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Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

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Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

De Cetinje a Duži, por Luís Garcia

 

 

DOS BALCÃS AO CÁUCASO – EPISÓDIO 2

De Cetinje a Duži

  

bw VIAGENS Luís Garcia

Estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem... aonde não estou. (Estou Além, António Variações)

 

06.06.2014, Montenegro - Primeira paragem do dia: o restaurante de Ivan (o “armário sorridente”), para encher a garrafa de água gratuitamente. Segunda paragem: o mesmo lugar de boleia onde não avançámos no dia anterior. E sim, o mesmo problema, boleiadores recolhidos aleatoriamente, e sempre mais e mais a chegar. Quando éramos já 9, um autocarro para Kotor passou e decidimos entrar. Não queríamos por nada perder mais um dia no mesmo lugar. Dentro do autocarro fomos encontrar um casal polaco-espanhol que nos reconheceu do voo Bruxelas-Podgorica, com quem conversámos até ao fim do trajecto trocando informações sobre destinos e países a visitar. Ah, belas coincidências de viagem.

 

Vista parorâmica de Slansko com a cidade de Nikšić ao fundo

Nikšić Lake, Montenegro by Luís Garcia on 500px.com

 

A meio do caminho parámos na cidade turística de Budva e depois seguimos até Kotor ainda mais turística, uma cidade entalada entre um belíssimo conjunto de paredes-montanha negras, e um fjord-tropical, onde faz calor, a água é quente e límpida e abundam peixes. Lugar perfeito para tomar um banho 3 em 1: lavagem, tratamento para os músculos e ossos cansados e um momento de diversão. De Kotor arranjámos boleia até Risan, e de Risan uma boleia de 2 bósnios, sem sabermos bem para onde. Pensávamos que nos levariam para a Bósnia, mas afinal iam para o norte de Montenegro. Passámos a menos de 10 km da fronteira bósnia mas não deixámos a boleia. Dada a grande simpatia dos dois homens e o facto de termos sido convidados para ficar em casa de amigos seus no Montenegro, esta boleia foi a força motriz para a primeira alteração do trajecto da viagem. Não vamos passar de leve a Croácia e a Bósnia, ficará para a próxima. Quanto à viagem do dia...  que dizer das incríveis paisagens de montanhas, vales e lagos? Ah, só mesmo vendo as fotos poderão ter uma amostra do prazer que tivemos em fazer este imprevisto trajecto. Em Nikšić deparámos com um lago imenso com ilhas espalhadas no meio, O condutor, Ziad, atento à minha ânsia de fotografar o vale de Nikšić e o lago, parou o carro e convidou-me a sair para tirar umas fotos em condições. Fez o mesmo mais a frente, em Rudopolje para fotografar uma espécie de canyon e em Juta Greda para uma garganta profunda onde passa um pequeno rio! E que dizer destes dois homens, Ziad e Suad? Divertidos, atentos e com uma vontade imensa de partilhar a vida. Suad começou por brincar com a nacionalidade de Ziad, dizendo que aquele era árabe, um terrorista, mas não, claro que não, e mais tarde ficámos a saber que tinha estudado em Riade, na Arábia Saudita, daí a piada. Para compor o tema árabe até nos ofereceram umas tâmaras vindas também da Arábia Saudita. Em Šavnik, já com muitas dezenas de quilómetros de viagem feitos, pararam num bar onde pagaram-nos uns cafés turcos... e ovos cozidos. Hehe, que granda moca! Numa absurda mistura de palavras de inglês, russo, polaco, lituano, alemão, sérvio (e por incrível que pareça até árabe) conseguimos explicar o nosso projecto de viagem que deixou-os num estado de choque entusiasmado.

 

O sol estava quase a por-se quando chegámos a Duži. Primeiro parámos numa mansão/palácio em construção com vista para uma das mais idílicas paisagens montanhosas possíveis de imaginar. Não fomos visitar os donos (que ainda não moram na casa), mas sim os colegas de trabalho (bósnios e montenegrinos) de Ziad e Suad que moram estes sim na mansão enquanto a constroem. Fomos recebidos com muita sorrisos e boa disposição, curiosidade, cerveja, comida tradicional e até música ao vivo, pois um dos trabalhadores sabia tocar e bem um instrumento tradicional da região que parece um violino de 1 corda. Era já noite escura quando chegámos a casa do nosso primeiro hóspede, um velhinho muito culto e inteligente, que construiu sozinho a sua casa com um magnífico jardim no meio de montanhas lindas com vista para a Bósnia! Apesar da hora ainda fomos para a sala “conversar” os 5. Muito interessante o serão! O velhinho mostrou-nos as suas obras de arte, o seu livro de poesia, a árvore genealógica da sua família nos últimos 300 numa folha de papel gigante meticulosamente elaborada por ele… ah, e para provar os seus dotes em geografia portuguesa, proferiu de cor e por ordem norte-sul os nomes dos rios: Minho, Douro, Tejo e Guadiana! O quarto que nos ofereceu era grande, com camas muito confortáveis, e a varanda dava para os picos montanhosos! Tivemos de compartilhar o quarto com os 2 bósnios, daí que, enquanto Ziad, ajoelhado num tapete, rezava em direcção a Meca, eu escrevia em silêncio estas linhas (mais ou menos) no meu diário de bordo...

 

Álbuns de fotografia do DIA 2:

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Luís Garcia, 30.10.2016, Hongkong

 

 
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De Podgorica a Cetinje, por Luís Garcia

 

 

DOS BALCÃS AO CÁUCASO – EPISÓDIO 1

De Podgorica a Cetinje.jpg

  

bw VIAGENS Luís Garcia

Estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem... aonde não estou. (Estou Além, António Variações)

 

05.06.2014, Montenegro - Numa mistura de palavras de alemão, francês, inglês e russo, conseguimos nos entender com a primeira boleia da viagem do aeroporto até Podgorica. O senhor ia`para a missa, mas teve a gentileza de nos largar num local estratégico, mesmo em frente à estrada em linha recta que apontava para o centro da cidade. No centro começámos por comprar um mapa dos Balcãs. Depois de dizermos que vínhamos de Portugal, a empregada da livraria desfez-se em sorrisos e ajudou-nos imenso, contente pela raridade de encontrar alguém de um pequeno país. Era natural de Nikšić, cidade que nos garantiu ser das mais lindas do país, terra que em princípio estaria incluída na nossa rota rumo ao norte de Montenegro. 


Depois de andarmos aleatoriamente às voltas por Podgorica, fomos à procura da saída da cidade em direcção ao próximo destino, Cetinje, ex-capital do antigo reino do Montenegro. Íamos desfalecendo de calor, sono e cansaço no percurso, mas fomos recompensados por uma curta espera de 10 minutos até um carro parar. De Cetinje queríamos ir para Budva e por isso recomeçámos a boleia. Não correu nada bem. Durante quase 3 horas vimos carros parar e partir com outras pessoas que faziam boleia ao nosso lado. Muitos partiam, mas mais, muitos mais se juntavam na fila da boleia! E o pior, os carros nem sempre pegavam na pessoa em primeiro lugar da fila de espera para a boleia, por vezes pegavam o último da fila (último a chegar), ou do meio, ou então alguém chegava fazendo batota, metendo-se no início da fila (e partia 5 minutos depois)! Ah, decidimos desistir e ir montar a tenda o mais breve possível num dos três parques da cidade de Cetinje! Estávamos exaustos! Mas não, não acabou assim o dia.

 

Encantados pela beleza pitoresca da cidade, atrevemo-nos a vaguear pelas suas acolhedoras ruas, acabando por passar por acaso em frente de um restaurante com esplanada da qual um jovem enorme e musculado nos sorria candidamente. Respondi com um “olá” e a conversa começou, inevitavelmente, entre mim, Claire, o “armário sorridente” chamado Ivan e os seus 2 amigos. Ivan era o dono do café, que tinha internet, de modos que aproveitámos para ver uns googlemaps, carregar baterias de máquinas e beber um café turco (que ao final foi oferta da casa). Entre conversas de viagem, países e música (Ivan e os seus amigos têm uma banda chamada Double Needle Project), o tempo foi passando e eram quase 7 da tarde quando vimos aparecer a grande velocidade uma enorme tempestade. Apreçámo-nos a chegar a um parque mas, a 50 metros deste, começou a chover bolas de granizo do tamanho de berlindes. Escondemo-nos debaixo de umas escadas de uma casa mas não adiantou muito, ficámos com a roupa e malas muitíssimo molhadas. Mudámos de planos e tentámos encontrar na estação um autocarro para Buvda, na costa montenegrina, de forma a fugir à tempestade. Depois de um dia a ver passar dezenas de autocarros enquanto pedíamos boleia, fomos esperar em vão por um autocarro, não havia mais, era demasiado tarde. Entretanto, neste compasso de espera, o céu ficara limpo sobre Cetinje e por isso refizemos uma vez mais o plano. Fomos dormir num parque lindo e acolhedor, embora com o chão gelado, no qual estréamos a nossa nova tenda... 

