderna e que é mais ou menos semelhante pelo mundo fora, um dos aspetos que se apresenta como crucial na determinação da suscetibilidade das mulheres aos “encantos” dos artistas é o facto de serem criadas para associarem tudo aquilo que pode ser considerado um ato bom a tudo aquilo que é acompanhado de sentimentos positivos. E, também, são educadas para atribuir uma importância muito maior às emoções e aos sentimentos do que à informação e ao conteúdo. Claro que isto é apenas uma generalização, e estas observações visam apenas a cultura à qual as mulheres são submetidas e que pretende determinar-lhes o comportamento, e não são para ser interpretadas como uma crítica às mulheres, individual ou coletivamente, até porque não existe o que é ser “mulher” nem o que é ser “homem”. Cada cultura o determina e impinge os preceitos para cada sexo, de acordo com as ideias e valores prevalecentes em cada época, e também de acordo com o papel social e divisão de tarefas que é estabelecido para homens e mulheres. Existem muitas mulheres que não seguem à risca os preceitos que a sua cultura de género determina, e isso também tem a ver com as experiências que têm e o contacto com informação diferente daquela que é disseminada pela cultura hegemónica. Aliás, devido ao facto de a experiência e o contacto com nova informação constituírem também fatores externos que operam sobre a modulação do comportamento dos indivíduos e serem fontes de influência externa, que sempre existiram indivíduos que decidiram fazer diferente da maioria, depois de terem sido mudados por experiências novas, e a cultura foi modificando em alguns aspetos ao longo do tempo, num ritmo inconstante, caso contrário ainda viveríamos todos no paleolítico e, possivelmente, nem sequer pertenceríamos a esta espécie, mas a outra qualquer de hominídeos. Mas, o que interessa aqui avaliar são tendências, e não criar estereótipos ou basear a análise neles. E, perante a importância que as mulheres são condicionadas para atribuir a aspetos emocionais e sentimentais, e porque, na sua oposição, os homens são condicionados para não se sentirem à vontade em comunicar acerca da sua dimensão emocional e sentimental, é terrivelmente fácil levar uma mulher a nutrir interesse por um artista que, como já mostrado, se apresenta como alguém aparentemente mais maduro emocionalmente, alguém que consegue lidar com e ajudar os outros a trabalhar a sua componente emocional e, também, porque as mulheres também são levadas a acreditar que a capacidade de sentir e o seu desenvolvimento e diversificação representam a essência da humanidade, então creem que não poderão desenvolver uma melhor relação do que com um ser humano íntegro na sua “natureza”, como é, aparentemente, um artista. Por isso, acontece frequentemente mulheres, como no caso de se relacionarem com pessoas comummente designadas de sociopatas, psicopatas ou manipuladores perversos – digo comummente porque os conceitos criados em psicologia e psiquiatria, por se basearem no mesmo problema de distanciamento importante entre emoção e a sua simbologia, em nada podem provar da incapacidade de alguém de experimentar determinados tipos de emoções ou sentimentos ou até de os experimentar de todo -, se deixarem enredar numa teia construída essencialmente através da apropriação de todo o seu espaço emocional pelo artista. E, também, é importante não ignorar o facto de todos os mecanismos artísticos que operam no condicionamento do artista para as artes e a produção artística, poderem também operar da mesma maneira na mente de quem tem contacto com tal, embora podendo não levar a pessoa a tornar-se artista ou até a fazê-la depender da expressão artística para manter a sua identidade. Com isto quero dizer que todas as armadilhas nas quais o artista cai quando tem contacto com a expressão artística de outros, desde o problema da ambiguidade linguística e comunicacional até à possibilidade de participar involuntariamente na reescrita da própria memória e, portanto, da própria identidade.

 

Outro dos aspetos nocivos promovidos quando se coloca o cerne na emoção como fonte de orientação moral é o facto de operar na normalização de comportamentos insanos, como sejam a vingança, a exploração emocional (como já expliquei), a dependência emocional de outrem, gostar de ver os outros sofrer e morrer, até mesmo tolerar violência física e apreciá-la quando cometida sobre alguém por quem desenvolvemos animosidade ou sentimentos negativos mais fortes. Por isso, é que recentemente tem havido um apelo contra a empatia, e pela retirada do aspeto emocional na tomada de decisões importantes, e do panorama político, por exemplo. Apenas é possível dirigir empatia, no sentido de ser-se capaz de se colocar na pele do outro quando ele passa por algo ao qual se possa associar um estado emocional, a pessoas com as quais conseguimos estabelecer relações de identidade e, como não haverá com certeza dificuldade em perceber, emoções negativas apenas justificam e legitimam ações insanas cometidas contra outras pessoas. Por isso, é que tantos artistas, das mais variadas áreas, falam em produzir arte com o objetivo de “ter um efeito positivo na vida de outros”, mas, perante toda a informação que já aqui expus, sabe-se que isso é impossível, ou pelo menos praticamente impossível.

 

Tudo isto tem uma relação estrita com a promoção de viés emocionais, que nos levam a tratar e a interpretar as ações de forma diferente no caso de provirem de pessoas de quem gostamos ou de outras das quais não gostamos. Os artistas particularmente, e por terem uma grande tendência para adotar uma postura furtiva em relação a pessoas que intuem possuir determinadas características ou defeitos de “caráter” considerados por eles suficientemente graves para invalidar até uma mera interação, quanto mais uma relação, e, no caso de se verem obrigados a comunicar com alguém assim, para além da atitude furtiva, evitam comunicar diretamente o que pensam. Algo que também exploram na sua arte, mais uma vez pela vida da subjetividade, ambiguidade e redundância, através da colocação do foco na forma, em figuras de estilo, em duplos sentidos, e em quaisquer outros utilitários de expressão artística que minam a clareza da mensagem e o processo de comunicação.

 

Para além disso, existe também o problema de confundir os artistas com pessoas mais sensíveis ou emotivas, ou ainda com uma maior capacidade emocional, o que tem somente que ver com o facto de eles se terem treinado para se exprimir de tal forma, aliado ao facto de a comunicação entre as pessoas ser, de uma forma geral, precária e desonesta. Nesta base, acredita-se, culturalmente, que os artistas são pessoas mais vocacionadas para dar atenção aos problemas humanos e aos outros, algo absolutamente incorreto.

 

No início do texto referi que, quando inseridas num sistema cultural, as pessoas são condicionadas para adotar tudo quanto faz parte da cultura abstrata – sob a forma de crenças, ideologias, normas, preconceitos, estereótipos, etc. – e comportarem-se, em termos de pensamentos, comportamento linguístico e corporal, de acordo com tal. Ora, os artistas sempre tiveram uma associação forte com as elites e classes sociais privilegiadas, por um lado porque, ao longo de praticamente toda a história humana, apenas pessoas provenientes dessas classes tinham contacto com o que era considerado cultura intelectual, existindo um grande distanciamento entre essas pessoas e todas as restantes, que poderia acontecer que nem sequer falassem a mesma língua, como aconteceu na atual Grã-Bretanha quando William, o Grande, da Normandia, conquistou grande parte do território, tornando o francês antigo na língua oficial da corte, do clero e dos demais intelectuais, ao mesmo tempo que o povo mantinha o inglês antigo como língua comum. Por outro lado, e quando não fazendo parte de famílias privilegiadas, os artistas viram-se obrigados a ir de encontro ao que agradava às elites, para serem por elas apadrinhados, e poderem fazer vida da sua arte. Assim sendo, os artistas, praticamente todos eles, sempre estiveram muito associados aos valores do status quo e à sua defesa, fazendo a apologia de tal na sua obra, de maneiras diferentes. Em todo o caso, e sejam quais foram as circunstâncias, quer o artista seja distinguido entre as elites intelectuais quer seja um artista popular, mesmo no mundo moderno a sua obra terá de preencher um número mínimo de preceitos e ir de encontro aos valores do público-alvo, para que possa ser distinguida e lhe permita fazer vida da arte. Portanto, o artista, por defeito das circunstâncias impostas por um sistema de escassez, nunca poderá inovar. Aliás, a bem dizer, há quanto tempo é que não perduram na cultura humana conceitos primitivos referentes a ideais de relacionamento entre as pessoas? Alguma vez os artistas se desfizeram de tal? Não. E quem fala deste exemplo, pode falar de muitos mais. Os artistas sempre reforçaram, através da sua obra, ideias acerca de uma suposta natureza humana imutável, que se manifesta sob a forma de comportamentos que se puderam ir observando ao longo da história humana, mas que não se preocuparam em perceber que tal apenas se verificou, e ainda se verifica, porque existem aspetos comuns na forma de organização social e no acesso das pessoas a recursos materiais, relacionais e intelectuais. Um bom exemplo de como um artista, neste caso uma mulher, pode associar a produção intelectual, seja ela de que tipo for, às elites, é Virginia Woolf que, e não obstante a grande distinção que recebeu no meio artístico, se ficou a saber, após a sua morte, que nutria profundo asco pelas pessoas das classes mais baixas, repudiando a ideia de sequer elas terem contacto com a sua literatura, defendendo que apenas as crianças provenientes das elites deveriam ter acesso a educação e humilhando intelectualmente os seus empregados, com os quais deixou a determinada altura de falar, passando apenas a deixar pela casa bilhetes com ordens para eles cumprirem.

 

Para terminar esta parte, resta-me tratar a questão da importância atribuída à emoção na determinação de objetivos de vida, construção de sonhos e do planeamento a longo prazo. Refiro-me ao facto de as pessoas serem condicionadas/educadas para apenas sentirem vontade de ou quererem dedicar-se a atividades que lhes permitam experimentar emoções da maneira mais forte possível. Todos esses grandes slogans que existem atualmente de “viver a vida ao máximo”, de fazer algo em que alguém se sinta perpetuamente bem, de participar em atividades que coloquem a “emoção à flor da pele”, de apenas se dedicar a algo que permita experimentar o máximo possível de emoções e sentimentos positivos. Isto não é completamente novo, mas é novo no sentido de ter sido transportado para a cultura popular e servir para produzir mensagens para incentivar as pessoas a fazer algo. Nunca antes na história passaria pela cabeça das pessoas que se dedicassem a algo porque gostavam de o fazer. Podia calhar que, concomitantemente, se sentissem bem com o que faziam. Mas, mesmo isso, não era algo que experimentassem continuamente, com toda a certeza. É perfeitamente normal que, mesmo quando a pessoa faz algo de que gosta, tenha momentos em que se sente frustrada, em que perde a paciência, momentos em que coloca em causa aquilo que faz e se questiona se tal lhe permite atingir os objetivos que estabeleceu para si própria. Não, não tem de se viver perpetuamente feliz, nem sequer num estado contínuo de bem-estar, e convencer as pessoas de que tal é possível apenas lhes coloca um novo ónus e as faz sentir-se mal por não conseguirem estar à altura das expectativas criadas para elas. Mais, não só achar que as pessoas se devem sentir continuamente bem faz mal, como é imaturo e causa ou agrava problemas existentes. É normal que uma pessoa não se sinta bem quando toma contacto com determinadas coisas com que é preciso tomar contacto para conhecer o mundo em que vive e estudar possíveis soluções para problemas existentes e para ajudar outras pessoas. É normal porque se toma contacto com muita coisa horrível e graficamente impressionante. Por isso, é bem melhor e saudável decidir fazer determinadas coisas com base em informação relevante sobre o assunto, e não porque algo nos faz sentir bem. Aliás, se vamos pelo que nos faz sentir bem e evitamos ou desprezamos o que nos faz sentir mal, então já estamos encaminhados para normalizar atrocidades como as que já referi anteriormente. A certa altura, tudo vale para alguém se sentir bem e evitar sentir-se mal. Ou, até, e porque os artistas não se limitam a pretender experimentar boas emoções, mas normalmente também procuram experimentar más sensações ao rubro, numa espécie de masoquismo, pode-se normalizar todo o tipo de comportamentos que estão relacionados com emoções, sensações ou sentimentos exagerados. Mas, retornando à questão da imaturidade, sim, é imaturo insistir em dedicar-se apenas a coisas emocionantes. Tal remete para uma fase precoce do desenvolvimento, na qual a apreensão do mundo se faz por via emocional. Também por isso, tanta gente gosta de fantasia e sente-se paralisada se não puder fazer algo emocionante ou se tentar resolver problemas ou encontrar soluções para elas trouxer muito de desagradável. É por isso que a apologia dos ideais feita pelos artistas é ridícula e nociva. Tem de andar sempre tudo a girar em torno de ideais, de sonhos. Por isso, Fernando Pessoa escreveu “Sem a loucura que é o homem/Mais que a besta sadia,/Cadáver adiado que procria?”. Pois, mas a incapacidade de atribuir propósito à vida para além de experimentar a loucura, que tem uma relação forte com a atitude hedonista-masoquista da experimentação de emoções à flor da pele, é tão somente uma limitação intelectual, e não tem de se ficar preso entre dois extremos, um no qual tudo tem de envolver emoção ao máximo, e outro no qual não se existe para mais do que cumprir com desígnios biológicos, já agora também eles inventados, como expliquei quando me referi ao problema do propósito e da intencionalidade. Assim, e com base nesta cultura do histerismo emocional, é fácil perceber porque é que se consegue levar as pessoas a preocuparem-se mais, e a estabelecerem uma relação de empatia ou simpatia, com personagens fictícios do que com pessoas reais com problemas reais, que são bem mais aborrecidos do que a grande saga para combater a ameaça dos mortos para a qual um Jon Snow foi o “escolhido” ou a grande saga para combater a ameaça do feiticeiro mau para o qual um Harry Potter é o “escolhido”. Aliás, poder-se-ia, também, tratar aqui da síndrome do salvador que corre pelos livros de fantasia e pela mente de pessoas que regem a sua vida pelo que lhes é ditado por figuras de autoridade ou ficam à espera que uma grande personagem profetizada surja, ou nasça, algures para sozinha resolver todos os problemas do mundo ou, como também é comum, os seus problemas pessoais ou que dizem respeito a algo que representa uma ameaça para a sua vida.

 

Ricardo Lopes

Próxima parte:

4 - Considerações finais

 

 
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A mentalidade artística e o seu papel num sistema de escassez - Parte 2, por Ricardo Lopes

 

 

A mentalidade artística e o seu papel num sistema

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE

 

2 – Efeitos comportamentais, em termos de pensamento e ação

Após a análise das características gerais da mentalidade artística, encontramo-nos agora em condições para prosseguir para a análise dos efeitos que tal tem sobre o comportamento do artista, principalmente no que se refere ao tratamento que dá às outras pessoas, enquanto fontes de informação para as suas criações.

 

Na senda da inversão de necessidades e da submissão da produção artística ao que tem uma boa receção entre as outras pessoas, sejam o público no geral (arte popular) ou um público restrito de privilegiados (arte elitista), que ainda assim é o suficiente para permitir ao artista uma situação económica estável para se dedicar exclusivamente à produção artística, chega-se facilmente a uma situação em que a arte é o centro da vida do artista, em redor do qual tudo o demais que lhe diz respeito gravita. Ao artista deixam de interessar as relações propriamente ditas com as outras pessoas, ou interessam apenas para delas poder recolher mais material, como fonte de inspiração para as suas obras. O que não interessa, com certeza, são as outras pessoas, que deixam de ser os indivíduos que são e com os quais eles se relacionam, e portanto aos quais têm de ceder um mínimo de afetos e dedicar tempo, para passarem a ser meros organismos que recebem determinados estímulos e produzem reações emocionais, que são o produto de interesse do artista. O objetivo último de produzir uma obra de arte sobrepõe-se a tudo o resto que faça parte da vida do artista, ao ponto de já nem ser certo que ele sinta aquilo que diz sentir e os sentimentos e emoções que diz tratar nas obras que faz, mas tão simplesmente trabalha com os símbolos de tal.

 

E, há outro grande problema que afeta os artistas. É que, geralmente, eles criam melhor e mais facilmente no momento emocional, ou seja, no momento em que estão a experimentar algum tipo de sentimento ou emoção, que por se manifestar num determinado contexto ou ser provocado por uma determinada situação tem para o artista um caráter mais genuíno, o que se interrelaciona com as questões do ego, do “eu” e da originalidade que já qui tratámos. Portanto, ao artista interessaria uma situação ideal na qual, ao mesmo tempo que está a sentir algo o pudesse imediatamente transpor para a obra a criar, uma vez que as emoções são um dos mais eficazes gatilhos de memórias, memórias que trazem consigo muito conteúdo e formas sensoriais e sentimentais que podem ser exploradas em conjunto pelo artista no momento em que as experimenta, mas que se esvanecem ou se misturam uma vez ultrapassado o efeito emocional. Por isso, tantos artistas recorrem a psicotrópicos como forma de hiperestimular o cérebro e trazer de volta determinadas emoções e com elas as memórias que vêm atreladas e que normalmente são mais vívidas. Um bom exemplo disso é o que Lars von Trier disse há uns anos atrás. Ele afirmou que se tinha libertado da dependência de drogas e que, portanto, considerava que seria muito difícil ou praticamente impossível que fosse capaz de voltar a criar algo de relevante ou com tão boa “qualidade” como outras das suas obras. E deu o exemplo do filme “Dogville” cujo guião, se bem me lembro, escreveu no espaço de semanas e resultou num dos seus mais aclamados filmes, enquanto que demorou 18 meses a escrever o guião do filme “Nymphomaniac” que, segundo o próprio, ficou muito aquém do anterior em termos de qualidade. A questão prende-se sempre com a capacidade de estabelecer mais associações entre diferentes informações que têm na cabeça e estarem numa condição o mais hipersensível possível, para experimentarem emoções e sentimentos com maior intensidade. E é isso que as drogas ou outros psicotrópicos, como o álcool, permitem.

 

Agora, em relação ainda a este assunto, é importante perceber que a dependência das drogas é causada, não pelo contacto com as drogas em si e os efeitos cerebrais que têm, mas sim com as condições materiais, e de vida no geral, que as pessoas têm. Há pessoas que ficam internadas no hospital a receber morfina para o alívio das dores que sentem e, quando saem, por terem uma vida material e psicologicamente estável, não sentem necessidade de continuar a usar a droga. Há pessoas que simplesmente por amadurecerem e assumirem determinadas responsabilidades, colocam de parte o hábito de consumir drogas que adquiriram durante a adolescência e mantiveram durante alguns anos. As pessoas que mantêm a dependência das drogas são, geralmente, aquelas que têm condições de vida precárias, e que necessitam da droga como um escape. Ora, os artistas necessitam das drogas, quando as usam – e muitos usam -, normalmente por várias razões. Uma delas, e talvez a principal, é que têm uma vida emocional e psicológica bastante precária. Ao contrário do que seria de esperar de pessoas que, supostamente, têm uma maior densidade e maturidade emocional, a esmagadora maioria dos artistas padece de um ou vários distúrbios psicológicos e pelo menos de um nunca se livram, que é a insanidade, correspondente à incapacidade de distinguirem ideias e símbolos da realidade. E, perante a explicação que aqui deixei, é fácil de perceber porque é que tal não só acontece, como é o mais provável de acontecer. Os artistas, devido à sua necessidade de trabalhar a vida emocional e de explorá-la para produzir arte e para apreender o mundo em que vivem, habituam-se a remoer e remoer infindavelmente os mesmos assuntos, os mesmos acontecimentos, as mesmas situações e as mesmas relações que tiveram ou têm com outras pessoas. E, com o tempo, e através de todos os processos que operam na mente artística que eu descrevi, podem entrar em conflito interno com as memórias que modificaram acerca de determinadas pessoas e acontecimentos, podem fazer-se sofrer desnecessariamente por se levarem a acreditar que, afinal, relações que tiveram ainda foram mais precárias do que aquilo que tinham sentido na altura, podem entrar em ciclos infernais de crises de identidade pela diversificação emocional que operam dentro de si mesmos, e podem ainda padecer de todo o stress, ansiedade e demais estados psicológicos negativos provocados pelas exigências laborais do sistema capitalista, podendo ser obrigados a produzir de acordo com calendários que não os satisfazem, ter de lidar com críticas negativas ou críticas positivas que consideram falhar na interpretação do que fizeram e representar mal a sua obra, entre muitas outras coisas. Mas, para além disso tudo, os artistas podem recorrer às drogas, também, para produzirem mais facilmente e de acordo com determinados critérios de qualidade que estabelecem para si próprios ou lhes são impostos por outros.

 

E é por toda esta necessidade adquirida de explorar as situações emocionais que surgem na sua própria vida, que são a única fonte de informação para a sua produção artística que é comum que, por exemplo, no decorrer de uma conversa ou de outro tipo de interação comunicacional com outra pessoa, de repente entrem em mutismo, se tornem taciturnos e que pareça que estão distantes e não estão a dar importância ao que a outra pessoa está a dizer. É altamente comum porque, perante algo com o qual têm contacto naquele momento, que pode ser qualquer coisa, desde a entoação, até uma frase específica que a pessoa profere, até à cascata de emoções que lhe é provocada pelo facto de a pessoa estar numa determinada disposição, ou até qualquer outra coisa que esteja presente no ambiente no momento em que acontece algo, funciona como gatilho (que é aquilo a que chamam de “inspiração”) para trazer à mente toda uma miríade de associações estabelecidas através da memória, que podem envolver pessoas, situações, acontecimentos passados ou, então, apenas uma experiência emocional considerada importante pelo próprio. Por isso, também, com o tempo, participam, de forma mais ou menos voluntária na destruição das relações interpessoais que estabelecem. Isso é bem apresentado e explorado em filmes como “Through a Glass Darkly” ou “Autumn Sonata” de Ingmar Bergman. No primeiro, temos a história de uma mulher que vai passar férias com o marido juntamente com o resto da família, incluindo o pai, que é um escritor que explora literariamente a condição psicológica da filha, não se preocupando particularmente em resolvê-la, e tal é revelado pelo genro numa discussão entre os dois, algo que o próprio acaba por não negar, e situação para a qual a própria filha descobre provas, quando lê as notas e os textos do pai. No segundo, encontramos uma situação muito semelhante, de afastamento emocional e pessoal de um dos pais (neste caso, a mãe) em relação aos filhos, sendo que as principais vítimas são normalmente mulheres devido à sua cultura de género (algo que irei tratar a seguir) e aos distúrbios emocionais provocados pelo distanciamento físico e emocional de uma ou das duas principais referências para o desenvolvimento emocional. Nos dois casos, qualquer uma das pessoas que não se dedica a nem demonstra pretensões artísticas é apresentada como sendo bem mais sã, a nível psicológico, do que os artistas, para além de ser mais empática para com as pessoas de quem gosta, dispor-se a ajudar e estar legitimamente preocupada com a sua situação.

 

Ricardo Lopes

Próximas partes:

3 - O contributo da arte em formas de cultura abstrata

4 - Considerações finais

 

 
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A mentalidade artística e o seu papel num sistema de escassez - Parte 1, por Ricardo Lopes

 

 

A mentalidade artística e o seu papel num sistema

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE

 

Tendo já tratado, aqui no blogue, dos problemas da atividade artística e dos produtores e amantes de arte de uma forma sintética e superficial, vou agora redigir aquele que poderá ser um extenso artigo, no qual me disporei a tratar os seguintes tópicos:

 

- Condicionamento artístico (fatores externos aos quais alguém é submetido que o levam a desenvolver uma mentalidade artística; progressão psicológica de uma necessidade de expressão emocional até que a atividade em si se torna numa necessidade; fatores paralelos, como o reconhecimento e a pressão social sob a forma dos mais variados tipos de distinções, e como conduzem ao reforço de tal disposição para a vida e para a apreensão do mundo e das pessoas; questões de ego que brotam num sistema de escassez; viés culturais; problemas gerais da linguagem e particulares da expressão artística; neuroplasticidade, neuropermeabilidade, memória);

- Efeitos comportamentais, em termos de pensamento e ação (capacidade emocional; densidade; exploração das relações interpessoais; relação com psicotrópicos);

- O contributo da arte em formas de cultura abstrata (relação com a cultura de género feminina; normalização de comportamentos insanos por via da sobrevalorização da componente emocional nas relações; crença no papel humanitário imprescindível; promoção do tratamento diferencial por via emocional; associação dos artistas com personalidade sensível, empática e emocionalmente mais complexa e rica).

- Considerações finais e enquadramento do comportamento artístico num cenário cultural mais amplo.

 

Parte 1 - Condicionamento artístico

 

Para compreender o artista, é necessário, tal como acontece com qualquer outra pessoa cujo comportamento se pretende estudar, enquadrá-lo, primariamente, no seu contexto cultural. Todos vivemos em culturas que, por via da escassez de recursos (algo de que me socorrerei na quarta parte deste texto, e cujos efeitos procurarei expor de forma abreviada), integraram conteúdos abstratos (tudo o que faz parte da cultura ideológica, não material) que, através de um sistema simbólico de comunicação, como é a linguagem, reforçaram uma certa forma de epistemologia que implica que sejamos condicionados para adotar (e isso acarreta um processo de identificação) determinadas crenças, normas, ideologias, preconceitos e demais valores. Munidos de tal, saímos a projetar todas essas abstrações no mundo em nosso redor e, principalmente, nas outras pessoas e no seu comportamento. Permitimo-nos tirar conclusões precipitadas (e daí também derivam as primeiras impressões e os seus efeitos na apreensão que fazemos do outro, ainda antes sequer de lhe termos dado oportunidade de fazer o que quer que seja) e formular juízos desinformados acerca das outras pessoas. Convencemo-nos de que isso corresponde à realidade, que o que temos na cabeça sob a forma de abstrações tem uma correspondência direta com algo que se encontra no mundo ou que observamos no comportamento alheio ou em qualquer tipo de fenómeno material. E, por fim, lá vamos nós lançados a cristalizar o que resulta desse processo como uma verdade universal, categórica, ou o que lhe queiram chamar.

 

O que é que dá?

 

 

Sim, dá merda.

 

E a forma como dá merda e o que essa merda representa nas relações humanas será tratado ao longo deste artigo.

Portanto, temos estas características gerais de modulação da mentalidade e princípios epistemológicos difundidos culturalmente e integrados por todos os seres humanos que vivem em qualquer uma das culturas hegemónicas que se podem encontrar pelo mundo fora, e também por todos aqueles que viveram em todas as culturas que existiram ao longo da história. Isto porque me estou a reportar a características basais acerca da forma como o ser humano trata informação abstrata de um ponto de vista cultural, ou seja, em termos dos conteúdos que são transmitidos entre pessoas de um determinado grupo, ou tribo, maior ou menor que seja em termos de número de indivíduos que o compõem.

 

Até ver, nada disto diferencia os artistas de todos os outros. Estamos apenas a falar de características da cultura hegemónica e da forma como determinados princípios epistemológicos condicionam a forma de pensar, de ver o mundo, de interpretar os outros e o seu comportamento. Tudo isto fomenta o pensamento ideológico e é um dos fatores que opera (outros ainda anteriores e mais primordiais são de ordem material, mas isso não é para ser tratado aqui) na formação da mentalidade e na estruturação das atividades ideológicas, entre as quais se contam a filosofia, a religião, a arte, a política, a lei, a economia, o misticismo, o esoterismo, entre outras coisas do mesmo género.

 

O que distingue, em particular, os artistas de outros tipos de ideólogos é que, para além de, por uma via ou por outra, serem levados a apreciar arte e, mediante a exposição continuada a manifestações e expressões artísticas do mais variado tipo (ou apenas de um único tipo, não interessa), adquirirem uma especial apetência para a apreciação deste tipo de atividade ideológica e criarem uma relação de identidade com ela. Eu faço questão de reiterar o processo de identificação, uma vez que é extremamente importante para perceber como opera o condicionamento cultural, principalmente quando diz respeito a algo de ordem imaterial, como são as ideias e demais abstrações. Aquilo com o qual as pessoas se identificam e integram no conceito de “eu”, correspondente à ideia que constroem acerca de si próprias através das mais diversas influências que vão recebendo ao longo da vida, tem uma força muito grande, no que diz respeito à profundidade de condicionamento que produz.

 

Continuando, temos, então, as influências da cultura hegemónica (na sua componente abstrata) e as influências da cultura artística. Ora, sendo que o indivíduo, enquanto unidade cultural, tende a adotar formas de expressão com as quais estabelece relações de identidade – como seja alguém que se identifica como adepto de um clube de futebol e se exprime através da participação na assistência de um jogo; alguém religioso exprime-se frequentando cerimónias religiosas e demais rituais associados à sua religião -, o apreciador de arte, muito facilmente, desenvolve uma necessidade de se expressar artisticamente. Essa expressão artística pode fazer-se através do consumo de arte produzida por outros, mas muitas vezes transforma-se numa necessidade de produzir o seu próprio conteúdo artístico.

 

Agora, o que é que a arte tem de característico, que normalmente está ausente, pelo menos em teoria, ou que não é tão vincado noutras atividades ideológicas? A componente emocional. A arte revolve toda em torno da emoção, daquilo que provoca o “belo”, o “feio”, da criação de estruturas próprias que permitem veicular determinadas emoções, como sejam as figuras de estilo na escrita, a tonalidade na música, a técnica e as cores na pintura, a relação de proxémica entre a câmara e um determinado personagem no cinema, entre uma grande diversidade de aspetos nas várias artes. Portanto, a arte representa a atividade ideológica egocêntrica por excelência, porque se centra em algo que apenas o indivíduo pode experimentar, e que é incomunicável, até mesmo por via linguística, devido a evidentes limitações. Se eu me quero reportar ao que sinto, então tenho de me centrar em mim próprio. Se eu me quero reportar ao que os outros sentem, tenho também, necessária e invariavelmente, de me reportar a mim próprio, porque existe um obstáculo comunicacional inultrapassável na tentativa de acesso direto às emoções alheias. Portanto, está-se sempre dependente dos relatos que as outras pessoas fazem que, por sua vez, dependem da forma como foram condicionadas. Por um lado, e como não se tem acesso às emoções alheias, tem de se ficar irremediavelmente dependente daquilo que aprendemos a associar às palavras que usamos para nos referirmos às emoções, ou então das impressões que fazemos acerca daquilo que as outras pessoas sentem quando nos dizem que se sentem de determinada maneira. Não quero aqui entrar em discussões do ovo e da galinha, até porque não me parece que tal tenha fundamento. O que interessa é que, nas fases mais precoces de desenvolvimento humano, incluindo o desenvolvimento linguístico, as pessoas, neste caso as crianças, podem aprender a estabelecer associações entre determinados vocábulos e emoções de diversas maneiras. Podem experimentar uma emoção e, por força do hábito, aprenderem dos pais que aquilo que sentem é estar “triste” ou estar “contente” ou estar “chateado” ou estar “frustrado”, ou o que quer que seja. Podem experimentar um determinado tipo de comportamento da parte de outra pessoa, ouvir de alguém que essa pessoa está “feliz” ou “furiosa” ou “aborrecida” e associar isso à expressão facial que o visado ostenta nesse momento, ou à memória disso. Podem até associar vocábulos para exprimir emoções, ou até expressões (mais do que uma palavra), àquilo que sentem quando alguém se comporta de determinada maneira e diz que se sente de tal forma, confundindo o seu próprio sentimento ou emoção com aquilo que a outra pessoa sente. E, enfim, isto não esgota todas as possibilidades de estabelecimento associativo entre desenvolvimento linguístico e emocional. Serve apenas para ilustrar, sob a forma de exemplos, como tudo isso parte do condicionamento cultural ao qual a criança é submetida e, claro, também das particularidades das experiências que tem. Este último aspeto é importante, porque permite estabelecer uma ainda maior distanciação entre as emoções quando tratadas pela cultura hegemónica – já a carregarem com todos os problemas referentes a ambiguidade linguística, barreiras comunicacionais insuperáveis, etc. – e o desenvolvimento emocional de cada pessoa individualmente que resulta das complexas interações precoces que estabelece com outros e, também, da língua e do vocabulário utilizado pelas pessoas com quem aprende a falar.

