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Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

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Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

Desespero mediático 3 - DN

 

 

DESESPERO MEDIÁTICO 3

Luís Garcia  POLITICA SOCIEDADE

 

Então, sobre a farsa de guerra de proxy na Síria, o Obama diz uma coisa e o John Kerry diz o contrário, ou o Obama e o John Kerry dizem o mesmo e um general John Allen ou Petraeus do Pentágono dizem o contrário, ou até um general do Pentágono diz uma coisa e um porta-voz do Pentágono diz outra, e estas tentativas falhadas de jornalistas do Diário de Notícias põem-se a citar um badameco de um porta voz do Pentágono comentando o futuro do estado soberano da Síria! Força jornalistas tugas, beijai mais ainda o cu dos americães, vá, não nas bochechas do rabo, mas lá mesmo no buraquinho de onde sai a merda toda que vos inspira!

 

 

 

E o que interessa o que diz um porta-voz do Pentágono? Vejam este exemplo, um porta-voz do Pentágono afirmando em conferência de imprensa que não tem a certeza se Palmira não estaria em melhor situação nas mãos do ISIS do que nas mãos de Assad! Não, não é uma piada, ele disse mesmo isto! Vejam o vídeo abaixo no momento 2m44s. Para os descerebrados que duvidem do barbarismo desta afirmação, convido-os a ver as decapitações e os assassinatos em massa nas ruínas de Palmira ou as jaulas com mulheres à venda no centro de Palmira, tudo modernices dos adoráveis trogloditas do ISIS! Para não falar de ruínas destruídas a martelo ou com o uso de explosivos!

 

 

Porquê toda esta minha má-educação, escárnio e mal-dizer contra o Diário de Notícias? Porquê? Por causa desta não-notícia:

EUA excluem participação de Assad em Governo de unidade na Síria

Presidente sírio apelou para a formação de um "governo de unidade nacional" com a participação de membros fiéis ao regime de Damasco e também da oposição. EUA recusam a ideia

Os Estados Unidos excluíram hoje qualquer possibilidade de um Governo de unidade na Síria que inclua o Presidente Bashar al-Assad.Na sequência da entrevista de Bashar al-Assad à agência noticiosa russa Ria Novosti, o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest, afirmou, em conferência de imprensa, que está "fora de questão" que o chefe de Estado sírio faça parte de um Governo de unidade no país. Na entrevista, o Presidente sírio apelou para a formação de um "governo de unidade nacional" com a participação de membros fiéis ao regime de Damasco e também da oposição, que deverá redigir uma nova Constituição, opondo-se a um executivo de transição.

"É lógico que forças independentes e da oposição" participem nesse governo, e as negociações de Genebra podem "resolver" a questão da distribuição das pastas ministeriais, considerou Assad. Na entrevista, o Presidente sírio afirmou também que os cinco anos de conflito no país já custaram mais de 176 mil milhões de euros. "Os danos económicos e nas infraestruturas ultrapassam os 176 mil milhões de euros", afirmou Bashar al-Assad. "As questões económicas podem ser resolvidas imediatamente, quando a situação estabilizar na Síria, mas reabilitar as infraestruturas vai levar algum tempo", salientou. (Diário de Notícias)

 

E o mais grave é que vêm com não-notícias deste género de cliché já muito gasto, quando há tantos eventos de suma importância ocorrendo agora mesmo na Síria e que jornais como este (que têm a palavra "notícia" no nome) não dão notícia! Avanço do Exército Sírio sobre Der Ezzor vindo do sul, avanço das forças curdas a caminho de Der Ezzor vindas do norte, violações de cessar fogo dos pseudo-rebeldes perto de Damasco, ataques do ISIS no Líbano junto à fronteira com a Síria, e por aí fora! Mas não, Diário de Notícias, Público, RTP, SICN, TVI24 e companhia, apenas sabem beijar os cus dos donos do mundo, fazendo, em consequência, não-jornalismo de manhã à noite!

 

Então não podiam por exemplo informar o povo português, como fez o Los Angeles Times, o Syrian Free Press ou a Russia Today, sobre o facto de, neste momento, na Síria, ocorrerem combates entre o grupo terrorista Syrian Democratic Forces criado pelo Pentágono e o grupo terrorista Knights of Righteousness criado pela CIA!?! Dois estados (militares) autónomos dentro dos EUA gladeiam-se na Síria perante o olhar impotente do fantoche do momento, Obama, que é como quem diz, caos e violência fora de controlo por esse mundo fora, gerado pela maior potência militar da história da humanidade em perigosa decadência, e o Diário de Notícias e zombies do género assobiam para o lado e fingem que não se passa nada? Bravo, Diário de Notícias, Bravo!

 

 

 

E para passar mais rápido o tempo no qual era suposto produzirem as notícias que não produzem, claro está, vão vomitando nas suas páginas online tolisses e má-vontade crónica. Olhem outro exemplo do Diário de Notícias (a nova vítima de estimação do Pensamentos Nómadas, por culpa própria, hehe) regurgitando baboseiras sobre o mesmo tema:

Ban Ki-moon saúda expulsão de extremistas de Palmira

Secretário-geral da ONU apelou para que o "mundo inteiro" proteja aquele património da humanidade O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, saudou hoje a expulsão do grupo radical autodenominado Estado Islâmico, da cidade histórica de Palmira, na Síria, e pediu que o local seja protegido para futuras gerações. Numa conferência de imprensa na Jordânia, Ban Ki-moon disse ser "encorajador" que o local, património mundial da UNESCO, já não esteja nas mãos de extremistas e que o Governo sírio possa agora "preservar e proteger este património cultural da humanidade".

O secretário-geral instou também o "mundo inteiro" a proteger aquele património da humanidade. O grupo dito Estado Islâmico tomou Palmira em maio do ano passado e destruiu o grande Templo de Be, o santuário de Baai Shamin e várias torres funerárias, que os "jihadistas" consideraram uma blasfémia. Na semana passada, as forças governamentais recuperaram a cidade. Apelidada pelos sírios como a "pérola do deserto", Palmira ostenta templos e túmulos elaboradamente decorados, formando um conjunto de monumentos clássicos que constituíam um dos conjuntos melhor preservados no Médio Oriente. (Diário de Notícias)

 

Perceberam o que há de errado na propaganda citada? Simples, em nenhum momento a mais brutal e horrenda organização terrorista jamais criada foi chamada de "terrorista". Nem terrorista nem nada que se aproxime. Apenas eufemismos e expressões vagas que provam o que já disse antes: esta gente, ou pelo menos os seus directores de informação, são apoiantes tresloucados da barbárie que o ocidente inflige à Síria na forma de grupos e organizações terroristas. Vejamos que expressões e termos escolheram para qualificar ou identificar o ISIS:

 

  • expulsão de extremistas
  • a expulsão do grupo radical autodenominado Estado Islâmico
  • mãos de extremistas
  • o grupo dito Estado Islâmico
  • os "jihadistas" (aqueles que combatem numa guerra santa)

 

E é tudo o que conseguiu dizer o pseudo-jornalista que elaborou esta anedota. E que tal em vez de, sei lá, escrever "grupo dito Estado Islâmico", escrever "organização terrorista autodenominada ISIS? Não, não soa bem? É muito duro chamar terrorista a quem decapita gente na rua por razão nenhuma, ou que filma sírios sendo assados vivos, ou que vende mulheres e meninas como se fossem gado, ou que destroem os testemunhos da história da nossa espécie na Síria? Claro que não! Para gente normal não! Para zombies-jornalistas é que é tarefa impossível, pois vocês, escumalha pseudo-jornalística vendida e submissa, guardam os adjectivos e expressões negativas para quando vos toca inventar de forma grotesca não-notícias sobre Al Assad. Aí sim, o vosso dicionário solta as amarras para, sem provas absolutamente nenhumas, ou com provas forçadas pelos serviços de propaganda do império (um exemplo disso é o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, que não é nem observatório, nem sírio, nem tem nada a ver com direitos humanos), chamarem tudo e mas alguma coisa ao legítimo chefe de estado da Síria. Ele é "carniceiro", ele é "genocida, "bárbaro"; "vil", "vingativo"... Ou "tem as mãos manchadas de sangue", ou "larga barris-bombas por cima de civis" porque lhe apetece ou porque acordou mal-disposto! Ahhhhh, e não me estendo mais pois dá-me vómitos repetir diarreia jornalística do género!

 

Um conselho, portanto, ao Diário de Notícias: fechem as portas, pois tradutores-repetidores-automatizados da propaganda do império já há de sobra no nosso Portugalinho!

 

Luís Garcia, 31.03.2016, Lampang, Tailândia

 

 Clique aqui para ler Desespero mediático 1

Clique aqui para ler Desespero mediático 2

Fontes:

In Syria, militias armed by the Pentagon fight those armed by the CIA

In Syria, Al-Assad Liberates Palmyra While CIA Fights Against the Pentagon

State Dept Rep - Syria's army should not liberate Palmyra from ISIS? (vídeo)

In Syria, Al-Assad Liberates Palmyra While CIA Fights Against the Pentagon

- The CIA and Pentagon are fighting each other in ‪#‎Syria‬, well kinda. (vídeo)

EUA excluem participação de Assad em Governo de unidade na Síria

Ban Ki-moon saúda expulsão de extremistas de Palmira

YPG captured Ruwayshd plant after ISIS fled #DeirEzzor 

SAA shelling ISIS/Daesh positions and continues to advance in East Homs, Syria

- Wikipedia: Obama,John KerryJohn Allen, Petraeus, O PentágonoGuerra por procuraçãoSyrian Democratic ForcesCIA

 

 

 

 
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Psicólogo de camionistas

 

 

BOLEIAS – EPISÓDIO 1

 

Psicólogo de camionistas

 

bw VIAGENS Luís Garcia

Esta insatisfação, não consigo compreender, sempre esta sensação, que estou a perder. Tenho pressa de sair, quero sentir ao chegar, Vontade de partir, p’ra outro lugar. (Estou Além, António Variações)

 

PSICÓLOGO DE CAMIONISTAS (Portugal, Espanha, França, 2007) – A primeira boleia que eu e o meu colega Diogo obtivemos na aventura Sudeleste 2007 foi-no oferecida por um camionista português que em Vilar Formoso nos garantiu poder transportar-nos até Irún, junto à fronteira franco-espanhola, mas não mais longe que isso. Perfeito, de uma assentada só atravessaríamos a totalidade da extensa Espanha! Se bem que rolando num camião cujo limite de velocidade é de 90 km/h e com cerca de 600 km para atravessar a viagem prometia ser imensamente longa e monótona. Bom, pelo menos jogávamos pelo seguro e garantíamos que no dia seguinte estaríamos já a caminho de França. Se é certo que de carro se viaja bem mais rápido, a incerteza de encontrar um que pare para dar boleia em Espanha e Portugal, juntamente com as esperas possivelmente de horas entre boleias de carros que por norma são de distâncias bem mais curtas que as dos camiões de transporte internacional, levou-nos a aceitar a generosa oferta do nosso compatriota e partir em direcção ao desconhecido.


O senhor ao início, embora educado e amável, mostrava-se (naturalmente) um pouco reservado e diria até desconfiado. Faltava-lhe algo que lhe mostrasse um pouco das nossas personalidades de forma a assegurá-lo que estava em face de dois jovens aventureiros e não de perigosos assaltantes fazendo-se passar por viajantes. Esse algo veio com as conversas que travámos (eu e o Diogo) ao telefone com o nosso colega Ivo que acabara de sofrer um terrível azar (ler estória La Guardia Civil). Se antes dos telefonemas imperava no ar um certo desconforto resultante do silêncio tímido e/ou receoso, depois, e por vontade expressa do tagarelíssimo senhor, instalou-se naquele camião em andamento um verdadeiro consultório de psicologia para condutores de camiões e análise de seus traumas!