 

Álbum de fotografias do DIA 1

Luís Garcia, 25.10.2016, Chengdu, China

 

 
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O 1º dia dos Balcãs ao Cáucaso, por Luís Garcia

 

 

DOS BALCÃS AO CÁUCASO – EPISÓDIO 0

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bw VIAGENS Luís Garcia

Estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem... aonde não estou. (Estou Além, António Variações)

 

05.06.2014, Podgorica, Montenegro - Neste Episódio Zero republico a mensagem partilhada nas redes sociais aquando da chegada ao centro de Podgorica, capital do Montenegro. No Episódio Um começarão as estórias de viagem vividas entre os Balcãs e o Cáucaso, do Montenegro à Arménia.  

E já está, a viagem finalmente começou. Ontem fizemos Braga-Porto de comboio,  e Porto-Bruxelas de avião. Depois de uma noite passada no chão do aeroporto de Bruxelas, apanhámos esta manhã um voo para o aeroporto de Podgorica. a primeira paragem nesta longa aventura. E não poderia ter começado melhor, 3 minutos à boleia e arranjámos transporte para a capital. Daqui a uns minutos vamos voltar à estrada para tentar arranjar quem nos leve para Kotor ou algures entre as duas cidades, para um lugar onde possamos montar a tenda. O tempo está magnífico, o países é verdíssimo, não vai ser difícil encontrar lugar onde dormir esta noite na natureza…. Boas notícias, um amigo de Claire acabou de confirmar que tem casa onde nos hospedar em Niš, Sérvia, quando por lá passarmos! O mais breve possível irei  começar a fazer o upload de álbuns de fotografia, sejam pacientes!

 

O Álbum de fotografias

O álbum de fotografias

 

Luís Garcia, 22.10.2016, Chengdu, China

 

 
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O país em que os criminosos são boas pessoas, por Ana Leitão

 

 

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  SOCIEDADE 

 

O triplo assassinato em Aguiar da Beira tem estado sob a atenção e o escrutínio dos média e a opinião pública não cessa de tecer pareceres sobre a tragédia que se abateu sobre as suas vítimas e familiares. A desgraça alheia é sempre uma boa forma de captar audiências e a exploração exaustiva de aspectos casuísticos afastam-nos, demasiadas vezes, de tentar identificar aquilo que na cultura pode predispor para a sua ocorrência.

 

Assim, do ponto de vista de quem assiste aos sucessivos desenvolvimentos desta história, há um padrão que não pode passar despercebido. Esse padrão envolve uma atitude de condescendência e de desculpabilização do suspeito relativamente aos actos praticados, apesar da sua objectiva gravidade, e vai muito além do benefício da dúvida com que qualquer suspeito de crime deve ser brindado num país democrático.

 

Os seus vizinhos, colegas de escola, conterrâneos, conhecidos e desconhecidos, descrevem-no de forma positiva e é frequente utilizarem adjectivos como “afável”, “meigo, “disponível”, “bom rapaz” e “simpático” durante as múltiplas entrevistas que lhes são feitas pelos vários órgãos de comunicação social. Alguns vão mais longe e dizem que ”se o fez, foi sem querer”, sem deixarem de reforçar a crença na sua inocência.

 

Poder-se-ia dizer que tal descrição seria inspirada pelo medo derivado do facto de Pedro Dias ainda se encontrar a monte. Contudo, estas caracterizações róseas de suspeitos de crimes hediondos aplicam-se mesmo a criminosos que já foram capturados pelas autoridades ou que já estão mesmo mortos.

 

Será cobardia ou admiração que leva as pessoas a aplaudir um Manuel Palito, suspeito de quatro homicídios (dois sob a forma tentada e outros dois concretizados), após um mês a monte, aquando da sua chegada ao tribunal, escoltado pela polícia?

 

No caso de Pedro Dias, é sabido que desde a sua juventude que manifestava tendências delinquentes, muitas vezesencobertas pela própria família, pessoas de posses, reconhecidas na terra e encaradas com uma certa reverência. Por um lado, temos as autoridades competentes que o caracterizam, desde há muito, como um indivíduo perigoso, um psicopata diagnosticado, com cadastro, e por outro, uma família e uma comunidade que o protegem que, contra todas as evidências, o desculpabilizam e mesmo elogiam.

 

Ou seja, até que ponto é que a nossa cultura, latina e mediterrânica não propicia a emergência deste tipo de comportamentos e não contribui para a sua persistência e até enaltecimento? Até que ponto é que é legítimo a família compactuar com crimes perpetrados pelos seus membros?

 

Por que é que achamos normal um criminoso ser defendido por aqueles que lhe são próximos? Conceitos como “cosa nostra” e “omertá” fazem sentido em organizações mafiosas e não deveriam fazer parte de uma sociedade que se quer progressista.

 

Contudo, continuam a ser princípios facilmente observáveis nas famílias e nas comunidades portuguesas e, se calhar, até nas opiniões que tecemos acerca de comportamentos desviantes daqueles que nos são próximos. Os criminosos não nascem criminosos. Crescem, fazem-se e persistem no seu condicionamento se a atitude coletiva o permitir.

 

Ana Leitão

 

 
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A esquerda: entre política e ciência, de Ricardo Lopes

 

 

A esquerda entre política e ciência.jpg

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE POLÍTICA Ciência

 

O que eu gosto é daquele pessoal de esquerda para quem tudo quanto é institucionalizado e parte do "sistema" é negativo, pelo simples facto de fazer parte dele.


Não são contra coisas ou aspetos do sistema porque a forma como funcionam, as coisas que promovem e aquilo em que se baseiam não têm fundamento, são prejudiciais, etc. Não! São contra coisas ou aspetos do sistema, pelo simples facto de fazerem parte do sistema.


Mas tem graça que depois há os que tiram cursos de economia, e contrapõem isso ao facto de existirem pessoas de direita, principalmente políticos, que nem sequer curso tiraram e que, portanto, supostamente não têm qualquer competência para se exprimir ou tomar decisões sobre o assunto, mas nem sequer são capazes de reconhecer, por pura ignorância, incompetência ou perrice, que economia não é ciência.


E, claro, isto é um mero exemplo. A sua mais que evidente ignorância face a questões essenciais, que, claro, também acomete pessoal de direita, e que normalmente envolve mais aspetos e é mais profunda neste quadrante, tem muitas ramificações, e, talvez a pior de todas, é a anticientífica.


É assim, lamento imenso, sei que isto pode dar azo a muita choradeira, mas não há conhecimento que não aquele que é validado empiricamente. É giro e pode ser um bom passatempo andar a filosofar, criar arte, e utilizar essas coisas como fonte de conhecimento. Mas, nada daquilo que quem quer que seja tenha na cabeça é conhecimento a não ser que seja falseável e, portanto, seja colocado em termos o mais objetivos possível e se reporte a coisas reais, podendo, então, ser testado empiricamente e provado como falso ou verdadeiro, aceite ou descartado. Não tem nada de mal. É pura humildade intelectual. A ciência e o método científico são a base para o conhecimento e para esta forma de estar na vida, que é bastante saudável, para não encher a cabeça de entulho. É o que distingue aceitar algo porque soa bem, porque é "intuitivo", porque é "racional", e aceitar algo porque existem evidências para o suportar.


Portanto, há quem diga que tudo é política. É assim, no mundo humano, tudo é cultura, isso é certo. Mas, no mundo real, tudo tem de ser ciência. Porque ciência é o que existe, dentro das limitações que temos em termos de sensibilidade, mas que vão diminuindo com o aprimorar dos instrumentos e dos métodos.


Ciência não se reduz a biologia, física, química, geologia, ciências sociais, ou o que quer que seja daquilo que é tradicionalmente classificado como ciência. Ciência é também aprender a recolher informação, cruzar dados de várias fontes e retirar conclusões com base em evidências. E isso pode aplicar-se a tudo. Por isso é que eu digo que é o único método de conhecimento e o mais saudável.


Portanto, não, não posso respeitar quem é anticiência, quem não respeita o método científico e o de validação empírica de hipóteses e formulação de teorias nessa base, e muito menos posso respeitar quem promove irresponsavelmente, a esmagadora maioria das vezes por ignorância e por força de ideologias, teorias da conspiração.