 

Em resumo, temos pessoas que são condicionadas de uma maneira única para estabelecer associações entre emoções que não podemos conhecer enquanto tal e determinadas palavras, que foram influenciadas pela cultura artística, pela epistemologia ideológica, que estabeleceram uma relação de identidade com a arte e que, com tal, desenvolveram a necessidade de se expressar pessoalmente através do seu consumo ou da sua produção.

 

Para além disso, há ainda um outro aspeto relacionado com a forma como o cérebro humano se desenvolve em sociedade, que é o facto de o indivíduo ser submetido a várias formas de pressão social e, neste sistema, aprender a construir a sua identidade em torno da aceitação que recebe dos pares, e ainda mais do reconhecimento de que é alvo, quando tal acontece e atinge proporções importantes. Para além disso, também é necessário estar integrado socialmente e ter sucesso na área de atividade a que alguém se dedica para poder fazer vida dela. Portanto, e como a expressão artística se torna uma necessidade para o seu praticante, por fazer parte da sua identidade, o artista rapidamente transita de uma necessidade de trabalho da sua vida emocional, para a necessidade de produzir arte e, mais tarde, para a necessidade de produzir algo que lhe permita receber a distinção dos seus pares, uma vez que lhe é tão necessário poder, idealmente, dedicar-se à expressão artística a tempo inteiro, visto que se tornou o cerne da sua vida, da sua identidade e da sua pessoa, do seu “eu”.

 

Assim sendo, opera-se uma inversão de necessidades. Algo que originalmente correspondia apenas a uma forma adquirida de expressão e desenvolvimento emocional, transformar-se na necessidade de praticar o ato artístico, e ainda na necessidade de corresponder a determinados critérios que permitam ao indivíduo ser distinguido pela sua obra. Pode tal até tornar-se num círculo, que começa e acaba na necessidade do trabalho da componente emocional, que entretanto se tornou no cerne e em praticamente tudo aquilo com o qual o indivíduo se identifica. Mas muito facilmente o artista começa a confundir e a misturar todas essas necessidades, que derivam do funcionamento de um sistema de escassez, no qual é preciso competir por lugares de destaque para que se tenha a oportunidade de exercer determinada atividade. Ou seja, toda a vida do artista passa a girar em torno da arte e da produção artística, tornando-se tudo o resto absolutamente secundário e, provavelmente, até prescindível. Isto porque o ato artístico em si passa a carregar toda a identidade do artista, sob a forma da sua vida emocional (que, para ele, é a única que existe, e também por isso é que com tanta facilidade temem o desenvolvimento tecnológico e a instrumentalização mental que fazem da ciência, como uma ferramenta de engenharia humana e social. Tudo o que possa atuar num ambiente que consideram emocionalmente estéril, tão simplesmente porque as emoções não são o foco comunicacional das pessoas que a tais atividades se dedicam, é-lhes hostil.), juntamente com o reforço das influências artísticas que receberam e, ainda, é a única coisa sobre a qual incide a aprovação de outrem e o reforço social da individualidade.

 

Ainda, entram também todas as questões em torno da sua identidade. As questões do “eu”, do ser “eu próprio”, questões de originalidade relacionadas com a atribuição de mérito pela obra artística. O problema da originalidade é um dos que mais apoquenta os artistas. Isso deriva também muito do facto de viverem numa cultura que promove o culto da personalidade, sob a forma de figuras de autoridade, que são aqueles que, de uma forma ou de outra, se distinguiram nas respetivas áreas de atividade. No mundo artístico, tal opera exatamente da mesma maneira. Tanto que o principal foco é o autor das obras e o seu estilo particular. Um que se distinguiu na poesia porque desenvolveu um novo sistema de rima, outro que se distinguiu na pintura porque desenvolveu uma nova técnica de pintura, outro que se distinguiu no cinema porque modificou o posicionamento da câmara em relação aos personagens. Enfim, os autores distinguem-se principalmente pelo estilo. Aliás, a verdade é que os possíveis conteúdos de criação ficcional já foram todos esgotados, e apenas se podem criar novas perspetivas sobre os mesmos. E, quando a perspetiva impera sobre o tema ou o conteúdo, mais uma vez se promove o egocentrismo, porque tudo passa a reduzir-se à peculiaridade da forma como o autor decide abordar um determinado assunto. Tudo revolve em torno da forma, e não do conteúdo. O conteúdo, até, se torna em algo que se explora para compor a forma. Por isso, é comum ouvir dos artistas que foram influenciados por determinados autores, mas que divergiram para fazer as suas próprias criações. Ou seja, custa-lhes admitir, e até ter contacto com a informação, que tudo aquilo que fazem, e o que designam de criatividade, não passa da combinação de elementos conhecidos em novos arranjos. E, esses novos arranjos são aquilo que se designa comummente como algo “original”. Toda a gente é o fruto da cultura em que vive, mais as experiências que tem. Mas, considerar que o que fazem não os distingue de qualquer outra pessoa, é demasiado penoso para os artistas, uma vez que, de acordo com a sua mentalidade, implica uma perda de individualidade. E possuir individualidade é uma condição necessária no processo de identificação. Por isso, e porque para ser possível um processo de identificação tem de existir algo no indivíduo que seja permanente, é que artistas como Fernando Pessoa sentiram necessidade de criar novos personagens dentro de si próprios, aos quais atribuir pensamentos, emoções e características que eram estrangeiras à pessoa com a qual se identificavam. Isso pode também ser resultado do processo de diversificação artística do trabalho emocional. A necessidade de se tornar progressivamente mais complexo em termos emocionais, e com um maior leque de emoções e perspetivas ao dispor, pode provocar, claro que apenas a nível estritamente mental, uma rutura psicológica.

 

Este processo de rutura psicológica pode ser também aquele ao qual se submetem os artistas quando pretendem criar personagens que querem distintos deles próprios. Já sabemos que é impossível lidar com emoções para além daquilo que é possível experimentar intrapsiquicamente e que, portanto, todas as considerações que se possam estabelecer em termos de análise emocional partem do próprio e estão relacionadas com o seu ego. Mas, se se acredita que, por um trabalho de aprofundamento e diversificação emocional se pode conhecer as emoções alheias e, até, reduzi-las ao simbolismo artístico, então também rapidamente se transita disso para a crença de que é possível ler as emoções e os pensamentos derivados dessa expressividade emocional de outras pessoas e ter acesso, dentro da psique do observador, à intimidade emocional incomunicável do outro. Isto não é exclusivo dos artistas, devido ao caráter de promoção da mentalidade ideológica da cultura humana construída num sistema de escassez, mas é agravado fortemente neles. Por isso, se convencem que são capazes de criar personagens realistas distintas deles próprios. E consideram a realidade desses personagens, a sua credibilidade em termos humanos, porque não existe para eles nada de mais genuíno no ser humano do que as suas emoções. Então, não é possível ser humanista sem explorar as emoções humanas numa atividade que se promove para chegar aos outros, como se carregasse em si a derradeira verdade acerca da essência da condição humana.

 

E, por via dessa crença inabalável na capacidade de leitura das emoções alheias, pelo facto de se convencerem que calibraram um suposto mecanismo de leitura pelo facto de se terem dedicado durante muito tempo e muito profundamente ao tratamento das suas próprias emoções, sempre que alguém faz ou diz algo, sempre que alguém exibe alguma forma de comportamento, já vão por ali fora desgovernados a fazer suposições e a atribuir significados aos mais mínimos detalhes da interação com outras pessoas. Detalhes esses que podem estar presentes por mero acaso. Mas, também não esqueçamos que desde o século XIX, com autores como Schopenhauer, Dostoiévski e Freud, ainda mais se legitimou a crença em que se pode conhecer a psique de outra pessoa ainda melhor do que ela própria por vida de sinais subtis detetados no seu comportamento. Não pretendo com isto negar que o comportamento humano é essencialmente determinado por processos subconscientes e tem muito mais de automático e determinístico do que os arautos da liberdade pretendem ceder que tenha. Mas, partir daí para arrogar mais conhecimento acerca das emoções alheias e dos pensamentos associados a elas do que os próprios autores do comportamento, com todas as limitações comunicacionais já consideradas, é por demais arrogante, para dizer o mínimo.

 

Outro aspeto importante que determina a mentalidade artística, e que também não é exclusivo da mesma mas, mais uma vez, concorre para agravar a condição, está relacionado com viés culturais, que é algo que vou aprofundar mais à frente, mas que pretendo referir agora para me reportar a um importante tipo de viés que condiciona fortemente a forma como apreendemos a informação que nos chega do exterior e as relações e associações que estabelecemos entre diferentes elementos. Refiro-me ao viés que nos leva a confundir correlação com causalidade. Correlação é tão simplesmente tudo aquilo que se pode dizer de duas coisas que acontecem simultaneamente ou sequencialmente e que são identificadas na cadeia de acontecimentos. Ou seja, pode-se observar que um acontecimento precede outro ou que o acompanha. E, é apenas isto que significa correlação. Não tem nada a ver com causalidade, que diz respeito ao estabelecimento de uma relação de causa-efeito entre dois acontecimentos. Porque algo precede ou acompanha outra coisa, por si só não implica que seja causa dessa mesma coisa que precede ou acompanha. Porque é que isto é importante? Porque é um aspeto comum da mentalidade humana atribuir um significado ou um propósito que se deriva de uma cadeia de causa-efeito. Ou seja, considerar que se algo provocou outra coisa, então aquilo que constitui a causa acontece com o propósito de permitir que aconteça o que lhe sucede. É como considerar que a evolução das espécies é intencional, que segue um trajeto de melhoramento progressivo das características das espécies, que tem um determinado objetivo definido, que o sexo existe com o propósito de dar continuidade às espécies, entre outras considerações comuns estabelecidas em torno da biologia evolutiva. Tal é completamente erróneo, como poderão ler aqui. Eu decidi incluir isto nesta exposição acerca da mentalidade artística porque é por via deste tipo de mecanismos mentais que os artistas são levados a fazer leituras excessivas dos mais mínimos detalhes do comportamento humano. Tudo tem de querer dizer alguma coisa, tudo tem de ter um propósito, tem de existir uma intenção por detrás de tudo o que as pessoas fazem e, algumas vezes também, por detrás dos fenómenos naturais que ocorrem no universo, tudo tem de ter um significado. Também por causa disto é que tão facilmente enveredam por histerias observacionais, quando, para eles, todos os mais mínimos detalhes que digam respeito à postura corporal, à expressão facial, ao tom de voz, ao conteúdo daquilo que as pessoas dizem tem de concorrer necessariamente para a formulação de um significado único ou múltiplo acerca do seu comportamento. Nada pode ser por acaso e, normalmente, calha que vai de encontro aos preconceitos que já formularam acerca da pessoa em causa e diz tudo respeito a eles próprios. Por isso, existem obras terrivelmente claustrofóbicas nas quais, por exemplo, um artista que se representa a si próprio como um transeunte consegue transformar tudo em seu redor num ambiente hostil porque consegue interpretar tudo como sendo dirigido a ele. Tudo o que as outras pessoas fazem tem-no a ele como alvo. Até podem existir outras coisas dentro da cabeça das pessoas mas, assim que sai à rua, não só toda a gente repara nele, como fica exposto, como que nu, aos julgamentos de toda a gente que o encontrar no seu campo visual.

 

Neste momento, vamos retroceder um pouco, e retornar às influências que os artistas recebem da parte de outros artistas e a forma como processam essa informação. Ora, penso que seja fácil de perceber a ideia de que é inevitável para alguém que tem contacto com algo tão subjetivo como é tudo aquilo que se foca na componente emocional da psique humana, neste caso a arte, preencher o espaço criado pela ambiguidade a bel-prazer e com o que quer que seja que conheça e com o qual consiga estabelecer uma relação de associação com a restante informação. Por outras palavras, toda a subjetividade inerente a uma obra de arte é espaço a ser preenchido pelo observador com aquilo que lhe assome à mente sob a forma de memória que é despoletada pelo contacto com determinados sinais externos. Pode-se ter associado mentalmente, por via de memória, um odor a uma emoção ou um acontecimento específico, ou até a outra obra de arte qualquer. Pode-se ter associado uma palavra a um acontecimento, ou a vários de entre os quais um é mais facilmente recordado. Pode-se ter associado uma música a alguém. Tudo isto para dizer que aquilo que determina a interpretação que alguém faz de uma obra artística resulta completamente da informação prévia com que se teve contacto e com a qual se estabeleceu memória associativa. Portanto, mais uma vez, a obra artística promove o egocentrismo pela via da subjetividade, sendo que cada pessoa pode forçar nela qualquer tipo de projeção que tenha ao dispor por via da memória. Por isso, é que tantas vezes se leem críticas nas quais se estabelecem paralelos tão absurdos como considerar que aquilo que determinado artista representou numa obra corresponde a acontecimentos que apenas tiveram lugar após a conceção da obra ou após a morte do próprio autor, como se o mesmo fosse dotado de uma capacidade de profecia, quando, na verdade, o crítico está apenas a estabelecer uma associação com algo que lhe é familiar e com o qual estabelece uma relação de semelhança ou, até, de identidade por via da subjetividade da obra, que permite tudo.

 

Por isso, há quem diga que a arte pode ser usada como um tubo de ensaio, para testar hipóteses e cenários alternativos, mas o grande problema é que tudo o que possa resultar dessa experimentação está acorrentado às limitações do autor, em termos daquilo que conhece, da sua memória (que é altamente falha), e de toda a informação com a qual alguma vez teve contacto. É impossível superar as limitações impostas por aquilo que se conhece e é por isso que não existe realmente liberdade de pensamento, ao contrário da crença que é veiculada pelos artistas e outros ideólogos. Para além disso, e apenas como uma pequena nota, é arrogante considerar que se é capaz de testar algo dentro da própria cabeça e, através dos resultados de tal, tirar ilações acerca da própria realidade, do mundo e do comportamento humano.

 

Também há a considerar outros aspetos que resultam da ambiguidade e da redundância inerentes à linguagem. Antes de mais, e porque já se faz tarde, deixo-vos o link para um artigo acerca da origem e evolução da linguagem humana, através de exemplos de algumas das línguas mais faladas no mundo, para que possam perceber melhor porque é que não existe uma relação de correspondência entre a palavra (escrita ou falada, que são diferentes) e o que quer que seja de real que pretende meramente simbolizar. Prosseguindo, o problema da ambiguidade e da redundância na língua é importante, porque permite compreender os mecanismos (diria mais malabarismos) aos quais os artistas recorrem para fabricar uma maior abrangência emocional. A ambiguidade permite que diferentes pessoas façam diferentes interpretações de algo que é apresentado como sendo emocionalmente importante e atribuir uma certa universalidade à obra, pelo que também é comum ouvir de artistas que se sentem satisfeitos quando a sua obra provoca uma grande diversidade de reações emocionais. A redundância permite que se trate das mesmas coisas de uma muito grande diversidade de maneiras, transmitindo a impressão de que se está a inovar a forma de olhar para uma determinada coisa, quando se está simplesmente a referir a ela, e possivelmente aos mesmos aspetos dessa coisa, mas de maneira diferente. Mais uma vez, o foco na forma e não no conteúdo. É também por isso que há autores que, principalmente numa fase mais tardia da vida, quando já esgotaram todos os temas que podem abordar nas suas obras - e que geralmente são muito limitados, daí que aquilo que se considera como sendo obras de autor (cinema de autor, por exemplo) sejam tão repetitivas nos temas tratados e simplesmente sofram modificações, muitas vezes ligeiras, em termos de forma – se dediquem a meras elaborações de forma, como o António Lobo Antunes, em obras mais tardias, cujos temas já estão mais do que rotos, mas pretende, de certa forma, fazer ensaios com a linguagem escrita para testar a sua versatilidade linguística e a capacidade de inventar novas formas de falar das mesmas coisas. Aliás, dando continuidade ao aparte que fiz, as obras de autor são extremamente limitadas em termos de temáticas, porque algo que resulta da exploração das emoções pessoais apenas pode estabelecer associações com o muito limitado rol de situações que estiveram na génese e no reforço da construção pessoal dessas mesmas emoções, de maneira que a recorrência de determinadas emoções associadas por via da memória a situações semelhantes impede que se diversifiquem os temas para além de um determinado ponto.

 

Um fenómeno cerebral importante é a forma como o cérebro processa a memória e, neste caso particular, como é possível que, de cada vez que alguém traz algo à memória, a possa reescrever. Deixo aqui um link sobre o assunto. Isto é importante na análise da mentalidade artística, porque pode acontecer, e parece-me algo frequente, que os artistas carreguem em si memórias associadas a determinadas emoções ou memórias de emoções associadas a determinadas pessoas ou acontecimentos e, por identificação com o que é representado na obra de outros autores, e que interpretam como correspondendo às memórias que guardam, aproveitarem tal informação para as reescreverem. Ilustrando a situação, guardam memórias de acontecimentos mais ou menos traumáticos para os quais ainda não arranjaram uma explicação - ou seja não arranjaram ainda maneira de os racionalizar e, portanto, tornar em algo que seja coerente para eles, de acordo com o que conhecem – e, ao terem contacto com uma obra artística que aborda, ou consideram que aborda, uma situação semelhante, e perante uma interpretação do que é exposto sob a forma de explicação para tal situação que lhes soa bem, ou que permite racionalizar o que lhes aconteceu, adotarem essa explicação e, por via da repetição da associação entre tal explicação e o acontecimento de cada vez que, subsequentemente, o recordam, a partir de uma certa altura já nem sequer se lembrarem do que aconteceu na realidade ou da forma como pensavam acerca do acontecimento. Portanto, estamos a falar de uma imensa capacidade, não só para reconstruir, e portanto manipular, o mundo à sua volta através do trabalho artístico da informação que recebem dele, não só também de uma grande capacidade em convencer os outros de que têm acesso a algo de si próprios e deles que normalmente lhes é inacessível mas ao qual conseguem chegar por via do desenvolvimento de determinadas capacidades emocionais fictícias, mas também para reescrever completamente a própria história pessoal e, consequentemente, transformar a sua pessoa e identidade, por via do mecanismo de reescrita da memória. Aproveito também para chamar a atenção para o facto de que aquilo que soa bem e que as pessoas tendem mais facilmente a aceitar como explicação para acontecimentos, situações e experiências na sua vida que ainda não tiveram oportunidade de racionalizar, corresponde normalmente ao que desresponsabiliza as pessoas de algo que lhes aconteceu de mal e atribui demasiada responsabilidade ao que lhes acontece de bom. Pode também acontecer o contrário, e isso é evidente em determinados artistas, que se responsabilizam demais por tudo o que lhes acontece de mal e subvalorizam a sua participação no que lhes acontece de bom. No entanto, ambas as situações resultam de um enviesamento na leitura da informação proveniente das experiências, sendo portanto igualmente nocivas, e a primeira continua a ser mais prevalecente. E, por o ser, é que também é comum entre os artistas encontrar aqueles que relatam a forma como reagem perante determinados estímulos como se fosse algo que fizesse parte da sua identidade, da sua “essência” enquanto pessoa e, portanto, imodificável, fazendo uso de tal crença para se desresponsabilizarem completamente do trabalho necessário (que há quem acredite que se deve operar essencialmente a nível mental, mas que eu considero que deva ser feito através da exposição da pessoa a informações relevantes acerca do seu caso e da situação no geral) para a modificação do seu comportamento.

 

Assim, é possível, através de todos estes subterfúgios e mecanismos (malabarismos mentais), convencer-se a si próprio e aos outros de que, por força do trabalho da forma das emoções, se adquiriu uma maior densidade emocional e uma maior capacidade de penetração no mundo emocional dos outros. Isso e o facto de centrarem toda a sua vida no trabalho fictício das suas emoções e, portanto, estarem mais habituados a pensar sobre elas, parecer que sentem mais do que os outros. Quem é que pode saber isso? Até ao momento não temos instrumentos suficientemente precisos, nem sequer conhecimento suficientemente desenvolvido, para determinar tal coisa. É impossível saber se existem pessoas que sentem mais do que outras ou a intensidade das suas emoções ou sentimentos. Está-se completamente dependente do relato do próprio. E, como eu mostrei, da forma mais exaustiva que me foi possível, é possível manipular toda essa informação por via do condicionamento.

 

Ricardo Lopes

Próximas partes:

2 - Efeitos comportamentais, em termos de pensamento e ação

3 - O contributo da arte em formas de cultura abstrata

4 - Considerações finais

 

 
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Carta ao presidente François Hollande sobre o conflito sírio - ANEXOS, por Pierre Le Corf

 

 

Carta ao presidente François Hollande

 

Pierre Le Corf  SOCIEDADE POLÍTICA 

 

Eis alguns dos testemunhos destes últimos meses que publiquei nas redes sociais, para ilustrar esta carta e para que possam compreender o que se passa, para que criem a vossa própria opinião. Insisto, eu não estou aqui para vos dizer aquilo em que devem acreditar ou como devem pensar, apenas vos peço, caso vos interesse, que leiam aquilo que escrevi. Se os media vos contam o que se passa aqui a partir dos seus escritórios em Paris, deixai-me então também partilhar o que se passa aqui, a partir de aqui. O movimento civil de 2011 já não tem nada a ver com o que sepassa aqui, não há libertação de coisa nenhuma, apenas conquista.

 

Poderia vos fornecer inumeráveis testemunhos de media russos aqui presentes, testemunhos terríveis, mas é evidente que muitos utilizariam essa possível partilha para destruir a minha mensagem e as daqueles que aqui vivem, qualificando as suas histórias de “propaganda”.

 

Esta guerra é uma guerra, não guerras boas, nada é a preto e branco, muitos morreram vítimas de bombas largadas de avião, é verdade, mas peço-vos encarecidamente que tentem se distanciar da versão que vos foi vendida, Para que possam compreender porquê, como e, sobretudo, quem. Esta guerra deverá servir de lição a todos nós que a apoiámos de forma cega, na medida em que confiámos em demasiada, apesar da nossa desconfiança.

 

  • Testemunhos dos meus alunos - Vídeos da aula do 9º ano e gl/w6KePY 11ºano goo.gl/W2ImRJ
  • Crianças de Alepo Leste (snipers, grupos terroristas, comida) Vídeo gl/izc6St
  • Família cristã arménia refugiada (Midane) Vídeo gl/NoG49N
  • Criança de Alepo Leste, sobre snipers (Jabreen) Vídeo gl/t8NKJ2
  • Crianças após um ataque “quero morrer” (Khaldie) Vídeo gl/2Nz1Gl
  • Mensagens de jovens escuteiros (Maristes) Vídeo gl/DgDfuJ
  • Mahmoud, muito jovem, amputado (mina terrorista) gl/nTTDb9
  • Jovem estudante, os seus sonhos e a guerra gl/PcSuYK
  • Jovem mulher, sua irmã morta na rua gl/5HGFKI
  • Mulher deslocada 8 vezes devido aos avanços terroristas gl/4lqf9b
  • Família de refugiados internos, crianças com deficiência (1070) gl/FB57qB
  • Família de refugiados internos (Myasar) gl/Rq3Lht
  • Família de refugiados internos (Ashrafié) gl/zmwavk
  • Família de refugiados internos (Muhafaza) gl/Wkfh6l
  • Família de refugiados internos (Halab Ajdide) gl/2V7AAI - goo.gl/yMOtID
  • Freira do hospital francês gl/vlQX1a
  • Família de refugiados internos (1070) gl/643kXm
  • Família de refugiados internos (Banizeid) gl/BgVC2y
  • Família de refugiados internos (Sekaye) gl/D55YZD
  • Criança refugiada interna (Sheikhtaha) gl/LtcLY8
  • Crianças refugiadas internas (Old city) gl/XBiV6A
  • Família de refugiados internos (Midane) gl/lMeMRR
  • Família de refugiados internos (Salahadin) gl/Hjy9Ti
  • Criança várias vezes deslocada gl/8aGkbp
  • Família de refugiados internos (parque de Khaldie) gl/8UOJH7
  • Tawfik, criança de rua (Souleymanieh) gl/72MWu6
  • Criança deslocada (Midane) gl/DAWjVg
  • Crianças mostrando os impactos de balas de snipers nos seus corpos gl/jK7qFg
  • Família cristã deslocada interna (Midane) gl/AaRwRE
  • Discurso de crianças de Damascos gl/r1l5JS

 

Várias publicações que demonstram a realidade aqui vivida, numa tentativa minha de testemunho para abrir uma janela sobre Alepo em guerra.

 

  • O Quotidien avec Yann Barthès, entrevista com Ismael Al Abdullah, falso civil, para contar o que se passa em Alepo gl/qKC63I mensagem goo.gl/b7Kt5W
  • As bandeiras pretas de Alepo gl/Olo5Ju -- goo.gl/VvhIC2 -- goo.gl/u6DqG8 --
  • O falso “Presidente da Câmara” de Alepo (nota: em Alepo, não há Presidente da Câmara mas sim Governador) gl/tChKTL
  • Porquê vos foi escondida a VIDA em Alepo gl/za8UCx
  • Apanhado no meio de ataques, os mortos gl/qulAQb
  • Zonas de habitação para refugiados gl/8LJ21a
  • Por que nos condena o mundo? gl/H6iw4e
  • Caros jovens, o mundo inteito não sabe que vocês existem gl/hMDweu
  • Retorno às habitações destruídas (Ramouseh) gl/fyyuck
  • Após algumas semanas em Alepo gl/h1YO4J
  • Por que razão estar em Alepo gl/sG24fv
  • As crianças não desenham a guerra gl/RALVyy
  • Um olhar sobre Maaloula gl/uI0gE0
  • Alepo, o antes e o depois gl/WHhKWR
  • Os invencíveis de Alepo gl/IXK5yp
  • A guerra que não avisa, roquetes aqui e ali gl/Y9N4XF
  • Na igreja as pessoas davam as mãos gl/BQuJRo
  • Não há guerra maniqueista, a morte atacava aqui e lá, o medo partilho gl/56w4OP
  • A menina que enfrentava os snipers gl/7htclN
  • Visitar as famílias na linha de frente gl/yieZGx
  • Os Russos desminam, tudo foi armadilhado gl/Ykp6o1
  • Os terroristas descolados de Alepo com as suas próprias armas ligeiras gl/zINoNc
  • Fotos da entrada da zona histórica de Alepo libertada gl/Vyngkc
  • Aparte, os animais na guerra gl/6PbJnF
  • Roquetes feitos com botijas de gás gl/jPoL1A
  • Civis escapando por meios alternativos aos corredores (snipers terroristas) gl/KeDZVL
  • Cartas de crianças sobre a vida e a guerra gl/lkUs9x
  • O derradeiro símbolo que demonstra que vida é o que há de mais forte em Alepo gl/1SZOXi
  • Água em Alepo gl/WH3Yl6
  • As balas explosivas em lugares públicos gl/TBv87c
  • O que faz mais falta? As suas casas gl/cTvdu2
  • A Síria, rico pela vida em conjunto gl/gBxCM9
  • Publicarei mais, pouco a pouco, em função do tempo e da energia.

 

Publiquei pouco conteúdo chocante para, ao contrário dos media, me concentrar na vida, e também porque na maior parte dos casos era difícil de fotografar, por uma razão respeito. Mas a morte esta presente, quotidianamente.

 

  • Ataques sobre Khaldié, família morta – atenção, conteúdo chocante gl/m4zO7Y
  • Ataques no centro da cidade, parque – atenção, conteúdo chocante gl/cbdFSU
  • Ataques, últimas semanas – atenção, conteúdo chocante gl/Ystg2f
  • Ataques contínuos, 2 escolas – atenção, conteúdo chocante gl/qkAeY2
  • Uma bala na cabeça – atenção, conteúdo chocante gl/aI6aXf
  • Acordar e encontrar sangue – atenção, chocante gl/XPtOzF

 

Escrever para transmitir mas também para desabafar.

 

 

Por vezes em vídeo, já não conseguia me exprimir sobre a guerra; as implicaç+ssonseguia me exprimir sobre a guerra, as implicaçs tiva minha deficando as suas hist quetes onamento as suas instituiç outrasões para mim próprio.

 

  • O meu primero testemunho em Alepo, numa escola gl/X4yfOW
  • O meu segundo testemunho em Alepo, durante os combates gl/Ya0Jo9
  • O meu testemunho em vídeo sobre a sitiação antes da libertação gl/yIlByS

 

Outros - A ver: Os 9 primeiros dias de guerra em Alepo,  por Issa Touma goo.gl/lhhp6O

 

Pierre Le Corf

(Traduzido por Luís Garcia)

(versão original em francês aqui)

 
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Carta ao presidente François Hollande sobre o conflito sírio - parte 2, por Pierre Le Corf

 
 

 

Carta ao presidente François Hollande

 

Pierre Le Corf  SOCIEDADE POLÍTICA 

 

 

De acordo com os testemunhos, a maioria das suas equipas prestavam socorro, para começar, aos combatentes e depois, eventualmente, aos civis. Tendo cada equipa como particularidade o facto de ter um cameraman, e de prestarem auxílio a estes últimos enquanto a câmara filmava. Muitos civis me disseram que numerosas pessoas foram abandonadas sob os escombros sem qualquer ajuda, uma vez que eles se recusavam a dá-la. Outros afirmaram que eles encenavam ataques, falsos bombardeamentos com falsos feridos e falsas intervenções. O nosso governo financia igualmente associações como “Syria Charity”, ostentando uma bandeira com 3 estrelas, a qual se chamava inicialmente “liga por uma Síria livre”, designação que figura, hoje em dia, nos relatórios. Ainda que prestando ajuda humanitária, uma associação que ultrapassou a linha vermelha ao participar numa guerra de opinião para justificar a inversão do governo na ocultação da realidade no terreno, a sua proximidade de grupos armados (a sua presença, também, cuidadosamente apagada de todos os vídeos) e prestando auxílio médico constante aos jihadistas.