 

 


Como os camiões só têm dois assentos (condutor e um passageiro), um (eu) teve de se sentar na cama por detrás dos assentos. No banco da frente ía o Diogo, rapaz muito calmo e tímido e por isso sem pedalada para acompanhar o caudal de histórias, pensamentos e inquietações existenciais ou de outra ordem debitadas pelo infatigável condutor. Com o tempo foi se tornando cada vez mais difícil para o Diogo seguir aquela avalanche de informação desconectada apresentando ainda alguma frase-feita original como resposta que demonstrasse um mínimo de interesse (primeiro genuíno, depois politicamente correcto) pelos incontáveis dizeres do outro. Juntando-lhe ainda os muitos pedidos de opinião sobre assuntos que não lembrariam a ninguém feitos pelo condutor a um Diogo semi-dormente e esgotado, decidi-me finalmente por convidar o meu colega a trocar de lugar. Trocámos mas o Diogo não se veio sentar na cama, antes deitou-se e aterrou exausto por uns tempos. Era a minha vez de ocupar a cadeira de psicólogo ambulante.


Só quem não conhece a vida solitária de um camionista é que poderia criticá-lo pelo seu comportamento aparentemente egocêntrico de falar até mais não, sem demonstrar um mínimo de empatia por nós e tentar aperceber-se se estaríamos cansados de ouvir, ou cansados, simplesmente. Dado o contexto profissional faz todo o sentido este tipo de comportamento embora nem todos sejam assim tão chatos.


O lado bom foi ouvir da sua voz uma miríade de truques, trafulhices, insólitos e mitos urbanos. Por exemplo, o truque de colocar um disco de papel recortado entre os 0 e os 90 km/h e sobrepô-lo ao disco do taquímetro do camião de forma a poder rolar mais depressa sem que fique registada a informação da transgressão (algo que não foi feito na nossa viagem). Hoje em dia os taquímetros são electrónicos e funcionam com cartões magnéticos que tornam a batota mais difícil (mas não impossível segundo outro camionista com quem viajem recentemente). Além do mais engana-se quem julgar que sejam os camionistas os principais culpados. Na esmagadora maioria dos casos a ordem vem de cima, imposta pelo patrão exigindo níveis de rapidez incompatíveis com as leis rodoviárias estabelecidas. E não é só no controlo da velocidade que a batota existe. Muitas empresas e respectivos patrões em vez de enviarem um camião ao seu destino com dois motoristas que trabalhem por turno, arriscam multas avultadas e enviam apenas um que chegam a conduzir mais de um dia sem parar. Uma vez, em Portugal, tive boleia de um camionista que quando parou para eu entrar já viajava à 23 horas! É duro, duríssimo, no entanto a tentação é enorme para quem tem dívidas e famílias para sustentar e muitos acabam por aceitar draconianas condições de trabalho deste género. Coisas do bem-amado capitalismo...

 

 


Seguiram-se muitas outras estórias: fait divers sobre o pessoal da sua terrinha, atritos e alegrias familiares, queixas um pouco nacionalistas (com razão ou não) sobre a forma com que são tratados os camionistas portugueses em Espanha, rivalidades e desconfianças entre camionistas de diferentes nacionalidades nos parques de camiões, histórias de camiões assaltados enquanto pernoitam. Selecciono dois mitos urbanos para voz contar, os meus preferidos. Um é sobre o hipotético comportamento de muitos (segundo ele) camionistas que, quando transportam mercadoria que lhes agrade abrem da forma que puderem uma palete e retiram-lhe do centro, por exemplo, 2 caixas de botas, fechando cuidadosamente para que não se perceba que a mercadoria foi alterada. Depois rezar para que o responsável da empresa destinatária, ao descarregar a mercadoria não dê conta da alteração e assine o documento de entrega. A partir desse momento, está arrumado o assunto para o camionista e as botas em falta entram para o prejuízo da referida empresa. Digo mito e não facto pois não posso provar algo a que nunca assisti, mas o nosso camionista assegurou-nos que há mesmo quem o faça e que de vez em quando lhe chegam aos ouvidos relatos do género.


O outro mito é um clássico da estrada. Ao contrário de Portugal, em Espanha as casas de prostituição são legais e pode-se encontrar imensas à beira das estradas que atravessam o país. O nosso amigo, mostrando os seus dotes de GPS mental avisava-nos com uma antecedência de alguns quilómetros (e durante a noite escura que nem breu) a localização da casa seguinte com uma impressionante precisão. Na confirmação de uma dessas previsões acertadas, vendo de passagem os néons piscando num rosa-choque cansado, o camionista sobressaltou-se e começou-nos a contar a estória do seu “mais belo romance”. Segundo ele, trabalhava ali uma formosa e “muito bem cheirosa” jovem de um país de leste (perguntámos qual, mas não nos sabia dizer) que tinha uma paixão ardente por ele e que esperava sempre impaciente pela sua próxima visita ao estabelecimento. “Ali todos pagam, e bem”, assegurava ele, “mas para mim ela fá-lo sempre de graça, e ainda pede para eu voltar, ardendo de paixão”! Ahahah, pois claro...


À 1 hora da manhã chegávamos finalmente a Irún, o camionista estava cansadíssimo pela longa jornada de condução, nós não menos, desabituados a tão longos períodos de tempo enjaulados num veículo e com a cabeça em água de tantas estórias ainda por assimilar. Ele ajeitou a sua cama por detrás dos assentos da cabine, enquanto que nós encontrámos uma relva razoavelmente confortável nos jardins do parque de estacionamento e aí instalámos os sacos de cama. Mau mesmo foi quando a meio da noite começou a cair uma borriça que nos obrigou a procurar refúgio por debaixo de uns arbustos muito pobres em folhagem. Uma noite muito mal passada, sem dúvida!


No dia seguinte encontrámos o nosso companheiro de viagem nas casas-de-banho públicas e juntámos-se a ele para um café matinal no restaurante da estação de serviço. Aí, durante a conversa de pequeno-almoço o motorista convidou-nos a voltar à estrada com ele. No dia anterior ele tinha-nos explicado que, normalmente, camiões com destino a Itália e aos países de leste costumam usar a rota que passa por La Jonquera, junto aos Pirenéus orientais onde passam a primeira noite. Pelo contrário, aqueles cujo destino é o norte da França ou Europa do norte têm por hábito acabar a primeira etapa em Irún (onde nos encontrávamos). Ora, precisamente pelo seu trajecto ser atravessar a França numa diagonal para nordeste que o levaria para Alemanha, de início hesitámos em aceitar o convite. A questão principal era: se por um lado teríamos a hipótese de partir de imediato, por outro dirigir-nos-íamos para a zona errada, o que nos obrigaria posteriormente a fazer quilómetros extra para voltar à nossa rota. Ambas as opções tinha prós e contras e ficámos deveras indecisos. A solução (pragmática) foi a de pedir boleia a outros camionistas na meia hora seguinte, enquanto o camionista português fazia os preparativos para partir e, findo esse tempo, se não tivéssemos encontrado nada de interessante, juntar-nos-íamos a ele.

 

Meia hora depois estávamos de novo instalados no gabinete de psicologia que conhecêramos na véspera, e lá fomos com o nosso colega de aventuras rumo a França. E sim, as sessões foram retomadas, o camionista tinha recarregado e bem as baterias e encheu-nos de novo a cabeça com mitos e lendas da estrada. À entrada de uma pequena vila francesa avisou-nos para prestar atenção aos passeios pois “desde há muito tempo que ovelhas insistem em pastar nos canteiros sem nunca (e sublinhou veemente o “nunca”) arredar pé”. Nós inocentemente lá destinámos a nossa atenção a observar cuidadosamente todas as árvores e respectivos canteiros que dos quais nos íamos aproximando lentamente enquanto que ele, o motorista, continha-se o mais possível para não se rir declaradamente. A meio da povoação confirmou-se, pela metade, aquilo nos contara. Haviam sem dúvida ovelhas brancas aparentemente pastando na berma da estrada, mas o motivo para “nunca arredarem pé” era o facto de serem recriações feitas de cimento! Ah, como ele troçou de nós, todo contente!

 

A ovelha de cimento

 

Durante horas a fio atravessámos o verdejante interior francês, vimos alces fugir ao longe nas planícies, assustados pelo barulho dos camiões, tirámos algumas fotos da França rústica e envelhecida e fomos diversas vezes convidados pelo condutor do camião a fazer-lhe companhia mais um dia e viajar até ao seu destino final: região industrial do noroeste alemão! Insistiu e voltou a insistir que estava encantado pela nossa companhia e a nossa paciência para o ouvir (pois não!) e que seria um enorme prazer para ele concluir a viagem connosco. Mas não, não faria sentido nenhum, o nosso projecto era incompatível, o tempo e recursos económicos disponíveis não o permitiriam, não estávamos minimamente interessados em visitar a Alemanha, não nos alegrava a ideia de nos tornarmos psicólogos a tempo inteiro e, aliás, já nos tínhamos desviado muito mais da rota do que jamais poderíamos ter imaginado: parámos ao final da tarde para pernoitar em Sens, vejam lá, quase às portas de Paris!

 

 

Desta vez estacionámos no meio do nada, na beira de uma estrada que se perdia na imensidão da planície de plantações de trigo já colhido. Avistámos não muito longe rolos de palha dos quais nos poderíamos servir (pensámos nós na altura) para improvisar a cama desta segunda noite de viagem. No entanto, o céu coberto de nuvens escuras prometia chuva e o camionista veio ter connosco convidando-nos a instalar os sacos-cama nas traseiras do camião junto às peças de motores Mercedes que transportava (ver slide-show acima). O que ganhámos em garantia de uma noite menos molhada que a anterior, perdemos em desconforto ao nos deitarmos sobre o chão rijo e metálico do camião separado dos nossos corpos apenas pelo fino tecido dos sacos-cama.


No dia seguinte pedimos-lhe que nos levasse até uma estação de serviço da estrada Paris-Lyon onde tentaríamos de novo pedir boleia rumo a sul. Mas essa é outra mirabolante aventura à boleia contada na próxima Estória de Viagem!

 

Luís Garcia, 31.03.2016, Lampang, Tailândia

 

 

 
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Les gens déprimés

 

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RICARDO MINI copy  SOCIEDADE en français

 

J'en ai assez de lire des conneries sur « les gens déprimés ». Vous savez qui a le droit de se sentir déprimé , parce ce qu'ils ont des raisons pour? Ceux qui sont pauvres, qui sont exploités au travail, qui ont perdu des êtres chers atteints de maladie grave, ceux qui sont emprisonnés (indépendamment du fait d'avoir commis un crime ou pas), ceux qui sont ou ont été en guerre, qui vivent dans la rue, qui ont faim, qui ont soif, qui sont atteints d'une maladie grave.

 

Et le plus curieux est que beaucoup de gens se trouvant dans ce genre de situation ne dépriment pas. Ou, s'ils dépriment, la dépression finit par passer. Vous savez pourquoi ? Parce qu'ils ont des problèmes réels, et pas des problèmes inventés, et qu'ils doivent s'en occuper pour continuer à vivre, ou pour aider d'autres personnes à continuer à vivre. Il n'ont pas le temps de se vautrer dans le canapé à ruminer des conneries avec lesquelles ils se remplissent la tête, et en plus après, essayer de contaminer les autres avec. Ils n'ont pas le temps de se tracasser pour des conneries. Ils n'ont pas le temps d'être des matérialistes consuméristes de merde. Ils n'ont pas le temps de consommer de l'art mélancolico-dépressif et penser que le monde entier est foireux et le sera toujours, et que ça ne vaut même pas la peine d'essayer d'y changer quoi que se soit, c'est bien mieux de se mettre en scène à débiter des inepties basées sur des sensibleries pseudo-psychologiques. Ils n'ont pas le temps pour inventer des conneries.