Ricardo Lopes

 
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PREFÁCIO à Enciclopédia Portuguesa dos Bons Costumes, por Ricardo Lopes

 

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PREFÁCIO 

Há culturas, e culturas. Há xenófobos, chauvinistas, racistas (já agora, toda uma forma de ser preconceituoso que se baseia num conceito não existente – o de raça), machistas, especistas, direitistas, pessoas que consomem ayahuasca, apreciadores de música pop e pessoas que sobem ao monte Kilimanjaro com dois pretos escravos a carregarem a tralha toda delas e ainda a levar duas cabras para matar e dar de comer aos elitistas pelo caminho.


Ou seja, há bestialidade para todos os gostos pelo mundo humano fora, e dentro também, às vezes, em dias enevoados e nos quais os gordos têm desculpa para se ir enfiar no McDonald’s a consumir saladas Caesar e a dizer que estão a fazer dieta porque aquilo traz mais do que três tomates cherry.

 

Para além disto tudo, ainda há bestas sem precedentes na história, como fifis, putos estúpidos, geeks, gamers, emos, youtubers estúpidos, anti-vaxxers, new agers e pessoas que dão aos bebés nozes e bananas assim que nascem para os habituarem a ser veganos.

 

Mas, no meio de toda esta panóplia de estupidez generalizada, há quem se destaque pela negativa: o povo português.

 

Dá para rir, para chorar, para chorar a rir, para rir a chorar, para cagar a rir, para cagar diarreia simplesmente porque foste a um tasco e não lavaram a loiça que usaste para comer. Essencialmente, dá para qualquer pessoa inteligente se irritar, porque isto é tão ridículo que nem sequer serve para fazer comédia nonsense de jeito.

 

Por isto tudo, e também pelo facto de eu ser masoquista intelectual, resolvi principiar uma enciclopédia portuguesa de bons costumes, para documentar tudo quanto de mais generalizado permeia o comportamento dos cidadãos portugueses, fora e dentro de Portugal, e às vezes também na Madeira e no Minho, que acaba por nem se perceber bem se aquilo é mesmo território português ou não.

 