 

Numerosas associações e organizações humanitárias francesas e internacionais em zonas “rebeldes” fizeram mais mal do que bem, ao instrumentalizar o sofrimento da população para manipular a opinião em nome de uma causa e de doações falsas. Elas também mantiveram a população civil refém, permitindo que esta guerra continuasse, legitimando-a de maneira desonesta, permitindo que os combatentes perdurassem, e que a morte ocupasse o quotidiano.

 

Nos dispusemos, de resto, a bandeira síria de três estrelas no Eliseu, ao tempo de receber o (falso) prefeito de Alepo com honrarias, um homem que nunca foi eleito pelo povo sírio, que não vem de Alepo, mas reconhecido e eleito pelos líderes dos grupos jihadistas, assim como por alguns membros de partidos e estrangeiros. Esta bandeira não mais simboliza a liberdade na Síria, aqui é um símbolo de morte quotidiana, doravante associada à ASL, um conglomerado de grupos terroristas próximo da al-Qaeda que apenas advoga a democracia para os media e que nos apoiam. Não devemos, sobretudo, confundir com o movimento civil de 2011 e aqueles que dele se serviram, aqui e por todo o mundo, para criar esta guerra.

 

Sim, muita gente morreu. Nenhuma guerra é justa, eu não tenho o papel de negar ou defender a violência extrema dos bombardeamentos do este de Alepo, que no lugar de permitirem a sua queda, permitem a sua libertação. É uma realidade.

 

Uma outra realidade é que, colocando de parte as crianças feridas, as bombas e os gritos, nós eliminámos a presença de grupos armados mas, sobretudo, eliminámos os civis, a vida. Privámo-los de voz, deixando as pessoas compreender a situação a partir das suas próprias emoções, face a uma situação continuamente ilustrada de maneira catastrófica, utilizando frequentemente as crianças. Como recolocar em questão o que se passa aqui, quaisquer que sejam os argumentos e provas propostas quando vos apresentamos uma situação na qual vos fazemos acreditar que toda a Síria está a ferro e fogo, de maneira unilateral por culpa do seu governo? Que tudo o que se passa aqui e que não corresponde a esta imagem da propaganda? Que a prioridade é de impor zonas “no-fly”; as quais, graças a Deus, nunca se concretizaram. Sim, elas teriam alimentado o conflito, aumentado o número de mortos, e teriam permitido aos grupos armados tomar Alepo, ao invés de a libertarem da guerra e da morte. As pessoas que escaparam do este experimentaram o inferno mas a maioria viveu a chegada aqui como uma libertação, não uma deportação, dado que a maior parte retornou agora à sua casa. Ninguém assinalou que 85%  dos civis vieram refugiar-se livremente do lado oeste de Alepo, lado governamental, visto que os autocarros foram tomados pelo Idlib, transportando combatentes e civis voluntários.

 

A “legitimidade” atribuída a estes grupos e à sua causa pelos media e o auxílio externo permitiram-lhes avanços críticos ao redor da cidade, forçando centenas de milhares de pessoas ao abandono das suas casas. Lembro-me que, ao longo de semanas, dormimos vestidos, as mochilas preparadas ao lado da cama, os terroristas e os combates eram de tal forma próximos que, por vezes, as balas atravessavam as ruas e que, quanto mais eles avançavam as suas posições, mais eu os conseguia ouvir berrar “Allah Akbar” antes e depois do disparo de cada morteiro sobre a cidade.

 

Quaisquer que sejam os países onde foram utilizados os vídeos e os conteúdos pelos combatentes e partidaristas, por vezes completamente orquestrados, eles foram difundidos em horário nobre através dos media, instrumentalizando a mote e o sofrimento das pessoas que viviam no meio dos combates, o amor e a compaixão daqueles que observavam as imagens. Como estes grupos armados fanáticos, nós vendemos um tal medo que ninguém se apercebeu que estes conteúdos tinham todos uma finalidade e tinham sido criados em consequência disso, sem alguma vez dar voz às preocupações dos civis, senão à dos partidaristas ou terroristas (eu preciso que os civis não podiam facilmente entregar-se à dor, então uma câmara e sobretudo uma conexão 3G à internet eram inatingíveis, custando o equivalente a 5 quilos de carne). A fim de ter o número de combatentes para destruir o governo, completámos o nosso impacto sobre o conflito, ao jogar com os sentimentos para influenciar a opinião pública e o seu consentimento tácito neste conflito.

 

Do lado oeste, documentar em tempos real a situação nunca foi tarefa para qualquer um, uma vez que era demasiado perigoso, e para além disso as informações não saíam da Síria. Fazer um “live Facebook” ou publicar uma reportagem mostrando os lugares dos ataques permitia-lhes precisar, reajustar os disparos e de visar as zonas densas. Num duplo discurso e na sua própria cadeia de televisão, aqui na Síria, “Free Syrian Army ***”, por um lado falavam de uma suposta libertação da população, e, por outro lado, apresentavam os ataques como punições, e a nós como “infiéis vivendo do lado de Bashar Al-Assad”. Este canal de televisão é acessível a qualquer pessoa aqui. Do lado da libertação, as reportagens dos russos e os testemunhos dos sírios sob ocupação terrorista foram imediatamente classificadas como propaganda, de maneira a descredibilizar tudo o que poderia emergir da própria Síria, daqueles que nela viviam ou que estavam no terreno.

 

Este ano que passou foi verdadeiramente o da desinformação.

Um combate pela “liberdade” do povo sírio. Nós utilizamos esta palavra para tudo sem jamais a ter argumentado ou justificado. Que liberdade? Que povo sírio? Destruir o governo, sufocar o país com sanções para lá levar o quê? O nosso bom savoir-faire democrático? Colocaram os franceses a questão de saber qual seria o programa do “após”? Não! A liberdade, ponto. Fácil. O programa político e social destes grupos terroristas está em oposição com a liberdade, a democracia, os nossos valores ou aqueles da maioria dos países do mundo. É em nome dos nossos interesses, não em nome da liberdade, que instrumentalizamos estes grupos que apelam à criação de um Estado Islâmico na Síria. Não se perguntem, então, o que eles contam oferecer ao povo sírio, perguntem-se antes o que eles lhe pretendem roubar e impor. Todos os civis com os quais me deparo no meu quotidiano recusam imaginar esta opinião por um só instante, aqueles que dela fugiram tentam esquecê-la.

 

Senhor Presidente, nós temos, como outros numerosos países, uma grande responsabilidade nesta guerra que tentámos conduzir ao seu termo, termo subentendido como a capitulação do governo sírio a todo o custo. Estes últimos anos, ao lado de muitos outros países, participámos na destruição da Síria, um país em grande parte francófono e no qual o povo adora a França, numerosos são aqueles que falam francês. Ainda que o seu governo seja imperfeito e quaisquer que sejam os seus erros, e os nossos ao cabo dos tempos, nós suportamos atualmente a instauração de uma ditadura, uma verdadeira ditadura num país onde uma verdadeira oposição existe, ao passo que grupos armados são apenas motivados pelo sectarismo, a frustração, o rancor e o ódio. Servirmo-nos de tais grupos para concretizar os objetivos geopolíticos ou económicos não tem nada de democrático, pelo contrário condenamos os sírios. Tendo percorrido o país, pude constatar que, não obstante certas críticas e o que quer que seja que dizem de tal, a vasta maioria dos sírios suporta honestamente e sinceramente o seu governo e suporta aquele que chama de presidente, e não de ditador, Bashar al-Assad.

 

Eu concebo esta mensagem como um dever. Eu sou um humanitarista e criei a minha própria organização não-governamental, não religiosa, que se autofinanciou até agora. Eu vivo numa zona de guerra, pago o preço de tal e passo pelos riscos necessários para ajudar modestamente os civis. Transmitir a realidade aqui mereceu-me ataques dos media mainstream e dos seus partidaristas que me tentam fazer ocultar, indo ao ponto de me designar como alvo. Eu estou ainda sob mais risco ao assumir a responsabilidade de escrever esta carta, cujo peso e responsabilidade eu medi para denunciar uma situação que observei todos os dias ao levar ainda mais longe a minha investigação. Não tenho nada a ganhar nem nenhum interesse pessoal, eu assumo os riscos desde há vários meses para combater o terrorismo através da transmissão da verdade, da realidade do que se vive entre os sírios daqui, do que eles testemunham, ao denunciar os grupos jihadistas e a manipulação mediática arrancando todos os dias vida das pessoas.

 

Exigimos ao povo sírio que, ao invés de desejar para o seu país que se fale em seu nome, de lhe roubar a voz, as liberdades, o seu presente, o seu futuro. É o povo sírio que deve decidir o seu futuro e não nós que devemos decidir por eles. É uma forma de ditadura ainda mais terrível que a nossa ilegítima ingerência até lá. A democracia começa por si própria, além da nossa responsabilidade no que diz respeito aos sírios, sendo tempo de consultar o povo francês acerca da sua vontade de implicação neste conflito, visto o perigo que tal representa para a segurança presente e futura.

 

Convoco a minha França, o país que eu amo e no qual cresci, a deixa de condenar a população e de encorajar grupos terroristas que já atingem as nossas famílias, as nossas crianças, os nossos cidadãos, quaisquer que sejam os interesses económicos e geopolíticos em jogo. Não podemos tomar partido, nem suportar, grupos armados que conduzem uma revolução para retornar à idade do obscurantismo.

 

Senhor Presidente, a quem de direito ou de coração, lanço um apelo à França, da qual partem os valores com que cresci e que me incitam a perseverar na minha ação quotidiana aqui, para levantar as sanções contra a Síria que penalizam antes toda a população e não o governo, para encontrar soluções diplomáticas alternativas a esta guerra em favor da paz, tanto pelo povo sírio como pelo povo francês que arrisca sofrer as consequências dos nossos envolvimentos em favor de grupos que semeiam o terror e cujas ambições são claramente internacionais.

 

Em vos desejando muita coragem, Senhor Presidente, assim como ao que lhe sucederá, vos peço que aceite a expressão dos meus melhores sentimentos.

 CONTINUA

Pierre Le Corf

(Traduzido por Ricardo Lopes)

(versão original em francês aqui)

 
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Carta ao presidente François Hollande sobre o conflito sírio - parte 1, por Pierre Le Corf

 
 

 

Carta ao presidente François Hollande

 

Pierre Le Corf  SOCIEDADE POLÍTICA 

 

NOTA: Artigo publicado com a autorização de Pierre Le Corf. O primeiro de muitos, esperamos!

 

Pierre Le Corf  Trabalhador humanitário francês  residente em Alepo, Síria.

Associação We are superheroes

 

Carta também entregue pessoalmente ao presidente.

Sr. Presidente da República francesa François Hollande

Cópia para os candidatos à eleição presidencial.

 

Sr. Presidente,

 

Hoje ponho em questão os valores com os quais eu cresci, os valores de um país que eu amo, o meu país, a França. Dirijo-me a si enquanto cidadão francês que chegou à cerca de um ano em território sírio, sem ideias preconcebidas,  na qualidade de humanitário politicamente neutro, vivendo em Alepo Ocidental, agora de novo chamada Alepo. Não é algo fácil de realizar, não só porque eu sou o único francês habitando aqui, o que me coloca na linha de fogo com o meu testemunho em contra-corrente, como também pela dificuldade em testemunhar o que aqui vivemos, horrores por vezes impossíveis de descrever. Sou testemunha de um massacre e de uma situação humanitária catastrófica cujos actores e patrocinadores, por apoiar o terrorismo, somos nós próprios. Dedico esta mensagem a vós e a todas as pessoas susceptíveis de tomar decisões que façam da paz e dos civis as suas prioridades.

 

Todos os dias tive de confrontar-me com a morte, como todos nesta cidade,  e, a missão de que me encarreguei a mim próprio, levou-me a visitar famílias que viviam lado a lado com aqueles que descrevemos como "oposição" desde o início do conflito. Pessoalmente, em todas as linhas da frente, mais não vi que bandeiras negras, com os símbolos identificativos dos grupos que combatemos há anos em França, e tenho fotografias para o comprovar.

 

Hoje em dia a população está unida, não para lutar contra o governo, mas sim para combater os grupos terroristas, independentemente dos títulos que pudermos lhes atribuir para "moderar" as suas acções e a sua razão de existir. Estes grupos terroristas autodenominam-se por al-Jaich al-Hour (Exército de Libertação Sírio ou ELS), Jabhat al-Nusra (também chamado Fatah al-Sham, um ramo da al-Qaeda), Jaich al-Islam, Harakat Nour al-Din al-Zenki, Brigada Sultan Mourad, etc. É verdade que existe oposição anti-governamental como é o caso para qualquer outro governo, uma oposição mais ou menos pacífica, mas esta é deveras minoritária. Desde o início até hoje, a quase totalidade das forças envolvidas, e que continuam combatendo em Alepo, são os combatentes armados pertencentes a grupos terroristas dispostos a fazer de tudo.

 

Eu utilizo o termo “terrorista” porque não existem rebeldes em Alepo nem nada  que permita os considerar enquanto tal. É irresponsável continuar a jogar comas palavras e a optar por os denominar de “rebeldes” na Síria, enquanto que em França catalogamo-los na lista de organizações terroristas. Os combatentes foram evacuados na posse das suas armas pessoais, por acordo com o governo, e partiram “todos” rumo a Idlib, a qual é quase exclusivamente controlada por vários grupos armados e suas famílias. Lamentavelmente, muitos deles voltaram aos arredores de Alepo e reiniciaram os ataques suicidas e os bombardeamentos sobre civis, tal como fazem no resto da Síria.

 

Tudo aquilo que afirmo, estou em condições de o provar. Todos os dias me ocupo, desde há meses, e em função do que a guerra me permite, a recolher testemunhos filmados ou escritos de civis, independentemente da sua religião ou opinião política, e sem a presença de militares ou membros do governo. São testemunhos que publico, e que por vezes envio a uma comissão de investigação da ONU encarregada de analisar os crimes da “oposição”, num esforço de tentar metê-la em contacto com as testemunhas.

 

Houve uma focalização da opinião pública sobre os bombardeamentos de zonas minoritariamente oponentes e maioritariamente terroristas, nas quais todos os dias morriam civis, sem nunca se informar que a maioria dos civies de Alepo Leste não podiam sair por culpa dos combatentes. Foi por tentarem sair pelos corredores humanitários recentemente organizados pelos russos e pelos sírios (corredores esses indicados com 1 a 2 dias de avanço, com as horas de abertura, através do envio de SMS a todos os proprietários de telemóveis com uma conta nas redes  sírias MTN ou SYRIATEL, como é o meu caso) que inúmeros civis foram abatidos, numa tentativa de fuga interdita pelos grupos armados. Felizmente, milhares de civis conseguiram escapar usando caminhos alternativos, parte deste em zonas minadas.

 

Raros foram os media que informaram que os civis eram usados como escudos humanos, facto este confirmado pelos testemunhos. Optaram quase sempre por descrevê-los como vítimas do fogo cruzado entre combatentes revolucionários e governo, governo este que defendia o seu povo contra os terroristas cuja maioria são mercenários estrangeiros que entraram na Síria fortemente armados, fanáticos para os quais a vida humana pouco ou nada vale. Tomando por exemplo Alepo, estes vieram invadir a cidade e as suas zonas periféricas, bombardeando diariamente a população da zona oeste, e outorgando a si próprios o direito de assassinar civis da zona leste pela mais ínfima razão.

 

Os grupos terroristas presentes no terreno nunca mostraram a sua suposta “moderação” face à população. Constatei como os meus próprios olhos que os terroristas possuem armas e munições de vários países, muitas destas de fabrico francês, norte-americano,  inglês, saudita, etc., armas, estas utilizadas diariamente contra aspopulações civis da cidade, quer por grupos reconhecidamente terroristas, que por grupos agrupados sob a bandeira do suposto Exército de Libertação Sírio, na sua maioria constituídos por terroristas que nós tentamos fazer passar por combatentes pela liberdade.

 

Estes atiravam sobre a zona oeste a partir de  zonas mais densamente povoadas de leste, por vezes até de hospitais, de forma a limitar os tiros de resposta. Tal não impediu contudo que houvessem combates entre os grupos armados e as Forças Armadas Sírias. Eu tenho testemunhos que recolhi de civis de leste que sobreviveram a estes combates, dos quais eu me ocupo, assim como outras organizações internacionais aqui presentes o fazem. Alepo Leste contava com 120.000 pessoas encurraladas entre os combates (das quais 15.000 a 20.000 eram combatentes), incluindo em grande parte inúmeras famílias que haviam recusado abandonar as suas casas por medo que estas fossem ocupadas, destruídas ou pilhadas. Na Síria poucos são os que vivem em casas arrendadas. Leva muito tempo a uma pessoa tornar-se dona da sua casa, mas é uma questão cultural, visto que a casa é o símbolo da família. O ponto essencial é que ocultámos uma realidade, a realidade de 1.300.000 de sírios de todas as confissões vivendo na parte ocidental e que tentavam, apesar da morte omnipresente, de manter em funcionamento as suas instituições e enviar os seus filhos à escola e à universidade. Nós, por razões políticas, apagámos a sua existência, devido ao facto destes viverem numa zona controlada pelo governo sírio. Ao fazê-lo, ocultámos um número de pessoas 10 vezes maior que o de Alepo Leste, e, nos 2 casos, fizemo-lo em nome de uma minoria que luta apenas pelos seus próprios interesses.

 

Não houve um único dia em que não tenhamos sido vítimas de tiros de snipers ou de ataques com morteiros, balas explosivas, roquetes de verdade, botijas de gás ou aquecedores de água transformados em roquetes, etc., sobre ruas, casas, hospitais e escolas. Não houve um único dia em que não tenham morrido dezenas de pessoas, ou que feridos não fossem evacuados em estado crítico para hospitais sobrepovoados devido aos contínuos ataques, isto numa cidade onde não estavam presentes militares, com a excepção de alguns checkpoints; o exército e as milícias as linhas de frente. Todos os dias, adultos, crianças, famílias foram mutiladas por todo o tipo de projécteis. Se me exprimo enquanto sírio, é por ter sido quotidianamente confrontado com esta guerra. Tenho a sorte de ainda estar vivo pois Alepo era um verdadeiro campo de batalha, os roquetes chegam sem avisar. Sendo assistente de primeiros socorros, tentei salvar vidas, por vezes sem sucesso, as vítimas apareciam com pernas, braços e outras parte do corpo arrancadas, queimadas ou até derretidas... Não tenham palavras para descrever o que estas pessoas sofreram aqui, é demasiado difícil de partilhá-lo, vi demasiada gente morrer, e a cada dia perguntávamo-nos se iríamos nós mesmos sobreviver.

 

Encontrei-me inúmeras vezes com civis realojados pelo interior do país. Os seus testemunhos são unânimes. Em Alepo Leste reinava a lei da xaria reinava através dos “tribunais islâmicos” sumários constituídos por combatentes e Xeiques que, pelo decreto de fátuas (decretos religiosos), aplicavam a prisão, a tortura, o casamento de crianças e a execução de quem bem entendessem. Depois da libertação de Alepo Leste descobriu-se tambémque os terroristas dispunham de uma enorme quantidade de comida armazenada. Eu vi montes de kits de ajuda humanitária suficientes para resistira um ano de cerco. As famílias testemunham sobre a impossibilidade de usufruírem destes bens e sobre a fome vivida devido também ao cerco imposto pelo exército, mas sobretudo devido ao monopólio dos preços ou trocas proibitivas praticados pelos grupos armadas e que iam até 50 vezes o preço normal. Aqueles que aceitavam lutar junto aos grupos armados eram beneficiados. No entanto, tal como me contaram recentemente alguns dos seus simpatizantes que ficaram em Alepo Leste: “Nós não gostamos deste governo mas, se alguém critica os combatentes do ELS ou de outros grupos, eles matam-nos. Onde está a liberdade?”.

 

Infra-estruturas, hospitais, escolas eram parcialmente utilizadas por estes grupos como quartéis generais que serviam também de prisões e de armazéns de armas. Numa dessas escolas pude constatar que fabricavam armas químicas usando produtos importados de diferentes países. E, neste último mês, na sequência dos combates mais violentos, assisti à chegada de feridos cuja pele ardia, literalmente, devido ao cloro. A Leste, os hospitais tratavam sobretudo os combatentes e suas famílias, ou aqueles que pudessem pagar. Também aí, depois da libertação, vi com os meus próprios olhos toneladas de medicamentos e hospitais que permaneciam ainda assim em funções, apesar da destruição parcial, os mesmos hospitais que por diversas vezes haviam sido anunciados “completamente destruídos”.

 

Os Capacetes Brancos (White Helmets), financiados pelo governo francês e outros governos, e que nós recebemos no Eliseu, em grande parte, prestam ajuda humanitária de dia, e de noite são terroristas, e vice-versa. Estes estão intimamente ligados à Jabhat al-Nusra (al-Qaeda), como provam os documentos encontrados após a sua partida e como testemunham os habitantes.

 

 CONTINUA

Pierre Le Corf

(Traduzido por Luís Garcia)

(versão original em francês aqui)

 
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(In)Capazes de perceber o que é importante para o feminismo, por Ricardo Lopes

 

 

Incapazes

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE POLÍTICA

 

 

Alguém conhece as Capazes? Eu, infelizmente, conheço. Ou melhor, felizmente conheço. É importante conhecer as pessoas que compõem o movimento feminista com maior visibilidade num país, neste caso, Portugal. É importante, porque essas pessoas serão as responsáveis pela comunicação do feminismo e daquilo que consideram importante nele, na sua versão de “feminismo”.

 

Mas, quem são realmente as Capazes? Segundo o próprio site, “Capazes é uma Associação Feminista que tem como objectivo promover a informação e a sensibilização da sociedade civil para a igualdade de género, defesa dos direitos das mulheres e empoderamento das mesmas, definindo-se assim como entidade promotora de uma ocupação igualitária das mulheres no espaço público.”; “Assumindo-se como feminista, a Associação englobará nos seus objetivos a luta contra a discriminação de mulheres, população lésbica, gay, bissexual, intersexo e transgénero na promoção da cidadania, dos direitos humanos e da igualdade de género.”; “A par da Associação , a plataforma on -line pretende ser um  espaço nobre da afirmação da mulher e de discussão dos feminismos, reflexão da condição feminina a nível global(…)”; “Capazes pretende ser o contributo português para esta causa global – o feminismo – afirmando a mulher portuguesa no mundo, dando-lhe poder, incentivando o debate, a reflexão e a discussão e ao mesmo tempo inaugurando uma enorme e luminosa sala de exposições do talento com o holofote apontado para as mulheres.”.

 

Nas atividades a desenvolver, pode ainda ler-se, “Fomentar e patrocinar a realização de investigação e estudos sobre o papel da mulher na sociedade, com o objetivo de combater as desigualdades identificadas, contribuindo assim para que esta possa assumir e exercer de forma plena e justa os seus direitos(…)”.

 

Portanto, meus amigos, a agenda sociopolítica das Capazes baseia-se, mais uma vez, e para não destoar com a modinha pós-moderna, na promoção de uma luta e uma política identitárias e exclusivas. Apenas permite a identificação das mulheres. E, claro, como soaria mal não os incluir, já que é preceito obrigatório nos movimentos atuais que se querem apresentar como plurais, movimentos do tipo arco-íris, os LGBT, e os I vá, também, que também lá referem os intersexo. Entretanto, alguém se esqueceu de as avisar que já estão a perder na luta intergrupal pelo status moral, porque a sigla já vai em LGBTQQIP2SAA:

 

Lesbian, Gay, Bisexual, Transgender,

Two Q’s to cover both bases (queer and questioning);

I for Intersex, people with two sets of genitalia or various chromosomal differences;

P for Pansexual, people who refuse to be pinned down on the Kinsey scale;

2S for Two-Spirit, a tradition in many First Nations that considers sexual minorities to have both male and female spirits;

A for Asexual, people who do not identify with any orientation; and

A for Allies, recognizing that the community thrives best with loving supporters, although they are not really part of the community itself.

 

Assim sendo, esqueceram-se dos queer, dos pansexuais, dos que têm dois espíritos (deve ser uma espécie de heteronímia), dos assexuais e…tan tan tan tan…dos aliados!, que é uma maneira hipócrita de darem a entender que defendem os direitos de toda a gente, mas, MAS!, desde que os apoiem. Ou seja, defendem os direitos de toda a gente que não se insere em qualquer um destes grupos, desde que os apoiem a eles. Aliás, na verdade, nem é bem isso, porque o que se pode ler é que “the community thrives best with loving supporters, although they are not really part of the community itself.”. Desta forma, percebe-se que eles nem sequer assumem qualquer tipo de compromisso para com as pessoas que, mesmo os apoiando, não fazem REALMENTE (atentar nesta palavra) parte da comunidade.

 

Portanto, estas lutinhas ridículas não passam de pessoas que se juntam, normalmente com interesse próprio - porque tem graça que não há pessoas que façam REALMENTE parte da comunidade que não se identifiquem com algum dos grupos sociais por cujos direitos se pretende lutar. Mulheres a defenderem mulheres, gays, lésbicas, transexuais e afins, a defenderem gays, lésbicas, transexuais e afins. – para decidir, entre elas, quais são os grupos de pessoas que verdadeiramente são vítimas do sistema ou da sociedade, quais é que não são, separá-los, chamar os primeiros de “minorias” e os segundos de “maioria”, e defender, seja por que via for, os primeiros, ao mesmo tempo que se ataca os segundos. Ora, políticas e lutas identitárias, como eu já expliquei no meu texto acerca daquilo que o Trump representa para os progressistas, dão merda. E, se não confiam em mim, podem ler o mesmo aqui. Aliás, por isso é que os ditos liberais e progressistas, parecendo mais abertos do que os conservadores e retrógrados, partilham com eles mecanismos mentais iguais, de entre os quais se destaca o facto de discriminarem contra aqueles que não pensam como eles. Portanto, lá se vai a tolerância para o galheiro.

 

Um dos principais mecanismos de difusão da cartilha (sim, é cartilha, e não informação relevante acerca do assunto, mas já lá iremos em mais pormenor) - e porque quem não gosta de aprender sobre o assunto, simplesmente recorrendo à informação que recebeu da cultura para a qual foi condicionado, e também porque assim é mais fácil de produzir conteúdo, aprecia bastante os discursos cheios de floreados, bem-sonantes, politicamente corretos e, principalmente, moralistas – é a crença na capacidade da empatia para mudar o mundo. Isto, mais uma vez, remete para o problema que afeta os progressistas, como referi acima, porque a empatia não serve, nem nunca servirá, para melhorar o mundo, nem que seja para um grupo exclusivo de pessoas, ou vários. Porquê? Porque a empatia é um sentimento que se dirige às pessoas que partilham semelhanças connosco, em termos de aparência ou maneira de pensar e ver o mundo (ideologia), apenas se dirige às pessoas com as quais somos capazes de estabelecer uma relação de identidade. Ora, é possível estabelecer uma relação de identidade com pessoas com quem não temos nada em comum, ou sequer com as pessoas em relação às quais divergimos em questões consideradas por nós importantes? Não. Por isso, se vamos basear a luta na empatia, então podemos mandar para o galheiro a tolerância, a pluralidade e a “inclusividade”. Mais uma vez, aquilo que eu digo soa-vos mal? Então, fiquem aqui com uma palestra do especialista no assunto. Demasiado longa? Então, tomem uma versão de 8 minutos. Não me interpretem mal, por favor. Eu não estou a tentar diminuir intelectualmente os leitores do Pensamentos Nómadas, mas sim dirigir sarcasmo às pessoas às quais me refiro.

 

Se os grupinhos exclusivos, incluindo o das Capazes, não conseguem perceber que fazer uma luta pelos direitos e interesses de grupos sociais exclusivos nunca resulta em nada de duradouro, pelo menos a longo prazo, uma vez que, na melhor das hipóteses, remeterá grupos opostos para a clandestinidade, até que se criem condições favoráveis a uma contrarrevolução e a estratificação social seja reposta, então não sei bem o que hei de dizer mais.

 

Agora, voltando especificamente ao caso do feminismo, e particularmente do feminismo que as Capazes promovem.

 

Para começar, quem são, realmente, as Capazes? Podem encontrar aqui as 125 cronistas e integrantes do movimento. Sim, eu contei-as, uma a uma. Logo aqui se pode ter uma visão panorâmica da coisa. Principalmente para um grupo (mais um, nada de novo), que defende a estupidez das quotas, chega a ser cómico verificar que não se encontra nas suas fileiras uma única mulher preta (sim, uso o termo, porque também há grupos de defesa dos direitos dos pretos, e tratam-nos como tal, não me venham com merdas), uma única mulher muçulmana, pelo menos daquelas que recorram a qualquer peça da indumentária típica, uma única mulher asiática. Enfim, poderíamos prosseguir na enumeração, mas o que interessa perceber é que a totalidade do movimento é composto por mulheres brancas, 90 e tal porcento (e só não digo 100% porque não posso asseverar a origem de umas poucas) portuguesas, e praticamente todas com aspeto de dondoca tia de Cascais (que, portanto, ou o são mesmo ou fazem parecer que são). Aliás, até em pequenos aspetos se verifica a extrema homogeneidade das Capazes. Apenas consegui contabilizar 12 com um corte de cabelo que se pode considerar curto (embora seja algo relativamente subjetivo, mas reporto-me ao padrão de beleza feminino) e, de entre essas, apenas uma com corte de cabelo normalmente não associado às mulheres, meio rapado.

 

Mais, a que temas é que as Capazes pretendem recorrer para sensibilizar as mulheres para a luta pelos seus direitos (porque já se viu que não lhes interessa sensibilizar mais ninguém, exceto talvez crianças, que aí já pareceria mal distinguir entre meninos e meninas como alvo. Tem de se jogar sempre com aquilo que soa bem e é socialmente aceite.)?

 

Convido-vos a divertirem-se a pesquisar palavras ou expressões chave na barra de pesquisa do site. Eu diverti-me alguns minutos nessa tarefa, e valeu a pena. O que recolhi? Pesquisei “chorar” e obtive 22 páginas de resultados. É importante fazer um aparte, para dizer que cada página apresenta 10 resultados. Depois, pesquisei “amor” e, pau!, 111 páginas de resultados. A seguir, “sozinha”, e 35 páginas de resultados.

 

Agora, e como me interessa conhecer a disposição das capazes para o moralismo, sob a forma da prescrição de comportamentos aos outros, pesquisei “ser mulher”, e obtive, cum raios que me partam!, 161 páginas de resultados! Atenção, as Capazes não só lutam pelos direitos das mulheres, como lutam principalmente pelo direito inalienável de as mulheres serem exatamente como elas dizem que uma mulher deve ser. Caso contrário, não gastariam tanto latim nestas prescrições, incluindo dizer às mulheres como devem fazer sexo.  