 

À ceux qui ont le temps pour inventer des conneries avec lesquelles ils se sont rempli la tête et pensent qu'ils ne peuvent plus s'en défaire, il y a un bon remède, qui est la meilleure solution pour vous-même et pour les autres. Tirez-vous une foutue balle dans la tête, et vous n'aurez plus à vous traîner dans cette existence qui vous est infernale, ni à obliger les autres ( parce que malheureusement , il y en a toujours d'autres qui sont à votre contact) à supporter des conneries, et à être en contact avec des choses qui peuvent aussi potentiellement les contaminer.

 

Ricardo Lopes

(Traduction de Claire Fighiera)

 
 
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Esterilização: o aparelho reprodutor feminino não é um "espaço público"

 

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Após quatro anos de tentativas falhadas de obter uma esterilização, Holly Brokwell conseguiu-o. Esta história demonstra que o aparelho reprodutor feminino é ainda um espaço público cujo funcionamento é pautado por pareceres de natureza cultural e, como tal, absolutamente subjectivos e variáveis

   SOCIEDADE 

 

Há uns dias, deparei-me com uma crónica da jornalista Holly Brokwell acerca da sua vitória na batalha travada com o NHS (National Health Service) durante quatro anos. Conseguiu autorização para ser esterilizada. Após anos de recurso a métodos contraceptivos com múltiplos efeitos secundários negativos e de tentativas falhadas de obter uma esterilização, que segundo a própria, seria uma decisão informada e fruto de muita ponderação acerca das implicações e consequência da (não) procriação, viu finalmente reconhecido este direito.

 

O que é que esta história, que tem lugar na Europa progressista do século XXI, demonstra? Essencialmente que o aparelho reprodutor feminino é ainda um espaço público cujo funcionamento é pautado por pareceres de natureza cultural e, como tal, absolutamente subjectivos e variáveis. Contudo, estes pareceres, como a própria autora descreve nas crónicas que escreveu a este propósito, podem assumir diversas formas e manifestarem-se sob os mais variados pretextos mas todos eles, na realidade, visam contestar e contrapor uma decisão que envolve a subtracção do indivíduo a algo tão culturalmente enraizado como o acto da procriação.

 

Um dos principais argumentos — se exceptuarmos aqueles que envolvem preceitos religiosos ou o argumento que envolve os mecanismos básicos de reprodução da cultura e de perpetuação da sociedade — é o da irreversibilidade. Em relação à questão da preocupação da sociedade hegemónica com o grau de irreversibilidade das decisões tomadas pelo indivíduo — este caso da esterilização — para além de ser um problema do principal e único visado (a partir do momento em que ele se torna maior de idade e já teve acesso a uma quantidade de informação que lhe permita tomar uma decisão consciente) é uma falsa questão pois também o acto de ter filhos é irreversível.

 

Sendo a vida algo de finito quase tudo é irreversível, de alguma forma. Depois de certas decisões, acontecimentos e confrontos com determinadas realidades dificilmente algo volta a ser como antes. São irreversíveis as mudanças que se operam em alguém pelo facto de se ter decidido estudar um determinado tema, por se ter decidido morar num determinado local, por se ter decidido encetar relações com determinadas pessoas. Faz parte da vida assumir a responsabilidade pelas consequências das próprias decisões, sejam elas quais forem. A (não) parentalidade é uma delas. A mudança é contínua, de certo modo é sempre irreversível e opera-se continuamente através do próprio acto de viver.

 

Aquilo a que a preocupação comunitária com os princípios que cada indivíduo decide definir como seus para orientar uma decisão que deveria ser do foro estritamente íntimo é uma forma de prepotência, paternalismo e uma tentativa de passar atestados de menoridade mental àqueles que querem assumir uma conduta aplicada à procriação diferente daquela estabelecida pelos preceitos da sua cultura. E este cenário é inadmissível. Porquê? Porque desse modo não se pode falar de progressismo nem de respeito pela diferença se aqueles cujo comportamento corresponde, em maior ou menor medida, aos parâmetros da cultura vigente decidem e se acham no direito de aborrecer/oprimir/assediar/moralizar os demais com as suas referências culturais e pessoais logo, absolutamente relativas e circunstanciais.

 

Ana Leitão

 
 
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Desespero mediático 2 - Turquia

 

 

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Luís Garcia  POLITICA SOCIEDADE

 

Desespero e mais desespero. Da mesma forma que repetem, até à náusea, acusações contra Al-Assad de barbárie que simplesmente não existiu ou que, quando existiu, foi realizada quer por trogloditas mercenários treinados pelos ocidentais quer pelas próprias forças armadas europeias e norte-americanas, quando de facto um regime aliado (o turco de Erdogan) comete limpeza étnica dentro das fronteiras do seu país, ninguém nos media portugueses parece estar a par dos acontecimentos ou pelo menos não se mostra com vontade de falar sobre tal. E é aí que me dão razão quando digo que as mentiras sobre Al Assad são mesmo mentiras e que os jornalistas portugueses não são jornalistas, antes empregados precários beija-cus dos cus dos seus patrões, cujas bocas beijam por sua vez os cus de malta que manda mais do que devia neste planeta! Por que digo tal? Ora, porque se as estórias anti-Assad que nos contaram nas TV's, rádios e jornais nos últimos 5 anos fossem verdade, então os pseudo-jornalistas portugueses afinal seriam mesmos jornalistas e eu não vejo então por que razão esses mesmos verdadeiros jornalistas ignorariam crimes da mesmíssima índole ocorrendo agora, ali mesmo ao lado da Síria, na Turquia! 

 

Ou ocorrendo no Iémene no sentido inverso ao da Síria e completamente ignorado. No Iémene tivemos uma revolta popular bem sucedida contra o ditador patrocinado pelos EUA, que teve como consequência o país ser invadido pela Arábia Saudita e amigos, e bombardeado por drones norte-americanos, morrendo dezenas de milhares de civis como castigo por se terem libertado do regime que os oprimia. Mas para os nossos media vendidos há os civis mais ou menos bons, aqueles mortos pelo nosso terrorismo na Síria (mas oficialmente mortos pelo regime do "carniceiro" Assad) no  processo da farsa de "libertar" a Síria de opressão, e há os civis maus, esses filhos da puta de iemenitas que não sabem estar quietos e submissos ao ditador que escolhemos para eles e que se deram ao luxo de fazer uma revolta bem sucedida de verdade! Para medir o cúmulo da hipocrisia não só dos media ocidentais mas também dos seus políticos com cheiro a vaselina, veja-se o que disse Manuel Valls (1º ministro francês) a propósito da venda de armas à Arábia Saudita que bombardeia o Iémene: Será indecente lutar pela nossa economia, pelos nossos empregos?, como quem argumenta que vender armas para matar civis inocentes é uma necessidade económica do maquiavélico ocidente? Ahhhh, mas disse tudo esse pobre bandido! Outra: o imbecil beija-cus do François Hollande (presidente francês), condecorando o príncipe herdeiro (ler dono) da Arábia Saudita com não sei quê de medalhas da legião da (des)honra, no rescaldo da decapitação de mais de 40 prisioneiros políticos na Arábia Saudita? 

 

 

Mas vamos ao desespero desesperante do momento: ISIS-Turquia de Erdogan e respectivos factos quase totalmente ignorados pelos nossos media, de propósito! 

  • Durante anos refugiados sírios na Turquia foram tratados abaixo de merda enquanto que uma boa parte dos homens era obrigada a juntar-se aos grupos terroristas anti-Síria treinados em bases militares turcas como as de Karaman, Osmaniye e Sanliurfa, e enquanto uma boa parte das mulheres e meninas sírias eram vendidas como mercadoria a bárbaros dos estados árabes nossos aliados.
  • A crise de refugiados, do ano passado, a caminho da Europa só começou quando a Turquia deixou de os armazenar em campos de concentração e despachou-os a pontapé para as bordas do mar Egeu e da fronteira com a Grécia e a Bulgária. O próprio Erdogan afirmou há semanas, qual mafioso extorquindo suas vítimas, que se a Europa não lhes der mais dinheiro, mais refugiados serão empurrados para a fronteira Turquia-UE! Não ouviu falar desta afirmação tresloucada nos seus media predilectos? Não, não foi por acaso que não ouviu nada!
  • Assim que a Turquia foi aceite dentro da Coligação Ocidental anti-ISIS (parece uma piada mas não é), a primeira decisão militar que tomou foi bombardear cidades turcas habitadas por curdos, sobretudo aquelas (basta fazer um cruzamento de dados para se aperceber de tal) nas quais o partido curdo tinha ganho mais votos nas últimas eleições legais que deixou o país num impasse. Houve uma outra eleição depois, na qual esses mesmos curdos foram impedidos de participar e da qual saiu vencedor (da enorme farsa eleitoral) o inevitável Erdogan!
  • Com o golpe de estado concretizado e a população curda sendo massacrada dentro da Turquia, o exército turco lembrou-se de invadir o norte do Iraque com equipamento pesado e 1500 homens, por muito que o governo de Bagdad tenha insistido que tal se tratava (obviamente) de um acto de agressão turco. Algum jornalista fez esta reflexão nos media nacionais? Dúvido!
  • Como há sempre alguém (turco no caso) que não gosta de ser cúmplice em crimes contra a humanidade perpetrados pelo exército e governo do seu país, os jornalistas do Çumhurriyet que filmaram a confiscação de armamento turco que se destinava ao ISIS na Síria, foram presos e são acusados de terrorismo e sabotagem contra o estado turco. Os fiscais turcos que realizaram e bem o seu trabalho nesse dia, também receberam as mesmas acusações. Ainda há pouco foi o jornal turco Zaman que se viu violado, ou seja, obrigado a trocar o seu presidente (do contra) por um amigo de Erdogan, acabando-se de vez com a linha editorial de oposição à barbárie do regime turco. Há apenas 2 dias, e apesar da proibição de noticiar verdades no novo Zaman, um jornalista do jornal Zaman foi preso por tentar dizer verdades inconvenientes na martirizada cidade curda de Gaziantep.
  • Neste momento a Turquia conta com centenas de milhares de refugiados internos e milhares de mortos e desaparecidos, sobretudo devido aos cercos a cidades e regiões curdas inteiras às quais as autoridades turcas cortam o acesso a água, electricidade e comida durante semanas, e devido à guerra aberta contra as populações civis curdas e a sua organização de resistência (PKK) que NÃO começou coisa nenhuma! Ainda em 2014 viajei pela região e falei com muitos curdos do PKK e ninguém parecia saber que viria aí um conflito dentro na Turquia, nem tampouco ninguém parecia interessado em fome, guerra ou nomadismo forçado a caminho da Europa. Se agora se levantam e resistem, tal como já afirmei acima, é porque o regime turco lhes declarou guerra no fim de 2015 quando era suposto declarar guerra ao ISIS!
  • Para não me estender muito sobre o terrorismo de estado turco (que seriam aos milhares de exemplos) sobre a sua população curda (e não só), indico-vos apenas 2 exemplos recentes: a destruição massiva de Nusaybin, uma cidade no sul do país, junto à fronteira com a Síria (veja vídeo 1 e vídeo 2).  E apenas um exemplo mais, o acto de barbárie turca que descobri ontem e que me levou a escrever estes 2 artigos de "Desespero mediático: a destruição pelo exército turco da zona histórica de Sur, em Diyarbakir, onde se encontra(va) a multi-centenar igreja arménia católica de Surp Sarkis, património da UNESCO. A destruição é enorme e inexplicável, assim como inexplicável é o facto do governo turco prontamente ter confiscado (nacionalizado) 90% dos terrenos (e destroços) localizados dentro do perímetro classificado de histórico! Ah, viva a limpeza da história pré-Otomana!
  • Agora comparem com Palmira! Aí, os exércitos nossos inimigos do "carniceiro" Assad e do "imperialista" Putin perderam vidas humanas para salvar ruínas património da humanidade. Em Diyarbakir o exército do nosso "aliado" Erdogan bombardeia um igreja arménia património da humanidade que nem sequer estava em ruínas! Comparações nos media? Qual quê? Os tugas que vêem TV nem fazem puta ideia de que igreja destruída estou para aqui a falar!  Enfim, pelos vistos, para Erdogan, limpeza étnica como processo de criação de um estado túrquico etnicamente puro não chega, há que apagar também a história pré-Otomana da região. Depois digam-me que Hitler era mau e que Erdogan não! Diferenças, quem as consegue apontar?