Desde feitos enfatuados, a feitos inventados, a nacionalismo bacoco, a mortes enfatuadas, a distintos que não se respeitam, a medíocres que se distinguem, a personagens históricas inventadas, a impérios inventados, a regiões inventadas, a velhas que não podem ser importunadas, a passadeiras desrespeitadas, a leis ignoradas, a pessoas que não sabem falar a própria língua, a pessoas que enfiam a carapuça por tudo e por nada, a unhas de gel, a obesas mórbidas na praia a pedirem bolas de Berlim, a velhas a apalpar os sacos de pão no hipermercado, a queimadas no verão, a eucaliptos plantados onde ardeu mata atlântica, a filas desrespeitadas, a filas furadas, a pedófilos moralistas, a violadores moralistas, a violentadores moralistas, a opressores moralistas, a corruptos moralistas, a cagões moralistas, a gajos porreiros armados em espertos moralistas, a ignorantes orgulhosos, a pais negligentes moralistas, a armados ao pingarelho sem noção, a adeptos de futebol devotos, a pessoas que vão a Fátima a pé e rebentam os pés com bolhas mas passam o resto do ano a ir à missa só para estar a cochichar com a velha do lado acerca de quem foi à missa e acompanhado de quem, a cornos na assembleia, a cidades sem construções antissísmicas construídas sobre falhas tectónicas, a pratos típicos feitos com ingredientes que nem sequer existem em território nacional, a aviários sem condições mínimas, a peixeirada na rua, a encher o Marquês quando o Benfica ganha mas ficar alapado no sofá quando querem cortar nos vencimentos, a pequenezes mal resolvidas, a costumes pagãos mascarados de católicos, a doutores e engenheiros sem curso, a professores doutores com este título porque já nem dava para os distinguir dos outros, a vender gato por lebre, a fazer coisas para inglês ver, a ficar com a melhor parte para não ser burro e não dar a entender que não se tem arte, ao chico-espertismo, à bem-educadice da Silva, às falsas hospitalidades, à cobardia, às ameaças em grupo, ao agarrem-me senão eu vou-me ao gajo, à gastronomia roubada de outros povos, à gastronomia copiada de outros povos, às influências transmitidas a outras culturas inventadas, ao sebastianismo, ao salazarismo, ao orgulho na guerra colonial, à distinção de heróis da primeira guerra mundial, ao Viriato, ao Adamastor, ao ódio aos islâmicos tendo sido eles uma das principais fontes da cultura portuguesa, ao orgulho estúpido, à estupidez orgulhosa, à coitadice, ao queixume e à lamentação, à música de desgraça, aos talk-shows de desgraça, às reportagens de desgraça, aos livros de desgraça, aos best-sellers ignorantes, aos especialistas em tudo e mais alguma coisa ignorantes, ao estava só a brincar, ao livro alucinado mais adorado por um povo que não é a Bíblia, ao segundo livro alucinado mais adorado por um povo que continua a não ser a Bíblia, aos campeonatos que mereciam ter ganho, aos campeonatos que ganharam e não mereciam mas já dá para ficar feito puto ranhoso a falar disso para sempre, à idade mental de cinco anos, à comida que sabia melhor no tempo do outro senhor, ao Marcelo Caetano que até aumentou os salários, aos ciganos que vêm para cá viver de subsídios, aos emigrantes que vão para fora viver de subsídios, aos desempregados que não querem é fazer nada, aos empregos que não há, ao trabalho que abunda mas que ninguém quer fazer, aos velhos que conduzem contra a mão, aos grunhos que se colam atrás de ti numa ultrapassagem na autoestrada indo tu a 120 km/h, aos que te buzinam porque foram atrás de ti durante muito tempo, aos que saem de casa para buzinar por tudo e por nada para mostrarem que têm gaita, aos a quem mirra a gaita se não forem em excesso de velocidade, aos que falam mal de todos pelas costas, aos que batem nas mulheres mas que são cavalheiros, aos que batem nos filhos mas são bons pais, aos estrangeiros que fazem tudo melhor, aos estrangeiros que fazem tudo pior, aos estrangeiros que nunca fazem nenhum, aos estrangeiros que nos adoram, aos produtos nacionais que toda a gente reconhece no estrangeiro, aos prémios nobel a cujo funeral falta a múmia, à violência doméstica silenciada porque somos de brandos costumes, aos brandos costumes, ao improviso, ao desenrasca, ao em cima do joelho, ao ver se te avias, ao fino, à imperial, ao bagaço em jejum, ao café com cheirinho, às casas de banho dos homens a cheirar a terreno estrumado, aos homens que se querem a cheirar a cavalo, aos peixes que não puxam carroça, aos carapaus de corrida, à corrida às sardinhas, aos santos, aos santos de altar, aos santos populares, aos foguetes largados em casa nos santos populares, aos santos mariquinhas, aos santos chorões, aos santos que sangram, aos santos que aparecem, aos segredos dos santos, aos santos da casa que não fazem milagres, à inveja do vizinho, à galinha da vizinha, ao estás tão magrinho da avó, ao fortezinho obeso, à jóia de moço, ao filho do meu coração, à maravilha de pessoa que deus a lá tenha, ao filho da puta, aos filhos da mamã, à puta, à rameira, à pindérica, à mal-lavada, à mal-lavada por baixo, à mal-amada, aos mal-resolvidos, aos bem-resolvidos complexados, aos choninhas, aos caguinchas, aos morcões, aos cabrões, aos jovens de espírito, aos jovens agricultores, às touradas de que os touros gostam, aos touros que não sentem dor, ao meu avô que comeu enchidos a vida toda e durou até aos 100 anos, ao meu tio que fumou dois maços por dia e morreu aos 85, aos azeiteiros, aos matarruanos, aos gebos, aos provincianos, aos tasqueiros, aos saloios, aos serranos, aos burgessos, aos boçais, às tias, às princesas, ao macho latino, aos cabelos pretos descolorados, aos que percebem tudo disto porque conhecem alguém que vive não sei onde e que faz não sei o quê, aos campeões da violência doméstica, aos campeões da austeridade, aos campeões da benevolência para com os criminosos económicos, aos campeões da corrupção, aos que nunca reclamam para ir queixar-se pelas costas, aos que reclamam ao volante e com a janela fechada, aos que reclamam ao volante com a janela aberta e aos palavrões, aos bate-e-foge, aos defensores acérrimos de todas as opiniões desde que vão de encontro à cartilha cultural, aos que podem falar mal à vontade de todos aqueles de quem discordam, às ofensas na internet, ao oferecimento de porrada, aos estoiros de orçamento de estado em grandes obras públicas e o resto que vá para o galheiro, aos ex-ministros à frente de grandes empresas, aos banqueiros por detrás de ministros, aos banqueiros que nunca estão na prisão, às marquises cheias de entulho, aos quintais cheios de lixo, aos telhados de zinco, às hortas só com couves, às couves na varanda, às sardinhadas na varanda, aos descobrimentos de sítios onde muitos outros já tinham estado antes, aos manjericos, aos jericos, aos cães acorrentados, aos cães à solta, aos cocós por apanhar, aos cantos mijados, às cunhas, ao nepotismo, ao compadrio, aos favores, ao uma mão lava a outra, ao ouve o que eu digo mas não faças o que eu faço, ao se eu estivesse lá fazia o mesmo, ao tenho um senhor doutor na família, às grandes máquinas em segunda mão, aos Audis, BMW’s, Mercedes, Fords Fiesta presos por arames, às inspeções por fazer, às manias das grandezas, à grandeza das manias, à mania que somos pequeninos, ao grandioso destino dos portugueses, ao Quinto Império, ao fado, à Nossa Senhora, ao Camões e ao Pessoa, ao Velho do Restelo, ao Saramago que não sabe escrever, às sebentas na universidade, aos professores sebenteiros, aos alunos medíocres que chegam a assistentes, aos assistentes sem doutoramento, aos doutorados sem emprego e aos pós-doutorados no estrangeiro, aos doutorados por terem emprego, às equivalências por experiência, aos canudos comprados ao domingo, aos domingos na casa da avó, às tardes de domingo na televisão, ao almoço de domingo que acaba em discussão, às bebedeiras que acabam em discussão, aos tiros de caçadeira que acabam com as discussões e com as bebedeiras, ao seja o que deus quiser, a o diabo nos acuda, ao podia ser pior, ao menos bom, ao se a minha avó não tivesse morrido ainda era viva, ao elogio das sovas da avó, ao elogio das sovas da professora primária, ao elogio das sovas do padre, ao elogio das sovas da PIDE, à desculpa das sovas do marido e da obrigação de dar sovas aos filhos, aos linchamentos públicos, ao se fosse eu a mandar estes eram todos condenados à morte, aos ando eu a pagar para andarem aqueles sem fazer nenhum, ao olhar para o lado quando alguém está a ser agredido em público, aos bitoques, às francesinhas, aos cozidos à portuguesa, aos rojões, às morcelas, às chouriças, aos chouriços, aos coiratos, aos chispes, às línguas, às orelhas, às bifanas no pão, aos ovos a cavalo, às canjas com miúdos, ao bacalhau à Brás, ao bacalhau à Zé do Pipo, ao bacalhau com todos, às ceboladas e coentradas, aos chás de salva, aos míscaros, aos pires de tremoços e de amendoins, aos pipis, às moelas e aos pica-paus, às entranhas apimentadas, à dobrada mal-lavada, às tripas enfarinhadas e aos porcos que se comem inteiros e aos secretos dos pretos, às saladas de folha de alface e tomate que se dizem mistas, à broa de milho, à broa de Avintes, à broa castelar, aos mil-folhas, às bolas de Berlim, aos pastéis de nata, às bolas de carne, aos papos de anjo, às barrigas de freira, aos ovos moles, às queijadas, às tostas mistas, às sandes de manteiga, ao queques promovidos a cupcakes, aos comunistas que comem criancinhas e cães ao pequeno-almoço, ao Manuel Palito, ao Bibi, ao Carlos Cruz, ao Carlos Castro, ao Bairro Alto, ao Chiado, à Ribeira, à margem sul, aos remendos nas estradas, às estradas esburacadas, ao estou aqui estou ali, aos saudosistas, ao na minha terra não se diz assim, aos arraiais, aos ranchos folclóricos, às bandas filarmónicas das sociedades recreativas, à bisca lambida, à sueca, ao dominó, às damas, jogados no jardim por velhos com a pensão mínima, às peixeiras do Bulhão, ao Goucha e à Cristina, ao ódio à pensão de quem nunca trabalhou, ao ódio ao RSI, ao ódio ao subsídio de desemprego, ao trabalho pelo salário mínimo, aos doutores praxistas, aos dux com 40 anos, aos praxados amedrontados, aos praxados orgulhosos à espera de poderem praxar, aos rallies de tascas, ao carro de cortejo nas traseiras do trator, às latadas, às semanas do caloiro, às noitadas sem estudar, ao é para o penalti, às anfetaminas antes das frequências, aos desfiles de carnaval, aos filhos com os avós que eu vou mas é emigrar, aos filhos com os avós que eu vou mas é para a borga, aos filhos com os avós porque tenho de ir trabalhar, às mulheres muito bem resolvidas, aos homens que não fazem nada em casa, às mães dos homens que servem de modelo às esposas, aos recordes de comida, aos recordes de ajuntamentos, aos recordes de recordes, à maior árvore de natal do mundo, ao maior shopping da Europa, à maior caldeirada de Portugal, à maior feijoada comida na maior ponte da Europa, ao maior da minha rua e ao maior da minha aldeia, aos mordomos de festas de paróquia, aos peditórios para festas de paróquia, às alminhas, às caixas de esmola, aos padres lambões, aos padres borrachões, ao vinho de missa, ao vinho a martelo, à vinhaça e ao tintol, ao Porto e ao Queijo da Serra, às testemunhas de Jeová, aos espiritas, aos