 

E, como não poderia deixar de ser, um bom site feminino, e não feminista como diz ser, tem de ter uma secção de “lifestyle”, porque não podes ser mulher sem partilhares hábitos e práticas com as ‘migas. E, começa logo bem, porque o primeiro tópico é “Moda”. Agora, será uma crítica à moda e a seguir tendências? Não, é, como sempre, a ditar tendências, ao ponto de fazerem todo um texto, não a desconstruir o facto de ditas feministas mesmo assim abraçarem os ditames da moda, mas sim a mostrar com as feministas se vestem. Depois, ainda no separador de “lifestyle”, temos tópicos como “Beleza”, “Alimentação” e “Saúde”. Porque, ‘migas, nós bem podemos ser feministas…perdão, femininas…mas não vamos para a luta sem estar no nosso melhor, a dar nos nossos queridos detox e bem de saudinha. Ai ‘migas, tenham lá paciência, mas há que ter estilo a pegar num cartaz, não nos viemos meter numa luta para ter ainda mais tempo de antena na praça pública e suprir a nossa necessidade de atenção desmesurada, para dar isso tudo a perder. Vá, fachabor de irem lá fazer os liftings da L’Óreal, arranjar as sobrancelhas e dar nas saladas do tio Goucha, que se faz tarde! Há um sítio onde irmos todas juntas pegar num cartaz para as câmaras, e depois temos mesa reservada no Hemingway.

 

Mas, se já achavam isto demasiado mau para fazer parte dos conteúdos de um site dito feminista…feminino, raios!...então deem uma olhada nos resultados que aparecem quando se pesquisa “publicidade”. Agora, sim, está o forrobodó instalado ao máximo. Desde publicidade camuflada como artigo/crónica, até publicidade camuflada como entrevista, até publicidade à descarada. E, claro, mais uma vez, temos de nos amar a nós próprias, ‘migas, mas precisamos dos produtos e das marcas certas para nos podermos amar, quem é que vai por aí fora desgovernada a amar-se sem Matinal e Corpos Danone para cuidarem do nosso corpinho escultural? (Quem é que vai por aí fora desgovernada a amar-se, sem ler os livros do Gustavo Santos?) Aliás, não é o próprio slogan da Corpos Danone, que apareceu mais do que uma vez em textos no site? Vamos lá, ‘migas, apoiar o movimento #PorqueMeAmo, com a nossa querida Jessica Athayde (quem melhor do que alguém que aparece na televisão?) a fazer publicidade sob a forma de entrevista, ou entrevista sob a forma de publicidade, ou a falar de si própria para promover os Corpos Danone, ou promover os Corpos Danone para falar de si própria.

 

Aliás, se pesquisarmos “entrevista”, rapidamente verificamos que apenas têm tempo de antena - talvez por serem as únicas pessoas que têm conhecimentos suficientes sobre o assunto na cabeça desta gente – mulheres famosas, padres (famosos) gays e homens famosos gays.

 

Perante isto, só me resta oficializar a saída à rua do circo das malucas, e que comece o espetáculo.  

 

Bem, voltemos às pesquisas.

 

Também pesquisei “homens”, porque, afinal de contas, algo que só tem a ver com mulheres (e LGBTIABJVSBDJBSK, vá) não deveria dar muita atenção aos homens. Mas, quem tal pensou, enganou-se, porque surgem logo 81 páginas de resultados, com artigos/crónicas ao longo dos quais as senhoras vão prescrevendo o comportamento masculino para com as mulheres, e dizer aos homens o que são e o que deveriam ser.

 

Agora, e para dar um exemplo do proselitismo que corre neste site, decidi dedicar-me a pesquisar nomes de políticos, para ver o nível de atenção que foi dado a promover uma clara agenda política contra Donald Trump e a favor de Hillary Clinton. “Trump” devolve 3 páginas de resultados, assim como “Hillary” e “Obama”.

 

Para quem ligou o cérebro para falar de política quando calhou estar em causa a disputa entre uma mulher e um homem, seria de esperar que também o fizesse, pelo menos com uma regularidade semelhante, para falar acerca de problemas provocados por outro dos seus adorados, Barack Obama. Assim, pesquisei “Síria”, e obtive apenas 2 páginas de resultados, e que mesmo assim são compostas, na sua maioria, por textos provenientes de pessoas externas ao site, e, ao que me parece, escolhidos a dedo para não incluírem dedos metidos em feridas. Vamos tentar outra vez. “Líbia”, ah!, um único resultado, e que pode simplesmente ter o nome do país lá pelo meio, sem dizer nada de relevante sobre o assunto. Mas, a esperança é a última a morrer, principalmente na cabeça de ideólogos que acham que mudam o mundo com discursos bonitos, floreados e palavras rebuscadas. “Iémene”, ah, só 3 textos!, e pelo menos dois deles moralistas! Vamos mas é lá buscar o vocabulário moralista para chamar nomes às pessoas que mantêm determinado tipo de costumes em países destruídos social e economicamente. Ainda por cima um deles a insistir na parvoíce de que as regras de indumentária estabelecidas para as mulheres em sociedades predominantemente islâmicas são menos libertárias do que aquelas que são determinadas para as mulheres do dito “mundo ocidental”. Minhas caras, tenham vergonha, e vão ler este livro, para ver se, finalmente, conseguem enfiar na porra da cabeça a compreensão de que o problema está na cultura de género e, neste caso específico, na imposição, sob a forma de padrão de beleza, exercida sobre as mulheres, de qualquer cultura. Principalmente, tenham vergonha porque usam o site para promover o padrão de beleza para a mulher do mundo ocidental, como já aqui mostrei. Tenham mesmo muita vergonha.

 

Enfim, pode-se continuar a pesquisar nomes de países destruídos e com povos chacinados pela administração Obama, na continuidade do trabalho começado pela administração Bush, que os resultados são os mesmos. Isto, até que eu decidi pesquisar “Palestina” que, entre os seus 4 resultados, devolveu um texto, com o qual ainda não tinha tido contacto, mas que é das coisas mais asquerosas e repugnantes, do ponto de vista humanitário, que alguma vez li. Um texto que transpira moralismo e ignorância por todos os poros. Um texto onde se podem ler pérolas como "Mais, a cultura cristã tem evoluído, repudiando, maioritariamente, a aplicação literal das regras do Antigo Testamento. A mesma evolução tem sido mais difícil na cultura islâmica." ou "Não me parece que os muçulmanos tenham de escolher entre a cultura islâmica (a parte que é compatível com os direitos humanos) e a tolerância. Contudo, terão de lutar ativamente pela tolerância e pela igualdade de género. Não podem ficar calados.". Ó minha cavalgadura, mas alguma vez a senhora se dedicou a estudar a sociedade dos países pilhados pelos americanos a partir da década de 70, antes das invasões? Alguma vez estudou a sociedade, por exemplo, do Iraque ou do Afeganistão, antes das intervenções bélicas e económicas americanas? Sabe, por acaso, que existe uma tendência, confirmada por via de estudos sociológicos, para as sociedades e as pessoas se manterem agarradas a valores retrógrados ou os reforçarem em situações de precariedade material? Sabe que, para provocar golpes de estados nos países em que intervieram, os americanos alinharam com forças políticas e sociais que tinham sido depostas anteriormente, e que, essas sim, eram conservadores e trouxeram de volta todos esses valores que tinham sido remetidos à clandestinidade? Não, não sabe. Não sabe, e também prefere utilizar frases bem-sonantes para branquear as atividades dos cristãos, que incluem católicos e protestantes. Está-se a borrifar para a participação de autoridades provenientes de países maioritariamente cristãos em campanhas de esterilização forçada em zonas rurais da Índia que, só por acaso, é país maioritariamente hindu, aquela religião muito bonita e adorada por frequentadores de resorts, a religião da “paz” que promoveu a divisão da sociedade em castas, que continuam a funcionar nos dias atuais, embora, oficialmente, tal sistema tenha acabado há mais de 50 anos atrás, e que portanto o alvo de tais campanhas são as mulheres de castas inferiores, e baseando-se no mito de que o planeta está sobrepovoado de humanos. Também se está a borrifar para as atrocidades sociais promovidas por evangélicos na América do Sul, EUA, América Central, etc. Também de está a borrifar para o facto de terem sido adorados cristãos europeus a utilizar a mesma forma de argumentação a que recorreu, para fazerem campanha contra ao refugiados, criar propaganda contra o islamismo, para defender a sua querida cultura cristã. Enfim, entre muitas outras coisas, que apenas servem para invalidar completamente o texto referido.

 

Enfim, as Capazes são sabem, claramente, o que é importante para o feminismo. Promovem um feminismo exclusivo, que ficou muito bem definido por Emma-Kate Symons, num artigo para o New York Times, “It saddens me to see the inclusive liberal feminism I grew up with reduced to a grab-bag of competing victimhood narratives and individualist identities jostling for most-oppressed status.”. É que é exatamente isto em que assenta esta forma de feminismo, considerado de terceira vaga. É uma competição aberta entre as mulheres para ver quem é que leva para casa a taça de maior vítima de entre elas. Por isso, mostrei as pesquisas que mostrei. É um feminismo exclusivo, que apenas serve para provocar ou agravar atritos sociais. Espero que este artigo cumpra com todos os requisitos das Capazes para poder ser considerado válido, uma vez que é redigido por uma MULHER BRANCA, NASCIDA E QUE VIVE NUM PAÍS OCIDENTAL, AINDA POR CIMA O “MELHOR” DE TODOS, para um JORNAL MAINSTREAM, ainda por cima AMERICANO.  

 

Por isso, quando surgiu um artigo raríssimo de encontrar em sites/páginas deste tipo como este, não só teve extremamente poucas leituras, comparando com artigos de choradeira e publicidade a produtos femininos, como também não se viu nenhuma das habitués a ir lá fazer o típico comentário histérico de “Ai, ‘miga, que texto tão lindo! Disseste tudo! Adoro-te!”.

 

Um texto que eu comentei da seguinte forma, e que aproveito para citar, porque inclui aquilo que é realmente importante para a luta feminista:

 

“"Dá-me um arrepio gélido na espinha sempre que alguém, principalmente feminista, começa uma frase com “as mulheres” ou “os homens”, “as raparigas” ou “os rapazes”."

Excelente! O que já andei aqui meses a comentar, mas as variadas autoras preferiram começar a ignorar ou a comentar com base no desprezo, sem se disporem a discutir o conteúdo.

As mulheres e os homens não nascem de uma determinada maneira. O seu comportamento é completamente moldado pela cultura na qual estão inseridos, e na qual são criados e educados. Tudo numa determinada cultura concorre a reforçar os papéis de género, todos os conteúdos culturais, tudo o que determina o que devem vestir, as atividades a que se devem dedicar, a forma como devem falar, aquilo de que devem gostar, o que devem sentir.

Não há mulheres assim ou homens assado. Há pessoas! Há mulheres muito diferentes e homens muito diferentes. Há mulheres que parecem homens e homens que parecem mulheres. E essas parecenças são todas artificiais, porque manifestam-se quando a pessoa de um sexo decide adotar os preceitos determinados para o género cultural do sexo oposto.

Por isso!, passei meses a comentar contra os textinhos que incitavam às quezílias entre duas construções artificiais, a do género masculino e a do género feminino, os textos que estão repletos de "as mulheres são isto", "os homens são aquilo", "as relações dão errado, porque os homens são assim, as mulheres são assado", "as mulheres são melhores porque isto", "os homens são piores porque aquilo". Isto é completamente absurdo!

 

Aquilo que há de mais importante a combater, e aquilo que deveria ser o alvo primordial do feminismo, é a cultura de género! A cultura de género não afeta só mulheres, mas também homens! A cultura de género não faz prescrições apenas para as mulheres, mas para os homens também! Se têm uma ideia de que as mulheres são assim e os homens assado, é porque existe uma tendência para as mulheres e os homens de uma determinada cultura se comportarem de forma idêntica, porque é criado um padrão de comportamento artificial por via do condicionamento cultural!

 

É assim tão difícil de perceber?

Finalmente, alguém escreve este texto tão necessário e tão importante!

O melhor texto que alguma vez li aqui!

Parabéns!

Ricardo Lopes

 
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De Skopje a Struga, por Luís Garcia

 

 

DOS BALCÃS AO CÁUCASO – EPISÓDIO 9 

De Skopje a Struga

 

bw  VIAGENS POLITICA Luís Garcia        

Estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem... aonde não estou. (Estou Além, António Variações)

 

15.06.2014

Mais um amanhecer tranquilo, desta vez numa tenda escondida num jardim. Fizemos as malas e partimos em direcção ao centro com ideias de encontrar o Bulevar Partizanski,  uma avenida de 6 km em direcção a oeste, no fim da qual se encontra a entrada para a auto-estrada Madre Teresa de Calcutá (sim era albanesa mas da Macedónia) que atravessa o país de norte a sul, e que acaba perto do mítico lago Ohrid, a nossa próxima paragem prevista. Com ajuda de locais conseguimos descobrir o autocarro certo (número 2) e pegámos um. Tentámos explicar ao condutor que queríamos ir para perto da auto-estrada mas este não percebeu. Uns quilómetros à frente disse-nos algo, mas na dúvida não saímos. Não havia indícios nenhuns de fim de cidade nem de entrada de auto-estrada. Ainda assim saímos 2 estações depois, numa má decisão que tornou-se num pesadelo. Saímos, fomos às compras abastecer para o resto do dia e caminhámos em busca do fim da avenida que teimava em não aparecer. Afinal, tínhamos feito apenas 2 km de autocarro, e acabámos por caminhar mais de 3 km! Desesperados, sem mais energia para caminhar nem tampouco vontade de pagar mais um bilhete para andar, quiçá, apenas mais uma paragem ou duas, decidimos começar a fazer a boleia dentro da cidade, acto que por norma é mal-sucedido (boleias não funcionam dentro da cidade)… e foi. Acabámos por apanhar de novo um autocarro mas o condutor, simpático, e que já nos tinha visto 2 vezes no seu vai-e-vem, convidou-nos a entrar de borla! Hehe!

 

E pois claro, andámos menos de 1 km no autocarro e chegámos ao fim da linha, numa aldeola de realidade paralela. Via-se a auto-estrada relativamente perto, mas não havia coragem para andar nem vontade de arriscar seguir em frente para de seguida descobrir que a rua não daria para a auto-estrada e sim para um beco sem saída. Claire tomou a iniciativa e pediu ajuda a um homem sentado dentro do seu carro. Era polícia, macedónio de etnia albanesa e guarda-costas de ministros macedónios. Ofereceu-se prontamente a levar-nos até à entrada da auto-estrada no seu carro. O percurso foi curto, cerca de 1 km, pela rua que tínhamos pensado usar se houvesse forças. Ah, que alivio ter feito este último pedaço de estrada de carro.

 

Na portagem fomos encontrar uma viatura parada e não hesitámos em pedir boleia. O carro era de um simpático senhor, emigrante na Suiça e de férias na Macedónia, sua terra natal. Ia para Kičevo e aceitou nos levar. Que sorte, 2/3 do trajecto até ao lago Ohrid estavam garantidos. Pelo caminho, sobretudo nos últimos quilómetros antes de Kičevo, avistámos várias centenas de bandeiras da Albânia espalhadas pelos montes, sobre os telhados das casas, nas rotundas… ah, por todo o lado! De lembrar que a minoria albanesa na Macedónia tentou sem sucesso em 2001 uma rebelião no intuito de separar o noroeste do país e albanizá-lo ainda mais, em mais um etapa da criação da Grande Albânia da qual falam todos os albaneses da Albânia, Kosovo, Macedónia e Grécia. Felizmente para a Macedónia, debaixo do solo deste país não existem valiosíssimos minerais como os do subsolo da província sérvia do Kosovo. Por aí se explicatambém, talvez, que os EUA não tenham aplicado a estratégia do “dividir para reinar” como fizeram com a Jugoslávi e, consequentemente, deram em fracasso as operações terroristas do UÇK na Macedónia em 2001.

 

Quando chegámos em  Kičevo estava a chover e tínhamos muita fome. Sem hesitar entrámos no primeiro barracão-restaurante que encontrámos nas imediações da paragem de autocarro. Dentro fomos encontrar e “viver mais um filme de Kusturica”. Gente bêbada mas convivial, uma mulher que falava o tempo todo para nós e perdia-se de riso, um cigano velho e muito bem vestido a quem toda a gente local pedia para lhes pagar cerveja e aguardente, um jovem que acreditava saber falar inglês mas que só dizia disparate… ah que filme! Grande diversão, bem a calhar, para nos animar e fazer esquecer a chuva lá fora. Comemos, bebemos café, falámos pelos cotovelos num animado convívio absurdo… e fomos embora felizes da vida quando a chuva finalmente parou.

 

 

Parou sim, por muito pouco tempo. No tempo que nos levou a atravessar a estrada já chovia de novo. Tivemos que encontrar abrigo e pedir boleia aí, demasiado afastados da estrada. Não iria funcionar aquela boleia. Passada mais de uma hora, fomos à estação e investimos 3 euros cada num bilhete para Struga, uma cidade na costa de Ohrid, o lago Ohrid sim, finalmente! 

 

Chegámos a Struga quase às 6 da tarde, ainda a tempo de tomarmos os primeiros banhos naquela água linda, morna e cristalina. O sol aparecia de tempos a tempos e aquecia imenso. Quando desaparecia, dada a elevada altitude, ficava imenso frio. Que confusão. Mas foi muito bom, precisávamos de um banho a sério com água limpa e sabonete, e de nadar para descomprimir o corpo das caminhadas de malas às costas.

 

Ao fim do dia, com receio da chuva, fomos montar a tenda dentro da obra inacabada de um restaurante mesmo em frente ao lago. Convinha-nos o abrigo, mas montar a tenda sobre cimento não nos estava a apetecer muito. Em mais um golpe de sorte, com ajuda da nossa mini-laterna, encontrámos um monte de areia dentro da obra! Ah, que felicidade. Em poucos minutos aplanámos a areia numa área grande o suficiente para a tenda e montámo-la por cima. Estava tudo a correr bem até aparecer um matilha de cães abandonados para nos chatear a cabeça. Ainda tentei afastá-los várias vezes à pedrada (sim, lamento, teve de ser). O problema foi que, de cada vez que voltavam eram sempre mais e maiores. Chegou a um ponto que já não tive coragem de enfrentá-los e refugiem-me na tenda com a Claire. Foi difícil de adormecer ao início, mas o cansaço e o sono fizeram o seu trabalho, e acabámos por adormecer ao som ensurdecedor de uma matilha de cães tresloucados ladrando do lado de fora da tenda… hehe!

 

Álbuns de fotografia

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Luís Garcia, 22.01.2017, Chengdu, China

 

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O problema das figuras de autoridade e da propriedade intelectual, por Ricardo

 

 

O problema das figuras de autoridade e da propriedade intelectual

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE  ECONOMIA

 

Para mim, deixou de haver dúvidas, há muito, de que todos os problemas que existem no mundo moderno – e que sempre existiram ao longo da história humana, apenas agravados pelo facto de se ter vivido, até recentemente, em circunstâncias de real escassez de recursos, devido ao precário desenvolvimento tecnológico – derivam da cultura humana, ou das suas diversas culturas, que têm problemas em comum. Os problemas culturais em comum já referi de forma breve noutro artigo, podendo vir, no futuro, a trata-los de forma mais profunda.

 

Aqui, quero referir-me a um dos principais entraves ao desenvolvimento do conhecimento sobre o mundo material (o único que existe), portanto ao desenvolvimento científico e ao aproveitamento das capacidades humanas no geral e da instrumentalização com fins humanísticos e ambientais da tecnologia.

 

As figuras de autoridade são aquelas pessoas quem atribuímos o mérito por determinadas descobertas, pelo avanço do conhecimento sobre um determinado assunto, por determinadas invenções, por orientarem a vida de um grande número de pessoas através das suas ideias. Os problemas que derivam desta visão unidirecional e unifatorial de acontecimentos históricos no âmbito da produção intelectual, são variados.

 

O primeiro grande problema é construir, com base nisso, uma visão histórica errónea e altamente limitada, neste caso da evolução do conhecimento humano. Como eu expliquei brevemente neste artigo, é preciso conhecer todo o contexto em que os autores de determinadas ideias viveram, para perceber que as suas ideias foram tão somente o fruto das influências que receberam, da cultura para a qual foram condicionados e a sua própria experiência. Aliás, muitos avançaram grandemente o seu trabalho ao roubar ideias ou instrumentos criados por outros, que por sua vez foram o resultado de modificações graduais ao longo da história, pela mão de muita gente.

 

O segundo grande problema é que, a partir do momento em que se reconhece alguém como autoridade, e como há tanta informação para processar e somos condicionados para reconhecer incondicionalmente a autoridade daqueles que a adquirem ou nascem com ela (e antepassados deles adquiriram, normalmente por via da força), qualquer coisa acerca da qual teçam considerações é automaticamente levada a sério e tida em consideração. Não apenas isso, como normalmente adquire instantaneamente o estatuto de verdade. Querem um bom exemplo disto? Quando o Linus Pauling, depois de ter arrecadado dois Prémios Nobel, decidiu divulgar publicamente a crença em que a vitamina C curava a constipação. Até hoje não se produziu um único estudo científico que validasse a sua hipótese, antes pelo contrário. No entanto, não só isso se disseminou na cultura popular, como cerca de 50 anos depois, ainda é considerado verdade entre as pessoas não educadas para o método científico e que não fazem trabalho na área, até mesmo entre muitas pessoas com formação científica e, apenas porque Pauling o proferiu, adquiriu imediatamente estatuto de verdade, ou de teoria em termos científicos.

 

O terceiro grande problema, e em consequência do segundo, é que tal atitude para com as figuras de autoridade normaliza situações como aquelas em que se considera que tudo o que há de importante a considerar sobre um determinado assunto se resume ao que determinada figura de autoridade refere acerca dele. Numa linguagem mais simples, tudo o que há de importante sobre um assunto é aquilo que uma figura de autoridade identifica comofatoresatuantes nele. Por exemplo, se o Žižek, que agora é uma das grandes estrelas pop dos esquerdistas, diz que o único problema da disputa entre os produtos de agricultura biológica e os organismos geneticamente modificados é que o seu consumo está relacionado com o status que dele se pode derivar, então quem lhe reconhece autoridade sentir-se-á suficientemente informado para sair por aí a dizer que esta é a única questão. O facto de existir vasta bibliografia científica que demonstra os problemas dos produtos provenientes da agricultura biológica, as mentiras perpetradas pela indústria, e as vantagens atuais e futuras dos OGMs não interessa. Ou seja, alguém que reconhece autoridade a outra pessoa sente-se satisfeita com aquilo que essa pessoa é capaz de servir em termos de conhecimento sobre qualquer assunto que seja, que, normalmente, é muito pouco, principalmente nos dias atuais em que são publicados milhões de artigos científicos pelo mundo fora, tornando-se impossível para alguém manter-se atualizado sobre todos os assuntos. E, claro, também de outras áreas não consideradas científicas, mas de importância para o conhecimento do mundo real, como a História. Até mesmo ao nível da inteligência artificial é difícil desenvolver algoritmos suficientemente bons para manter uma monitorização e produzir resultados relevantes acerca de toda esta esmagadora quantidade de informação.

 

O quarto grande problema prende-se com o facto de, perante uma cultura de culto da personalidade, tende-se a menosprezar o facto de que qualquer pessoa que nasça com um cérebro funcional, se criada num ambiente propício, é capaz de contribuir tanto para a produção de conhecimento como qualquer outra. Não existem capacidade inatas. Existiram, e ainda existem, inúmeras pessoas ao longo da história humana que dedicaram toda uma vida à produção intelectual em torno de meras ideologias e, portanto, de coisas que nem sequer correspondem a nada de real, e foram consideradas génios. Outros houve, também, que se trabalharam com os recursos que tinham à disposição na altura para tentar fazer avançar o conhecimento sobre determinados assuntos, e não conseguiram, não por limitação cerebral, mas sim por limitação das circunstâncias que lhes determinaram as limitações da época. Leiam as histórias dos considerados grandes intelectuais da história humana. Não houve um único que não teve um acesso privilegiado a boas condições económicas, teve acesso a educação, foi incentivado pela família a ler e teve a sorte de ter tido contacto com determinadas ideias de outras pessoas. Não há um único com quem isso não tenha acontecido. Quem não nasceu privilegiado, conseguiu, de uma forma ou de outra, atingir uma situação de privilégio que lhe permitiu ter acesso a conhecimento sob a forma escrita. Ou seja, é um processo, é alto que resulta de muito trabalho, do contacto com muito conhecimento produzido por outros, do contacto com muitas teorias e instrumentos que foram sendo aprimorados ao longo de muito tempo. Nada disto é inato. Não há pessoas que nascem com mais capacidades do que outras. Há pessoas que recebem influências diferentes de outras e há os privilegiados que conseguem ter acesso a informação. Peguem em qualquer pessoa de onde quer que seja, ensinem-na uma determina língua, ou várias, ensinem-na a ler e, atualmente, a ver documentários, ensinem-na a utilizar determinadas ferramentas mentais e instrumentais para produzir conhecimento, ensinem-na o método científico e deem-lhe acesso irrestrito a fontes de conhecimento relevante sobre o mundo em que vive, e vão ver o grande “génio” que dali resulta. As pessoas são as suas circunstâncias, não há nada de inato em ninguém, exceto determinados mecanismos reflexos, que não têm nada que ver com capacidades intelectuais nem com desenvolvimento pessoal.

 

E, agora, e por fim, o quinto grande problema (que eu pretendo identificar neste texto, que não é, nem pretende ser, uma exposição exaustiva do assunto), é um grave entrave que o culto da personalidade representa para o avanço do conhecimento e o desenvolvimento científico e tecnológico no mundo moderno, já livre das amarras da escassez natural (mas insistindo na escassez artificial, da qual esta é um dos fatores, sob a forma de escassez de recursos intelectuais). É compreensível que, num sistema de escassez, se tenha promovido, outrora, a propriedade intelectual. Afinal e contas, é disso que depende a sobrevivência das pessoas que dedicam a sua vida à produção intelectual, ao desenvolvimento tecnológico, etc. Também é por isso, e porque vivemos atualmente num sistema de escassez artificial, que muita gente ainda se insurge contra a pirataria, existem direitos de autor, patentes, leis contra o plágio, e toda uma panóplia de legislações a defender das mais variadas formas a propriedade intelectual. Tudo isso, eu consigo compreender perfeitamente num sistema de escassez. Agora, quando temos ao nosso dispor todos os meios para superar a escassez, a propriedade intelectual impede o acesso a informação relevante por parte de pessoas que não têm meios económicos para lhe aceder e promove a competição, devido a questões de ego que se imiscuem na atividade. A competição até pode, pelo menos em algumas situações, motivar as pessoas a produzir seja o que for. No entanto, essa mesma competição promove o desperdício de tempo em atividades que não têm nada a ver com o objetivo final de produção de conhecimento, como a autopromoção, os debates e demais guerrinhas estabelecidos com os oponentes. No caso particular da competição no mundo comercial, conduz a um desperdício enorme de recursos naturais, uma vez que existem diferentes empresas que oferecem o mesmo tipo de produtos com ligeiras diferenças, que normalmente nem sequer estão relacionadas com a sua qualidade ou performance.

 

Os problemas de ego, claramente, surgem num sistema de escassez de recursos, materiais e intelectuais, no qual as pessoas têm de competir por recursos finitos e escassos. Mas, em conjunto, e aproveitando os biliões de cérebros humanos de que dispomos, e através de coisas como o Maker Movemente (ou Maker culture), que conseguiu tornar Shenzhen na capital mundial do desenvolvimento de hardware, um ambiente no qual participa muita gente, no qual cada um dá o seu contributo, cada um melhor um aspeto ou vários de uma peça de hardware, até chegar ao produto final que é o melhor desenvolvimento possível de um conceito que foi resultado de muitas pessoas e muitos cérebros a cooperarem em vista do mesmo objetivo, e que demonstra que se pode acelerar muito o desenvolvimento tecnológico com a participação de mais pessoas que aprendem fazendo e com acesso aos recursos e à informação certa, que está disponível para todos, numa cultura open-source. Juntem a todos os biliões de cérebros humanos a inteligência artificial aliada à Big Data derivada da Internet of Things, e poderão facilmente vislumbrar o quão poderíamos acelerar a produção e atualização do conhecimento e o desenvolvimento tecnológico. A automação de processos, o tratamento computacional de dados e o desenvolvimento da inteligência artificial não são coisas “más”. A aplicação da ciência e da tecnologia depende de quem as aproveita, da forma como a instrumentaliza, e do contexto no qual são aplicadas. Aquilo que pode conduzir a diversas formas de tumulto social, pelo facto de as pessoas perderem empregos por via da automação do trabalho, poderia, noutro contexto, conduzir a uma abundância de recursos materiais e intelectuais e a um aceleramento da aquisição de conhecimento sem precedentes históricos. 

 

A propriedade intelectual é apenas mais um dos entraves culturais que se perpetuam no sistema capitalista, com uma grande força histórica por sempre ter estado presente ao longo das diversas culturas hegemónicas. E, porquê? Porque o sistema capitalista promove a escassez e, como tal, tudo aquilo que se manifestava no comportamento humano e que determinava a formulação de normas e regras sociais num real sistema de escassez de recursos, como foi aquele em que todos os humanos viveram até há bem pouco tempo, de um ponto de vista histórico, foi continuado através do sistema capitalista, que promove a escassez de uma forma artificial.

 

Mas, as coisas não têm de ser assim e, depois daquilo que aqui expus, podem encontrar bastantes semelhanças entre o fim da propriedade intelectual, a apropriação coletiva dos meios de produção e do conhecimento, como uma defesa do marxismo. Mas, não é. Não é, porque Marx acreditava que o simples desenvolvimento tecnológico conduziria a uma abundância tal que as pessoas seriam libertadas do trabalho imposto pelos burgueses. Mas, tal não aconteceu, porque as pessoas não podem contribuir para soluções coletivas sem estarem munidas de conhecimento relevante acerca do mundo que as rodeia. O sistema educativo público foi criado no século XIX, na Prússia, com o intuito de criar trabalhadores e soldados, e de promover o nacionalismo, e não com o intuito de providenciar real conhecimento às pessoas. Por isso, muita coisa tem que mudar e, ao contrário do que Marx teorizou, as pessoas não conseguem unir-se e encontrar soluções coletivas alternativas espontaneamente perante um desenvolvimento tecnológico tal que cria condições de abundância, como nunca existiram antes. Não, isso não acontece se as pessoas não tiverem acesso a conhecimento relevante, se continuarem a ser condicionadas pela mesma cultura que se produziu num sistema de escassez natural e que continua a condicionar pessoas que vivem num sistema de abundância.

 

E também é por isso que, para terminar, vos deixo o link para um livro (The Money Game and Beyond) que faz uma exposição detalhada do sistema económico em que vivemos, de escassez artificial na sua forma moderna, e de soluções alternativas a tal, em conjunto com outros links que fui deixando ao longo deste artigo e todos os restantes artigos e livros que podem encontrar no site TROM (The Reality of Me).