E que conclusões tirar de todo este desespero? Que, apesar de indesmentível e difícil já de esconder, quer os nossos media quer os nossos governos tentam  fingir que tudo o que aqui escrevi não faz parte do reino da realidade. Pelo contrário! Os governos da  União Europeia aceitaram a chantagem mafiosa turca e entregaram 6 mil milhões de euros a Erdogan para que este receba de volta milhares de refugiados sírios estacionados na Europa, violando de forma escandalosa leis e convenções internacionais, enquanto Davutoglu (primeiro-ministro turco) e Erdogan vão avisando que a parada de extorsão poderá subir até 20 mil milhões de euros dos impostos dos cidadãos europeus.

 

União Europeia e o terrorismo de estado turco 

 

Quanto aos jornalistas europeus (e portugueses), esquecem-se de informar um monte de cenas chatérrimas, e não ousam uma única conclusão no reino do real. Ouso eu, com toda a humildade de quem aceita poder estar 100% equivocado: ao pagarmos extorsões (nós europeus) à máfia do regime turco em troca destes receberem de volta a nossa parcela de refugiados estamos:

  • a alimentar economicamente um estado que bombardeia as suas minorias, que compra petróleo ao ISIS, que vende armas ao ISIS e que neste momento ocupa territórios dos estados soberanos do Iraque e da Síria, que é como quem diz, pagamos para que se produza mais refugiados que irão acabar na Europa.
  • ao fecharmos os olhos aos crimes perpetrados pelo regime turco contra as suas minorias neste macabro compromisso, vemo-nos na absurda situação de assistir à produção de mais 25 milhões de potenciais refugiados que quererão, aposto eu, fugir para a União Europeia.
  • como se tudo isto não bastasse, agora que a Turquia é declaradamente um estado terrorista, exportador de terror e maior produtor mundial de refugiados dentro e fora das suas fronteiras, imagine-se, agora mesmo e não há 10 anos quando a Turquia era um país calmo e lhe foi recusada inúmeras vezes acordos de livre circulação com a UE, agora mesmo, insisto, a UE ofereceu à Turquia a livre circulação de cidadãos turcos na UE! Hehehehe, que ganda moca, não? Ora, em troca de receber de volta uns milhares de refugiados, damos-lhe milhares de milhões de euros a pronto pagamento e receberemos daqui a pouco 25 milhões de refugiados! Bela negociata a destes políticos europeus europicidas da piça! Bravo, de tirar o chapéu! Ahahahahah! E Erdogan todo contente, pois enquanto destrói as cidades e a história curda e arménia da Turquia, e mata milhares de membros dessas minorias, vai ultimando com os seus parceiros europeus a abertura da porta por onde 25 milhões de curdos e arménios perseguidos passarão sem problemas burocráticos graças aos seus passaportes turcos, e com o argumento (válido) de fugirem do genocídio! Bravo Europa bravo!

Mas claro, voltando à realidade mediática (e acabei de dar uma olhada na RTP online), metade das notícias da secção mundo dos media tugas são... ainda!... sobre os atentados em Bruxelas!

 

Por tudo isto e pelo muito mais que ficou por dizer, desesperadamente afirmo que, no dia em que media nacionais forem alvos de atentados terroristas perpetrados directa ou indirectamente pelas organizações que estes mesmos media idolatram, eu por certo não lamentarei as mortes dos seus prostituídos jornalistas e, quiçá, até baterei palmas, tal como fez a psicopata Clinton em reacção ao assassínio em directo de Gaddafi!

 

Luís Garcia, 28.03.2016, Lampang, Tailândia

 

  Clique aqui para ler Desespero mediático 1

Fontes:

Jihadists train in Turkey to attack West

Turkish president threatens to send millions of Syrian refugees to EU

François Hollande a remis (très discrètement) la Légion d'honneur au prince héritier saoudien

Valls sur l'Arabie Saoudite: "Est-il indécent de se battre pour notre économie, nos emplois?"

Cumhuriyet publishes video for weaponry in lorries affiliated to Turkish intelligence

Turkish authorities arrest Zaman Al Wasl reporter in Gaziantep

Turkey Seizes Newspaper, Zaman, as Press Crackdown Continues

Breaking: Images Show Extent of Damage to Diyarbakir’s Armenian Catholic Church

VİDEO: Intense gunfire and shelling heard all over Nusaybin where round the clock curfew continues for the 12th day

Turkish tanks positioned in schoolyards are shelling directly at homes of resident of the Kurdish city of Nusaybin

 - Breaking: Images Show Extent of Damage to Diyarbakir’s Armenian Catholic Church

More: Areas marked red have been ordered to be confiscated by State, in UNESCO heritage Sur, inside ancient walls. 

Clinton on Qaddafi: "We came, we saw, he died" - CBS News

Farage - Turkey and ISIS are Blackmailing the EU

 

 

 

 
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Desespero mediático - Síria

 

 

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Luís Garcia POLITICA SOCIEDADE

 

Quando é que começa a ser desesperante viver neste mundo absurdo? Simples.

 

Quando vejo o exército secular da Síria perder tantas vidas humanas sírias (e uma russa, pelo menos) para reconquistar as ruínas de Palmira sem a destruir e, sobretudo, sem permitir que os trogloditas do Estado Islâmico (treinado e armado pelos nossos estados "ocidentais") a destruíssem no momento da fuga, para depois constatar que a asquerosa merda merdosa dos media portugueses passados 2 dias ainda não reagiram! Nesse período, só a título de exemplo, o exército leal a Al-Assad já desminou a quase totalidade das ruínas de Palmira! Lembram-se como foi há um ano atrás quando o ISIS, no sentido inverso, capturou Palmira com apoio aéreo da Força Aérea dos EUA? Deliraram todos em macabros orgasmos psicológicos, esses grunhos vendidos que tem o descaramento de se considerarem jornalistas e, por entre RTP's, Públicos e vómitos jornalísticos do género, poucos foram os que conseguiram disfarçar o seu contentamento mórbido, de bons acólitos do imperialismo norte-americano, perante os lamentáveis acontecimentos que transmitiam sem cessar!

 

Entretanto contam-me a treta de que o raio do país que contínua a entregar armamento ao ISIS pelo céu, EUA, teria morto o número 2 ou o número 69 ou o raio que seja da chefia "militar" desse mesmo ISIS, mas ninguém na puta destes media portugueses me explica como é que na região de Azaz (verde no mapa), hoje mesmo, terra controlada pelo os terroristas do Exército de Libertação da Síria (ELS), Al Qaeda e Frente Islâmica, apoiados pelos EUA, e que faz fronteira com a Turquia (de onde não para de entrar armamento para o ISIS), foi perdida para as mãos do ISIS (preto no mapa), sabendo que essa mesma porção de território está parcialmente cercada pela "Rojavi" curda na qual se encontram estacionadas tropas dos EUA, França, Austrália, Reino Unido e mais alguns estados vassalos dos states, e sabendo que neste preciso momento o ISIS perde diariamente 20 a 30 quilómetros em todas as frentes face ao imparável exército sírio? Por que razão ninguém explica? Simples, porque é inexplicável que a maior máquina imperial de guerra da história da humanidade, apoiada por dezenas de estados vassalos, não consiga fazer o que o martirizado exército sírio faz, mesmo depois de ter perdido 90.000 homens em 5 cinco anos lutando contra o terrorismo ocidental que devastou o seu país! Bravo Exército Sírio! Bravo Bashar Al-Assad! Viva o estado laico da Síria!

Azaz

 

Outra razão para desesperar? Simples, ver o porta-voz do Pentágono afirmando em conferência de imprensa que não tem a certeza se Palmyira não estaria em melhor situação nas mãos do ISIS do que nas mãos de Assad! Não, não é uma piada, ele disse mesmo isto! Vejam o vídeo abaixo no momento 2m44s. Para os descerebrados que duvidem do barbarismo desta afirmação, convido-os a ver as decapitações e os assassinatos em massa nas ruínas de Palmira ou as jaulas com mulheres à venda no centro de Palmira, tudo modernices dos adoráveis trogloditas do ISIS! Para não falar de ruínas destruídas a martelo ou com o uso de explosivos!

 

 

Perante todas estas enormidades e contra todas as evidências querem me fazer crer que Al Assad é um carniceiro demoníaco, enquanto pegam 6 mil milhões de euros dos impostos dos cidadãos da UE e entregam a Erdogan, o líder ilegítimo de um país que deveria mudar o nome oficial para ISIS, que faz guito à custa do sofrimento alheio e bombardeia as populações curdas e arménias do seu país! Bom mas esta razão de desesperar fica para amanhã, já chega por hoje de desespero!

 

Luís Garcia, 28.03.2016, Lampang, Tailândia

 

 Clique aqui para ler Desespero mediático 2

Fontes:
Russian military says special forces officer killed near Palmyra

The Syrian regime published the names of 110 SAA soldiers that died during clashes in Palmyra and Qaryatain

SAA has cleared the most of the mines in the ancient part of Tadmur. Syria (com vídeo)

- vídeo onde se pode ver camiões militares turcos levando armamento para território sírio controlado pela ALl Qaeda e o ISIS (https://www.youtube.com/watch?v=tQFeFnsxi48)

State Dept Rep - Syria's army should not liberate Palmyra from ISIS? (vídeo)

 

 

 

 
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A criação do mundo - Capítulo 2/5

 

 

Um novo "antigo testamento"

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O deus imperfeito RELIGIÃO Luís Garcia 

 

Após o merecido descanso, deus, contemplando a sua obra, achou-a grandiosa e magnífica, e portanto digna em teoria dos mais elevados elogios por parte dos seus divinos colegas de trabalho, mas a verdade é que até ao momento não tinha ainda recebido de nenhum dos restantes deuses do imaginário humano qualquer tipo de felicitação ou mostras de reconhecimento pelo novo mundo que havia criado. Fazendo então uso da sua afamada omnipotência, após ter observado minuciosamente a sua criação e reflectido vagarosamente sobre o funcionamento desta, deus achou que as coisas ainda estavam um pouco desorganizadas e lembrou-se de acrescentar ao já existente mundo uma nova região que passar-se-ia a chmar paraíso, a qual foi criada para que tanto o homem como a mulher podessem a partir daí obter fácil e gratuitamente todo o tipo de frutas, sementes, e restantes alimentos que viessem a ser necessários à concretização de uma qualidade de vida paradisíaca digna deste mesmo nome. Mas que deus simpático e altruísta!, devem estar agora os leitores destas linhas a exclamar! Calma, vou advertindo eu.

 

Como não há bela sem senão em tudo em que deus põe a mão e como este via-se no direito e com o poder necessário para tal, decidiu quase de imediato preparar uma engenhosa armadilha cuja função seria complicar a vida ao homem e à sua mulher. Afinal, tanto trabalho, tanto suor, tanto esforço mental e imaginação despendidos para ficar depois deus sem nenhum entretenimento ou diversão, sem nenhum proveito prático da sua obra, enquanto os dois felizardos regalar-se-iam sem cessar dos frutos da sua criação a eles oferecida?! Não, sussurrou deus num tom de voz que só ele terá ouvido, como quem fala sozinho no intuíto de se fazer firme face à hesitação numa decisão que deverá ser tomada em breve. Desta sua última atitude podemos se quisermos retirar duas ilações pertinentes: Em primeiro, que de mais um mal humano sofreria deus (e não há-de acabar por aqui a lista de defeitos em comum), a desgastante Incerteza, a corrosiva Dúvida, a humana Indecisão que todos nós temos de enfrentar em semelhantes momentos. Em segundo, que algo não muito simpático para a existência dos humanos habitantes do novo paraíso deveria estar a ser arquitectado na divina mente, caso contrário não se perceberia a razão de tanta hesitação. E foi mesmo esse o caso. Não tendo paciência para suportar a perpétua eternidade na mesma monotonia que antes o havia levado a criar o mundo, deus decidiu-se por acrescentar ao seu jogo de estimação sofisticados instrumentos que lhe permitiriam a partir de então extrair daquele o maior proveito lúdico possível, desviando-o consequentemente do seu velho amigo, o eterno aborrecimento.