professores grandes mestres curandeiros milionários de magia negra e branca mais forte que resolvem problemas amorosos, financeiros, económicos, familiares, ao mau-olhado, às cuecas do avesso, às bruxas das aldeias, aos vegetais dos avós que não levam nada mas afinal levam sulfato de cobre, aos sacos de estrume, ao vossemecê, ao senhor é o que está lá no céu, ao tempo da outra senhora, ao arco da velha, ao onde o diabo perdeu as botas, ao cascos-de-rolha, ao cu de Judas, ao raio que te parta, à puta que te pariu, ao pão que o diabo amassou, ao vão-se os anéis mas ficam-se os dedos, ao quem me comer a carne há de me roer os ossos, às putas e ao vinho verde, ao vinho branco fresquinho, ao panaché, à bica escaldada, à bica em chávena fria, ao carioca sem cafeína e ao carioca de limão, aos alambiques de fundo de quintal, às cooperativas, aos mercadinhos de rés-do-chão, aos hipermercados, aos supermercados, aos mini-mercados, aos snack-bares, às hamburguerias, às pizzarias, às gelatarias, às cervejarias, aos cafés onde nada se come e só se bebe, aos bilhares, aos matrecos, à malha, ao hóquei em patins, ao futsal, ao comia-te toda, ao partia-te a boca toda, ao fazia-te a folha, ao arrebentava-te todo, à Casa Pia e à Santa Casa, à batalha de Aljubarrota, à padeira de Aljubarrota, ao Alcácer Quibir, aos filhos da puta dos Felipes, às guerras napoleónicas, às grandes vitórias bélicas, ao Bandarra, ao Santo Contestável, ao Conde Andeiro, ao Martim Moniz, ao Egas Moniz que fez tudo quanto quis, ao D. Dinis, ao pinhal de Leiria, ao infante D. Henrique, ao Vasco da Gama, ao Cristóvão Colombo que afinal era português, aos japoneses que quando lá chegámos cheirávamos mal e comíamos com as mãos mas até aprenderam palavras nossas, ao escorbuto, às galés, ao escorbuto nas galés, ao D. João V que deixou a agricultura na merda para pôr o pessoal a carregar calhaus, ao Cavaco Silva que deixou a agricultura, a pesca e a economia portuguesa na merda, mas que construiu o Centro Cultural de Belém, que é um monte de calhaus, ao Fontes Pereira de Melo que fez as primeiras linhas de comboio, à visão do Marquês de Pombal, ao despotismo esclarecido, ao despotismo não esclarecido, ao D. Afonso Henriques que batia na mãe mas que rebentou a boca aos muçulmanos, à espada do D. Afonso Henriques que ele não tinha estatura para levantar, à Maria Pia, à Rainha Santa Isabel, ao pão e às rosas,  à Inês de Castro, ao grande amor de D. Pedro por ela, à morte às mãos do amado, ao quanto mais me bates mais eu gosto de ti, ao quem não tem ciúmes não ama, ao olhos que não veem coração que não sente, aos castelos de santos, aos santos de castelos, aos pretos que estavam melhor quando eram nossas colónias, aos brasileiros que estavam melhor quando eram colonizados por nós, às riquezas dos descobrimentos que o povinho nunca viu, aos cofres cheios de Salazar, aos cofres cheios de Maria Luís Albuquerque, ao soft-power e aos incumprimentos da Assunção Esteves, ao Portas que é muito bem-falante, ao Miguel Esteves Cardoso que é muito bem-pensante, ao sexy platina do Sócrates, à CMTV, ao Porto Canal, ao canal Q, à RTP e à SIC e TVI que até são iguais à CMTV, ao Público, ao Expresso, ao Jornal de Notícias, ao Diário de Notícias, ao Sol e ao i, ao jornal local serventuário da Câmara, ao eu é que sou o presidente da Junta, às jotinhas, ao primo na assembleia de freguesia e ao filho do amigo que ganhou o concurso público, aos médicos, aos engenheiros, aos advogados, aos juristas e juízes, aos GNR’s e PSP’s, aos farmacêuticos, aos políticos, aos trolhas e aos patos-bravos, às donas de casa e às sopeiras, às domésticas que se querem domesticadas, às mulheres bem-mandadas, às mulheres do seu homem, às mulheres de um homem só, às mulheres decentes, às outras que são todas umas galdérias, e ao meu filho que nenhuma merece, ao botão de cima da camisa aberto, ao pelo na venta, ao pelo no peito, ao fio de ouro ao pescoço, ao terço no retrovisor, à faca na liga, ao faca e alguidar, à choradeira desatada, às carpideiras nos funerais, aos sinos a rebate e as idas aos velórios de pessoas que ninguém conhece, às conversas de velório, aos lanches nos velórios, às anedotas nos velórios, às missas de corpo presente, às câmaras ardentes, às flores artificiais nas campas, ao lixo posto na campa do vizinho, ao jazigo vandalizado, às limpezas para o dia de finados, às limpezas de páscoa, ao bolo-rei no natal, à gorjeta ao coveiro, às listas de espera nos hospitais, aos tempos de espera nas urgências, às infeções hospitalares, aos médicos de urgências com mais de 50 anos que até os pacientes velhos já decoraram o cardápio de receitas, à carta de vinhos, ao vinho da casa, ao bife à casa, ao menu de pratos da casa que nunca ninguém sabe bem o que é, à sobremesa da casa e à fruta da época, ao agora caía bem, à semana a seguir ao natal a comer restos, às prendas oferecidas desde o natal até aos reis, aos recordes de compras de natal, aos cartões de crédito, ao crédito mal-parado, às bancarrotas, às falências fraudulentas, às faturas falsas, às declarações de IRS aldrabadas, à mudança de nome da empresa, aos fiados, à lista de fiados, ao conto de vigário, aos vigaristas, aos vigaristas bem-falantes que roubam velhinhos, ao roubo por esticão, à arte do carteirismo, aos octogenários carteiristas, ao roubo no 28, ao Viva Melhor, ao Ideia Casa, ao Vaporeto Titano, ao Calcitrim, aos colchões ortopédicos por estrear, às cintas para apertar as banhas, à gordura que é formosura, à mulher que se quer pequenina como a sardinha, à diabetes e ao colesterol, aos bicos-de-papagaio e aos joanetes, às velhas que entram em competição na sala de espera do centro de saúde para ver quem tem mais doenças, às velhas que entram em competição nas salas de espera dos centros de saúde para ver quem é melhor mãe e avó, às velhas que dão cabo da cabeça a todos da família e aos velhos que matam a família inteira, aos crimes passionais, ao matar por amor, ao ela estava a pedi-las, ao vai ficar para tia, ao meu vizinho sempre o conheci como uma excelente pessoa mas na verdade passávamos os dias às bocas, ao assassino que é uma excelente pessoa, ao assassino visto por todos como uma excelente pessoa, aos meninos que vão à missa todos os domingos, vá perguntar a quem lá vai, e por isso não é possível que seja um vândalo nas aulas, aos queques, aos sapatos de vela, ao cabelo à foda-se, às calças de bombazine, ao forcado amador, ao forcado amador monárquico, ao forcado amador vândalo e ao forcado amador coitadinho, às Cátias Vánessas, aos Rónaldos, aos Cristianos, aos Francisquinhos, às Sandras Márisas, às palavras com várias sílabas tónicas, aos nomes com duplas consoantes, aos nomes de terras acentuados cujo acento não se lê, aos nomes de terras por acentuar mas cujos acentos se leem, aos erros ortográficos, ao raios me partam que agora vou ter de voltar a aprender a escrever por causa do novo Acordo, ao novo Acordo que é para transformar o português em brasileiro, às objeções de consciência, aos abortos de vão de escada, à oposição à IVG, ao não estou para pagar abortos a quem se descuida mas espero que os outros paguem o preço da minha obesidade, ao os espanhóis são todos uns merdas mas até vou lá atestar o carro, ao os espanhóis são todos uns merdas mas até vou lá às compras, ao os espanhóis são todos uns merdas mas até vou lá abortar, ao sou contra o aborto mas eu cá já abortei, ao não uso preservativo porque corta a sensibilidade, aos números da SIDA que não descem, aos números da tuberculose que não descem, aos fígados gordos, às veias entupidas, às varizes, às mulheres que nunca mais conseguiram emagrecer desde que engravidaram, aos homens que nunca mais conseguiram emagrecer desde que casaram, às jovens anoréticas e aos jovens metrossexuais, aos que se perderem o emprego não sabem onde acabam no fim do mês mas estão a viver em casa dos pais, aos que não ganham para comprar iPhones, aos que ganham para pagar iPhones, aos que põem a avó a pagar o iPhone, aos que põem os avós e os pais a pagar o iPhone, aos que põem os avós, os pais e os tios a pagar o iPhone, aos que põem os avós, aos pais, os tios e os primos a pagar o iPhone, aos que põem os subsídios dos pais, dos avós, dos tios e dos primos a pagar o iPhone, aos que sacam rateres com os carros, às férias nos países de terceiro mundo, às fotografias a copos de bebidas alcoólicas com orgulho, ao glamour de fumar, aos que sempre que lhes prestam serviços são roubados, aos que roubam quando prestam serviços, aos que colecionam cupões de desconto do supermercado mais caro, aos que poupam na comida dos filhos para pagar as cotas de sócio do Benfica, aos que batem na mulher quando o Benfica perde, aos No Name Boys e aos Super Dragões, aos taxistas cadastrados, aos motoristas da Uber a quem os taxistas rebentaram o carro, aos trabalhos precários, aos recibos verdes, aos contratos a termo incerto, aos contratos a projeto, aos call-centers, aos agentes imobiliários, às agências de trabalho temporário, aos part-times de 36 horas, aos part-times de 36 horas a 268€, ao estágios não remunerados, ao trabalho para aquecer, ao enquanto não validam o estágio vem cá na mesma para ires aprendendo, ao melhor isto do que nada, ao antes isso do que ser despedido, ao mais vale ganhar isto do que não ganhar nada, ao respeitinho que é muito bonito, ao se eu disse isto o que vão pensar, ao ai não se desce ao nível, ao mais vale não responder, ao toda a gente ganha mais do que eu, ao há quem ganhe menos do que eu mas também não faz nada, ao eu não ganho o que mereço, aos eles ganham mais do que merecem, aos funcionários públicos que nunca fazem nada, aos funcionários públicos que passam metade do tempo a tirar cafés, aos estagiários que tiram cafés, ao a minha política é o trabalho, ao o trabalho dá muita saúdinha, aos políticos que são todos iguais, aos xuxalistas, aos estalinistas, aos norte-coreanos, aos chavistas, aos comunas, aos maoístas, aos maoístas que acabaram à frente da Goldman Sachs e aos outros que acabaram a apoiar o Cavaco, ao Sá Carneiro que ninguém sabe dele, aos bloquistas ganzados, à Mariana Mortágua que estava bem era na Playboy, à Mariana Mortágua que eu dizia-lhe como era e ia logo ao sítio, ao aquilo que lhe falta sei eu, aos endireitas, aos homens dos sete-ofícios, aos barbeiros dentistas, ao eu queria era uma aspirina para as dores, às mlheres e aos homes, aos meus ricos filhos, aos treinadores analfabetos, aos treinadores que leram o dicionário todo, ao Eça de Queirós, ao Eça de Queiroz, ao Aquilino Ribeiro, ao Camilo Castelo Branco, à geração de 70, ao geração de Orpheu, ao Padre António Vieira, ao Gil Vicente, ao Almeida Garrett, ao Jorge Amado, à Sophia de Mello Breyner e ao filho dela que é tudólogo, ao José Rodrigues dos Santos, ao Pedro Chagas Freitas, ao Gustavo Santos, à Margarida Rebelo Pinto, ao Concílio dos Deuses, à Ilha dos Amores, e aos outros cantos d’Os Lusíadas que eu nunca li porque não se deu na escola, àquele livro do gajo com nome estrangeiro que se dava no 12º ano mas que eu não me lembro, ao Plano Nacional de Leitura que eu nunca vou acabar porque já não ando na escola, aos apontamentos Europa-América e aos resumos na internet…