 

Ricardo Lopes

 
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Syrie: qui croire? (partie 3), par Luís Garcia

 

 

Syrie, qui croire - 3 partie

 

Luís Garcia POLITICA SOCIEDADE  en français  

 

Les medias occidentaux, orwelliennement auto-dénommés « détenteurs de la vérité » disent une chose. La « propagande » du « régime syrien » et du méchant Poutine disent le contraire. Alors, qui devons-nous croire?

 

 

 

Incendies des bus pour les rebelles

 A en croire les récits des médias (mainstream) des méga-cimetières provoqués par les bombardements aériens russes, il ne devrait plus se trouver âme qui vive à Alep. A en croire les récits des médias (mainstream) des exécutions de civils et du vampire Al-Assad, il ne devrait plus se trouver âme qui vive à Alep. Et pourtant il s’y trouve! Et il s’y trouve tellement que rien que les terroristes «rebelles» se comptent par milliers! Comment ça!?!

 

Le fait qu’on en compte par milliers, et vu la défaite militaire des terroristes «rebelles », nous devrions être en train de recevoir des image et des vidéos nous montrant les soldats syriens les exécutant en masse, les torturant, les brulants vivants, mangeant leur cœur, non? Finalement, s’il a été prouvé que les bons terroristes «rebelles» ont commis tous ces types d’atrocités sur des soldats syriens capturés, pour quelle raison les mauvais soldats syriens ne feraient-ils pas de même, voire même pire ? Ahhh non, diable, ils en ont pardonné quelques-uns et ont laissé le reste fuir à Idlib dans des bus offerts par le gouvernement syrien lui-même! Ça alors!

 

Rebelles quittant Alep dans des bus partant vers Idlib

 

Et oui, c’est vraiment ce qui se passe. Les terroristes «rebelles» et leurs familles, au lieu de mauvais traitement, sont très bien traités par la Syrie et ses alliés, on ne peut pas le démentir. Pourquoi? Parce que lorsqu’on recherche la paix on est pragmatique, et qu’il importe peu de faire des concessions en apparence illogiques et contre-productives, si en le faisant on peut sauver des vies humaines. C’est pourquoi la Russie, la Syrie et l’Iran ont proposé aux terroristes « rebelles » l’accord suivant :

 

  1. Evacuer les civils d’Alep-est dans des zones contrôlées par le gouvernement syrien.
  2. Evacuer les civils blessés de Kafraya et Foua de la banlieue d’Idlib dans des zones contrôlées par le gouvernement syrien.
  3. Evacuer les militants [terroristes] d’Alep-Est dans les quartiers de l’ouest, et de là dans la région d’Idlib.

 

L’accord a été proposé par qui a obtenu la victoire militaire à Alep (Syrie et alliés) bien-sûr,  et cela démontre bien l’intérêt des ces derniers pour le respect de la vie humaine. Au lieu d’assassiner des «rebelles» (ainsi que des civils, selon les médias occidentaux), la Syrie les laisse partir en liberté de manière à pouvoir délivrer les civils des mains des  «rebelles libérateurs»! Quelle drôle d’histoire! Et pourquoi Krafaya et Foua? D’abord parce qu’elles sont contrôlées par des forces armées fidèles au gouvernement syrien bien qu’elles se trouvent dans une région contrôlée par des «rebelles» qui maintiennent complètement le siège sur ces terres. Ensuite parce leurs habitants sont majoritairement chiites, et l’Iran (chiite) craint la mort des ceux-ci aux mains des groupes terroristes «rebelles» financés par l’Etat barbare saoudien, ennemi de l’Iran. Troisièmement parce que 2000 civils ont été tués par ces groupes «rebelles», dont 400 enfants, et beaucoup sont blessés et n’ont pas accès à des soins médicaux. Il est donc urgent de secourir ces civils. De plus, aucune nourriture ne rentre plus dans cette zone à cause du siège «rebelle», et les survivants sont affamés depuis des semaines! Du coup où sont les pleurnicheurs d’AJ+ anti-siège militaire syrien qui «provoquent la famine» dans des zones contrôlées par des rebelles? Il y a la bonne faim et la mauvaise faim, c’est ça? Tristes sirs !

 

 

Pour une meilleure compréhension de cet accord je vous propose d’analyser la carte suivante, en gardant à l’esprit que les zones en rouges sont contrôlées par la Syrie et ses alliés et que celles en vert sont contrôlées par les terroristes «rebelles»:

 

 

Si la carte ne fonctionne pas cliquez ici 

 

Pourquoi l’accord a-t-il échoué? Pour plusieurs raisons. D’abord parce que les «rebelles» les plus radicaux (ou plus OTANiens) refusent de se rendre. Ensuite parce qu’ils trichent, en essayant d’emmener avec eux armement et otages. Troisièmement parce que certains «rebelles» ont eu l’idée de brûler les bus dans lesquels ils sont arrivés sains et saufs, dans la région contrôlée par les «rebelles». Les bus sont supposés emmener progressivement les terroristes  d’Alep à Idlib, et ramener au retour les civils blessés de Kafraya/Foua à Alep. Mais il n’était pas prévu que les chauffeurs (civils) des bus seraient tués par balles ! Quelqu’un a entendu parler des exécutions des chauffeurs civils sur RTP* ou Rede Globo ? Non, bien-sûr que non!

 

Au contraire, on nous vend du bafouillage vaseux, typique de ceux qui ne veulent pas dire ce qu’ils savent, et pire, ne savent même pas ce qu’ils devraient dire! Sur les bus, les médias occidentaux ont peu ou rien à nous raconter. En lisant les informations sur ce thème, on se retrouve avec de drôles de déductions qui sont les suivantes :

 

  • 1000 personnes ont quitté Alep pour se rendre quelque part.
  • L’interruption de l’utilisation des bus est due à un caprice des syriens ou à un caprice des iraniens.
  • Tout le monde veut sortir d’Alep, et tout le monde est contrarié par l’arrêt des bus.

 

Franchement, 1000 personnes ? Pas mille, plus. Ce serait beaucoup demandé d’ajouter que ces personnes sont des «rebelles» ou des familles de rebelles? C’est beaucoup! N’est-il pas honteux d’essayer de passer vaguement l’idée (encore une fois !) que les civils syriens veulent quitter Alep, en utilisant une manipulation si malhonnête! Oui! C’est honteux! N’est-il pas illogique de vouloir faire passer cette idée et en même temps, dans un flot de confusion, informer que les bus devaient ramener des civils! Si, c’est illogique! Soit les civils veulent quitter le « méga-cimetière d’Alep », soit ils veulent être sauvés du terrorisme « rebelle » à Alep. Les deux hypothèses émises simultanément, ça ne marche pas, non!

 

Il y a pire encore, il y a ceux qui tentent, dans certains médias occidentaux, de défendre que les bus ont été détruits par des «milices iraniennes» fidèles au gouvernement syrien! Vraiment! Pourquoi? Pour quoi faire? Pour que les blessés qu’ils protègent ne puissent pas sortir des zones assiégées!?! Où est la logique ? Oui, il existe des groupes armés par l’Iran qui protègent les zones chiites de Kafraya et Foua. Ils sont entrés légalement en Syrie et, malgré le fait que ses membres soient afghans et pakistanais, ce ne sont pas des «milices terroristes afghanes/pakistanaises» comme les appellent les médias occidentaux et du Golfe. C’est un genre de légion étrangère iranienne. Liwa Zainebiyoun est composée de pakistanais résidants en Iran et Liwa Fatemiyoun d’afghans résidants en Iran et en Syrie. Il n’y a aucun mystère, arrêtez d’inventer des milices-croque-mitaine ! Et s’il n’y a pas de croque-mitaines, il n’y a pas non plus de non-croques-mitaines qui  ne mettent pas le feu à des bus pour le plaisir !

 

Vidéo des bus en feu

 

Photos des bus en feu

 

Il est clair que les bus ont été incendiés, et ils l’ont été dans des zones contrôlées par des rebelles! Comment les médias occidentaux n’arrivent-ils pas à associer l’interruption temporaire des échanges de personnes avec le fait antérieur? Ahhhh, tristes non-journalistes!

 

D’ailleurs, pourquoi n’ont-ils pas expliqué le territoire repris, et comment il a été repris? Parce qu’ils n’ont pas informé que, pour qu’il n’y ait plus de comportement terroriste, on ne libère plus de «rebelles» terroristes que lorsque les civils blessés de Kafraya et de Foua arrivent en sécurité à Alep. Pourquoi ne disent-ils pas qu’au moins 7 bus ont amené au moins 511 blessés de Kafraya et de Foua jusqu’à Jebrin (Alep), où ils sont déjà installées dans des centres d’hébergement temporaire installés par le gouvernement syrien?
Ahhhh, triste non-journalisme!

 

Moi je préfère le journalisme :

 

 

Et les bons articles :

 

 

Et les reportages objectifs montrant des faits concrets :

 

 

Méthodologies opposées:

Si, de manière pragmatique, le «sanguinaire» Al-Assad amnistie et libère les «rebelles» terroristes en échange de pouvoir porter secours à des civils d’Alep, Kafraya et Foua, de l’autre côté, les « freedom fighters » payés par l’occident « humanitaire », à l’époque de la capture des soldats syriens et de leurs supporters déclarés (enfants inclus), n’ont eu aucun problème à utiliser la torture et à commettre des exécutions massives! Il n’y a pas grand-chose à dire devant la quantité de preuves filmées! Ne regardez pas les vidéos si vous êtes sensibles, surtout une vidéo comme celle de la torture de civils.

 

Soldats syriens exécutés par l’armée syrienne libre

 

220 soldats syriens exécutés par l’armée syrienne libre

 

28 soldats syriens exécutés par  l’armée syrienne libre

 

Civils torturés à morts par l’armée syrienne libre

 

Enfant décapité par l’armée syrienne libre

 

Choquante, oui, réalité immensément choquante, mais le plus choquant est que cette réalité soit complètement ignorée dans notre cher occident! Il y a plus, beaucoup plus de vidéos de ce genre, sur twitter, sur youtube, facebook, etc. Tragiquement, les preuves des horribles crimes réalisés par les organisations terroristes payées par nos impôts abondent. A ceux qui ne sont pas convaincus, cherchez. On trouve trop facilement.

 

Autres choses que les médias occidentaux ne nous racontent pas

Ils ne nous racontent pas que l’ambassadeur syrien à l’ONU, le gouvernement syrien et ses organes de communication ont informé de la capture de dizaines de militaires d’Etats membres de l’OTAN  et d’Etats alliés à l’Otan 14 noms ont été révélés :

 

 

 

 

Ils ne nous racontent pas que Cuba a envoyé en Syrie presque 300 000 vaccins contre la méningite pour une valeur d’un million de dollars:

 

 

 

Ils ne nous racontent pas que les militaires russes distribuent de l’aide alimentaire russe à Alep:

 

 

Ils ne nous racontent pas qu’à Alep, en ce moment, les fêtes de la libération de la ville se mélangent aux fêtes de noël. Ils ne nous disent pas que les chrétiens, les alaouites, les sunnites et chiites fêtent ensemble cette célébration chrétienne:

 

 

 

Ils ne démontrent pas, comme l’a fait Sputnik (https://fr.sputniknews.com) ou 21stcenturywire (http://21stcenturywire.com),  que la petite fille d’Alep, la «blogueuse Bana» est un «outil de propagande ultime»:

 

 

Au contraire, on trouve ce genre d’immonde non-information sur le site de LCI:

 

 

Maintenant, après avoir lu le non-article de LCI, regardez cette photo! Voyez l’excellente ambiance familiale et les magnifiques relations entourant Bana Alabed, la petite fille d’Alep, ahahahah :

 

por Tim Anderson

 

Bien-sûr la petite fille d’Alep n’y est pour rien, mais n’est-il pas étrange de trouver son père armé et entouré de «rebelles» terroristes? Ou posant pour la photo avec des armes et le logo d’ISIS? Et que dire de la famille de Bana Alabed, la petite fille d’Alep, réunie dans un décor de drapeaux turcs, avec Monsieur Erdogan président turc et la femme de Monsieur Erdogan? Hehehe! Celle-ci me rappelle une autre petite fille tout aussi (peu) innocente. La petite fille apeurée fuyant les horreurs de Saddam Hussein, témoignant sur les ordres de Saddam Hussein d’arracher les bébés des couveuses… laquelle a ensuite été découverte comme étant la fille de l’ambassadeur du Koweït aux Etats-Unis, et qui n’a jamais été dans les lieux où elle affirme avoir assisté à de telles atrocités, hehehe! La seule différence entre l’arnaque médiatico-émotionnelle de la fille de l’ambassadeur et la petite fille d’Alep, c’est que, dans les années 90, il n’y avait pas twitter ! Ahahahah !

 

*L’auteur étant portugais, il se réfère à des médias en langues portugaise. Toutefois une partie des articles en portugais auxquels il se réfère a été remplacée par des articles en français pour les lecteurs francophones.

 

Luís Garcia, 21.12.2016, Chengdu, Chine

(Traduit par Claire Fighiera)

 

 
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Elon Musk – o Moisés do capitalismo, o Cristo dos amantes da ciência, o Obama do sistema empresarial e o Iron Man dos empreendedores yuppies e millennials , por Ricardo Lopes

 

Elon Musk

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE TECNOLOGIA  ECONOMIA

 

Elon Musk – o Moisés do capitalismo, o Cristo dos amantes da ciência, o Obama do sistema empresarial e o Iron Man dos empreendedores yuppies e millennials

(Para fazer jus à tradição de nomes de meio quilómetro dos imperadores romanos e à megalomania do homem)

 

O que proponho fazer com este texto é desconstruir a imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo que, muitos amantes da ciência e outros demais analfabetos científicos mas que pensam que ciência se constrói com base no “senso comum” e que se dedicam a fazer “cherry-picking” de artigos que validam os seus preconceitos sobre os mais variados assuntos, atribuem a Elon Musk. Vou tentar analisar as principais ideias e ideologias de Elon Musk e, principalmente, fazer uma nova leitura da sua atividade empresarial, como CEO e CTO da SpaceX e como CEO da Tesla Motors e das suas ideologias sociopolíticas, como seja o facto de defender a implementação de um RBI (Redimento Básico Incondicional) ou UBI (Universal Basic Income), em inglês.

 

Para tal, e aproveitando o facto de estar repleto de citações do próprio Elon Musk, vou basear-me fundamentalmente neste artigo, que recomendo que leiam na íntegra, porque é importante perceber as ligações megalomaníacas e a personagens históricos intemporais que são estabelecidas com este novo suposto messias das novas tecnologias.

 

Ora, do primeiro até ao terceiro parágrafo somos, basicamente, brindados com a típica história contruída para reforçar a cenoura virtual do capitalismo do “self made man”. A típica história do desgraçadinho que foi da África do Sul para os EUA, e que se foi impondo por via do trabalho exaustivo, da resiliência e das capacidades inatas, no meio empresarial americano. A história do desgraçadinho, que, entretanto, o autor do artigo se esquece de referir (propositadamente?) que era filho de um engenheiro eletromecânico e de uma modelo e nutricionista e, como tal, conseguiu ter acesso aos cursos que queria na universidade e só não terminou o doutoramento porque não quis…cof cof…porque, tal como todos os grandes “visionários” que conseguiram transitar no ambiente intelectual tecnológico americanos dos anos 90, deixou-se levar pela maré e criou uma companhia de software online, com cuja venda arrecadou uns módicos 300 milhões de dólares, e, mais tarde, o PayPal, que vendeu ao eBay por 1,5 biliões de dólares. Portanto, logo aqui, começamos a vislumbrar o vanguardismo de Musk (seguir tendências e fazer dinheiro fácil) e o seu grande interesse pelos negócios. Aliás, ele tem curso de economia e, a determinada altura, poderão ler no artigo que ele não tem problemas nenhuns em dizer que gosta de ganhar dinheiro. Claro, quem é que gostando de economia e de ser empresário não gosta de nadar em dinheiro, se tiver a oportunidade?

 

Agora, e também antes que me acusem de ser um grande invejoso, porque na mente da tugalhada já se sabe que um tuga que se meta a criticar negativamente ou a maldizer alguém que ocupa uma posição social mais privilegiada só o pode fazer porque tem inveja, e maledicência é guardada para os pobres, os sem-abrigo, os ciganos, os imigrantes e os vizinhos, vou passar para a análise da sua mentalidade, e vou fazê-lo, principalmente, através de citações do artigo referido, já que melhor do que eu a escrever é mesmo ter a informação direta da fonte, para tentar inverter aqui os maneirismos do jornalismo moderno (ou até mesmo do antigo).

 

‘I think there is a strong humanitarian argument for making life multi-planetary,’ he told me, ‘in order to safeguard the existence of humanity in the event that something catastrophic were to happen, in which case being poor or having a disease would be irrelevant, because humanity would be extinct. It would be like, “Good news, the problems of poverty and disease have been solved, but the bad news is there aren’t any humans left.”’

 

Portanto, aqui ficamos a saber que Elon Musk considera a colonização interplanetária fundamental para sobrevivência da espécie humana, no caso, e sublinho NO CASO, de ocorrer uma catástrofe, perante a qual já não interessaria se se era pobre ou doente, porque toda a humanidade estaria extinta. Com o docinho no fim da citação de “Boas notícias, os problemas da pobreza e das doenças foram resolvidos, mas as más notícias são que não sobraram nenhuns humanos.”, que é já dica para o que se seguirá no seu pensamento altamente intrincado.

 

Mais à frente, temos a megalomania dos modernos tech-savvy multimilionários exposta em todo o seu esplendor:

 

They imply that humanity and civilisation are less good than their absence. But I’m not in that school,’ he said. ‘I think we have a duty to maintain the light of consciousness, to make sure it continues into the future.’

‘At our current rate of technological growth, humanity is on a path to be godlike in its capabilities,’

 

Veja-se, então, o enorme fardo que carrega o desgraçado do Elon Musk e seus congéneres: o de permitir que continue a existir iluminação no Universo, por via da consciência humana, e permitir que a humanidade atinja um estado deítico. Se Elon Musk, Bill Gates, os senhores da Apple, da Samsung, e mais toda a pitalhada yuppi e millennial das startups tecnológicas não intervir, o Universo ficará, para sempre, remetido ao desconhecimento de si próprio. O Universo sofrerá por ter de seguir uma existência sem propósito, por não ter meio de se conhecer a si próprio. O que poderá existir de pior do que isto? O que é a pobreza e a doença num minúsculo ponto no Universo, quando todo ele sofrerá se não se seguir esta via? Quem é que é mesquinho o suficiente para se preocupar com arranjos atómicos temporários sob a forma de seres humanos, quando o mais importante de tudo é salvaguardar o futuro psicológico de toda a matéria que compõe o Universo conhecido e, provavelmente, o ainda desconhecido?

 

Musk has a more sinister theory. ‘The absence of any noticeable life may be an argument in favour of us being in a simulation,’ he told me. ‘Like when you’re playing an adventure game, and you can see the stars in the background, but you can’t ever get there. If it’s not a simulation, then maybe we’re in a lab and there’s some advanced alien civilisation that’s just watching how we develop, out of curiosity, like mould in a petri dish.’ Musk flipped through a few more possibilities, each packing a deeper existential chill than the last, until finally he came around to the import of it all. ‘If you look at our current technology level, something strange has to happen to civilisations, and I mean strange in a bad way,’ he said. ‘And it could be that there are a whole lot of dead, one-planet civilisations.’

 

Eu amo, amo sinceramente, do fundo do meu sistema límbico, esta teoria. Somos uns grandes cientistas e tecnocratas, mas vamos lá inventar uma teoria altamente conveniente para podermos reforçar a lavagem das mãos dos reais problemas humanos. Ah e tal, isto até o mais provável é estarmos todos a viver numa gigantesca simulação. Gigantesca, do nosso ponto de vista, que para quem a criou ela até está provavelmente a correr num supercomputador. E é nesta altura que vos convido a ver esta rica e deliciosamente sarcástica palestra de Maciej Ceglowski, que expõe o grau de alienação da gente de Silicon Valley. Mas, enfim, se é tudo simulado, o que temos de melhor a fazer é mesmo levar isto como um jogo, que é na realidade, e andar a brincar à exploração espacial, enquanto se caga para os problemas humanos.

 

Musk identifies strongly as an engineer. That’s why he usually takes a title like chief technical officer at the companies he runs, in addition to chief executive officer. He had been reading stacks of books about rockets. He wanted to try building his own.

Six years later, it all looked like folly. It was 2008, a year Musk describes as the worst of his life. Tesla was on the verge of bankruptcy. Lehman had just imploded, making capital hard to come by. Musk was freshly divorced and borrowing cash from friends to pay living expenses. And SpaceX was a flameout, in the most literal sense. Musk had spent $100 million on the company and its new rocket, the Falcon 1. But its first three launches had all detonated before reaching orbit. The fourth was due to lift off in early Fall of that year, and if it too blew apart in the atmosphere, SpaceX would likely have numbered among the casualties. Aerospace journalists were drafting its obituary already. Musk needed a break, badly. And he got it, in the form of a fully intact Falcon 1, riding a clean column of flame out of the atmosphere and into the history books, as the first privately funded, liquid-fuelled rocket to reach orbit.

SpaceX nabbed a $1.6 billion contract with NASA in the aftermath of that launch, and Musk used the money to expand rapidly.

 

Aqui temos mais propaganda capitalista à descarada, mas também não podemos esperar mais do que o editor-chefe de uma das mais prestigiadas revistas americanas, a The Alantic. Afinal de contas, vamos cagar para a grande equipa de cientistas das respetivas áreas que Musk tem a trabalhar para ele. Musk é um Obama empresarial e, portanto, tem de lavar a própria imagem e a das empresas que encabeça. Musk é um ser todo-poderoso que avia altos calhamaços de engenharia aeroespacial e projeta sozinho os vaivéns. Mas, ao mesmo tempo, é um grande filantropo que projeta carros elétricos que ele quer que sejam completamente limpos, através das suas Gigafactories, projeta supertelhas com células fotovoltaicas que convertem energia solar em elétrica e a armazenam nas super powerwalls, projeta hyperloops para transporte supersónico de pessoas em tubos de vácuo e ainda tem tempo para ir coçando a tomateira e aparecer em vídeos do Big Think, ao lado de qualquer outro opinadeiro que tenha ideias “originais” a debitar para um vídeo entre 3 a cerca de 20 minutos, entre os quais se contam grandes analistas modernos como Slavoj Žižek, para quem o cinema de Hollywood tem feito um magnífico trabalho com filmes a representar criteriosamente possíveis futuros distópicos para a humanidade, caso alguém de esquerda, que não ele, não arranje uma solução que ele não encontra para um sistema alternativo, que ele ainda não conseguiu encontrar, provavelmente por ler as coisas erradas e perder tempo a consumir lixo audiovisual.

 

Mas, não nos afastemos do tema deste artigo, até porque a questão da filantropia e da genialidade de Elon Musk virão mais à frente. Só para terminar esta parte, é importante perceber que Elon Musk apenas emprega grandes entendidos no assunto, porque ele não tem tempo para tudo, há muito cálculo que tem de delegar a terceiros e precisa de justificar a existências das empresas deles através do número de empregos que cria. E, claro, como sempre, a injeção de dinheiro público que teve, através da NASA, não interessa incluir como premissa indispensável para o seu sucesso. Afinal de contas, ele só teve acesso a tais fundos por via do mérito pessoal demonstrado. Isso e ter nascido com capacidades inatas, não esqueçamos. ;)

 

Musk isn’t shy about touting the speed of his progress. Indeed, he has an Ali-like appetite for needling the competition. A Bloomberg TV interviewer once asked him about one of Tesla’s competitors and he laughed in response. ‘Why do you laugh?’ she said. ‘Have you seen their car?’ he replied, incredulously. This same streak of showmanship surfaced when Musk and I discussed the aerospace industry. ‘There have been a number of space startups,’ he told me. ‘But they have all failed, or their success was irrelevant.’

 

Eu não disse? Só quem atinge o topo da montanha, como Musk, se pode dar ao lixo de ser cagão à descarada. Respeitem. Não julguem!

 

‘SpaceX is only 12 years old now,’ he told me. ‘Between now and 2040, the company’s lifespan will have tripled. If we have linear improvement in technology, as opposed to logarithmic, then we should have a significant base on Mars, perhaps with thousands or tens of thousands of people.’

Musk told me this first group of settlers will need to pay their own way. ‘There needs to be an intersection of the set of people who wish to go, and the set of people who can afford to go,’ he said. ‘And that intersection of sets has to be enough to establish a self-sustaining civilisation. My rough guess is that for a half-million dollars, there are enough people that could afford to go and would want to go. But it’s not going to be a vacation jaunt. It’s going to be saving up all your money and selling all your stuff, like when people moved to the early American colonies.’

 

Agora, esta sim, é uma das partes, senão a parte mais interessante de todo o artigo: o masterplan de Musk para colonizar Marte. E o melhor é que fica exposto, pela sua própria boca, que o plano envolverá apenas pessoas com bastante dinheiro, com pelo menos 500000 dólares para gastar. E, claro, pessoas que estejam dispostas não só a estoirar a sua conta offshore, como também a vender toda a sua tralha.

 

Hum, agora tive uma branca, quem é que costuma oferecer a salvação às pessoas e pedir-lhes tudo de material em troca? Será deus? Serão os profetas? Será o professor Caramba, mestre em magia negra e branca mais forte? Será o Jim Jones? Serão os budistas? Eh pá, provavelmente não é nenhum destes mas, assim de repente, não consigo estabelecer outras associação. Não sei bem porquê…

 

It is possible that Mars could one day be terraformed into an Earthly paradise, but not anytime soon. Even on our planet, whose natural systems we have studied for centuries, the weather is too complex to predict, and geoengineering is a frontier technology. We know we could tweak the Earth’s thermostat, by sending a silvery mist of aerosols into the stratosphere, to reflect away sunlight. But no one knows how to manufacture an entire atmosphere. On Mars, the best we can expect is a crude habitat, erected by robots. And even if they could build us a Four Seasons, near a glacier or easily mined ore, videoconferencing with Earth won’t be among the amenities. Messaging between the two planets will always be too delayed for any real-time give and take.

Cabin fever might set in quickly on Mars, and it might be contagious. Quarters would be tight. Governments would be fragile. Reinforcements would be seven months away. Colonies might descend into civil war, anarchy or even cannibalism, given the potential for scarcity. US colonies from Roanoke to Jamestown suffered similar social breakdowns, in environments that were Edenic by comparison.

 

E eis que o editor do The Atlantic tem dois parágrafos de lucidez, depois de já ter passado todo um texto, e ir passar o restante, sob o jugo de uma embriaguez artística. Mas, será que Musk se deixa ficar? Será que Musk alguma vez é capaz de desistir perante as adversidades? Alguma vez ele o fez? Alguma vez ele deixou de frequentar a universidade e tirar vários cursos só porque o pai não era mais do que um engenheiro eletromecânico e a mãe uma modelo e nutricionista? Alguma vez ele baixou os braços depois de ter decidido aproveitar as negociatas dos primórdios da internet e ter feito quase dois biliões com dois websites? Alguma vez ele deixou de comer o pão que o diabo amassou a pedir empréstimos aos amigos para pagar a renda de casa enquanto ele batia recorde atrás de recorde a requisitar calhamaços e engenharia aeroespacial na biblioteca municipal? Nunca! Portanto, virá alguma solução.

 

Some individuals might be able to endure these conditions for decades, or longer, but Musk told me he would need a million people to form a sustainable, genetically diverse civilisation.

‘Even at a million, you’re really assuming an incredible amount of productivity per person, because you would need to recreate the entire industrial base on Mars,’ he said. ‘You would need to mine and refine all of these different materials, in a much more difficult environment than Earth. There would be no trees growing. There would be no oxygen or nitrogen that are just there. No oil.’

 

Ah, esperem, afinal ele tem mesmo solução, e, como não poderia deixar de ser, altamente inovadora. Algo que nunca se viu em milénios de história da humanidade: escravizar as pessoas para acelerarem o trabalho. Portanto, custa terraformar Marte? Ah, pois custa, e ele não o nega! Meus amigos, quem melhor para arregaçar as mangas e trabalhar horas extra do que os grandes paladinos do capitalismo que o fizeram para arrecadar fortunas? Vá, toca a pegar na enxada, que há batatas para semear!

 

Mais uma vez, quem é que isto me faz mesmo lembrar? Foda-se, só me consigo lembrar do Jim Jones!

 

E, e, e, atenção, não podemos deixar passar esta parte em falso. Onde é que ele foi buscar o número de 1 milhão de pessoas como o mínimo necessário para colonizar Marte? Porque, segundo o próprio, é o necessário para ter uma civilização com suficiente diversidade genética. Portanto, subam a bordo da nave espacial de Musk, rumo à terraformação de Marte, ao trabalho escravo, à renúncia de todos os bens materiais e…à eugenia encapotada. Bem diz o gajo que escreveu o artigo que ele é uma espécie de Moisés a levar o povo eleito para a Terra Prometida. Ah ah! Julgam que brinco? Então, levam já com a parte final do artigo, antes de eu continuar:

 

But he seems to see himself as a Moses, someone who makes it possible to pass through the wilderness – the ‘empty wastes,’ as Kepler put it to Galileo – but never sets foot in the Promised Land.

 

Vá, quando eu fizer piadas, não digam que sou eu que tenho mau feitio, porque, no fundo, até nem fui eu que as inventei. LOL!

 

After talking with Musk, I took a stroll through his cathedral-like rocket factory. I wandered the rows of chromed-out rocket engines, all agleam under blue neon. I saw white tubes as huge as stretched-out grain silos, with technicians crawling all over them, their ant-farm to-and-fro orchestrated from above, by managers in glass cube offices. Mix in the cleanroom jumpsuits and the EDM soundtrack, and the place felt something like Santa’s workshop as re-imagined by James Cameron. And to think: 12 years ago, this whole thrumming hive, this assembly line for spaceships, did not even exist, except as a hazy notion, a few electrified synapses in Musk’s overactive imagination.

 

Momento “pita histérica” do editor do The Atlantic. Eh pá, sim, já percebemos que tens sonhos molhados com o Elon Musk e que o vês como o Moisés, mas, por favor, baixa um pouco o tom de voz, que o que já começa a ressentir-se são as minhas sinapses da matéria cinzenta.

 

No entanto, não esqueçam, nunca, e que é a mensagem derradeira que o autor voz quer transmitir, de que tudo isto provém exclusivamente do génio de Elon Musk.