 

          E foi por esta razão que um dia lembrou-se ele de criar uma árvore na qual cresceriam frutos especiais, os quais seriam de ingestão proibida para os inquilinos humanos, pese embora o seu atraente e apetitoso aspecto.  A ideia da diversão era simples: Após ter criado Adão e Eva em muito semelhantes a ele nas qualidades e nos defeitos, depois de os ter criado igualmente imperfeitos, acrescentou como agora se viu um paraíso destinado a eles, onde nada precisariam de fazer para continuarem vivos, inteiros e saudáveis. Em resumo, criou-os e recriou em seu redor as mesmas condições de aborrecimento intelectual que a si mesmo o atormentavam desde o início da eternidade. A partir deste momento, e dadas as condições oferecidas por deus, a única diferença crucial entre o casal e o seu criador era a posse dos invejáveis poderes de omnipresença, omnipotência e omnividência deste último, mas é importante não esquecer que o conjunto destas mesmas características do imperfeito deus era a razão pelo qual só ele e mais ninguém por si criado até à data no novo mundo conhecia as palavras bem e mal, assim como a diferença de significado entre estas duas, o que por sua vez nos leva a concluir que seria também deus o único a compreender a perversidade do jogo psicológico que estava a ultimar, em oposição à ingenuidade característica daqueles que não conheciam ainda os antagónicos conceitos. Assim, à fácil mas monótona vida de Adão e Eva, deus acrescentou uma árvore contendo o fruto proibido, na certeza de tornar menos apática a sua condição de espectador, caso os seus humanos inquilinos se começassem a interrogar sobre as suas também apáticas vidas. Com a concretização deste plano deus garantiria num primeiro momento entretenimento para si mesmo, enquanto Adão e Eva vivessem a batalha interior de comer ou não o único fruto ainda por provar no paraíso, no intuito de também eles combaterem a sua apatia ocupando-se com novas acções. Num segundo momento, deus encontrar-se-ia perante muitas e variadas hilariantes oportunidades de distracção, caso os humanos caíssem finalmente na tentação que os desprenderia da ingénua ignorância e que os levaria a viver a partir desse ignominioso acto inúmeras dificuldades, problemas e privações.

 

Aquando da introdução da tentadora árvore no paraíso por eles habitados, e apesar do provável aborrecimento, tanto o homem como a mulher gostavam da vida que tinham, de todos os prazeres disponíveis, dos frutos de infinitas variedades e sabores, dos novos animais que encontravam todos dias, das novas paisagens incrivelmente belas com que os seus olhos se deliciavam a cada vez que decidiam partir à descoberta e, desse modo, eram felizes e gostavam da vida que tinham, ao contrário do que se passava com o seu deus criador. No entanto, o tempo foi passando e eles percorreram todos os caminhos do paraíso, experimentaram todos os sabores e todas as sensações, tomaram conhecimento de tudo o que havia no paraíso e nada mais tinham de diferente para fazer. É claro que mesmo assim podiam perfeitamente continuar a viver alegres e contentes tal como todos os outros animais, dada a tamanha quantidade de regalias que tinham ao seu dispor. Assim seria de esperar, que pudessem continuar felizes e despreocupados com a sua inocente vida, mas não, não se perpetuou este destino porque deus, apercebendo-se que os motivos de distracção para os humanos estavam prestes a findar-se, lembrou-se de lhes apurar uma característica que tanto neles como nos restantes animais se apresentava numa forma residual, a curiosidade, ou seja, deu-lhes o impulso necessário para vencer a inércia inicial de que sofriam as mentes humanas, e que retardavam consideravelmente a diversão que deus tanto ansiava. Apesar de consciente da pura malvadez contida nesta sua última decisão e segundo reza a lenda, não há indicações algumas de que jamais se tenha arrependido de o ter feito, nem tampouco que tenha sentido remorsos depois de tão mal tratar os seus inquilinos, o que me leva a perguntar onde pode deus ir buscar argumentos para nos acusar, julgar e condenar contra os nossos inevitáveis actos pecaminosos, quando este pecava livremente já desde o início dos tempos? E mais, sempre foi possuidor (o que faz toda a diferença) da omnipotência que o poderia ajudar a ser cura e psicólogo de si próprio, advertindo-se da insensatez e gravidade dos seus planos, assim como elucidando-se de outras possibilidades, mostrando novos e alternativos caminhos de saúde mental. É uma questão que deve fazer pensar os leitores católicos. Quanto aos que não o são, deixo-os com a persistente dúvida: se omnipotente é o deus dos católicos, porque permite que peque o género humano sem jamais intervir? Por ser imperfeito, vou insistindo eu...

 

          Os acontecimentos posteriores à última mudança efectuada por deus no paraíso vieram demonstrar que foi acertada a sua escolha, pois a verdade é que quer Adão quer Eva, após adquirirem um elevado grau de curiosidade e, embora nada mais de significativo tenha ocorrido no paraíso no qual eram precários hóspedes (como se há-de descobrir em breve), começaram a mostrar-se cada vez mais impacientes, pois como é sabido viviam num lugar onde nada era preciso fazer, onde não era necessário de todo lutar para sobreviver, onde tudo se podia obter facilmente. As suas vidas cada vez mais aborrecidas e entediantes tomavam precipitadamente novos contornos, já não era somente aquele ritmo monótono e quotidiano ao qual se tinham bem adaptado. Os pobres humanos debatia-se agora com a verdadeira tortura psicológica que se tinha tornado a inesgotável curiosidade que sentiam quando para a àrvore do fruto proibido olhavam, e que os fazia roer unhas e cérebros nas incontáveis tardes em que passavam horas a fio sentados em frente a ela, admirando o esplendor do brilho fortemente alaranjado das suas enigmáticas maçãs.

 

A tentação de experimentar a única coisa que faltava naquele aborrecido paraíso era sem dúvida enorme, mas o respeito e o reconhecimento que tinham os primeiros seres humanos pelo imperfeita divindade que criara a eles e à aquele mundo eram de tal forma elevados que, embora várias discussões entre o casal-primeiro se tenham produzido e nelas todos os prós e contras que as suas ingénuas mentes se poderiam lembrar tenham sido analizados exaustivamente, o bom senso imperou (será que imperou mesmo?) e, firmemente unidos, decidiram que o correcto seria cumprir a vontade de deus de forma a poderem demonstrar-lhe a sua imensa gratidão pelo paraíso onde tinham sido acolhidos, apesar de obviamente acharem incompreensível a divina decisão relativa ao fruto proibido. Semelhantes a deus seriam certamente, por obra e vontade deste último, mas não tanto como se pode pensar. Basta nos lembrarmos por exemplo como eram ingénuos demais Adão e Eva para poderem imaginar e muito menos compreender a perversão, engendrada por deus, da qual estavam a ser vítimas.

 

          Tendo o casal em conjunto decidido não violar a vontade de deus, quem se começava agora a impacientar e bem era este último, que achava patética e absurda a respeitosa lealdade que decidiam os humanos manter para com a sua proibição e que os impedia assim de cair na esperada tentação de com a exótica fruta saciarem as suas barrigas e comum curiosidade. É que deus acreditava mesmo que Adão e Eva, semelhantes a ele nas suas muitas imperfeições, começassem pelo menos a se aproximar perigosamente e cada vez mais frequentemente da árvore proibida, o que para seu grande desespero teimava em não acontecer.

 

É interessante constatar que o homem e a mulher tenham de facto tomado a louvável atitude de honrar o seu compromisso para com quem se sentiam obrigados a fazê-lo, mas outro aspecto ainda mais importante a reter é que estes fizeram-no apesar da sua inata imperfeição, o que me leva a ironicamente concluir que estes primeiros humanos eram inesperadamente capazes de escrever direito por linhas tortas, ao contrário do seu criador, que pese embora fosse possuidor das mais direitas linhas existentes em todo o universo, haveria de cegamente insistir em escrever torto sobre tão perfeitas linhas a história dos primeiros tempo da humanidade.

 

Luís Garcia

Primeira versão: Dezembro de 2009, Audin-le-Tiche, França

Última versão: 26.03.2016, Lampang, Tailândia

 

 

PARA QUEM PERDEU OS PRIMEIROS EPISÓDIOS:

 

 

 

 
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O problema da literatura ficcional

 

Reflexões de Ricardo

  

RICARDO MINI copy  LITERATURA 

 

Cada vez menos tenho paciência para literatura ficcional, porque faz-me perder demasiado tempo a filtrar conhecimento. Primeiro, tenho que andar a recolher as ideias exploradas no livro, o que nem sempre é fácil, principalmente quando se trata de literatura pós-moderna. Depois, tenho de ir recolher literatura científica que trate o assunto em questão. Ainda, tenho de analisar cautelosamente estudo a estudo nos parâmetros em que foi concebido para perceber a sua abrangência e as conclusões que permite tirar. Só depois disto tudo é que posso conhecer o que se sabe até ao momento sobre um determinado tema, normalmente relacionado com aspectos da psicologia humana, que são os mais explorados ficcionalmente. 


Sinceramente, prefiro cingir-me a livros e artigos científicos da mais diversa índole. Se estivesse interessado em histórias de outras pessoas (reais ou fictícias), então ia para a janela de braços cruzados como as velhas.

 

Ricardo Lopes

 
 
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O estádio de futebol em obras

 

 

DORMIDAS MÍTICAS – EPISÓDIO 2

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bw VIAGENS Luís Garcia

Já houve tempos em que eu tinha tudo não tendo quase nada, Quando dormia ao relento ouvindo o vento beijar a geada, Fazia o meu manjar com pão e uva, fazia o meu caminho ao sol ou à chuva... (À Espera do Fim, Jorge Palma)

 

O ESTÁDIO DE FUTEBOL EM OBRAS (Eslovénia, 2007) – Num belo dia de manhã o meu amigo Diogo e eu decidimos que havíamos de viajar à boleia desde Pécs, no sul da Hungria, até Ljubljana, capital da Eslovénia. Os deuses da boleia não estavam connosco naquele dia e o mais longe que conseguimos ir até ao pôr-do-sol foi a fronteira entre esses dois países. Nada de grave, andar na estrada tem destas coisas e não podem correr bem todos os dias, não vá uma pessoa ficar mal habituada!. Ainda assim, depois de atravessar a fronteira a pé, decidimos continuar a caminhar enquanto não ficasse muito escuro, crentes que nesse país paraíso das boleias alguém nos iria resgatar da estrada. No entanto não, apanhámos um enorme contratempo: a estrada do lado esloveno encontrava-se a meio de grandes obras de remodelação onde era de todo impossível um carro parar para nos dar boleia, por muita vontade que o seu condutor tivesse de nos ajudar. Vimo-nos obrigados a caminhar muitos quilómetros a pé de mala às costas, receosos de sermos atropelados devido à falta de espaço.