 

…e a mim, carago, que já bati o recorde do Saramago a fazer uma enumeração sem pontos finais e também já bati o Camões na extensão da Dedicatória.

 

Novo Recorde! A seguir venha o da pipa de aguardente!

Ricardo Lopes

 
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Não sou uma funcionária, sou uma colaboradora, por Ana Leitão

 

 

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  SOCIEDADE ECONOMIA

 

Sou uma marca, um aglomerado de rótulos anglicistas, um sujeito que depende do verbo, um indivíduo que comporta um prazo de validade que dizem que aumenta na razão direta do meu grau de proatividade e de entrega ao projeto. O meu mérito é fruto da minha adequação ao sistema e a minha vocação implica não questionar as autoridades e perceber que eu sou sempre a responsável por tudo aquilo que corre mal na empresa. Sou a estrela do BackOffice e a razão para tudo existir. Sou a campeã das métricas e a especialista que faz omeletas sem ovos, a treinadora que inspira todos a irem sempre além das expetativas dos outros e em fazerem disso regra. Alterno uma atitude positiva e encorajadora com reprimendas paternais porque foi assim que alguém me disse para fazer e porque isso resultou comigo. Por isso cheguei onde cheguei. Sou especialista na matéria mas já fui a formanda na qual os líderes da equipa depositaram toda a sua confiança e em relação à qual anteviram altos voos, após a fase de nesting. Os meus melhores amigos são os meus superiores hierárquicos pois eles sabem o que é bom para mim e identificam os aspetos em que a minha prestação pode melhorar. Tudo para o meu bem e para o bem da empresa. Se eles acreditam, eu acredito: na missão, no projeto, no target. Visto a camisola que me enviaram, pelo correio, juntamente com o contrato. Sou uma peça do puzzle e o meu nome do meio é o nome da agência de trabalho temporário que me fica com uma boa percentagem do salário que me é pago, na realidade, por uma empresa que faz o papel de intermediária da empresa que, efetivamente, é a cliente principal. Sou um emoji a comunicar com os outros e o meu discurso é composto por máximas que alguém leu em livros motivacionais ou ouviu em palestras de coaching empresarial. Quando quero, sou uma tipa porreira, posso dizer piadas porcas e vou sempre aos jantares da equipa nos quais a coesão grupal é incentivada pelo álcool e garantida com base nas figuras tristes que se seguem ao seu consumo excessivo. Eu vou até onde eu quiser e os limites são apenas impostos por mim. Outros não foram tão longe. Porque são fracos, ou estiveram doentes demasiadas vezes, ou porque não são ambiciosos. Eu sou resiliente, nunca meti baixa médica, atinjo os meus objetivos semanais e acato as críticas mensais. Simples. Por tudo isso recebo uma centena de euros acima do salário mínimo nacional. Se não és capaz de dar tudo o que tens para dar em nome de prémios que foram concebidos para nunca serem recebidos, se não progrides numa escala que se constrói com base em elogios semelhantes àqueles que o teu terapeuta te aconselhou a repetir ao espelho, se não te inspira o reforço positivo dos rebuçados que colocamos na tua clean desk, é porque não és suficientemente bom e mereces permanecer na base da pirâmide desta grande família que é a nossa empresa.

 

Ana Leitão

 

 
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Boleias eslovenas, por Luís Garcia

 

 

BOLEIAS – EPISÓDIO 13

Boleias eslovenas.jpg

  

bw VIAGENS Luís Garcia

Esta insatisfação, não consigo compreender, sempre esta sensação, que estou a perder. Tenho pressa de sair, quero sentir ao chegar, Vontade de partir, p’ra outro lugar. (Estou Além, António Variações)

 

BOLEIAS ESLOVENAS (Eslovénia, 2007) – Ouvindo-me contar as minhas mil e uma estórias de viagens, têm me perguntado diversas vezes qual será, no meu ponto de vista, o melhor país europeu para se andar à boleia. Seria lógico que respondesse Turquia, de longe o país no qual experenciei as mais excêntricas aventuras à boleia e onde em média se espera o menor tempo até ser recolhido por alguém. No entanto há quem não considere Turquia Europa. É relativo. Geograficamente 95% do território turco pertence ao continente asiático, assim como 95% será mais ou menos a proporção das boleias que recebi no lado asiático da Turquia. Depois há um pormenor mais técnico: a maior parte dos turcos, sobretudo os de maior idade, desconhecem por completo o conceito de andar à boleia e muito nem sequer percebem o que significa uma mão fechada com um polegar apontando para cima. Quase todos param para ver se precisamos de ajuda, saber se há alguém ferido ou se nos perdemos. Na sua infinita bondade acabam por decidir dar-nos boleia. Mas aí está, na maior parte das vezes a boleia turca não é um exemplo de boleia, apenas um exemplo do quão extraordinária é a hospitalidade turca (o que não é de desprezar, evidentemente, pelo contrário). Mas, tecnicamente, nem sempre é boleia. Arredava a Turquia por questões técnicas e geográficas, a Eslovénia é sem dúvida o melhor país europeu para se andar à boleia. Porquê? Por vários motivos.


Em primeiro lugar, pára para dar boleia todo o tipo de pessoas, dos 18 aos 80, ou até mais velhos, homens ou mulheres, sozinhas ou com companhia, milionárias ou pelintras, feias ou muito belas, faladoras ou mudas, enfim, toda a gente!


Em segundo lugar, o acto de dar ou receber boleia é ainda uma espécie de instituição oficiosa, reminiscências quiçá de uma cultura socialista onde imperaria mais a sinergia do que a competitividade individual, Um pouco à imagem de países de leste como a Lituânia, Estónia ou Letónia, antigos membros do bloco soviético, que no entanto vão erdendo estes bons hábitos. Poderão contrapor-me que a razão da partilha de carros seria mais a falta de dinheiro para comprá-los do que a sinergia inerente ao sistema social. Respondo: não só mais também. Quer na Eslovénia quer nos países bálticos acima referidos, ainda hoje é muito comum encontrar jovens utilizando a boleia como meio de transporte principal para se deslocarem entre escola e casa, ou para partirem de férias. Polónia, Hungria e a ex-Checoslováquia também são exemplos do mesmo, mas em menor escala, creio eu. E hoje é o capitalismo selvagem e não o comunismo estatal que os impede de ter meios de locomoção... 

 

Terceira razão, de explicação sucinta mas fulcral: quase toda a gente fala inglês, independentemente da idade. Se não, é garantido que falam alemão.

 

Quarta razão: o tempo médio de espera muito reduzido. Eu diria em média menos de quinze minutos para se receber uma boleia, embora o meu recorde na Eslovénia seja de cinco segundos.


Quinta e mais interessante razão: a instituição da boleia está de tal forma enraizada na cultura eslovena que nem sequer é preciso indicar num pedaço de papel o nome completo da cidade que se deseja visitar. Basta escrever apenas duas letras. Não duas quaisquer mas sim as que aparecem no início de todas as matrículas eslovenas e que representam o nome da cidade em que a viatura se encontra registada. Por exemplo, se se quiser pedir boleia para a cidade de Celje basta escrever CE, de preferência em letras garrafais. Só há vantagens aderindo-se a este sistema. Quem andar à boleia pode tomar atenção às matrículas e focar-se nos carros com as letras certas. Como são precisas apenas duas letras, poupa-se imenso tempo a preparar o cartão de boleia. Usando-se as tais garrafais letras, facilitamos a vida aos condutores que passam a poder detectar o nosso destino com muito mais antecedência, permitindo-lhes ter tempo para tomar uma decisão e de desacelerar o carro de forma a pararem em segurança junto a nós e não umas dezenas de metros à frente, tal como acontece normalmente. Além de todos estes factores técnicos positivos, existe um outro de factor psicológico que poderá entrar em jogo. Se usarmos o sistema das duas letras o potencial dador de boleia recebe pelo menos uma informação positiva sobre nós, a de que conhecemos já algo sobre o seu país, pelo menos o truque das duas letras o que, não sendo de facto grande coisa, corresponde ao útil acto de dizer “Olá, boa tarde” na língua de alguém a quem estivermos prestes a pedir ajuda. A empatia linguística costuma actuar como factor decisivo para quebrar o gelo inicial e activar a boa vontade que costuma andar em stand by dentro de cada um de nós. Isto mesmo me disse uma das pessoas que nos recolheu na sua viatura, referindo-se no seu caso às duas letras pintadas no nosso cartão. Depois de parar para nos dar boleia e já dentro do carro, confessou-nos que havia se apercebido que éramos estrangeiros e que havia apreciado o facto de já nos havermos inserido no sistema esloveno, daí que tivesse acabado por decidir nos ajudar. Este sistema está de tal forma enraizado que até mesmo pessoas na casa dos oitenta ou noventa estão familiarizadas e reagem oferecendo igualmente boleia!