 

I asked Musk if he’d made peace with the possibility that his project could still be in its infancy, when death or infirmity forces him to pass the baton. ‘That’s what I expect will be the case,’ he said. ‘Make peace with it, of course. I’ve thought about that quite a lot. I’m trying to construct a world that maximises the probability that SpaceX continues its mission without me,’ he said. I nodded toward a cluster of frames on his wall, portraits of his five sons. ‘Will you give it to them?’ He told me he had planned to give it to an institution, or several, but now he thinks that a family influence might be stabilising. ‘I just don’t want it to be controlled by some private equity firm that would milk it for near-term revenue,’ he said. ‘That would be terrible.’

This fear, that the sacred mission of SpaceX could be compromised, resurfaced when I asked Musk if he would one day go to Mars himself. ‘I’d like to go, but if there is a high risk of death, I wouldn’t want to put the company in jeopardy,’ he told me. ‘I only want to go when I could be confident that my death wouldn’t result in the primary mission of the company falling away.’ It’s possible to read Musk as a Noah figure, a man obsessed with building a great vessel, one that will safeguard humankind against global catastrophe. But he seems to see himself as a Moses, someone who makes it possible to pass through the wilderness – the ‘empty wastes,’ as Kepler put it to Galileo – but never sets foot in the Promised Land.

And he can preach. He says we are doomed if we stay here. He says we will suffer fire and brimstone, and even extinction. He says we should go with him, to that darkest and most treacherous of shores. He promises a miracle.

 

Portanto, temos, como já se tinha visto, Moisés, Terra Prometida e…nepotismo. Nepotismo porque, claro está, em quem mais confiar para legar a salvação da humanidade do que os próprios filhos. Quem é que é o maluco que pensaria em deixar as empresas a uma instituição ou várias, que não fariam mais do que espremer o lucro? Quem é que é o maluco que vai na conversa do setor privado? Hum…

 

Este artigo até poderia parar por aqui, mas onde é que se encaixa tudo aquilo que eu tinha referido anteriormente (Tesla Motors, Gigafactory, Powerwall, supertelhas, Hyperloop) na simulação em que Musk diz que vivemos, e que a Google já pagou a engenheiros de computadores para tentarem hackear o sistema e libertar-nos dela (não acreditam? Vejam a palestra do Maciej, que vos deixei acima), e num Universo que é muito maior do que os problemas mundanos do minúsculo mundinho humano, acima do qual está, claramente Musk, como o Moisés do capitalismo?

 

Eh pá, para mim, e depois de saber que ele defende o RBI, não são mais do que manobras de distração, e até porque ele é o Obama do sistema empresarial, o Iron Man do empreendedorismo (é ele próprio que o diz) para manter o pessoal no geral convencido de que até é possível mudar o mundo por esta via, e os millennials que andam para aí a trabalhar na impressão 3D, na nanotecnologia, no ativismo verde e a criar revistas do Instagram, podem estar descansados, podem continuar a consumir produtos derivados de um sistema insustentável, porque o seu status moral já está a um tal nível que eles estão ilibados de toda a merda que lhes apeteça fazer, qual Napoleão ou César. Para além disso, até deus, até deus!, não se preocupava apenas com o Povo Eleito, mas sim com toda a humanidade, afinal todos eram seus filhos e todos somos irmãos uns dos outros, nesta bagunça incestuosa em que vivemos. Quem disse que alguém que tem uma fortuna superior ao PIB de muitos países do terceiro mundo não pode nutrir empatia por pessoas incapazes, por pessoas a quem faltam as características para se tornar pessoas distintas neste mundo selvático? Não, não, nada disso. Agora, entretenham-se a consumir os meus produtos super híper mega ambientalistas, que vos exoneram de quaisquer outros tipos de preocupações em relação aos vossos restantes irmãos, e, entretanto, fiquem aí a entreter-se com dinheiro oferecido, também para gastarem nos super híper mega produtos, quais velas acendidas aos santinhos, que salvarão este mundo, enquanto o Musk prepara a sua grande fuga para Marte, com o bolso cheio de 500000 dólares de cada uma das pessoas que compõem o milhão do Povo Eleito, e as vai submeter a trabalho escravo e, possivelmente, fazer beber um suminho de laranja com aditivos, que o que seria do Universo sem a consciência que adquiriu através da raça superior dos seres humanos e, ainda mais importante do que isso, sem um sistema para explorar insustentavelmente os recursos de todos os planetas pelos quais se espalhar? Vá, mãos à obra, toca a contribuir para a economia a explorar terceiros para fazer dinheiro suficiente para migrar para um novo planeta e usufruir de uma vida de luxo e requinte a trabalhar como escravo no local mais exótico da história da humanidade, ou a consumir para dinamizar a economia!

 

Musk nas alturas! Amém!

 

Ricardo Lopes

 
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Nelson Nunes – o aldeão na metrópole, por Ricardo Lopes

 

 

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE 

 

Ora bem, este texto refere-se a alguém que, provavelmente, ninguém, ou quase ninguém, conhece. E, ainda bem. Aliás, ainda bem que quase ninguém me conhece também. Só tenho pena que não haja mais pessoas a conhecer a ciência em que me baseio para escrever praticamente todos os meus textos, porque nem fui eu que tive o colossal trabalho de produzir centenas de anos de conhecimento nem o mérito particular de ser um cientista de profissão, apenas de formação. A questão do problema das autoridades e da propriedade intelectual será, provavelmente nos próximos tempos, tema para um texto da minha autoria, porque na era do open-source e da Big Data continuar a ter uma atitude de devoção para com pessoas é ridículo, retrógrado e constitui um grande golpe na progressão da aquisição de conhecimento sobre o mundo em que vivemos (ou o universo, se quiserem) e o desenvolvimento tecnológico.

 

Posto este pequeno aparte introdutório, vou passar a escrever sobre alguém que merece a pena tratar, não devido ao facto de ser uma personalidade particularmente distinta ou influente, mas devido ao protótipo que representa. E pretendo referir-me a este senhor, também porque, mais ou menos, tem tempo de antena na praça pública para andar a debitar as suas contradições e, como interessado em sociologia, aprecio o asseio da praça pública.

 

Nelson Nunes é alguém que escreve para o P3 do Público e, ao que parece, publica livros sobre temas do maior interesse público, como a liberdade que os humoristas podem ter para ofender quem quer que seja.

 

Agora, do que é que ele é o protótipo? É o protótipo do cagão que passa texto atrás de texto a falar acerca daqueles que considera distintas personalidades da praça portuguesa e que conheceu de uma forma mais ou menos pessoal. É o protótipo do cagão que passar texto atrás de texto a referir que lê muito e/ou a quantidade de livros que lê durante um determinado período de tempo. O mesmo faz em relação a outras formas de arte cujo consumo é possível contabilizar. É o protótipo do cagão que pode moralizar quem lhe apetece, pode inclusivamente camuflar insultos a outras pessoas, sem perder a oportunidade para mostrar como ele é que sabe fazer a adequada seleção de tralha para consumir, desde música, a literatura, a filosofia e, se calhar, que sinceramente não me lembro de ver tal coisa, de autores científicos. É o protótipo do menino mimado que pensa ser um grande entendido num assunto por ter lido a primeira coisa que lhe apareceu à frente sobre tal, mas que se nega a admitir erros. É o protótipo do menino mimado que saca de rótulos para toda a gente que comenta algo contra o conteúdo dos seus textos (e não contra a pessoa em si), principalmente “hater”. É o protótipo do egocêntrico que apenas consegue produzir texto que gire em torno de si próprio, dos seus gostos, das suas impressões sobre os mais variados assuntos, que os divulga em praça pública e que não tolera críticas. É o protótipo do egocêntrico para quem tudo o que ele diz, ainda que afete outras pessoas, é válido, mas que bloqueia na sua página de autor quem o afronta diretamente.

 

Bem, vamos seguir para exemplos, até porque cada um deles é bem mais ilustrativo da enumeração de características que fiz do que qualquer explicação que eu possa fazer.

 

O senhor é autor de textos nos quais se apresenta como autoridade máxima na determinação do que é boa ou má arte (aqui, aqui). E os textos linkados são apenas dois exemplos dos momentos típicos de cagão, nos quais Nelson Nunes puxa da soberba e do sticker com a lista de nomes de autores dos quais já leu algo e gostou, e desata a inferiorizar intelectualmente quem aprecia autores (ainda por cima artistas ou filósofos, que são dois dos grandes grupos de ditos intelectuais que vivem de produzir acerca de si próprios e das suas impressões sobre o mundo e as outras pessoas) que ele condena categoricamente como “lixo”, ao mesmo tempo que dá numa de guru para orientar as pessoas para os autores da verdadeira literatura, de acordo com os seus próprios critérios subjetivos e que ninguém conhece, nem interessa conhecer, uma vez que se poderiam trocar por quaisquer outros. Portanto, a Nelson Nunes não interesse aproveitar o facto de ter tempo de antena em praça pública para criticar o conteúdo produzido por pessoas influentes e indicar as suas falhas, ideias perigosas que veiculam, etc. Não, a ele interessa prestar-se ao trabalho de autoridade intelectual, considerando os seus critérios subjetivos como sendo objetivos, e tratando de condenar, de uma forma moralista e paternalista, quem não segue a palavra dos seus messias e não de outros. Aliás, até acaba por ter graça como os artistas não se apercebem que as guerrinhas em que entram uns com os outros são exatamente iguais às guerrinhas em que os teólogos entram, para tentar convencer toda a gente que um livro ficcional é melhor do que outro. E, claro, nesta senda, qual é a melhor estratégia retórica a empregar, e da qual Nelson Nunes se socorre frequentemente? Argumentos de autoridade. Ora, então, vamos lá pegar neste e naquele autores, relembrar as suas ideias, ou uma pequena citação dos próprios, para mostrar que, só por dizem isto, é verdade. O facto de soar bem ao Nelson Nunes coloca o que eles dizem ao nível de conhecimento baseado em evidências que, aliás, é a única forma de conhecimento possível, caso contrário voltamos ao problema das guerrinhas de livrinhos ficcionais, em que é cada um a tentar convencer que o que tem na cabeça se aproxima mais da realidade do que o que os outros têm, por mera via da dialética, ao invés de validar empiricamente o conhecimento. Também por isso é que, não só ele constrói a autoridade das pessoas que refere, através da forma como se refere a elas, como se apresenta a ele próprio como autoridade, por reconhecer e conhecer a autoridade dessas pessoas e por fazer questão de, vez após vez, dizer que privou com determinadas pessoas, leu toda a sua obra e que lê muito e vê muita coisa. Primeiro, constrói-se a própria figura de autoridade, depois tenta-se impingir sobre os outros, e, então, já se pode largar em praça pública tudo aquilo que vem à cabeça e que soa bem como se correspondesse a algo de real.

 

Outro tema recorrente nas crónicas de Nelson Nunes é a morte, o medo que ele tem dela, a explicação desse medo e a forma como lida (ou não) com esse medo. E, porque é que me refiro a este assunto? Porque o menino, tal como disse em algum sítio que não calha agora recordar, usa do humor para lidar com os seus afrontamentos psicológicos em redor da morte. E, é principalmente por isto que, já que determinadas flores de estufa que andam para aí armados em grandes pimpões fazem humor em torno da morte, mas calha que fazem também humor ofensivo sobre grupos sociais compostos por pessoas que são vítimas deste sistema, então tem que se aceitar o pacote completo. O menino aprecia humor negro porque o ajuda a lidar com aquilo que, pelos vistos, nem a arte ajuda (e claro que não ajuda, mas isso é tema para outro texto), e não admite que tentem assear a praça pública do restante humor grunho e ofensivo que os seus adorados ídolos produzem. Mais uma vez, tudo a revolver em torno do próprio, tudo questões de ego.

 

O problema das ofensas, principalmente quando são perpetradas por alguém a quem é dado o privilégio de ocupar espaço na praça pública, é um problema, sim. Mas o Nelson Nunes, tal como faz com outros temas, gosta de enfiar tudo no mesmo saco (gosta de fazer generalizações), porque generalizações são uma boa maneira de branquear ignorância sobre assuntos que são muito mais complexos do que a informação de que dispomos leva a considerar. O problema do politicamente correto não está na condenação aberta de pessoas que influenciam a sociedade em larga escala e que aproveitam esse privilégio para promover formas de comunicação altamente prejudiciais e que, ao invés de contribuírem para a resolução de conflitos e a promoção da comunicação entre pessoas de diferentes grupos sociais – isso, sim, progressista -, contribuem antes para a normalização de formas de expressão que promovem a discórdia e minam a coesão social. O que este senhor também parece não conseguir perceber é que a coesão social não tem nada a ver com a homogeneização das pessoas e a aniquilação individual – que, curiosamente, é algo para o qual ele parece querer contribuir quando quer toda a gente a ler, a ver e a gostar das mesmas coisas que ele. Ou, então, não, já que ele já de contradisse algumas vezes. -, mas sim com a possibilidade de convivência com pessoas diferentes. E, sim, isso implica compromissos e cedências entre todos. Implica respeitar a integridade alheia, física e psicológica. E isso não é promovido por pessoas inflexíveis que insistem em perpetuar uma forma de expressão desatualizada. Mas este senhor vive na ilusão criada pelos progressistas modernos de que a liberdade para ofender terceiros é algo que se obteve recentemente, de um ponto de vista histórico? Isso sempre existiu. Desde que existem normas sociais que sempre se aceitou que determinados grupos fossem alvos de ataque. E, dentro dos diferentes grupos sociais, sempre se aceitou que todos os outros, exceto o próprio, fossem alvo de ataques. Aliás, é também a linguagem que se usa que conduz a conflitos e a guerras, a indisposição para o diálogo. Mais ainda, e já que o senhor gosta tanto de dar uma no cravo e outra na ferradura, e também já tratou de redigir textos a condenar aqueles que considera serem os verdadeiros terroristas, como este, o facto de as pessoas não se disporem a ouvir aqueles que a sociedade estigmatiza e ostraciza é, também, uma das principais razões pelas quais existe radicalização. Mas, mais uma vez, de certeza que é algo que este senhor desconhece.

 

Nelson Nunes também teima em confundir “senso comum” ou “bom senso” com sabedoria, o que soa bem com o que é verdade ou corresponde a algo de real e tem uma capacidade bastante precária para, perante assuntos que desconhece, avaliar sequer o assunto que é tratado numa determinada exposição, oral ou escrita, como acontece quando, por exemplo, afirma que, neste vídeo, Zizek diz algo de relevante acerca de debate entre a agricultura biológica e os organismos geneticamente modificados (que, aliás, ele designa de “alimentos”, porque nem ele sabe distinguir uma coisa da outra, muito menos se está para preocupar com rigor), quando Zizek nem sequer é capaz de expor as diferenças entre uns produtos e outros e, como o próprio diz, isso nem interessa para a questão.

 

Mas, aquilo em que realmente Nelson Nunes mais dá pontapés, e ainda por cima sem se aperceber, uma vez que me respondeu uma vez que lê ciência, mas não a ciência que eu leio, é…a ciência. Já redigiu um texto no qual afirmava, com base num artigo fracamente redigido e completamente infundado, que curiosamente reparei que, entretanto, removeu o respetivo link da crónica, que “Sim, eu disse plantas, e se vêm já com essa cena de as plantas não terem sensações, desamparem a loja: há cientistas que dizem que as plantas têm sistema nervoso central e que sofrem muito quando lhes arrancamos uma folha.”. Eu nem sequer vou entrar aqui na explicação científica para o facto de o que ele diz não ter o mais mínimo fundamento. Se vos interessar, podem ler os comentários que eu fiz à crónica, porque contêm o essencial. O que interessa mesmo é o completo desconhecimento que este senhor demonstra em relação ao método científico. “Há cientistas que dizem (…)”. Pois, e há gente que diz muita coisa. A questão é que ciência não se faz com base em cherry-picking daquilo que nos soa bem, que vai de encontro às nossas crenças ou preconceitos, ou que dá jeito para, mais uma vez, atribuir força autoritária a um texto para o qual já vamos lançados para provar que aquilo que temos na cabeça corresponde a algo de real. A ciência não é uma democracia, em que cada um manda o bitaite que lhe apetece e no fim faz-se uma votação e o bitaite que tiver mais votos adquire o estatuto de teoria. Aliás, este senhor nem sequer deve conhecer o conceito de “teoria” em ciência, que é completamente diferente de uma teoria de qualquer outra área intelectual, na qual basta redigir um texto coerente sobre determinado assunto para se considerar tal como informação relevante acerca do assunto. Nisto, até aproveito para deixar aqui dois links para dois artigos essenciais, redigidos por um cientista a sério, acerca do método científico e em que princípios se baseia: aqui e aqui. E, já agora, deixo também, embora não o costume fazer, o link para um artigo da minha autoria acerca do problema do “senso comum”, da “razão” e da “lógica”, que não foi redigido com base no mérito que tive em construir este conhecimento, mas sim através do simples ato de me informar.

 

Outro tipo de ciência à qual Nelson Nunes gosta de andar aos pontapés, mais uma vez baseando-se na sua incapacidade total de distinguir aquilo que é baseado em evidência do que não é, aquilo que corresponde a algo de real ou não, é a sociologia, algo que já exemplifiquei quando me referi ao humor que ele defende, mas que ficou mais do que bem patente nesta crónica. Uma crónica na qual, curiosamente, foi alvo de críticas acérrimas de feministas a sério, e não daqueles/as feministas dos quais traçam o perfil em esplanadas de tascas e forçam a generalização entre todos/as os/as outros/as. Aliás, como eu já aqui disse, a generalização é uma arma essencial na construção do discurso do Nelson Nunes. “Precisamos de olhar para as mulheres como bichos encantadores, que é o que são.”, afirmação do próprio, que ele não é capaz de reconhecer como paternalista e como se referindo às mulheres como elas sendo o que lhes é ditado pela cultura de género, que é um dos principais alvos dos/as feministas. Não, para o Nelson Nunes, a mulher é um ser com determinadas características – e calha que são as típicas características de donzela em apuros e ser frágil que precisa de ser protegida e tratada de uma forma indulgente paternalista pelo homem – e o homem outro ser com outras determinadas características. Isto, claro, porque o senhor, como grande consumidor de arte e de demais baboseiras ideológicas, é grande apreciador de verdades universais, e, apesar de dizer que lê ciência – não se sabe bem é qual, muito mais até se duvida seriamente que tenha capacidade para a interpretar -, e que a arte e a filosofia, entre outras atividades baseadas puramente em ideias não validadas empiricamente e, portanto, não correspondente a nada de real, abrem a mente, continua enterrado até ao pescoço em estereótipos. Porquê? Porque, para facilitar a produção artística, e porque os artistas apenas se podem reportar a eles próprios, precisam, como do pão para a boca, de generalizações e de acreditar que aquilo que sentem pode ser projetado nos outros e que se se comportam de determinada maneira motivados por determinadas coisas, então se observam comportamentos semelhantes nos outros as motivações terão de ser necessariamente idênticas. Enquanto que nas ciências sociais se aprende que nada no comportamento humano é universal, nem sequer a expressão de emoções e que as palavras que as pessoas usam para se reportarem ao que sentem representam a mesma coisa em duas pessoas diferentes. Portanto, parabéns à grande abertura de mente que a intelectualidade ideológica permite. Aliás, como bom amante das artes, Nelson Nunes não poderia deixar de acreditar no amor romântico, não é?

 

Tudo o que referi, mais o facto de ler tanto mas continuar agarrado ao tal “senso comum”, que o faz ficar agarrado ao conhecimento popular, como se pode ver aqui, reforçar a associação entre os sentimentos positivos provocados por algo e a sabedoria (aqui) e não perder a oportunidade de se apresentar a ele próprio como exemplo perfeito de portador de características de alguém vencedor (aqui), como se merecesse ser ele mais guru do que o Gustavo Santos de quem passa a vida a falar mal e é frequentemente exemplo do que despreza nos seus textos, ao mesmo tempo que redige ele as suas próprias versões da forma como considera que as pessoas devem encarar a vida, como devem enfrentar os desafios, lidar com a morte, e toda uma panóplia de textos dignos de livros de autoajuda. Não, ele não consegue perceber que aquilo que ele faz é exatamente igual ao que o Gustavo Santos faz, embora com impacto social diferente, porque se trata de alguém lidar com o que lhe acontece na vida, ou lhe vai na cabeça, de determinada maneira e querer ir transmitir aos outros o grande “Segredo” que descobriu do qual toda a gente precisa de saber.

 

Só para terminar, uma mostra da hipocrisia do “moço”, como ele gosta de chamar a outros para se armar ao popularucho, como fazem outros seus grandes adorados, como o Marcelo Rebelo de Sousa.

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“é o meu olhar que tem de se adaptar à realidade”. Hum, a sério? E quando vais fazer cherry-pucking de informação para validar as tuas próprias ideias sobre um determinado assunto? Interessa-te a realidade ou, antes, confundes o que tens na cabeça com a realidade e, depois, a única coisa que fazes é ir à procura de informação que a validade e rejeitar o resto?

 

E, enfim, sobre o resto já falei, e deixo aqui apenas mais informação acerca do verdadeiro problema dos progressistas (associados ao politicamente correto) e do Trump.

 

Ricardo Lopes

 
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Xutos & Pontapés oferecem o cu ao Império, por Luís Garcia

 

  Desespero Mediático 16

Xutos & Pontapés oferecem o cu ao Império

 

Luís Garcia POLITICA SOCIEDADE  

 

Choradeiras mediáticas 

O desespero mediático costuma ser sobretudo provocado pelos media mainstream. No entanto nos últimos dias temos apanhado com mediatizações desesperantes vindo de actores e cantores.

 

A prostituída e muito boa actriz Meryl Streep veio com a sua choradeira anti-Trump que nem sequer começou a governar mas, no entanto, é uma amigalhaça da senhora Hillary que, como provam os documentos sacados pela Wikileaks ao DNC é responsável directa pelo financiamento e criação do ISIS, e mais, Meryl Streep Choradeiras nunca se mostrou muito impressionada por factos como: Obama ter invadido mais países que Bush, Obama ter morto imensamente mais civis inocentes com drones do que Bush, Obama ser o recordista de exportação de armas desde a 2ªGGM, Obama ser o recordista absoluto de investimento em bombas nucleares, Obama ter expulsado mais imigrantes ilegais do que Bush... ahhh, grande dama de ferro quando convém!

 

A Madonna veio dizer que a eleição de Trump é como estar "preso num pesadelo"! Tadinha! Sim, vai ser um pesadelo para gente hiper-privilegiada viver num país governado por Trump! Não, os 8 anos de Obama à frente do Império da Guerra não foram um enorme pesadelo para os muitos milhões que vivem no Afeganistão, Paquistão, Síria, Iraque, Líbia, Iémene, Sudão, Honduras, Haiti, Venezuela, Ucrânia, etc. Não, invasões, golpes de estado, tentativas de golpes de estado, guerras económicas e embargos, infiltração de mercenários terroristas ao milhares matando, torturando, roubando, destruindo, escravizando, violando, vendendo pessoas como se fossem gado, etc, não, não foi um pesadelo para ninguém!  

 

E depois ainda houve aquele molho de lobotimizados cantores que se lembraram de cantar I Will Survive, como quem diz que irá sobreviver à presidência do cavaleiro do Apocalipse chamado Trump! Jurem, um bando de privilegiados milionários irão sobreviver? Ahhh, que espanto! e os iemenitas, puderam sobreviver aos 100 biliões de dólares de armamento que Obama vendeu à invasora Arábia Saudita? Não! E os sírios, puderam sobreviver ao Estado Islâmico cuja criação foicomprovadamente planeada e financiada - em conjunto com outras pessoas - pela senhora Hillary Clinton? Não! Como esta gente vive numa absurda realidade paralela!

 

E agora só faltava que, no rectângulo sossegadinho à beira-mar plantado, aparecessem os Xutos & Pontapés fazendo campanha mediática pela organização terrorista White Helmets, secção de relações públicas da al-Qaeda! Como? Olhem para as imagens do vídeo-clip, são quase todas obra dos White Helmets, começando por aquela grotesca falsa notícia sobre o puto sentado na cadeira laranja! Como? Usando como fonte de texto para a letra da canção a suposta conta Twitter de uma menina síria, Bana Alabed, uma pobre miúda usada como cara para propaganda vergonhosa graças ao seu pai membro da al-Qaeda! Ahhh, bravo Xutos, grandes inspirações! Só falta agora é darem um concerto ao vivo, gratuito, em Idlib, em homenagem às "vítimas dos barris-bombas do sanguinário al-Assad"! Que dizem?

 

 

Bana Alabed com "d"

Não, a sério, vamos lá ver o que propuseram os Xutos & Pontapés à malta tuga! Começando pelo início, sinceramente, nem no nome da miúda síria acertam, e não me venham falar em erros tipográficos pois escreveram Bana Alabeb com "b" várias vezes, um pouco por todo lado, em vez de escreverem Bana Alabed com "d". Verificação de factos? Vamos lá. Vejamos a conta twitter da miúda aqui e vejamos as 2 imagens no slideshow abaixo retiradas das contas facebook e youtube dos Xutos & Pontapés:

 

 

Quanto à menina, vejam o excelente ambiente familiar e as magníficas relações pessoais em volta de Bana Alabed, A Menina de Aleppo:

 

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Sim, A Menina de Aleppo não tem culpa nenhuma, concordo, mas não é estranho encontrar o seu pai armado e rodeado de "rebeldes" terroristas da al-Qaeda? Ou pousando para a fotografia com armas e o logo do ISIS? E que dizer da família de Bana Alabed  toda reunida e acompanhada por bandeiras da Turquia, pelo senhor Erdogan presidente da Turquia e pela esposa do senhor Erdogan? Mas anda tudo cego?

 

Bana Alabed não entende sequer uma frase em inglês!

  

Então a miúda tem uma conta Twitter que foi criada no Reino Unido, consegue publicar todos os dias a partir de um local sem electricidade (quanto mais internet de ligação rápida), escreve inglês melhor que Shakespeare, ousa dizer que preferia que houvesse uma 3ª guerra mundial do que ver a sua Aleppo destruída, quando lhe escrevem em árabe da síria responde em inglês, recusa ajuda para sair em segurança e ao mesmo tempo publica vídeos fazendo choradeiras de "último dia de vida", sai de Aleppo pelo corredor de segurança oferecido pelo governo e na companhia de terroristas da al-Qaeda que se deslocavam para Idlib e de repente aparece em Ancara na companhia do terrorista Erdogan! Mas está tudo parvo ou quê? Nem me alongo mais, pois já foi tudo dito. Leiam o meu artigo Síria, acreditar em quem? (parte 3) ou, bem melhor, leiam os artigos da Sputnik e da 21stcenturywire onde esta estória da treta é desmontada de ponta a ponta:

 

 

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Estão a ver as 2 fotos acima? Na primeira aparece Bana Alabed na companhia de um amigo do seu papá, aquando da saída de Aleppo nos autocarros destinados exclusivamente aos "rebeldes" terroristas. Nada de espantar, tendo em conta que o seu papá e os amigos do seu papá aparecem inúmeras vezes na companhia de membros de al-Qaeda, dos Estado Islâmico e outras organizações terroristas.

 

Estão a ver a segunda foto? Ora pois nesta aparece de novo o amigo do papá de Bana Alabed minutos antes de participar na decapitação de uma criança palestiniana de 12 anos cujo "crime" foi ter um pai pró al-Assad e anti terroristas como estes do bando al-ZInki.

 

Não acreditam? Vejam no vídeo abaixo o que fizeram os membros do al-Zinki (sub-grupo da al-Qaeda), e descubram que o senhor que levava Bana Alabed ao colo, também é gajo para se divertir a degolar vivas crianças inocentes:

 

O puto da cadeira cor-de-laranja 

Depois, que tremendo falhanço, a primeira imagem do vídeo-clip é aquela da farsa do puto não-ferido sentado numa cadeira laranja, filmado e fotografado por um conhecido e reconhecível membro da al-Qaeda (e dos White Helmets), o senhor Mahmoud Raslan! Mas há meses que esta grotesca mentira foi desmascarada e os Xutos & Pontapés têm o desplante de usar a falsa foto da al-Qaeda como PRIMEIRO frame do seu novo vídeo-clip? A sério!

 

Não acreditam? Ahhh, ora leiam este artigo em PORTUGUÊS e analisem com atenção todos os factos disponibilizados:

 

FAKE NEWS - tadinho do puto da cadeira laranja 

FAKE NEWS - tadinho do puto da cadeira laranja

 

As fotos dos White Helmets

E o resto das fotos, que dizer delas? Para começar posso garantir-vos que conheço de cor quase todas, sobretudo graças à exaustiva pesquisa que foi necessária realizar para escrever dois artigos sobre os White Helmets. E sim, as fotos são quase todas dos White Helmets!

 

White Helmets, humanistas ou terroristas? Parte 1 

White Helmets, humanistas ou terroristas? Parte 1

 

 White Helmets, humanistas ou terroristas? Parte 2

White Helmets, humanistas ou terroristas? Parte 2

 

Poderia dizer muitíssimo mais sobre a mais que comprovada mentira que são os "humanitários White Helmets", que são, isso sim, uma mais que comprovada organização terrorista comprovadamente financiada pelos EUA, Reino Unido e França! Não vale a pena dizer muito mais, já foi tudo bem explicado em PORTUGUÊS e bem documentado nos dois artigos que acabei de partilhar acima deste parágrafo. 

 

O palhaço do Palhaço de Aleppo

Para acabar em grande (merda) não podia faltar, pois claro, o não-palhaço de Aleppo, o tal Anas al-Basha que nunca ninguém viu vivo ou morto, nem ninguém viu o míssil russo, nem o local onde caiu o míssil, nem a porra da cratera provocada pelo tal míssil. Enfim, propaganda barata atrás de propaganda barata. Se esta malta das patadas e patadas, em vez de lamber o cu ao império da guerra e da barbárie fossem, por exemplo, ver quem é e o que faz o suposto irmão do palhaço e membro da al-Qaeda, o senhor Mahmoud al-Basha, talvez fizessem figuras menos tristes.

 

 Uma perspectiva crítica sobre o "Exército de Aleppo"

Uma perspectiva crítica sobre o Exército de Aleppo

 

 A letra da música

Epá, cliché atrás de cliché de meter nojo! Então e Tripoli, ou Cabul, ou Sana, ou centenas de outras cidades, vilas e aldeias diariamente bombardeadas pelo império? Nada não é, pois os rocalheiros tugas "do contra", em sintonia com os mainstream media mentirosos decidiram fazer mais do mesmo: repetir de forma pueril a propaganda do império! Epá, parabéns pelo feito! Que vendidos, cantando sobre falta de água mas não explicam que as condutas de água de Aleppo foram destruídas há 4 anos pelos terroristas "rebeldes libertadores" e que agora sim estão a ser reparadas pelo governo do "sanguinário" al-Assad. Falam de falta de água, que vergonha, na precisa altura em que 5 milhões de pessoas em Damasco não têm acesso a água graças à gasolina que os "rebeldes" terroristas despejaram nas condutas e graças aos explosivos que os "rebeldes" terroristas utilizaram para destruir as condutas que saem da barragem de Wadi Barada. Felizmente o exército sírio recuperou ontem parte da zona onde se encontra a barragem e promete que a água voltará em breve a Damasco. Mas isto não interessa aos Xutos nem a ninguém. Vá, ide tudo a assapar nos vossos carrinhos que funcionam a combustível roubado pelo ISIS aos sírios enquanto ouvem, com o volume das colunas no máximo, esse asqueroso vómito musical propagandista cantado pela marioneta do dia, o senhor Tim! 