Uns quilómetros mais à frente vimos finalmente um carro parar para nos dar uma curta boleia de menos de  cinco quilómetros que no momento nos pareceu ridícula mas que no entanto acabou por mudar de forma radical o desfecho da estória. Essa boleia deixou-nos numa típica aldeia eslovena, muito verde e com a inevitável estrada de alcatrão para peões e bicicletas (coisas que estamos a anos-luz de encontrar em aldeias portuguesas), sem dúvida uma óptima característica para quem lá habita. Para viajantes à boleia é antes um grande pesadelo, pois havendo estrada dedicada a peões não temos o direito de caminhar à beira da estrada onde passam os carros cujos os donos precisamos de convencer a nos ajudar. Como pode imaginar pedir boleia a um carro passando numa estrada que se encontrava uns três ou quatro metros afastada da nossa é tarefa muito complicada. E sobretudo naquela amaldiçoada aldeia onde o caminho pedestre tinha um desnível tal que quem de carro passasse mal poderia ver as nossas cabeças. Daí que decidimos infringir a lei e continuar a caminhar pela berma da estrada principal, crendo que ainda arranjaríamos boleia para a capital antes de escurecer. Mas estávamos em definitivo num dia não e para nos estragar os planos passou por nós um carro da polícia, cujo condutor fez de imediato marcha atrás para nos interpelar. Perguntaram-nos, muito desconfiados, que andávamos nós ali a “aprontar àquelas horas numa aldeia tão pacata”, talvez imaginando-nos bandidos que tinham escolhidos atacar pela calada da noite um lugarejo habitado por indefesos idosos. Quiçá não foram com a nossa cara por nos acharem com aspecto de ciganos, passe o preconceito (deles, não meu). A verdade é que, mesmo depois de ouvirem as nossas sinceras explicações e inspeccionado todos os nossos documentos (válidos), ainda não estavam contentes e continuaram o ridículo interrogatório. Confrontados com a nossa profunda serenidade de quem não tem nada a esconder, e não tendo eles mais nada por onde implicar, deixaram-nos partir, avisando-nos contudo que teríamos de abandonar a estrada principal e voltar para a pedreste. Caso voltassem a encontrar-nos a infringir a regra “teriam” de nos levar à esquadra! Que sorte! E que remédio! Acatámos as ordens e continuámos a caminhar sem grande objectivo nem determinação, perguntando a nós próprios para quê e para onde caminhariam os nossos pés àquela hora do dia, quase noite. Fazer o quê? Ficar parado ali soava ainda mais absurdo que caminhar, daí que continuámos, aproveitando o resto de luz crepuscular que os nossos olhos ainda recebiam.


Continuámos uns bons quilómetros, sossegados, introspectivos, até que o súbito aparecimento de nuvens negras ameaçando descarregar uma tempestade sobre nós nos obrigou a acordar daquela letargia e lutar pela vida. Estávamos já longe da aldeia, numa estrada como quase todas as estradas eslovenas, isto é, rodeadas de floresta por todos os lados. Não havia sinal de civilização. Progressivamente fomos acelerando o passo com receio da tempestade e mais acelerámos quando sentimos as primeiras gotas grossas e pesadas cair-nos sobre a pele. Ah, era a confirmação de tempestade grande em via de desabar sobre nós se não arranjássemos com urgência uma solução. Já não me recordo bem qual de nós avistou, para nossa grande sorte, um estádio de futebol do outro lado da estrada, ao fundo de um caminho de terra batida. Não dava para ter a certeza, a luz já era pouca. Corremos na direcção do estádio fugindo à chuva que começava a cair com força mesmo atrás de nós. Foi uma verdadeira corrida contra o tempo. Assim que chegámos ao estádio, exaustos, tivemos o prazer de assistir abrigados ao imponente espectáculo que os céus nos ofereceram, um verdadeiro dilúvio de proporções que não me lembrava de ter visto igual.

 

 

Era óbvio que dali já não sairíamos mais naquela noite e nós não nos queixámos. Contratempos acontecem e até podem acabar por ser divertidos. Mau seria ter-nos deixar apanhar pelo dilúvio e ficarmos não só com a roupa do corpo molhada mas sim com toda a restante guardada dentro das mochilas incapaz de ser vestida. E mais, ficar também com os sacos-cama molhados. Ficaríamos sem nada seco para vestir nem abrigo onde dormir. Portanto, na nossa perspectiva, tivemos uma sorte enorme naquele dia, sorte que não acabava ali. Depois de recuperar o fôlego realizámos uma missão de reconhecimento durante a qual encontrámos uma cozinha aberta com água canalizada e esquentador. Mas não pense que dormimos aí! Não, deu-nos jeito para nos lavarmos e encher as nossas garrafas com água, agora servir de abrigo estava fora de questão pois só tinha paredes de dois lados e o lado com balcões levava com a chuva torrencial empurrada pelo vento vindo desse lado. Para dormir encontrámos bem melhor, a bancada VIP em construção por cima das bancadas normais. Aí sim fomos descobrir um verdadeiro abrigo capaz de nos proteger do dilúvio incessante, lugar isolado e sossegado, perfeito para observar tranquilo a natureza em toda a sua pujança. Passámos o resto do serão dentro da bancada em obras, entretidos a conversar e petiscar ao som da chuva que soava tão bela como música dado não alcançar molhar-nos...


Não fosse o Diogo acordar no dia seguinte com o braço inchado por picadas de insectos e o adjectivo “perfeito” poderia ser usado para descrever as condições do nosso abrigo improvisado. Durante o verão em país verdejantes e húmidos como a Eslovénia é natural encontrar imensos mosquitos, sobretudo se se estiver na floresta! Eu, para me proteger dos mosquitos, fechei-me por completo dentro do saco-cama, apenas com o nariz de fora para respirar qual bicho dentro do seu casulo! O Diogo, no entanto, não pôde fazer o mesmo. O saco cama que tinha era destinado a temperaturas muito baixas, diria até preparado para se sobreviver a invernos glaciares. Não podendo adormecer descansado como eu, teve de escolher entre o menor dos males, sufocar de calor no saco-cama fechado, ou dormir com ele semi-aberto e arriscar-se a acordar todo picado! E afinal pernoitar por ali não foi assim tão perfeito para o meu amigo e companheiro de viagem! Enfim, viajar à aventura tem destas coisas!


Mas tem doutras também! Não há nada que pague o prazer de acordar de madrugada para assistir a um magnífico nascer-do-sol rodeado de floresta e embriagado pelo sublime odor a orvalho e terra molhada!

 

Luís Garcia, 23.03.2016, Lampang, Tailândia

 

 

 
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O Politicamente Correto

 

 

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE 

 

O politicamente correto diz-te que não podes criticar aquilo de que a maioria gosta e que é geralmente aceite.

 

O politicamente correto diz-te que não podes colocar em causa o sistema vigente, em favor da ordem.

 

O politicamente correto diz-te que te deves conformar como alvo das mais ignóbeis injúrias, se estas provierem de pessoas culturalmente condicionadas.

 

O politicamente correto diz-te que não podes apontar falhas e atrocidades cometidas por figuras de autoridade porque é um atentado contra a sua imagem, a sua integridade, os seus sentimentos.

 

O politicamente correto diz-te que tens de acatar incondicionalmente as ordens e os caprichos de superiores hierárquicos, amansando-te e enfraquecendo-te progressivamente até que aceites ser explorado voluntariamente.

 

O politicamente correto fez com que o senhor José Manuel Pureza tivesse de pedir desculpa por ocupar parte do seu tempo de intervenção no programa que cobria as eleições gregas na RTP Informação, manifestando-se contra alarvidades jornalísticas (ver vídeo abaixo).

 

 

E quando pensas que te livraste do politicamente correto, ele retorna num grupo minoritário para te furtar à crítica e te fazer perceber que é regido pelos mesmos princípios que a cultura hegemónica.

 

O politicamente correto resigna-te, subjuga-te, conforma-te, arrebanha-te. Mata-te.

 

Ricardo Lopes

 

 

 

 
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A cama de palha

 

 

DORMIDAS MÍTICAS – EPISÓDIO 1

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bw VIAGENS Luís Garcia

Já houve tempos em que eu tinha tudo não tendo quase nada, Quando dormia ao relento ouvindo o vento beijar a geada, Fazia o meu manjar com pão e uva, fazia o meu caminho ao sol ou à chuva... (À Espera do Fim, Jorge Palma)

 

A CAMA DE PALHA (Turquia, 2008) – Naquele dia de manhã tínhamos partido os três de Istambul, eu Diogo e Claire, apenas com o objectivo de chegar a tempo de visitar as ruínas de Tróia (para saber o que se passou nesse incrível dia, leia a estória À Boleia na Turquia Vale Tudo, um dos próximos episódios da categoria Estórias de Viagem). Cumprida essa missão haveríamos de ter tempo para organizar a dormida e a comida. Acabou por não ser assim, chegámos cinco minutos depois da zona histórica fechar e vimo-nos obrigados a trocar essa visita por uma outra não menos interessante pela aldeia moderna de Truva, adjacente à milenar Tróia, aproveitando ao mesmo tempo para procurar uma pensão barata onde pudéssemos ficar naquela noite.


Enquanto houve suficiente luz, percorremos as ruas e ruelas da aldeia, desvedando os seus pequenos mistérios, sempre observados pelos nativos à janela ou à varanda seguindo o nosso incomum comportamento. Digo incomum porque por norma quem se desloca até àquele desolado endereço, chega com pressa, visita as ruínas de Tróia e parte de novo com pressa. Não é normal encontrar um turista ou viajante perdendo tempo numa aldeola cujas principais atracções são uma mesquita e um cemitério. Visitámos os dois. O cemitério era de facto interessante, tínha inscrições de datas da primeira e da segunda guerra mundial. Além do mais visitámo-lo a uma hora tardia, quando o sol de verão adulterava as cores das pedras e dos muros com uns vivos tons de amarelo torrado. Lindo! Também visitámos a mesquita, mas por razões de ordem prática. Passo a explicar.

 

 

Depois de termos percorrido toda a aldeia e termos encontrado apenas um hotel-restaurante por sinal caríssimo, decidimos que iriamos dormir na rua, nos campos fora da aldeia. Para não termos de voltar de novo à aldeia ao fim do dia, dirigimo-nos à mesquita para lavar cara, mãos e pés, mais pela necessidade de nos refrescarmos mas também para não sujarmos em demasia o saco cama. Deve estar a perguntar-se “o que é que uma mesquita tem a ver com lavar pés e mãos”, não é? Pois tem tudo a ver. Os muçulmanos têm o hábito de se purificar com água antes de entrar numa mesquita para rezar. Daí que junto a uma mesquita à sempre uns lavatórios que felizmente não distinguem muçulmanos de ateus.

 

Da mesquita fomos até uma mercearia comprar algo que servisse mais ou menos de jantar e daí partimos rumo à saída da aldeia. De uma das últimas casas, perto da rua que dava para a entrada das ruínas, apareceu uma senhora de meia idade caminhando a passos largo na nossa direcção. Imaginando-nos vagabundos perdidos, ou simplesmente por haver julgado que nós teríamos fome, veio nos oferecer um saco de tomates maduros e um grande melão. Tínhamos comida mas faltáva-nos de facto fruta, daí que a oferta veio mesmo a calhar. Que não restem dúvidas que o povo turco é por natureza muito prestável e acolhedor. Foi um gesto simples mas cheio de intenção e acompanhado de belos sorrisos de quem deu com todo o gosto aquilo que tinha e que podia dar. Em retribuição convidámo-la a tirar uma fotografia de grupo com o Diogo, a Claire e o resto da sua família que acompanhava sorridente a situação.

 

Concluídas as prolongadas despedidas, fizemo-nos de novo à estrada em busca de um bom poiso onde pernoitar. Encontrámos o lugar certo uns duzentos metros à frente, num campo de trigo recentemente ceifado. Ali estendemos as nossas mantas de viagem, junto à única árvore existente em todo o terreno, e sentámo-nos sem noção do tempo a admirar o espéctaculo multicolor que caía dos céus ao pôr-do-sol. Entretidos a conversar e a petiscar nem demos pela noite vir, de forma que apenas quando as palpebrás começaram a pesar de sono é que nos lembrámos de ir tratar da cama para aquela noite. Sem muita visibilidade, espalhámo-nos os três pelos campos, às apalpadelas, procurando palha solta para construir um leito o mais macio possível. Por cima da palha deitámos os cobertores de viagem e sobre estes os sacos-cama. Como última camada deitámos os nossos próprios corpos cansados de caminhada, sol e pueril alegria. Fechámo-nos cada um nos seus sacos camas e entretemo-nos a ver um documentário num mini-leitor de vídeo, muito primitivo, que tinha na altura. Para nosso desencanto a bateria não durou muito e por isso não chegámos a ver sequer metade do documentário. Para nos compensar os céus, repletos de estrelas que nunca antes viramos, ofereceu-nos a aparição de uma grande estrela cadente. Ateus não pedem desejos, por extrapolação não-religiosa, daí que desejámos apenas continuar a obervar pedaços de rocha consumirem-se em fogo ao entrarem na atmosfera terrestre. E fizemo-lo acompanhados pelo suave som do silêncio, de tempos a tempos interrompido pelo cantar de aves por nós desconhecidas! Ah, que belo adormecer...