 

Poder-me-ão dizer que também noutros países europeus as matrículas das viaturas contêm duas letras correspondentes à cidade ou região de origem, Espanha por exemplo. Sem dúvida que sim, mas em Espanha nem vale a pena tentar andar à boleia! França sim, é um bom país para andar à boleia, mas ainda assim não me lembro de encontrar ninguém na berma da estrada com painéis indicando apenas o número da região para a qual pretende viajar. O contrário faço eu em França, tomar particular atenção às matrículas na esperança de avistar uma com o número do departamento onde se encontre o meu destino.


Exemplo perfeito da vantagem de usar o sistema das duas letras foi a boleia que eu e Diogo recebemos de Postojna até à capital da Eslovénia, Ljubljana. À saída da primeira cidade fomos recolhidos por um jovem muito simpático, agricultor de profissão e mais fluente em inglês que nós os dois juntos. Apesar da enorme velocidade com que se deslocava (100 km/h) havia tido tempo para parar junto a nós. Chegou a hesitar se pararia para nos levar, não que tivesse dúvidas de parar a tempo, mas por ter receio que o (imenso) cheiro a merda de vacas dentro do carro nos incomodasse em demasia. Ah, incomodava sim, sem dúvida, mas o mais importante era avançar, e à velocidade com que seguia não tivemos de aturar por muito tempo o fétido odor.


Exemplo do quão destemido, idoso e sábio pode ser um esloveno oferecendo boleia aconteceu nos subúrbios de Maribor, numa manhã chuvosa, quando nos encontrávamos de partida para a Hungria. Hesitando imenso sobre qual seria o melhor lugar para pedir boleia, gastámos mais de cinco minutos, eu e o Diogo, para nos decidirmos. Desde o momento em que pousámos as mochilas no chão e estendemos o cartaz com a inscrição “Hungary” até receber uma resposta levou, acreditem nas minhas palavras, apenas cinco segundos! O tempo necessário para que o senhor de 85 anos que acabara de estacionar lesse o nosso cartaz e nos acenasse. Num primeiro momento, e dada a visível idade avançada do senhor, pensámos que estivesse a resmungar connosco por termos as malas pousadas no asfalto, ou que simplesmente não compreendesse o que estávamos ali a fazer. Na dúvida recuámos as mochilas para cima do passeio. O velho continuava a acenar e começa também a dizer algo. Fui ter com ele, receoso de ouvi-lo resmungar algo em esloveno, mas não, disse-me num perfeito inglês: “então vêm, ou não vêm. Se querem boleia despachem-se pois eu aqui estou muito mal estacionado”. Que loucura! Entrámos, pois claro, e seguimos uns cinco quilómetros com o senhor que, embora não tivesse como destino a Hungria, tinha muito bom-senso e igual dose de boa-vontade. Explicou-nos que a sua boleia iria ser curta mas essencial para o bom sucesso da nossa viagem. Segundo ele tínhamos escolhido um péssimo lugar para andar à boleia, problema “felizmente com solução”. Levou-nos até a um estrada fora dos subúrbios de Maribor junto à qual se encontrava o cruzamento que dava acesso à via rápida que liga a cidade eslovena à zona fronteiriça com a Hungria. E tinha toda a razão o sábio senhor. Cinco minutos depois recebemos boleia de um casal de viajantes nómadas espanhol que nos levou os dois até às portas de Budapeste!


Para completar o quadro sobre as boleias eslovenas, falta contar o exemplo da miúda destemida e muito altruísta que nos tirou da estrada e nos levou até Celje, cidade onde uma amiga minha couchsurfer nos esperava para irmos fazer um percurso guiado pela ruínas do castelo local.


Estávamos eu e o Diogo à boleia numa saída de Ljubljana, um de polegar esticado e o outro segurando no cartaz com a inscrição CL, quando para nosso espanto vimos um pequeno carro vermelho estacionar uns metros antes de nós, conduzindo por uma jovem beldade eslovena, loira e de olhos verdes, passe o cliché. Partimos do princípio que não tinha parado por causa de nós! Impossível, dissemos um para o outro, e não ligámos. A rapariga, tal como o velho de 85 anos, começou a dar aos braços com ar de estar com muita pressa. Fomos tentar perceber qual era o seu problema e pensando que nos chamava para a ajudar a resolver um qualquer problema mecânico (passe o preconceito, e se fosse mesmo esse o caso estaria com azar que nisso sou um zero à esquerda). Mas não, tinha mesmo parado para levar aqueles dois jovens com aspecto de vagabundos. Ainda lhe perguntámos se tinha a certeza de nos querer dar boleia, e se não estaria porventura a troçar de nós. Respondeu-nos exaltada “mas qual quê, entrei que estou com pressa!”.

 

Com certeza, entrámos incrédulos e muitíssimo contentes. Afinal não tínhamos assim tanto aspecto de sermos gente perigosa como julgávamos. Não que pareçamos imensamente maus, não. A experiência de andar à boleia na nossa querida Europa é que nos ensinou que é extremamente difícil arranjar uma boleia para dois homens. Uma mulher sozinha encontra facilmente boleia, mas é igualmente arriscado fazê-lo. Duas mulheres ou um casal contínua a ser fácil. Um homem sozinho hoje em dia vê-se negro para ser levado de boleia. Dois homens juntos à boleia, têm quase tantas hipóteses de ver um carro parar à sua frente como a probabilidade de ganhar a lotaria. Pelo menos fora da Eslovénia. Dentro da Eslovénia os milagres de boleia acontecem com uma frequência e consistência incrível. De uma forma pragmática, confesso que esperávamos ter sucesso com as boleias naquele país, mas esperávamos ser recolhidos sobretudo por veículos com mais de uma pessoa, seguindo a elementar lógica dos números: um homem sozinho teria medo de dar boleia a dois homens. Para nos baralhar por completo as contas apareceu a tal beldade, mulher e sozinha!


A sua suposta bravura impressionou.nos imenso. O nosso espantou confundia de forma igual. Conversando sobre o tema enquanto nos íamos aproximando de Celje, a jovem garantiu-nos que na Eslovénia a sua decisão de nos dar boleia não tinha nada de extraordinário. Era aliás algo que considerava muito banal. Ainda bem pensámos nós. Boleia não haveria nunca de faltar naquele país!


Continuando a conversa, a jovem explicou-nos que estava “assim tão bem vestida porque ia de férias para a Áustria com uns amigos”, e “by the way”, aproveitou para nos dar uma má notícia. Teria de cortar à direita, na próxima saída da autoestrada, para seguir em direcção ao aeroporto onde já se encontravam os seus amigos à espera dela. Essa saída encontrava-se a uns meros oito quilómetros de Celje. Dissemos-lhe que não havia problema nenhum, que já nos tinha feito um enorme favor e que oito quilómetros não eram nada para quem andava à boleia na Eslovénia. Após hesitar um pouco, ligou do seu telemóvel para um dos amigos no aeroporto. Assim que desligou, informou-nos que o seu amigo lhe havia garantido que tinha tempo suficiente para nos levar aos dois até Celije e regressar a tempo de apanhar o seu avião. Dissemos-lhe que não valia a pena, que seria um risco desnecessário. A miúda, não ligou, sorriu divertida e acelerou a fundo. Nos minutos que sobravam para chegar a Celje explicou-nos o motivo da sua inesperada decisão. Sabendo que nós nos deslocávamos àquele cidade para uma curta visita de três ou quatro horas e que de seguida ainda iríamos tentar ir de boleia até Maribor (onde tínhamos casa de couchsurfer para três noites), não partiria descansada por causa da inquietação de não saber se nós encontraríamos ou não boleia para cumprir a nossa apertada agenda. De forma que nos levou até ao centro da cidade e ainda teve tempo de sorrir para a fotografia de grupo!


E bom, mais coisa menos coisa, é assim a boleia na acolhedora Eslovénia!

 

Luís Garcia, 15.10.2016, Chengdu, China

 

 
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Love You Mom, por Ricardo Lopes

 

 

Love You Mom.jpg

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE 

 

Bem, para ver se se diverge da estupidez que se instalou nas discussões com portugueses sobre este assunto, agora vou fazer um comentário longo, no qual me vou focar em grande parte nos números, que, pelos vistos, são a principal preocupação dos teóricos da conspiração, tendo já evocado esse argumento um sem-número de vezes.