 

Por fim, só queria informar que os Xutos & Pontapés, como são gente 5 estrelas e perante os inconvenientes factos comprovados que partilhei na sua conta facebook de forma a informá-los a eles e aos seus seguidores que os autores das fotos do vídeo-clip são membros de uma organização terrorista, ... pois claro, bloquearam-me! Como dizia o Cavaquinho, "há que alcançar o consenso", e não há forma mais eficaz do que calar (ler censurar) quem não papa as mentiras-verdades-oficiais! Parabéns pela censura, sois os maiores!

 

Luís Garcia, 14.01.2017, Chengdu, China

 

leia mais artigos de Desespero Mediático aqui 

 

 

 
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O que Trump representa para os progressistas, por Ricardo Lopes

 

 

O que Trump representa para os progressistas

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE POLÍTICA

 

Neste artigo, vou esmiuçar a histeria coletiva que se gerou recentemente em torno, primeiro da candidatura de Trump à presidência dos EUA, e depois da sua eleição.


Ora, para perceber a reação ao fenómeno “Trump”, é preciso perceber aquilo que representou e em que se tornou e a forma como cresceu o fenómeno “Obama”, e é preciso enquadrar os discursos progressistas e esquerdistas no quadro dos valores culturais atuais.


É comum ouvir dos progressistas modernos que a humanidade conseguiu grandes feitos, principalmente nos últimos 200 ou 200 e tal anos. Por exemplo, que acabou com a escravatura, que se instaurou a democracia de uma forma mais ou menos generalizada pelo mundo inteiro, graças à revolução francesa, que acabou o racismo, entre outras histórias da carochinha lindas para adormecer as crianças entre os 2 e os 7 anos à noite.


O que representou Obama? Obama foi o orquestrador perfeito (melhor teria sido quase impossível) de um processo de branqueamento do estado atual do mundo moderno, sob o sistema vigente do capitalismo. Obama foi o pretinho, que por ser pretinho, ninguém considerado “decente” podia criticar. Obama transformou uma coisa chata, enfadonha e muito difícil de compreender como a política numa coisa “cool”. Transformou a imagem do político como alguém série, muitas vezes sisudo, a recorrer a linguagem complicada de decifrar, numa estrela pop. Obama foi o político dos talk shows, dos discursos humorísticos, das paródias familiares, da abertura de portas da casa branca à populaça, das redes sociais.


Mas Obama, para os progressistas, através disso, representou algo muito mais profundo e importante, aquilo que dá alento a todas as lutinhas grupais ridículas, que é o facto de, finalmente, ter conseguido convencer as pessoas de que o mundo progrediu mesmo, de que o mundo mudou muito, e de que os atuais progressistas vivem num tempo privilegiado. Obama fê-los sentirem-se importantes. Os progressistas atuais, perante a imagem que Obama pintou do mundo e do país mais influente do mundo, sentiram-se os herdeiros do legado de grandes lutadores pelos direitos humanos. Com Obama à proa do mundo, os progressistas acreditaram que, não só era possível melhorar o mundo rápida e infinitamente, como eles poderiam participar, todos, nessa mudança, e imortalizar o seu nome.


O problema é que nada mudou. E é isso que Trump representa. Trump representa o falhanço total de tudo aquilo por que os progressistas acharam estar a combater e a conseguir concretizar, ao longo de 8 anos de Obama, contando já com o legado de franceses, Martins Luther King, Ghandis, Einsteins, John Lennons, Johns F. Kennedy, Malcolms X, Jiddus Krishnamurti, Karls Marx, e toda a panóplia de grandes oradores dos últimos dois séculos. Trump veio negar o mundinho das histórias de carochinha que os progressistas acreditaram existir, mas que nunca passou da cabeça deles.


Trump, acima de tudo, é o político da realidade. As suas ideias e opiniões são as ideias e opiniões de uma esmagadora maioria das pessoas, e que continuarão a ser durante muito tempo, como irei explicar.


Uma das principais armas de que os progressistas sempre se socorreram, e provavelmente a mais usada de todas, foi o sistema legal. Os progressistas que são tão progressistas, são tão ou mais rápidos a condenar o que é diferente deles, tal como os racistas, machistas, homofóbicos, chauvinistas, etnocêntricos, conservadores e retrógrados que tanto acusam de pretender interferir com a vida alheia. Os progressistas que são tão progressistas, e que não perdem dois segundos a apontar o dedo a alguém que consideram ser retrógrado e a acusá-lo de interferir com a vida alheia, nunca perderam dois segundos a condenar a uma vida miserável pessoas que pensavam de forma diferente deles. Os progressistas querem resultados imediatos, porque interessa que seja reconhecido o seu trabalho e a sua luta. E, como é que se conseguem resultados rápidos? Através de imposição, nomeadamente por vida legal. Ora, então, toca a proibir determinados tipos de comportamento.


Agora, isto não só é estúpido, como é altamente injusto e perverso. Os progressistas, que supostamente existem para representar os desfavorecidos, os que não têm voz, por via da sua estupidez, e por mais que tal lhes custe a aceitar, condenam precisamente esses. Os progressistas, que acham que toda a gente tem de papar a ideologia deles, porque só através de tal ideologia é que o mundo pode funcionar melhor do que funcionava antes de eles intervirem, querem saber de tudo, menos de providenciar condições materiais favoráveis à maioria das pessoas. E, mais, querem saber de tudo, menos de melhorar o sistema de ensino, para que as pessoas tenham acesso a conhecimentos relevantes acerca dos vários aspetos da vida em sociedade e do mundo no geral, e de facilitar o acesso das pessoas a esse mesmo sistema melhorado. Não, os progressistas querem resultados rápidos.


Por isso, são tão afins de revoluções, de manifestações, de protestos, de tentar influenciar o poder legislativo. Porque, sabem que mais? Mudar o mundo, como ele deveria ser mudado, dá muito trabalho, e leva muito tempo. Principalmente, leva muito tempo porque teria de se modificar drasticamente a cultura em que vivemos – e falo de uma cultura, porque o sistema é cada vez mais globalizado. Daria tanto trabalho e levaria tanto tempo a fazer, que provavelmente nenhuma pessoa ou grupo de pessoas sozinho o conseguiria fazer e, puf, lá se ia a imortalização com os porcos.


Agora, o Trump deu cabo dessa rica imagem do mundo moderno, da imagem que deu tanto tempo aos progressistas construir, e das ideias que tinham do mundo das quais tiveram tanto trabalho a convencer-se. Não, nós não vivemos num mundo no qual a escravatura acabou. Não, nós não vivemos num mundo no qual o racismo acabou. Não, nós não vivemos num mundo no qual imperam os valores democráticos. Não, nós não vivemos num mundo que cumpre com os direitos estabelecidos na Carta dos Direitos Humanos. Não!, nós vivemos num mundo que é tão primitivo como o mundo era quando alguém decidiu criar a primeira forma de linguagem escrita. Aliás, nós vivemos num mundo que é tão primitivo como o mundo era quando alguém decidiu criar uma forma de comunicar verbalmente. O problema, é que ainda ninguém reparou.


Ou, melhor, não tinham reparado até há bem pouco tempo, e continuam a insistir na sua negação com toda a força. Daí tanta gente agora se manifestar contra Trump, daí terem querido que se fizesse a recontagem dos votos, daí quererem recorrer a todas as vidas possíveis para impedir a sua indigitação. Mas, isso não vai acontecer, por mais que queiram. E, ainda bem que não vai, porque as pessoas precisam de olhar para o mundo tal como ele é. Trump traz consigo a iluminação, e não aquela que os iluminados progressistas disseram possuir durante tanto tempo.


Trump representa o fracasso total das tentativas de mudar o mundo através de discursos orais ou escritos bonitos e bem-sonantes. Trump representa o fracasso total da tentativa fútil dos progressistas de remeterem ao silêncio e ao ostracismo todos aqueles que defendem ideologias opostas.


A sociedade moderna continua carregada de primitivismos, porque a sociedade moderna continua a operar com base nos mesmos princípios de exclusão que todas as sociedades e culturas humanas operaram desde que existe organização e grupos sociais. Lamento, meus caros progressistas, mas o que tentaram fazer, e não resultou, tal como nunca resultou ao longo da história, nem nunca resultará, foi varrer o pó para debaixo do tapete, e deixá-lo lá escondido na esperança de que desaparecesse por si próprio, deixando simplesmente o tempo fazer o seu trabalho. A questão é que o tempo não faz trabalho nenhum. O tempo apenas cria condições para que, mais cedo ou mais tarde, capitalizando momento de descontentamento generalizado, as antigas figuras de proa dos valores que norteavam a humanidade assomem à superfície, em todo o seu esplendor.


Aprendam de uma vez. A sociedade não muda por via de revoluções, porque as revoluções são movimentos exclusivos. As revoluções fazem apenas com que determinados grupos sociais se vejam obrigados a operar na clandestinidade, até que surjam condições favoráveis ao seu ressurgimento e possam retomar o poder.


E, a sociedade não muda por via de imposições. Para além disso, as imposições são absolutamente injustas, porque a maioria das pessoas que carregam valores retrógrados vivem em condições desfavoráveis, tal como já disse.


Muitos sociólogos e historiadores olham para a história humana e veem ciclos que se repetem, e passam a acreditar que é uma questão de destino, de sina, de vontade divina, ou algo que não se pode mudar porque o ser humano é naturalmente de uma maneira ou de outra. Pois, mas eu tenho-vos a ensinar uma coisa: o ser humano não é naturalmente coisa nenhuma. O ser humano é o resultado do ambiente em que vive, das condições de vida que tem, das experiências e das influências que recebe.


A inveja, a avareza, a competitividade, e todas essas supostas vontades de se impor, não são mais do que o resultado da vivência num sistema que opera com base na escassez de recursos, materiais e intelectuais, e com base nas vantagens diferenciais. As vantagens diferenciais constituem tudo aquilo de que determinadas pessoas favorecem por pertencerem a determinado grupo social.


Ora, e se antes as pessoas viviam num sistema no qual a escassez era inevitável, agora vivem num sistema que cria situações de escassez, e é com base nisso que a sociedade opera. A tal ordem social que toda a gente, de todos os polos políticos, almeja, é mantida com base no princípio da criação de condições de escassez artificial.


O que esperam que aconteça, nestas condições?


Por isso, é que a história humana é cíclica. Por isso é que caem impérios, e reinos, e países, e uns tomam poder, para depois serem depostos por aqueles a quem o usurparam. Por isso é que esta fantochada de aparente progresso e constante retrocesso, numa espécie de tentativas frustradas de remendar um sistema obsoleto, para além do progresso tecnológico – que, esse sim, é real – não permite um verdadeiro progresso de valores.


Por isso, meus caros, é que toda a gente ficou muito chocada quando o Trump ganhou, e quando o “Sim” ganhou no Brexit, e quando se gerou uma vaga de xenofobia e discriminação religiosa, e de outros tipos, na Europa, perante uma vaga de refugiados de guerra e económicos.


Agora, se eu gosto do Trump como político? Sim, e não. Não, porque o Trump é um completo retrógrado. Sim, porque o Trump representa a verdade sobre o mundo moderno, com a qual os progressistas não querem ter contacto, principalmente porque é carregada pelos desgraçados deste mundo, os únicos que não têm voz e aos quais nenhum progressista quer dar voz… até que aparece alguém como o Trump, e permite, através da sua campanha e da sua posição privilegiada, que estas pessoas voltem a ter tempo de antena no espaço público. Trump deu voz aos verdadeiros esquecidos deste sistema. Trump deu voz aos desencorajados. Mais, Trump é uma evidência, Trump é honesto, Obama era uma mentira. Trump é muito menos perigoso que Obama. Obama era o palhaço mediático que, tal como qualquer outro palhaço, pintava a cara para ninguém o reconhecer. Por detrás da maquilhagem de pretinho progressista, estava a triste figura de um opressor sanguinário. A triste figura de alguém que, com os seus discursos cheios de floreados e esperança, conseguiu sufocar, vez após vez, os desfavorecidos e desencorajados que são uma maioria nos EUA. A triste figura de alguém que, com as suas atitudes populistas, conseguiu branquear o imperialismo, conseguiu entrar em mais guerras do que qualquer outro presidente da história dos EUA, transformando-as em “luta pelos valores democráticos”. A triste figura de alguém que foi figura de proa de um país onde ainda existe a pena de morte, onde existe a maior população prisional do mundo, onde a esmagadora maioria das pessoas vai parar ao sistema prisional, sem condições para alguma vez conseguir sair de lá, por fazer coisas tão inofensivas como drogar-se, faltar às aulas ou ter de cometer crimes porque não tem outra via através da qual se afirmar socialmente ou ter uma vida digna, um país onde a esmagadora maioria da população tem um acesso altamente precário a cuidados médicos, mesmo que pague um seguro de saúde, um país onde minorias são maltratadas e votadas ao desprezo desde que alguém se lembrou de as explorar e roubar-lhes a terras, como os pretos, os nativos americanos, os hispânicos, etc.


Admiram-se realmente que pessoas pertencentes a minorias tenham aderido tão facilmente à campanha do Trump? Meus caros, o Trump fez a campanha que lhes deu voz! Aquelas são as ideias de pessoas que vivem em condições desfavoráveis!


Podem vociferar o que quiserem, podem tentar ir atrás dos discursos bonitos que quiserem, mas as pessoas que carregam as ideologias do Trump não o fazem porque são merdosas, mas sim porque sofrem muito neste sistema! Vão estudar sociologia, mas a verdadeira, não a da serpente, ou dragão, de Ouroboros, que anda a morder a própria cauda, como que a cumprir com uma profecia demoníaca da qual não se consegue libertar?


Onde proliferam más ideias? Onde é que as pessoas mais facilmente aderem à religião? A que grupos sociais pertencem as pessoas que, estatisticamente, cometem mais crimes considerados violentos?


Foi a esta gente que Trump deu voz! Trump deu voz aos desfavorecidos! Trump não deu voz aos privilegiados, estragados pela forma como foram criados e educados. Não! Trump deu voz aos desfavorecidos! Por isso, é que deu voz a uma maioria!


A esmagadora maioria das pessoas neste mundo vive em condições precárias. Do dito terceiro mundo, acho que nem preciso de falar. Mas, no primeiro mundo, há cada vez mais pessoas que lutam para conseguir manter-se vivas e, muitas outras que, não lutando propriamente para sobreviver, são obrigadas a cumprir com determinados papéis que não as permitem realizar-se enquanto pessoas. São obrigadas a ter “bullshit jobs” – se não conhecem o conceito, vão ler David Graeber -, não encontram mais sentido na vida do que o de serem escravos-consumidores. Escravos de patrões que os exploram, de forma cada vez mais subtil, tão subtil que até aos países mais progressistas já conseguiram impingir trabalhos e formas de trabalho altamente prejudiciais à saúde mental dos seres humanos. Consumidores, porque o sistema capitalista é o sistema de consumo por excelência.


E, não é tão lindo como o novo slogan político de todas as campanhas, à direita e à esquerda, é o de “criar empregos”? Criar empregos, sejam eles quais forem e como forem. Criar empregos, nem que esses empregos não permitam ter um ordenado que sirva para satisfazer o acesso às necessidades da vida e a produtos e serviços básicos da vida moderna. Criar empregos, mesmo que se tenha de andar a ter mais do que um emprego ao mesmo tempo, e não se goste de nenhum. Criar empregos, mesmo que nenhum deles, na verdade, sirva para nada, e pudesse perfeitamente ser integrado no trabalho de um menor número de pessoas ou, até, automatizado.


Por isso, eu disse, no início, que os grandes progressistas, os grandes oradores líricos, os grandes ideólogos que não servem para nada porque nem sequer conhecem o mundo em que vivem, mas vivem e fazem atividade baseada exclusivamente nas merdas que têm dentro da cabeça, com a atitude que sempre tiveram todos os grupos sociais ao longo da história humana, e que esta gentalha considera diferente apenas por pretender transmitir valores diferentes, agarrados às suas políticas identitárias, vão arruinar o mundo. Não, não será o Trump a arruinar o mundo de vez, até porque já é mais do que hora de ultrapassar essa visão individualista da história e do mundo humano, como se alguém sozinho alguma vez tivesse causado impacto significativo no mundo, ou sequer num país.


Insistam nas políticas identitárias, das quais Hillary Clinton era a candidata representante nestas eleições, por ser mulher, tal como Obama era preto, insistam nos vossos sistemas legais que não mudam nada, mas que apenas alienam determinados comportamentos e os remetem para a clandestinidade, mas nunca para a inexistência, insistam em tentar fazer remendos num sistema que funciona com base no princípio do crescimento infinito na exploração de recursos naturais finitos, insistam em políticas acéfalas de ética do trabalho em vez de promoção do acesso universal a produtos e serviços, insistam nas revoluções, nas manifestações, nos protestos, na redação de textinhos cheios de floreados, de cartinhas e tratados cheios de palavras rebuscadas, que apenas há de piorar tudo com o tempo. É garantido. Podem passar mais 1000 anos a lutar nestes moldes, que nunca deixará de existir nenhuma prática condenada por moda. Aliás, a mentalidade primitiva é tão dos que são considerados retrógrados como vossa, como expliquei.


Principalmente, continuem a acreditar que os vossos mundinhos das ideias e as grandes artes servirão para dar propósito à vida dos escravos-consumidores, que, e já que os terroristas são uma das vossas principais preocupações, e que justificavam as ações do querido Obama nos países do Médio Oriente e do Norte de África, pode ser que, tal como já acontece mas intensificar-se-á, comecem a dar mais frequentemente de caras com pessoas que vos são familiares a lutar do lado dos terroristas, de tão desencorajados que já estão num mundo que não lhes permite a realização pessoal. Ou pensam que os jovens dos vossos idílicos países ocidentais decidem integrar grupos terroristas em países distante porquê? Porque são malucos? Não. Mais uma vez, vão ler os estudos sociológicos que traçam as condições de vida dos desencorajados do vosso sistema das histórias da carochinha.


Então, pode ser que chegue o dia, em que, mesmo depois de se terem negado a ver a realidade do mundo tal como ela é, porque arranjaram subterfúgios mentais e “safe spaces” a funcionar como câmaras de eco para sobreviver ao(s) seu(s) mandato(s), olhem na cara dos terroristas e já não os consigam distinguir de vocês próprios, porque quem está do outro lado é uma pessoa exatamente igual a vocês, com a mesma cor de pele, que fala a mesma língua, que nasceu e viveu a maior parte da vida no mesmo país, que foi criada na mesma cultura. A diferença é que essa pessoa terá sido alienada pelo sistema, por fatores externos, enquanto vocês se perderam no labirinto da própria cabeça, o qual criaram para não ter de ter contacto direto com o mundo humano tal como ele é atualmente. Não tal como ele era há 2000, há 500 ou há 200 anos, mas sim como ele continua a ser.


Portanto, continuem a viver nos mundinhos das vossas próprias cabeças, simplesmente não se julguem os salvadores da humanidade porque, isso, nunca serão.

Ricardo Lopes

 
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Comprovado sem provas, por Luís Garcia

 

 Desespero Mediático 15

DESESPERO MEDIÁTICO 15

Luís Garcia POLITICA SOCIEDADE   

A RTP

O que eu me riu a ler e a assistir "notícias" da RTP como esta: Serviços de inteligência americanos confirmam intromissão russa nas eleições! O texto desta notícia é tão hilariante que decidi partilhá-lho aqui na íntegra:

As suspeitas de que Vladimir Putin interferiu nas eleições presidenciais norte-americanas estão agora confirmadas num relatório assinado por várias agências, incluindo FBI, CIA e NSA. O relatório já está nas mãos de Donald Trump.

 

Se eu quisesse ser mauzinho até começaria já a chamar de analfabetos aos jornalistas deste serviço público cujas cabecinhas pequeninas (diria eu entretanto) não conseguem distinguir "americanos" de "norte-americanos"... mas não, não vou por aí! Duas pessoas trocando dois dedos de conversa usando a expressão "americanos" entende-se, eu também o faço, agora quando se escreve um texto no site da RTP... mas bom, não vou mesmo por aí, vou já directo ao assunto da "notícia". 

Quem escreveu esta brincadeira afirma que estão "confirmadas" as suspeitas sobre Putin. Diz o senhor Filipe Pinto, da RTP, que já está "confirmado", que é como quem diz "comprovado". Ora não! Ninguém CONFIRMOU nada, apenas AFIRMOU, o que é completamente diferente! Leia o relatório aqui e confirma que ninguém CONFIRMOU o que quer que seja! O relatório apenas contém insinuações, suspeitas e AFIRMAÇÕES assentes no vazio. 

 

 

A sério, insisto, e tendo em conta que CONFIRMAR pode ser sinónimo de COMPROVAR, para a RTP, COMPROVAR sem PROVAS é algo que faz sentido. Mas não faz! E eu pergunto-me, andará tudo xoné da cabeça? Esta malta pseudo-jornalista já nem entende o significado das palavras que utiliza? Mas desceu assim tão baixo o nível de conhecimento da língua portuguesa, quer por parte dos produtores de propaganda quer por parte dos consumidores desta? Que vergonha!

 

E afinal, para quê falar de CONFIRMAÇÃO ou COMPROVAÇÃO se o departamento de estado dos EUA, essas 17 agências de intelligentsia e o próprio Barack Oguerra já disseram que têm provas mas que não as mostrarão por "razões de segurança", o que, traduzido de politiquês para linguagem corrente, significa "não há provas"!

 

"Ahhh, e tal, mas o relatório é oficial e é um documento que foi entretanto desclassificado, portanto temos de o levar a sério". Mais coisa menos coisa foi isto que ouvi de um new-ager bem-pensante italiano que conheço aqui em Chengdu, hehe! Como ele, aposto que haverá por aí fora muitos dizendo o mesmo ou parecido. Mas não. Temos pena mas não. Não há como o levar a sério. Primeiro porque a fonte não disse que o documento foi desclassificado, pese embora os manipuladores médias ponham em evidência o termo e o manipulem perversamente para dar um toque sensacionalista e apelativo, para que o leitor distraído e muito crente conclua erroneamente "ahhh, já viste, isto era classificado, era segredo, uohhhh, então é cena da pesada"! Mas não, o que maquievelicamente é dito no início do documento é que esta PARTE acessível ao público foi retirada de um documento, este último sim, CLASSIFICADO! Sim, o documento é oficial, e depois? "Oficial" é sinónimo de "verdadeiro"? Não, não é, e além do mais foi apresentado por James Clapper, director da NSA, o mesmo que em 2003 tinha a certeza das PROVAS sobre as armas de destruição massiva de Saddam Hussein que NUNCA existiram! O mesmo James Clapper que em 2013 teve de fazer um forçado acto de contrição e admitir que a norte-americana NSA andava a vigiar ilegalmente o planeta inteiro, inclusive todos os seus aliados, inclusive os telefones privados dos chefes de estado dos países seus aliados! Irra, "levar a sério" esta gente? Ide comer merda pessoal lobotimizado! 

 

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Também já vi malta "argumentar", hehe, que "é um documento de 20 e tal páginas...". E? E se fossem 100 ou 1000? Que me interessa o tamanho se o conteúdo é nulo? Então e se as 17 agências de intelligentsia gringas tivessem produzido um documento de 1.000.000 de páginas no qual AFIRMASSEM, sem no entanto COMPROVAR com PROVAS, que "o céu afinal é verde"!?! A RTP e toda a ovelhada passaria a partir desse dia a considerar que a cor do céu é verde? Ou iriam à rua captar com os seus olhos a prova de que o céu não é verde mas sim azul! Ahhh...

 

Já agora, o documento de 25 páginas apenas apresenta 11 páginas de conteúdo, sendo parte do conteúdo gráficos e printscreens de transmissões da Russia Today! Sim, da Russia Today, ahaha! Mais, metade do relatório fala do canal russo Russia Today e não do Putin gamando dados ao Democratic National Committee (DNC)! Que risada!

 
E depois, mesmo que seja um dia COMPROVADO com PROVAS que a Rússia roubou os emails de Clinton, como, com que raio de jigajoga alucinante, esse roubo de documentos conseguiu segurar nas canetas dos votantes e forçá-los a pôr cruzes nas caixinhas correspondentes à candidatura de Trump? Mas como é que gente lúcida e com faculdades mentais em funcionamento engole uma destas? E como não reparam que toda esta estória da treta sem pés nem cabeça serve um só propósito: desviar as atenções do público para longe do conteúdo dos emails trocados entre Clinton e Podesta! Como por exemplo, a confirmação que Clinton e o rei saudita conversaram sobre a doação de dinheiro para financiar o ISIS! Isto sim é gravíssimo! E é bem documentado, PROVADO com as PROVAS que são os emails obtidos pela Wikileaks (e não os russos, e não Putin)!
 
 
Por fim, pegando num comentário de um seguidor do blog, Rui Portugal, há ainda outro argumento interessante: "A ser verdade, só prova a estupidez e incompetência do sistema eleitoral americano ... eles até deviam de ter vergonha de divulgar notícias destas ... o que mostra a palhaçada descomunal da política (e não só) americana...". Estou completamente de acordo. Se fosse verdade seria uma descomunal vergonha, não só para o sistema eleitoral norte-americano mas também para a multi-bilionária máquina de intelligentsia norte-americana!
 
 
O relatório
Quanto ao relatório, esta brincadeira de mau gosto, ao contrário daquilo que possa ser levado a acreditar, não afirma apenas que Putin pessoalmente espiou o DNS, não! Ahh, afirma muito, muito mais. Estórias de espiões dos anos 70, Russia Today culpada de ter alterado o resultado das eleições dos EUA, estatísticas COMPROVADAMENTE erradas, e por aí fora! A sério, leia o relatório, dá para sacar umas grandes gargalhadas:
 
Para aqueles mais cépticos em relação ao que acabo de defender, aconselho assistir a este debate na Russia Today, no qual participou Brent Budowsky, um comentador político com ligações a Hillary Clinton e John Podesta, os 2 nomes por detrás do escândalo dos email tornados públicos. Assisti com atenção e espantai-se com os "argumentos" de Brent Budowsky em defesa das organizações de espionagem norte-americanas e dos seus amigos Podesta e Clinton! Muito bom mesmo!
 
 

 
Para os mais interessados pelo tema, aconselho mais alguns vídeos onde poderão ouvir argumentos e factos bastante pertinentes, nomeadamente o mais recente episódio de Cross Talk "Blaming RT" apresentado por Peter Lavelle:
 
 
 
E este 4 vídeos mais curtos:
 
 
 
Agora, só para meter nojo, e não sem antes vos lembrar que esta imensa máquina de intelligentsia norte-americana tem um custo anual de 80 biliões de dólares, a sério, vou apresentar um, apenas um exemplo da tremenda infantilidade de quem elaborou o raio do relatório! Como é que neste relatório pode ser afirmado que a RT em conjunto com a RT América tem 450.000 subscritores (subscribers) quando é infinitamente-estupidamente fácil de comprovar aqui que a RT tem mais de 2.000.000 de subscritores e aqui que a RT America tem mais de 400.000 subscritores! Total de subscrições: +2.400.000! A sério, abram o relatório na página 11 ou vejam o printscreen abaixo:

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Agora caro leitor, vá confirmar e comparar por si próprio os restantes dados sobre seguidores da Russia Today no Twitter ou facebook, etc...

 

Ahhhhh, deixem-me rir...

Luís Garcia, 10.01.2017, Chengdu, China

 leia mais artigos de Desespero Mediático aqui

 

 
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Vozes Insubmissas - Pierre Le Corf

 

 

Pierre Le Corf

ClaireVoix Insoumises  

Pierre le Corf é mais uma voz insubmissa à qual nós prestamos atenção aqui. Porquê insbumissa? Eis a explicação: 

 

Jovem empresário bem sucedido, Pierre Le Corf vendeu tudo o que tinha para criar a sua própria ONG We Are Superheroes. Apesar do seu sucesso empresarial, Pierre encontra-se a milhas dos modelos de sucesso sociais que nos são impostos. Ele acredita profundamente nos seres humanos e decidiu por-se ao serviço destes. Através da We Are Superheroes, Pierre acompanha comunidades marginalizadas e dá relevo às suas histórias.

 

Pierre confessa que chegou à Síria com a perspectiva de um francês, ou seja, com a perspectiva que nos impingem os media franceses*, e afirma ter rapidamente mudado de opinião após a sua chegada.

 

Pierre Le Corf levanta a voz sobre a verdade do que se passa em Aleppo porque o objectivo da sua iniciativa é precisamente a de dar voz aos esquecidos, e é o absurdo daquilo que nos contam ao longo do tempo nos medias ocidentais/franceses*, fazendo-nos ter pena dos "rebeldes" de Aleppo leste, que faz com que as pessoas da maior parte de Aleppo sejam esquecidas. Pierre Le Corf confirmou-nos isso mesmo ao retransmitir as vozes das gentes de Aleppo: não há rebeldes em Aleppo leste, apenas há terroristas.

 

Eis aqui um bela demonstração de vozes dissonantes na qual Pierre Le Corf é, imagine-se, tema do jornal da France 2:

 

 

Durante meses Pierre Le Corf percorreu as ruas da cidade, efectuando um verdadeiro trabalho humanitário 100% INDEPENDENTE, entregando como podia kits de primeiros-socorros e dando formações de primeiros-socorros à população sofrendo não somente com a guerra e com tudo o que ela acarreta, mas também com as consequências do embargo imposto ao país pela União Europeia, cortando assim aos sírios o acesso a bens essenciais como material médico. Humanitário neutro, sim, mas como evitar levantar a voz perante tal desperdício de vidas humanas, sabendo que uma parte poderia ser poupada se não houvesse este tipo de intervenção externa (embargo), dado que uma outra parte é já destruída por uma outra intervenção externa (envio de armas).