 

 

No dia seguinte bem cedo arrumámoss apressados os nossos sacos e andámos para trás os tais duzentos metros, ansiosos de entrar nas ruínas de Tróia, porque esse tinha sido o motivo para ali termos ido parar, mas também porque era suposto termos visitado as ruínas no dia anterior, de forma a ter todo o dia disponível para realizar à boleia os 305 quilómetros que separam Truva de Izmir (ver estória Turquia, Onde o Viajante é Rei, também um dos próximos episódios). Quando chegou o funcionário da bilheteira das ruínas já nós nos encontrámos de pé frente ao portão, esperando que este fosse aberto. Corremos e saltámos pelos os montes e caminhos que compõem o território da antiga Tróia, contagiados pela entusiasmo das pedras milenares que nos sussuravam as suas estórias esquecidas (tretas para eludir leitor crente, ahahah), e também pela deslumbrante vista que se tem do topo das ruínas de Tróia: uma infinita planície dourada salteada de verdes quentes, ahhhh, tons de "aproveita a vida"! Como havíamos partido apressados para as ruínas sem tomar sequer um pequeno-almoço, a meio do nosso passeio pela cidadela de Tróia tirámos da mochila o melão que haviamos recebido no dia anterior e banqueteámo-nos ali mesmo sobre uma muro antigo, para espanto gentleman de um grupo de turistas ingleses que percorriam as ruas, ordeiramente, seguindo o seu guia.


Para nos despedirmos daquele inigualável hotel a céu aberto onde havíamos passado a noite anterior, decidimos pedir boleia mesmo em frente, na estrada onde haveríamos de encontrar, pouco a pouco, quem nos levasse nesse dia até Izmir. Assim foi.

 

Luís Garcia, 21.03.2016, Chiang Mai, Tailândia

 

 

 
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A criação do mundo - Capítulo 1/5

 

 

Um novo "antigo testamento"

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O deus imperfeito RELIGIÃO Luís Garcia 

 

Jeová, que, de todos os bons deuses adorados pelos homens, foi certamente o mais ciumento, o mais vaidoso, o mais feroz, o mais injusto, o mais sanguinário, o mais despótico e o maior inimigo da dignidade e da liberdade humanas, Jeová acabava de criar Adão e Eva, não se sabe por qual capricho, talvez para ter novos escravos. Ele pôs, generosamente, à disposição deles toda a terra, com todos os seus frutos e todos os seus animais, e impôs um único limite a este completo gozo: proibiu-os expressamente de tocar os frutos da árvore de ciência. Ele queria, pois, que o homem, privado de toda consciência de si mesmo, permanecesse um eterno animal, sempre de quatro patas diante do Deus "vivo", seu criador e seu senhor. Mas eis que chega Satã, o eterno revoltado, o primeiro livre pensador e o emancipador dos mundos! Ele faz o homem se envergonhar de sua ignorância e de sua obediência bestiais; ele o emancipa, imprime em sua fronte a marca da liberdade e da humanidade, levando-o a desobedecer e a provar do fruto da ciência. Conhece-se o resto. O bom Deus, cuja presciência, constituindo uma das divinas faculdades, deveria tê-lo advertido do que aconteceria, pôs-se em terrível e ridículo furor: amaldiçoou Satã, o homem e o mundo criados por ele próprio, ferindo-se, por assim dizer, em sua própria criação, como fazem as crianças quando se põem em cólera; e não contente em atingir nossos ancestrais, naquele momento ele os amaldiçoou em todas as suas gerações futuras, inocentes do crime cometido por seus ancestrais. Nossos teólogos católicos e protestantes acham isto muito profundo e justo, precisamente porque é monstruosamente iníquo e absurdo. Depois, lembrando-se de que ele não era somente um Deus de vingança e cólera, mais ainda, um Deus de amor, após ter atormentado a existência de alguns biliões de pobres seres humanos e tê-los condenado a um eterno inferno, sentiu piedade e para salvá-los, para reconciliar seu amor eterno e divino com sua cólera eterna e divina, sempre ávida de vítimas e de sangue, ele enviou ao mundo, como uma vítima expiatória, seu filho único, a fim de que ele fosse morto pelos homens. Isto é denominado mistério da Redenção, base de todas as religiões cristãs. Ainda se o divino Salvador tivesse salvo o mundo humano! Mas não; no paraíso prometido pelo Cristo, como se sabe, visto que é formalmente anunciado, haverá poucos eleitos. O resto, a imensa maioria das gerações presentes e futuras arderão eternamente no inferno. (Citação retirada da obra "Deus e o Estado" de Mikhail Bakunin)

 

Depois de muito se interrogar e muito mais duvidar de ser capaz de algo fazer ou não, Deus decidiu criar os céus e a terra, isto antes mesmo de determinar o significado destas duas novas palavras, pois o pobre diabo era imperfeito demais para pensar em tais pormenores, pelo menos para ele, ou talvez não, pois assim como o termo cristão inicialmente usado neste conto, também talvez esses habitassem já no pré-existente universo das ideias do imperfeito deus. Como ele era e ainda contínua a ser, segundo se diz, o todo poderoso, não foi certamente por aí que a coisa se complicou e o facto é que então algo apareceu a preencher o espaço vazio primordial!

 

Como não era este deus imperfeito alguém que se contentasse com pouco, e motivado pelo entusiasmo que lhe dera a sua primeira criação, não perdeu muito tempo em se lembrar do próximo atributo para o seu novo e primeiro brinquedo de sempre - o mundo físico - e disse, segundo reza a lenda: faça-se a luz. Ditas estas palavras algo de novo surgiu, diferente da negridão do imenso nada e, como muito farto estava ele desse breu onde sempre vivera, conclui que a luz era boa e separou a luz das trevas. De forma a complicar ainda mais a coisa, qual homem ainda por existir a complicar o que era por enquanto fácil, lembrou-se de dar novos nomes aos seus feitos e chamou dia à luz e às trevas noite.

 

Para quem levava um eterno hábito de nada fazer, deus pensou que já tinha trabalhado muito e achou por bem acabar o primeiro dia por ali. Cansou-se muito e muito suou, descobriu o que era suar e não se esqueceu disso, pelo contrário, assim que se deitou e enquanto não adormeceu, ter-se-á metido (perversamente diria eu) a imaginar uma situação futura onde pudesse aplicar a sua nova descoberta no mundo que estava agora a criar.

 

No segundo dia deus disse: Haja um firmamento entre as águas para mantê-las separadas umas das outras. Não contente com a nova palavra deliberou então que uma outra deveria haver para dizer sensivelmente o mesmo e chamou-lhe céu (se não eu soubesse, seria mesmo capaz de apostar que falaria a língua de Camões este pobre diabo). E dá que pensar o seu comportamento... De males humanos sofrendo antes mesmo de estes inventar (Não será o inverso? Homens que sofrem de males divinos de deuses por eles inventados? Enfim.), cansou-se com pouco ou a ambição não era muita neste segundo dia e por isso por aqui ficou.

 

Talvez devido aos remorsos que sentia pela lassidão do dia anterior, no terceiro dia da criação do universo deus decidiu pegar num dos trabalhos que mais lhe puxaria pelo couro e meteu as águas para um lado, deixando do outro lado espaço para criar algo novo, a terra, onde se divertiu a espalhar verdura, erva com semente, árvores frutíferas, e muito mais. Achou que isto era bom e acabou assim o dia.

 

          Julgando que deveria pôr ordem na luz, deus criou o sol para ser astro rei durante o dia e a lua e as estrelas para príncipe e suas acompanhantes da noite, diferenciando assim o dia da noite e determinando as estações, os dias e os anos. Feito isto, descansou pela quarta vez. Não fosse deus omnipotente e estaríamos nós agora aqui a dar voltas à cabeça tentando compreender como terá ele conseguido levar adiante a incrível tarefa de contar sucessivamente os primeiros dias da criação, não só porque a definição deste conceito ainda não havia visto a luz do dia, mas também porque a essa definição seria preciso adicionar o conhecimento do funcionamento do calendário celeste. Mas bom, antes de começarmos a nos queixar dos seus infindáveis defeitos, é justo que lhe prestemos agora homenagem pela seu gesto de boa vontade que demonstrou neste quarto dia e que nos permite assim seguir com os devidos conhecimentos os restantes dias da sua criação.

 

Chegado o quinto dia deus lembrou-se de criar umas entidades vivas às quais deu o nome genérico de animais, para que com estes fossem povoadas as águas e os céus. E mais, mandou-os multiplicarem-se indefinidamente pelas vastas terras do novo mundo. Não surpreendentemente estes começaram, a partir dai, a passear-se livremente sem qualquer preocupação em relação à nudez, ao prazer ou ao pecado, inquietações estas que mais tarde tanto iriam afligir a espécie de Adão e Eva. Não encontro razão alguma para esta diferença de tratamento ou, se preferirem, esta descarada discriminação, mas deus é omnipotente e por isso faz o que bem entende e, além disso, estes temas tabus não tinham sido ainda inventados por ele. Enfim, no meio de tanta preocupação!

 

          No sexto voltou a dedicar-se ao fabrico de animais, desta vez para preencher de vida a terra, tendo no entanto aqui a preocupação de separar os animais em selvagens e domésticos. Providência perspicaz, não fossem os descendentes de Adão e Eva por vir, perante o possível esquecimento de deus desta separação, terem a infeliz ideia de brincar aos deus evolucionistas com selecções artificiais! Não se sabe bem se foi pelo cansaço dos dias anteriores, se foi por deus ter um espelho em casa ou porque havia e há então mais que um deus imperfeito, a verdade é que deus continuou a criação da sua obra proferindo: façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, (...) e sobre todos os outros seres. Não admira então que sejam tão anarquistas, incoerentes e desorientados os homens que por este mundo fora governam alguma coisa. Defeito de fabrico por defeito do molde! Mas pelo menos fazem e seguem o que deus lhes ordenou, governam os peixes, as aves, os répteis, as ervas com semente e todos os outros animais, plantas e restantes seres vivos como toda a gente pode comprovar. E sem dúvida que o fazem como deus então planeara! Mais, não satisfeitos com as ordens divinas de reinar sobre os restantes seres vivo, uma minoria atenta e perspicaz sempre se tem entretido, desde a criação do mundo, a reinar sobre a restante maioria desatenta e não pensante, não? E por vezes até baralham tudo: reis homens que são divinos, papas representantes de deus em carne e osso, profetas mensageiros do deus que ficou em casa a dormir... com frequência essas massas não pensantes não chegam sequer a notar a diferença e bajulam de igual modo deuses virtuais e seus imitadores em substância... e acabam com manuais de mau comportamento nas mãos, como o livro que de forma herética aqui ouso reescrever.