 

Ora, a acreditar nos números indicados pela jornalista Ana Leal (que não posso confirmar, porque ela nem sequer indicou a fonte), por ano, no Reino Unido, são retiradas aos pais cerca de 35000 crianças.


Então, em primeiro lugar, de acordo com os dados dos censos de 2011, existiam 15098000 pessoas com idade igual ou inferior a 18 anos no Reino Unido.


Se acreditarmos no número que a senhora Helena Tender insistiu em apresentar, de 60000 crianças no total institucionalizadas no Reino Unido, isso equivale a um total de cerca de 0,4% de todas as crianças existentes.


Se pegarmos no número de crianças portuguesas, sabe-se que, por ano, só em Inglaterra e em Gales nascem cerca 88000 crianças. Ora, mais uma vez fazendo a percentagem, se acreditarmos mais uma vez que este ano foram retiradas, até ao momento, 60 crianças portuguesas aos pais da respetiva nacionalidade, temos uma percentagem de 0,068%, ou seja 0,1% arredondados.


Mais, se pegarmos no tal número de 35000 crianças retiradas aos pais por ano e fizermos a percentagem relativamente apenas ao número de crianças nascidas por ano, apenas em Inglaterra e em Gales, mesmo assim dá apenas uma percentagem de 5%. E, claro, aqui nem sequer se está a considerar todas as outras existentes no país com menos de 18 anos, para as quais já fiz os cálculos, e que tornam a percentagem ridiculamente baixa, para um país que querem apresentar como um no qual as autoridades públicas andam metidas em negócios obscuros com entidades privadas para "roubar" crianças aos pais, de acordo com os critérios mais absurdos já referidos.


Agora, cálculos à parte, porque números dão muito jeito para espetar como argumento, mas convinha que começassem por ser significativos, que não são, vamos fazer outras considerações.


Em primeiro lugar, o sistema de proteção das crianças e os fundamentos teóricos em que se baseia, são determinados pelos mais modernos conhecimentos desenvolvidos através de investigação psicológica, psiquiátrica, comportamento humano, desenvolvimento humano, e cujo princípio orientador é o de que (e isto tem toneladas de evidências por detrás, toneladas de estudos desenvolvidos ao longo de décadas) o comportamento e o desenvolvimento humano são determinados pelas experiências e pelas influências que os indivíduos recebem, desde que nascem, e até já começa a incluir cada vez mais fatores externos que influenciam o desenvolvimento durante a vida intrauterina, e daí as recentes recomendações em termos de nutrição, medicação, exercício físico e restantes hábitos para as mães, e também para os pais, embora em menor número e menos rigorosos, por razões óbvias.


Portanto, não é algo baseado em opiniões, nem em intuições, nem em ideologias, nem na grande sabedoria octogenária da tia Mariazinha da aldeola de Trás-os-Montes nem da avozinha dos subúrbios de Londres, muito menos em "gut feelings", até porque dos "guts" normalmente só saem duas coisas: gás e merda. Pontualmente, pode sair também sangue, pus, e outras coisas, em situação de patologia.


Assim sendo, é óbvio, perante toda a montanha de evidências e ciência baseada em evidências, não em mezinhas da avó nem em ciências alternativas, que, sim, é importante aquilo de que as crianças se alimentam, nas várias fases de desenvolvimento, a integridade emocional, psicológica e física, assim como toda uma panóplia de fatores externos que são avaliados, de acordo com guidelines, tanto pelos assistentes sociais, como pelos professores, profissionais de saúde, autoridades policiais, etc., que eu deixo aqui, para o caso de quererem verdadeiramente instruir-se:

 


Tudo isto, ao contrário do que as senhora têm estado a tentar forçar como "straw-man argument", não quer dizer que eu esteja a implicar que o sistema português é completamente defeituoso e que o britânico é infalível e perfeito. Não, nem um nem outro são assim. A formação para os assistentes sociais, autoridades policiais, profissionais de saúde e, penso eu, para os professores, é igual ou semelhante. Para os médicos, que é a minha área de formação, posso dizer que são exatamente iguais. Agora, uma coisa é viver num país onde existe um quadro jurídico que dá primazia aos interesses dos pais biológicos, em detrimento do bem-estar e bom desenvolvimento das crianças, como acontece em Portugal, e é algo que, infelizmente, manieta bastante as ações de toda as autoridades enumeradas. Se um aluno chega à escola, pede ajuda a um professor, porque é vítima de abuso sexual em casa, porque é vítima de violência física, porque é ameaçado física e emocionalmente, porque vive num clima de medo, ninguém pode fazer basicamente nada. Simplesmente, denunciar o caso, e esperar que se arraste nos tribunais ou noutras instâncias, e, normalmente, acabe muito mal para a vítima. O mesmo acontece em casos de violência doméstica, e qualquer tipo de violência cometida no seio familiar e principalmente exercida sobre pessoas dependentes de terceiros. Uma criança pode ir ter com uma professora e dizer que se naquele dia voltar a casa provavelmente o pai a matará à pancada, e mesmo que se chame a polícia, ninguém a ajuda, não há esquemas de prevenção montados para retirar imediatamente a criança aos pais e depois, si, averiguar a situação. E não é culpa dos médicos, nem dos assistentes sociais, nem dos polícias, nem dos professores. É culpa do sistema jurídico e penal.


No Reino Unido, tudo isto acontece ao contrário, ou praticamente. O princípio é o de prevenção dos maus-tratos, prevenção de danos físicos, psicológicos e emocionais, observância dos melhores cuidados para permitir o desenvolvimento mais saudável e íntegro possível das crianças.


Mais, num país como o Reino Unido em que há acesso fácil a consultas de planeamento familiar, como é que se explica que alguém tenha 6 filhos, por exemplo? Nem no Bangladesh coisas destas acontecem, onde depois de ter sido dada formação a mulheres pertencentes às diversas comunidades locais, estas conseguiram educar as suas pares para planear o número de filhos a ter, para a utilização de contracetivos, etc., e, neste momento, a média de filhos por casal é de 2,5.


Mas, como é óbvio, o estado britânico não vai proibir as mulheres de se reproduzirem. Apenas pode ser feito o melhor aconselhamento possível, por via dos diversos profissionais. E é o que é feito.


Num país onde é providenciado todo o cuidado e mais algum às crianças, onde é feito um acompanhamento regular, rigoroso e personalizado pelos profissionais de saúde, que até se deslocam ao domicílio, no qual todas as pessoas recebem suporte monetário por via de subsídios por cada filho que têm, onde é dada formação gratuita às mães para poderem criar as crianças de acordo com os conhecimentos mais recentes, que não são perfeitos nem derradeiros, mas que vão melhorando à medida que a investigação e os estudos se fazem (é assim que a ciência é feita e construída, não com base em dogmas universais), onde até é oferecido alojamento (e bom) pelo estado no caso de as condições económicas dos pais assim exigirem, onde até os próprios assistentes sociais tomam conta das crianças no caso de os pais se ausentarem e precisarem de ajuda, não os retirando por causa disso, que lata é que é preciso ter para ir para uma reportagem que é um nojo em termos jornalísticos queixar-se das próprias asneiras que fazem?

 

Entretanto, e ainda de encontro a tudo o que aqui referi, e para reforçar o facto de a reportagem ter consistido em pura trampa jornalística sem o mínimo de rigor, deixo esta publicação da senhora Mafalda Teixeira, cuja identificação nas redes sociais poderá ser facilmente comprovada com uma rápida pesquisa no Google: 

 

Tradução:

Houve um documentário na TVI chamado “Love Me [You] Mom”, no qual uma mulher chamada Teresa Oliveira alegou ser minha “mãe” e que eu tinha sido “retirada” dela pelos serviços sociais ingleses. Esta mulher é uma mentirosa. Ela não é a minha mãe e eu não fui “retirada”. Eu fui salva das suas terríveis garras após sofrer anos de abuso físico e mental entre os 6 e os 11 anos. Eu não tenho 3 filhos. I não vendo o meu corpo. Eu sou mãe de um filho, e trabalho atualmente como empregada de mesa a tempo inteiro e estou numa relação de longo termo. O documentário usou as minhas imagens e o meu nome sem o meu conhecimento ou consentimento. Eu peço a toda a gente que respeite a minha privacidade e que deixe a polícia lidar com a situação. Obrigado.

 

Ricardo Lopes

 

Sobre este tema leia também: Dar uma chapada de vez em quando, por Ricardo Lopes

Dar uma chapada de vez em quando, por Ricardo Lopes

 

 
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