 

É importante falar de Pierre Le Corf, e sobretudo ouvi-lo a ele e aos testemunhos que partilha, visto que ultimamente Pierre Le Corf tem sido vítima de uma nauseabunda campanha de mentiras que não serão partilhadas aqui. E dado que desde há algum tempo certas vozes lhe têm sugerido que se cale, mais uma boa razão temos para o escutar:

 

 

 

 

Eis aqui, em entrevista, um muito bom resumo sobre Pierre Le Corf, o seu trabalho e aquilo em que ele crê: 

 

 

Por fim, uma entrevista que deu à televisão síria na companhia de Eva Bartlett:

 

 

Claire Fighiera, 30.12.2016, Chengdu, Chine

(Traduzido por Luís Garcia)

 

 

 
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O problema do senso comum, da razão e da lógica, por Ricardo Lopes

 

 

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RICARDO MINI copy  SOCIEDADE 

 

- Artigo parcialmente baseado no artigo “Reason and Logic”, que podem encontrar aqui. -

 

Decidi escrever este artigo motiva principalmente pelo facto de verificar que até mesmo pessoas que fazem da ciência a sua vida ou pessoas que se interessam por ciência, muito facilmente recorrem a termos como “senso comum”, “razão” e “lógica”, como se fossem princípios orientadores do método científico, como se fossem ferramentas de trabalho das quais se depende para se poder conhecer o mundo através da metodologia empirista da ciência.

 

Não são. Mas, antes de perceber porquê é preciso perceber a que é que corresponde cada um deles, e o que é que têm em comum.

 

O senso comum não é mais do que o conjunto de crenças e opiniões que são geralmente aceites numa determinada época e num determinado local. Ora, o que é que isto é exatamente? Cultura, certo? Corresponde ao conjunto de todas as ideias que são partilhadas por um grupo de pessoas numa época e local específicos. O que é que isto tem a ver com ciência? Zero. Isto é uma ferramenta utilizada pela ciência, recorrer ao que a pessoa comum pensa sobre um determinado assunto? Não. É um princípio orientador da ciência tratar a informação com base naquilo que a pessoa comum pensa? Não.

 

Por isso é que não percebo porque é que, por exemplo, cientistas se fartam de partilhar publicações no facebook a acusar a religião de não se guiar pelo senso comum. Mas, é absolutamente o oposto! A religião é senso comum! Lembram-se da parte do conjunto de “crenças”? Pois. E também porque é que ficam tão chateados quando alguém que se opõe ao conhecimento científico os acusa de não terem senso comum. Olha, e ainda bem que não. Qual é que é o problema? Se se guiassem por ele, nem sequer eram cientistas, não conseguiam produzir conhecimento ou informar-se sobre ciência de uma forma adequada. Aliás, na verdade nem sequer conseguiriam compreender o método científico.

 

Eu penso que o principal problema que promove a associação entre o senso comum, e também a razão e a lógica, com o pensamento “crítico” e científico é que muitos cientistas tendem a pensar que como a cultura é algo que vem depois do ser humano enquanto ser biológico, ou seja é algo pata o qual é condicionado, e que algo como a religião se adquire através de um processo de doutrinação, há de haver um período em que o cérebro ainda se encontra num estado “virgem” ou “imaculado” em que é capaz de trabalhar informação de uma forma que conduza a conclusões acertadas e produzir conhecimento que corresponde ao mundo real, que existe uma espécie de mecanismo inato de trabalhar informação que se recebe através dos sentidos e organizá-la de maneira a produzir conhecimento acerca do mundo. É também daí que advém a crença de que se deixarmos as crianças explorar o mundo, sem as contaminar com determinadas ideologias, através da sua simples “curiosidade” acabarão por descobrir coisas novas e produzir conhecimento empírico sobre o mundo que as rodeia.

 

O problema é que ninguém nasce, nem vejo que haja evidências para suportar tal teoria, com um mecanismo de raciocínio inato que permite trabalhar a informação que se recebe do exterior de uma maneira ou de outra. Na melhor das hipóteses, e como o sistema nervoso inclui determinado tipo de recetores para proteger o organismo, como recetores de dor, pressão, calor, frio, recetores papilares para determinados sabores e recetores olfativos para determinados odores – e, mesmo assim, isso é em muito maior extensão determinado pela experiência que a pessoa tem. É a experiência que determina os odores que a pessoa considera agradáveis ou repulsivos, o nível de dor que consegue suportar, etc. -, se deixarmos um bebé a explorar o mundo sem critério, então poderá aprender a não comer determinadas coisas depois de ter tido uma indigestão ou dores intestinais, a não beber determinadas coisas porque o deixam nauseado, a não meter a mão no fogo porque queima e dói, entre outras coisas que qualquer humano primitivo, sem acesso aos recursos intelectuais que temos hoje em dia teve de aprender, ou não chegou a aprender e morreu mais cedo e não transmitiu os seus genes à geração seguinte.

 

Isto tudo para dizer o quê? Para dizer que, deixados a explorar o mundo sem critério, e porque não, não há nenhum mecanismo inato de processamento de informação, principalmente do ponto de vista intelectual, os humanos não podem fazer mais do que reger a sua vida por tentativa e erro e ir acumulando viés. Por isso é que criaram a religião, numa tentativa de explicar fenómenos cuja causalidade desconheciam numa altura em que ainda nem sequer existia palavra escrita, quanto mais método científico, e aceitaram isso como conhecimento, porque era-lhes muito mais fácil perceber o mundo como sendo governado por um ou mais seres conscientes que faziam acontecer as coisas por diferentes razões, do que simplesmente ser tudo caótico e sem explicação e, daí, imprevisível. Se deixarmos as pessoas a explorar o mundo sem critério, é este o resultado. Cada um inventa a explicação que lhe parece mais plausível para um determinado fenómeno, de acordo com a experiência que acumulou a interagir com as coisas que existem neste mundo e aquela que soar melhor e der melhores resultados prevalece e dissemina-se entre os outros. O que é que tem de errado inventar uma reza ou um ritual de sacrifício a um deus? Nada, principalmente se se identifica essa ação como causa e, depois, nem que seja meses depois, volta o sol e se pode voltar a caçar com maior abundância ou a semear a terra. O que é que tem de errado inventar uma reza ou um ritual de sacrifício a um deus? Tudo. Primeiro, porque não resultado. Segundo, porque reforça uma ideologia acerca de como se pode conhecer o mundo que não corresponde a nada de real. Terceiro, porque decorrente da primeira acontece merda, e acho que toda a gente deve saber mais ou menos ao que me estou a referir. E, atenção, eu aqui poderia ter substituído a religião por arte, filosofia, economia, política, moralidade, ou qualquer outra atividade humana de produção de conhecimento que se baseie na produção exclusivamente mental de conhecimento.

 

Mas, percebem agora qual é o problema do senso comum e porque é que os cientistas têm a tendência a associar o senso comum ao pensamento crítico e ao método científico, e porque é que não tem nada a ver uma coisa com a outra?

 

Agora, passando à razão e à lógica, que são duas coisas que é praticamente impossível tratar em separado. Aliás, na verdade até é impossível tratar em separado com o senso comum, e nem vejo sequer que sejam três coisas diferentes, apenas porque as pessoas insistem em usar palavras diferentes para as definir. Mas, já lá vamos chegar.

 

Costuma-se designar Aristóteles como o pai da lógica. E a que é que corresponde a lógica exatamente? Bem, em termos de conteúdo, corresponde a qualquer coisa. Em termos de forma, corresponde à coerência discursiva ou textual. Agora, o que é um texto ou um discurso coerente? É aquele que segue uma cadeia de associações demonstradas entre diferentes informações provenientes do conhecimento científico? Não. Ou melhor, não necessariamente. A coerência é, também ela, determinada pelo conjunto de crenças e opiniões, pela totalidade das ideias, que operam numa determinada cultura, numa época e espaço definidos. Os textos do Aristóteles são lógicos, certo? Sim. Os textos do Kant são lógicos, certo? Sim. E quanto daquilo que eles desenvolveram como conhecimento foi validado empiricamente pela ciência? Nada! Ou, o pouco que foi, eles anunciaram-no sem se ater a evidências e calhou que aquilo que lhes soava bem a eles tinha correspondência com algo de real. Mas, por mera coincidência. Por exemplo, foi o Aristóteles que criou a teoria da geração espontânea. O que é que isto tem de verdade? Zero! O Kant baseou o raciocínio com base no qual redigiu os seus livros e criou as suas teorias epistemológicas, estéticas, éticas, etc., nas crenças e opiniões vigentes no seu tempo, como, por exemplo, a filosofia e a moral católicas.

 

Foi o senso comum a levar a que as pessoas acreditassem que a Terra era plana durante muitos séculos. E, de um ponto de vista meramente sensorial, e para quem não tinha acesso aos meios de locomoção modernos, muito menos ao conhecimento e às provas empíricas obtidas do espaço, não era algo perfeitamente “lógico”? Não vejo por que não. Exemplos não faltam, pela história humana fora, acerca de ideias, opiniões e teorias que hoje a pessoa comum considera absurdas e risíveis, mas que noutros tempos tinham a aprovação de todos (senso comum) e eram consideradas lógicas (porque soavam bem aos ouvidos de todos, ou de uma larga maioria, pelo que eram consideradas coerentes).

 

E o que é a razão? A razão, mais uma vez, em termos de conteúdo pode ser qualquer coisa. A razão corresponde simplesmente ao nome que atribuíram ao processo através do qual alguém raciocina. É o tal mecanismo inato de que falava, que muita gente continua a acreditar que existe e que permite que as pessoas atinjam conhecimento relevante acerca do mundo real simplesmente tentando dar-se ao trabalho de pegar na informação que têm na cabeça e estabelecer uma relação “lógica” entre as associações que consigam fazer.  

 

Por exemplo, porque é que o Darwin conseguiu chegar às conclusões que chegou e criar a sua teoria evolutiva das espécies, e o Aristóteles ficou-se pela geração espontânea? O Aristóteles viveu cerca de 2000 anos antes do Darwin. O Aristóteles apenas pôde “raciocinar” com a informação que tinha ao dispor naquele local e naquela altura. O Darwin foi exposto não só a novos dados empíricos que recolheu nas suas viagens, como a teorias de geólogos contemporâneos dele, que influenciaram determinantemente a sua própria, que ele demorou décadas a finalizar mesmo assim.

 

E o mesmo acontecerá no futuro. Aquilo que, para nós, hoje em dia, nesta época e no local em que cada um vive, embora o local seja cada vez menos importante graças à globalização, é “lógico”, é “racional” e faz parte do “senso comum”, mais tarde perderá o estatuto de conhecimento e será substituído por outra coisa qualquer, que, se ainda existir método científico, corresponderá a uma melhor aproximação à realidade do que a teoria que é agora vigente.

 

Se ainda é difícil perceber porque é que não existe uma “lógica”, uma “razão” e um “senso comum”, e porque é que nada disso conduz a conhecimento relevante do mundo, nem sequer são ferramentas ou fazem parte dos princípios do método científico, basta pensarem em tudo o que a ciência descobriu ao longo da história e que foi contra o conjunto de crenças e ideias vigentes na sociedade da época e do local e de tanta coisa “contraintuitiva” que foi validada empiricamente. Mais uma vez, imaginem viver no paleolítico e não terem acesso ao conhecimento moderno do mundo. Imaginem viver na Idade Média e não ter qualquer conhecimento acerca do movimento dos astros no céu, nem acesso a matemática, muito menos acesso a vaivéns espaciais. Imaginem viver num mundo em que os fósseis ainda não tinham sido descobertos. Imaginem não saber nada acerca de átomos e moléculas. O que seria “racional”, “lógico” e “senso comum” para vocês? Sem essa informação, e apenas com a pouca que tinham disponível no vosso cérebro para refletir e estabelecer associações, a que conclusões “lógicas”, “racionais” e “sensatas” é que chegariam?

 

Por isso, é que não serve para nada insistir com as pessoas para serem “racionais” ou usarem a “lógica” ou acusá-las de não serem nada disto e de lhes faltar “senso comum”. Nada disso vai mudar nada, se não for mudada a informação que as pessoas têm na cabeça.

 

E, também por isso, é que o raciocínio, a reflexão, ou o queiram chamar ao ato de tentar produzir conhecimento por um processo meramente ideológico, não pode nunca conduzir a descobertas ou a teorias que tenham validade empírica nem que correspondam a algo de real, a não ser por mera coincidência ou golpe de sorte.

 

O que interessa é a informação que as pessoas possuem e o seu grau de adequação à realidade, nada mais. O que interessa não é passar horas sentado num sítio a pensar muito, mas sim obter mais informação sobre um assunto ou, no caso de não existir, desenhar um método de estudo para obter mais informação e, então sim, estabelecer associações com toda a informação recolhida sobre um determinado assunto.

 

Termos como “lógica”, “razão” e “senso comum” são termos que foram criados e correspondem a uma forma primitiva de pensamento, a epistemologia ideológica, ou idealismo se quiserem usar o termo filosófico comummente aceite, que correspondem à crença na possibilidade de extrair conhecimento do “mundo das ideias”.

 

Ricardo Lopes

 
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Sistemas eleitorais alternativos, por Ricardo Lopes

 

 

Sistemas eleitorais alternativos

 

RICARDO MINI copy   POLÍTICA

 

Agora anda para aí montada a histeria em torno da possibilidade – que para os media ocidentais que operam com base no clickbait e no sensacionalismo mais rebuscado, é, e sempre foi, uma certeza -, e também porque a sociedade moderna se gere muito com base na histeria e comportamentos afins, de os russos, em particular o Putin – porque neste sistema já se sabe que, apesar da grande progressão cultural (not!), se continua a fazer o culto da personalidade e as pessoas regem a vida com base nas prescrições feitas por outras pessoas que tomam como autoridades -, terem interferido com as eleições americanas – ou, antes, estadounidenses, porque americanos são todos os habitantes das Américas, incluindo os nativos que foram chacinados, explorados e torturados de todas as maneiras que uma mente humana perversa consegue conceber, e ainda hoje sofrem por isso -, provocando o resultado que toda a gente conhece, e que uns festejam e outros lamentam como se o apocalipse se avizinhasse, como se o apocalipse não se avizinhasse independentemente de o Trump ser presidente ou não.

 

Portanto, para estes grandes entendidos em geopolítica e em sistemas informáticos, o Putin interferiu nos resultados, para que fosse eleito o único candidato elegível que estava abertamente disposto a estabelecer relações diplomáticas com a Rússia.

 

Logo para começar, este raciocínio carrega em si muita coisa que soa muito mal a quem analisa estas coisas de fora, e muitas contradições também. Primeiro, fica tudo histérico por causa de o Putin potencialmente ter interferido nas eleições americanas, mas ninguém fica histérico – pelo menos, não aparece na televisão mainstream nada sobre isso, e a televisão mainstream é a propagadora-mor de histeria coletiva – com o facto de o sistema eleitoral estadounidense estar todo minado. Se querem esclarecimentos em relação a esta afirmação, e já que gostam tanto de séries, vejam o episódio 7 da Adam Ruins Everything, que deve ser das poucas séries de jeito que anda para aí. E, sim, uma série não ficcional também é uma série, lamento desiludir quem anda desesperado a ver séries de fantasia para colmatar o vazio deixado pela inexistência de deus. E, sem segundo lugar, então dois países que andam em conflito político há décadas e que participaram em guerras que envolvem terceiros tentarem estabelecer relações diplomáticas é algo mau? Eh pá, e isto a sair da boca de gente que se diz de esquerda e libertária ou o raio que os parta, gente que anda sempre com as cartinhas dos direitos humanos na boca, e que é adepto ferrenho da democracia, do multiculturalismo, dos diálogos interpartidários, dos acordos e demais documentos bonitinhos de formular, mas que não servem para nada nem protegem ninguém, e escandaliza-se quando o presidente do país mais influente do mundo se dispõe a estabelecer relações diplomáticas com outro dos líderes mais influentes do mundo? Ainda por cima quando tal pode contribuir para resolver, e até evitar, conflitos bélicos que custam a vida a milhões de pessoas inocentes?! Estão contra o Trump querer tornar-se “amigo” do Putin e resolver esta fantochada que já dura há décadas?! Eh pá, nem que fosse o Hitler! O que é que poderia vir de mal de estabelecer relações diplomáticas com ele para evitar guerras imperialistas?! Mas anda tudo a marar da cabeça por causa das hormonas e neurotransmissores associados à histeria?

 

Enfim, mas não comecem já a estrebuchar, que eu até levei a sério as vossas lamentelas, e, por isso, desenvolvi uma série de sistemas de votos alternativos, 100% antifraude.

 

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1 – Pauzinhos e figuras geométricas de madeira

Estão a ver esta imagem? É o desenho para os meninos que só consomem conteúdo mainstream. Fui buscá-la à série mais vista em todo o mundo na atualidade, Game of Thrones, porque representa exatamente o primeiro sistema que eu proponho, à prova de bala, para votar, e sem isto vocês nunca conseguiriam processar a informação.

 

Portanto, seria muito simples. Mandar-se-iam construir no meio do parlamento, ou senado, ou o que for, lá aquela casinha de marionetas onde se juntam os políticos de proa para tomar decisões por quem votou por eles, e às vezes até aqueles por quem ninguém votou mas que o sistema elegeu, uns paus grandes como o caralho, porque teriam de ter a capacidade de suportar milhões de figuras geométricas – e, atenção, eu sugiro que fossem colocados no meio do parlamento, porque acho que arejam muito pouco estes edifícios, aquilo fica com um odor bafiento e acaba até por fazer mal à cabeça de quem chega lá pela primeira vez com a intenção de fazer mudanças, mas por causa daqueles ares, e porque a política não permite mudar nada de qualquer maneira, apercebe-se que é melhor é ficar só a mamar os 4000€ por mês -, e seria atribuída uma figura geométrica a cada candidato. Cada pessoa pegaria na figura geométrica, subiria uma escada também ela grande como o caralho, e largaria a figura.

 

Únicos problemas disto:

- De uma tão grande altura, e antes de começarem a empilhar-se figuras, poderiam chegar cá abaixo com grande velocidade, partir-se, e o voto não contar. Mas, não fica a perder em relação ao sistema atual.

- Toda a gente saberia em quem cada pessoa tinha votado, e, portanto, deixava de existir esse tipo de sigilo. Mas, também, após cada eleição, e porque, como retardados formatados que são, não conseguiram ainda perceber que o sistema democrático não funciona com gente estúpida a votar, incluindo vocês próprios, continuam a ir para o facebook fazer os posts a perguntar quem é que votou em candidato qual que vocês acham que vai ser o próximo Estaline, e andam à caça dos votantes como se fossem Pokémons raros para, quando finalmente encontram um, ficarem chocados e fazerem um texto para o Capazes a dizer que, mesmo assim, e porque é vosso amigo, e como Jesus disse para o fazer, vão perdoá-lo, qual é o real problema? É da maneira que fica logo o problema resolvido à partida, e como gostam tanto de adotar práticas primitivas de linchamento público, mais uma vez como parte do pack de histeria coletiva pós-moderna, mais facilmente podem exercer tal prática, ainda por cima sem risco de sofrer represálias, uma vez que há uma prova factual de que tal votante é mesmo uma autêntica besta insensível e ignorante.

 

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2 – Casinhas de brincar dos putos com sólidos geométricos para meter lá dentro

Toda a gente brincou com isto até aos 3 anos, não é? Claro que sim. Muitos deixaram de brincar, mas continuam a ter 3 anos de idade mental, mas isso é um assunto à parte. E outros ainda, gostariam de usar isto na idade adulta, e quem sabe nem usem até, para praticar parafilias sexuais. Mas, não é para discutir isso que estou a escrever este texto.

 

A ideia é a mesma, só que desta vez faziam uma casinha grande como o caralho, dentro do parlamento, que eu continuo a insistir que se areje aquilo, mesmo que não sirva para nada, porque aquilo até quando fazem uma reportagem lá dentro aquilo tem um ar tão pesado que as pessoas nem conseguem ver bem e ficam a pensar que aquilo é uma coisa muito séria, quando na verdade não passa de um sítio onde se juntam pessoas periodicamente para tomar decisões baseadas em ideologia e mandar bocas uns aos outros, principalmente mandar bocas uns aos outros.

 

Únicos problemas disto:

- Como o tamanho dos sólidos corresponde sempre ao tamanho da abertura no telhado da casinha, seria bastante complicado para os eleitores carregarem ou uma coisa pesadíssima ou leve mas muito grande ao longo de toda a extensão da escada, sem deixar cair ou sem caírem eles próprio e haver um risco elevado de morte. Por outro lado, e como também toda a gente que apoia um partido deseja a morte de todos os que compõe e votam pelos partidos da oposição, seria engraçado meter uns colchões junto aos escadotes e ver as pessoas desesperadas a tentar removê-los quando viesse a cair alguém para votar no partido do contra. Não é de histeria que gostam? Mais histeria então para vocês.

- Mais uma vez, o problema das figuras se destruírem ao cair e perderem-se votos. A minha resposta é a mesma.

 

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3 – Mijadeiras do tamanho de piscinas

Estão a ver estas mega piscinas que mandam construir no Dubai, a rebentar com o solo todo e a paisagem, para os turistas poderem banhar-se no meio do deserto e, periodicamente, levar com o conteúdo do esgoto nas trombas? Pronto, é nisto que pensei.

 

Mega piscinas destas, mas vazias, uma para cada candidato, e cada eleitor iria espetar a sua mijadela na piscina do candidato que pretendia eleger. No fim, a piscina que contivesse mais urina, medida em decímetros cúbicos, ganhava, assim como o respetivo candidato.

 

Únicos problemas disto:

- Seria bastante fácil o pessoal enganar-se e pensar que era para mijar no candidato que não queriam que ganhasse. Mas, seria bastante interessante ver como as pessoas preferiam que um perdesse em vez do seu preferido ganhar, para estudar as dinâmicas sociais em ambiente político. Para além disso, em que é que isto redundaria? Mais histeria! Ai agora queres vir aqui mijar na piscina do meu candidato, seu sabujo de merda? Deixa estar que se soubesse tinha ido mijar na do teu! E és mas é um grande troca-tintas, que tinhas-me dito que ias mijar na piscina do não sei quantos. Eh pá, delicioso, super sensacionalista e um bom reality show, finalmente!

- Diferentes pessoas poderiam libertar diferentes quantidades de urina. Mas, e como qualquer pessoa mentalmente sã sabe, a política não existe para resolver problemas, nem reais nem imaginários e, portanto, para quê tratar isto com tanta seriedade, quando se podia simplesmente passar uma tarde bem passada a ver prosélitos à batatada, algo que já é promovido pelo problema indicado no primeiro ponto?

 

4 – Método inquisitorial

Posto que isto é tudo uma palhaçada de qualquer maneira, e porque uma das últimas coisas que me apetece é andar a levar com as lamentelas de virgens ofendidas e de florzinhas de estufa de merda que pensam que o mundo tem de ser exatamente como o idealizaram, poder-se-ia resolver logo o assunto, e provocar a eleição do favorito dos bem-pensantes. Como?

 

Simples, pegava-se no candidato com discursos mais baseados em moralidade pós-religiosa e cheios de floreados para indicar que ama todos os seres humanos que existem à face da Terra, e atirava-se ao rio. Se flutuasse era porque tinha sido escolhido pela energia positiva que a ideologia de esquerda fez percorrer o rio. Se afundasse, era porque tinha sido um grande mártir na luta contra os tiranos de direita, e poderia ser eleito postumamente e exercer o cargo na mesma. Como?

 

Simples, bastava que mumificassem o cadáver, o maquilhassem bem para dar um bom aspeto de vivo, e lhe enfiassem um gravador na faringe para sair de lá o discurso feito pelos apoiantes empresários e empreendedores com potencial. Não é o que acontece de qualquer maneira? E, também, verdade seja dita, alguém percebe verdadeiramente o que eles dizem cada vez que fazem um discurso? Aquilo que eles dizem tem alguma relevância, ou não passa de discursos bonitos para deixar as pessoas comovidas? Para além disso, se estivéssemos a falar de um líder político a comunicar na sua língua materna, e principalmente se fosse uma língua que poucos dominam, como o alemão ou o húngaro, bastava mudar as legendas para algo bem-sonante e de acordo com a agenda política da ONU, da NATO e demais organismos de manutenção da ordem pública. Os nativos da língua, tal como já disse, não percebem nada de qualquer maneira. Pensam que sim, mas não. Tanto que se percebessem, não precisavam para nada de comentadeiros em horário nobre a tentar descodificar a mensagem, qual Tomás de Noronha especialista máximo em semiótica, e nem sequer acontecia comentadeiros de pólos políticos diferentes terem interpretações que mais convêm à sua ideologia. Para os que interpretassem mal, e causassem tumultos nas ruas, bastava fazer o mesmo, mudar as legendas para fazer parecer que eram apenas um grupo de delinquentes anarquistas ou então um grupo terrorista extremista… ou até um autêntico grupo terrorista extremista, mas caracterizado como combatentes pela liberdade (freedom fighters).

 

Ricardo Lopes

 
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Syrie: qui croire? (partie 2), par Luís Garcia

 

 

Syrie, qui croire - 2 partie

 

Luís Garcia POLITICA SOCIEDADE  en français  

Les medias occidentaux, orwelliennement auto-dénommés «détenteurs de la vérité» disent une chose. La «propagande» du « régime syrien » et du méchant Poutine disent le contraire. Alors, qui devons-nous croire? Allons-y par étapes.

 

Armes chimiques d’Al-Assad
Du côté occidental, on a souvent accusé le «régime» syrien d’attaquer ses civils (pour quelle raison !?!) avec des armes chimiques. L’exemple le plus connu est celui de «l’attaque chimique de la Ghouta perpétrée par l’armée syrienne». Ce mythe a été répété jusqu’à l’épuisement, entre hystérie et fondamentalisme, jusqu’à devenir une vérité en occident. Le problème c’est que…ça n’a pas eu lieu! L’armée chimique n’a pas commis d’attaque chimique sur aucune Ghouta. Toutes les preuves montrant clairement l’auteur des attaques («rebelles »terroristes) ont été remises par la Syrie et la Russie à l’ONU. Les différentes organisations et personnes ayant analysé l’attaque n’ont jamais trouvé de preuves contre la Syrie. Et pourtant, qui en occident doute que «le coupable est Al-Assad»? Personne bien-sûr, grâce à la version officielle des médias occidentaux qui n’ont notifié ni les preuves, ni les recherches et les conclusions qui innocentent le «régime» syrien. Pour ne pas parler de l’usage de la logique, quelque chose que tout le monde peut faire seul à la maison. Pour ne pas trop m’étendre, je vous invite à lire cet article de Thierry Meyssan, un des nombreux qui décortique, par la logique appliquée à des faits accessibles, ce mensonge de la Ghouta :

 

Je vous invite aussi à regarder cette vidéo de Thierry Meyssan.

 

 

Armes chimiques des «rebelles»

De l’autre côté, pendant ces 3 dernières années, les médias russes, médias syriens et autres médias appelés «fake news» ont constamment  communiqué les attaques chimiques des «rebelles» terroristes à un rythme hallucinant, montrant presque toujours des images et souvent des vidéos. Et ça ne passe pas dans les médias occidentaux ? Héhé, mais pourquoi donc?

 

Chaque semaine je lis ce genre d’information. Toutes les semaines je vois au moins un ensemble d’images ou une vidéo prouvant que les «rebelles» terroristes produisent des armes chimiques et/ou les utilisent contre les civils qu’ils étaient supposés «libérer». Presque toutes les semaines le gouvernement syrien (aussi parfois avec le gouvernement russe) fournit à l’ONU ses rapports sur les attaques chimiques de rebelles, accompagnés des preuves recueillies. Chaque fois que cela se produit, je vois des informations des médias «fake news» relatant précisément ces actions syro-russes à l’ONU. Donc j’insiste, pour quelle raison les attaques chimiques de «rebelles» ne passent-elles pas dans nos médias occidentaux, ni les accusations syro-russes, ni la remise des documents syro-russes à l’ONU?

 

Pour ne pas trop vous fatiguer je partage ici seulement 2 des vidéos plus récentes sur les attaques chimiques de « rebelles » terroristes. La première montre clairement une roquette avec une bouteille de gaz  lancée par l’Armée Syrienne Libre. Oui, l’armée Syrienne Libre, le logo (de ce groupe terroriste) dans le coin au haut à droite de la vidéo ne laisse aucune marge d’erreur. Pire encore, la vidéo a été publiée par l’Armée syrienne Libre elle-même, tant adorée par les médias occidentaux, portugais* inclus. Mais ces médias occidentaux sont tellement, mais tellement  sélectifs que, bien qu’ils passent leur temps à partager les ridicules campagnes de relations publiques « rebelles » (du genre petit enfant plein de poussière dans un fauteuil orange), ne partagent pas les scandaleuses preuves de terrorisme de l’Armée Syrienne Libre comme:

 

 

La vidéo suivante montre l’arsenal d’armes chimiques des « rebelles » terroristes laissé dans la récemment libérée Alep-Est, caché dans des écoles, et jusque dans un hôpital. La vidéo montre encore l’équipe de sapeurs russes débarrassant Alep-Est des mines installées par les libérateurs « rebelles » ! Ahhh, ces méchants russes :

 

 

Qui croire?
Qui on veut? Pourquoi pas. Maintenant sérieusement, je veux bien faire l’effort de croire en les «informations» des médias occidentaux sur ces thèmes de guerre stratégique. Je le fais souvent au contraire de ce que le lecteur pourrait croire, mais pour une raison logique. Je m’imagine croire que oui, quand les médias portugais m’informent qu’Al-Assad ordonne des attaques chimiques comme celle de la Ghouta quand il se réveille de mauvaise humeur, celle-ci est, à partir d’alors, la vérité absolue, même sans preuve, absolument aucune, relatée avec hystérie, oui. Très bien (je veux dire mal, pauvres civils syriens).


Mais plus tard je vois des informations de «médias alternatifs» sur des attaques chimiques de «rebelles», chargées d’images et de photos. Plus encore, je vois des publications de ces groupes «rebelles» et je constate que ces derniers partagent aussi des informations et contenus variés sur ces mêmes attaques. Et je reste perplexe, ou plutôt pas.

 

Pourquoi? Parce que ces médias occidentaux/portugais qui m’«informent» sur les attaque chimiques d’Al-Assad, s’ils sont des organes d’information, doivent aussi m’informer sur toutes les attaques chimiques, non? S’ils ne m’informent jamais sur les constantes attaques chimiques de «rebelles» extensivement documentées, pour quelle maudite raison décident-ils de m’«informer» sur les rares attaques chimiques d’Al-Assad non documentées? C’est de là que je conclue ne pas croire en les médias occidentaux/portugais. Il n’y a aucune cohérence dans leur comportement. L’information n’est pas produite quand c’est nécessaire et, au contraire, on produit de l’hystérie basée sur du vide. Même en croyant que les 2 côtés commettent des attaques chimiques, moi, en tant que lecteur de médias d’information je conclue : s’ils sont des organes d’information, leur rôle est d’informer, pas de sélectionner ! S’ils sélectionnent ce ne sont pas des organes d’information, au mieux des organes de communication, qui communiquent de la désinformation. S’ils désinforment, ahhh, alors… allez vous faire foutre !


*L’auteur est portugais

Luís Garcia, 20.12.2016, Chengdu, Chine

(Traduit par Claire Fighiera)

 

 
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