 

Voltando à semelhança entre deus e o homem por si criado e para deixar aqui explícito que tal situação é para mim de difícil aceitação, apresento-vos sem mais demoras um inquietante (ou cómico) problema teológico que parece ter perturbado a mente do então jovem Kundera, inquietação esta que ele nos conta numa das suas obras e que bastante me contenta no sentido de me fazer ver que não estarei por certo sozinho nesta insistente dificuldade em assimilar que existam semelhanças entre seres terrenos reais e ser divinos irreais:

 

“Era um velho senhor, tinha olhos, um nariz, uma longa barba e eu dizia a mim mesmo que tendo uma boca necessariamente teria também intestinos. (...) Sem a mínima preparação teológica, espontaneamente, a criança que eu era então compreendia desde já que existe uma incompatibilidade entre a merda e deus e, consequentemente, frágil seria a tese fundamental da antropologia cristã segundo a qual o homem foi criado à imagem de deus. Das duas uma: ou o homem foi criado à imagem de deus e portanto deus tem intestinos, ou deus não tem intestinos e o homem não se assemelha a ele.” (Citação retirada da obra “A Insustentável Leveza Do Ser” de Milan Kundera)

 

Quando acima foi afirmado que deus criou o homem à semelhança deles (Eles quem, continua a ser uma boa pergunta?), é preciso ter em conta que homem foi escrito com h pequeno e não grande. Insignificante diferença, aparentemente, mas com grandes consequências como podem facilmente concluir pois, se ao homem com h pequeno se referia de facto, não terá criado portanto nesse momento a humanidade na sua multitude de indivíduos nem na sua diferença de sexos, mas sim um simples homem. Poderia eu desde já começar a criticar a tendência machista de um deus que faz um homem e não uma mulher à sua semelhança mas, antes de seguir por essa via de argumentação contra este defeito de deus, gostava de lembrar ainda que não só a mulher foi criada depois do homem mas incrivelmente, e atente-se no detalhe, A Partir De Uma Costela Deste! Agora sim, embora vos possa parecer demasiado duro da minha parte começar numa fase tão precoce deste relato a usar nomes feios e acusar o nosso imperfeito deus da injusta tendência de ser machista, os factos no entanto falam por si e, como quero partir do princípio (neste texto) que esta história de facto se passou e não é obra de nenhum macho humano com complexos de superioridade face ao sexo que gostam de apelidar de fraco, a acusação de sexista, insisto, é para ser mantida e levada a sério como mais à frente poderão constatar.

 

Antes de dar por terminado o seu último dia de trabalho, deus ordenou e incentivou o homem e a Sua mulher a multiplicarem-se e a povoarem toda a terra, de resto, conselho infelizmente praticamente concretizado, atente-se nas cerca de sete mil milhões de almas humanas a que já chegámos e as terríveis consequências não só para o planeta e o conjunto das espécies nele existentes, mas também para as degradantes condições de vida para uma grande percentagem desses sete mil milhões que hoje não vivem mas sobrevivem. E se assim é no presente, como será quando a nossa população humana atingir o seu esperado máximo de dez mil milhões de seres, numa altura em que o seu problema maior poderá não ser a escassez de recursos para a manter viva, mas a simples inexistência destes, graças ao esbanjamento doentio de uma grande minoria por entre eles privilegiada. Voltando ao nosso relato, o mais hilariante mesmo é que o imperfeito deus que com as suas omnipotentes capacidades poderia muito facilmente ter previsto as tenebrosas consequências da sua última ordem, relembro, multiplicarem-se o homem e a mulher e com os respectivos frutos povoarem toda a terra, não só não se alarmou mas ficou, diz-se, muito contente com as suas últimas decisões. Devia estar mesmo cansado o pobre coitado!

 

          Como qualquer esforçado trabalhador, também deus achou por bem optar por descansar ao sétimo dia e, vendo a importância de tal facto, o descanso, ele abençoou e santificou este dia para que esse descanso periódico se pudesse eternizar. Eu faria o mesmo.

 

          A esse dia, ao sétimo e consagrado ao descanso, o deus imperfeito denominou de Sabat, Sábado em português... Sábado? Mmmm, Então o dia de descanso não é ao Domingo? Então o dia do senhor deus não é ao Domingo?, daí vem a palavra Domingo, de Dominicus, o dia do senhor! Ah, meu caro católico e leitor, boa pergunta, pertinente sem dúvida, mas veja, hoje em dia descansa-se ao sábado e ao domingo, não é (pelo menos até a troika permitir)? Ora e por que razão? Para agradar a gregos e troianos, pois claro, ou neste caso, a católicos e pagãos, pelo menos assim decidiram em tempos os poderosos senhores do Império Romano que viram na adopção e expansão da Igreja Católica um formidável instrumentum regni: Sabat era o dia do deus judeu, do tal deus imperfeito, estrela principal deste relato; Domingo era para inúmeras religiões pagãs o dia do deus principal, o dia do deus Sol, fonte de luz e vida. Atente-se na palavra Domingo em inglês, alemão ou sueco (entre muitas outras línguas europeias): Sunday, Sonntag e Söndag, respectivamente. Em todas o significado é “dia do sol”, pois claro, o dia do deus pagão. Mistela e remistura que é a Igreja Católica de preceitos e crenças quer judias quer pagãs (pois assim conveio em tempos ao poder romano), esta relegou então o Sábado (Sabat, dia do deus judeu, o deus bíblico) para um papel secundário, optando pelo dia do deus pagão, o deus sol, como o novo dia de descanso do seu senhor: Domingo. E não é por acaso que o ritual principal da igreja católica se realiza no domingo de manhã e não à tarde ou à noite; também nas manhãs de domingo (dia do sol) celebravam os pagãos os seus rituais principais, pois é de manhã que nasce o sol, era de manhã que nascia o seu deus. No entanto, na língua portuguesa, ainda se mantém uma pista sobre o Sabat/Sábado bíblico: o primeiro dia da semana é a segunda-feira, pois claro, se se convencionar o domingo como o último dia. Mas então porquê segunda e não primeira-feira? Bem, antes das remodelações impostas em tempos por Roma, aposto (não sei se foi assim) que havia uma primeira-feira (domingo). A semana iria então da primeira-feira à sexta-feira, e acabaria no sábado, no dia do descanso do senhor bíblico, obviamente!

 

Luís Garcia

Primeira versão: Dezembro de 2009, Audin-le-Tiche, França

Última versão: 20.03.2016, Lampang, Tailândia

 

 

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O dinheiro TEM que acabar!

 

Ricardo Lopes

  

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE 

 

Não, não sou um esquerdista extremista terrorista antissocial pseudointelectual ou qualquer outra trampa com que me queiram rotular. Sou uma pessoa conscienciosa que observa com olhar crítico a valente merda que deriva de uma economia baseada em dinheiro!

 

Estou farto de viver num mundo em que toda a gente diz valorizar o que os seus avós e pais têm a transmitir de valores para a vida, mas, na verdade, quando morrem, só estão à espera de cravar a garra na maior quantidade de bens monetários e materiais que tenham a legar. É esse o legado que querem dos seus avós e dos seus pais! E depois ficam contentes quando o Estado os apoia monetariamente na morte de entes queridos. Como uma boa soma de dinheiro valesse tanto como uma vida! Hipocrisia, desvalorização da vida humana e corrupção dos valores morais!

 

Mas, quem fala em desvalorização da vida humana, rapidamente chega à desvalorização da vida animal. Estou farto de viver num mundo em que proliferam as atividades que se baseiam na humilhação e privação de animais das suas melhores condições ambientais para divertir um monte de mentecaptos, que considera tortura ou enclausuramento cultura!

 

Quem fala em desvalorização da vida humana e animal, fala da desvalorização do ambiente natural. Estou farto de viver num mundo em que há destruição paisagística para se erigirem edifícios megalómanos, geralmente em regiões do globo em que mesmo ao lado há pessoas a viverem abaixo de quaisquer condições consideradas dignificantes para a vida humana! Estou farto de viver num mundo em que a vontade de fazer dinheiro supera qualquer gestão sustentável dos recursos naturais! Eu já não quero saber se as alterações climáticas são da responsabilidade do aumento da atividade solar ou não. A ganância irrefreável destrói ecossistemas, extingue espécies animais e destrói sistemas geológicos. E para quê? Continuam a morrer em condições sub-humanas milhões de pessoas! Crianças que nascem para morrer!

 

Estou farto de viver num mundo em que a televisão dita tendências! Uma televisão manipulada pelas pessoas endinheiradas, programada com desporto, telenovelas, reality shows, cinema sem qualidade e programas intriguistas! Tudo feito parta deprimir a capacidade crítica do telespectador. Tudo feito para estupidificar as pessoas e desinformá-las!

 

Estou farto de viver num mundo em que as pessoas são chamadas a fazer juramento perante uma bandeira e em que lhes é enraizado o nacionalismo incondicional, fechando-lhes os olhos (e o cérebro) a uma visão holística e cosmopolita do mundo!

 

Estou farto de viver num mundo em que as pessoas são educadas para se sujeitarem a padronizar as suas vidas, sujeitando-se a estudar o que lhes impõem e a escravizarem-se voluntariamente num trabalho monótono e pobremente remunerado. Em que a educação é um estímulo para "encarneiração" e não para a plena expressão individual do indivíduo e a construção individual.

 

Estou farto de viver num mundo em que as pessoas se submetem acriticamente ao que lhes é imposto socioculturalmente!

 

Estou farto de viver num mundo em que as próprias pessoas que roubam não se apercebem do quão estão dominadas pelo dinheiro! Não têm a mínima noção de que são escravos do dinheiro e dos seus bens materiais, não mandam na própria vida!

Ricardo Lopes

 

 

 

 
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Uma vida num só dia (3ª parte)

 

 

HOLLYWOODICES – EPISÓDIO 13

Lombok

 

bw VIAGENS Luís Garcia

Eu tenho visto tanta coisa nesse meu caminho, Nessa nossa trilha que eu não ando sozinho, Tenho visto tanta coisa tanta cena, Mais impactante do que qualquer filme de cinema. (Tás a ver?, Gabriel O Pensador)

 

UMA VIDA NUM SÓ DIA (Ilha de Lombok, Indonésia, 2011) – Sem perder tempo, findo o pôr-do-sol, estacionei a scooter junto a um bar e fui dar a minha caminhada exploradora sobre os imensos areais do sul da ilha. Kuta merece de facto a reputação que ouvira daquela praia! Ou conjunto de praias, pois observando a costa do ponto em que estacionei a scooter, distinguia-se de forma clara três tipos distintos de areias e usos igualmente distintos dos três pedaços de costa. Do lado direito, olhando de frente para o mar, havia o porto piscatório, de areia grossa, um pouco suja, onde as meninas brincavam com as suas fogueirinhas e os miúdos entretinham-se pescando ou nadando, nus da cabeça aos pés.
Ao centro uma praia deslumbrante, de areia branca e fina, com árvores plantadas de forma organizada até a meio da praia, disponibilizando sombra natural aos veraneantes e oferecendo uma beleza geométrica raríssima naquelas paragens. O mar, claro está, tinha uma cor azul-turquesa e estava morno (26 ou 27ºC). Por toda a beira d’água havia calhaus e ilhéus espalhados, laboriosamente esculpidos pela mãos da natureza. Era a praia dos adolescentes locais, uns festivos, outros apaixonados, todos chegando até lá de scooter. Ao fundo, do lado direito encontra-se uma praia de areia fina e um pouco amarelada, mais deserta e visitada sobretudo por estrangeiros. Kuta é sem dúvida um dos mais belos locais que visitei na vida, e visitá-la teve um sabor especial, pois de forma a alcançá-la tinha primeiro vivido um dia riquíssimo, repleto de descobertas e imprevisíveis experiências.

 

 

 


Chegara o momento de descompressão. Sem nada combinado, como é óbvio, e apenas porque me aventurei a subir a uma rocha escarpada junto à praia onde pudesse tirar umas boas fotos. Aí, poucos minutos depois, fui convidado a juntar-me a um grupo de seis adolescentes que entretanto haviam chegado também ao cimo do rochedo, armados com comeres e beberes. Todos eles pertenciam ao povo local, os Sasak, e a sua primeira língua era também a Sasak. Cinco falavam apenas algumas palavras de indonésio e só uma rapariga era fluente nessa língua e capaz de dizer algumas palavra em inglês, de forma que ficou com o cargo de tradutora oficiosa do convívio. Dos seus sacos retiraram, sorridentes, os seus exóticos aperitivos, muitíssimo picantes! Adorei tudo o que me deram a provar. Acabados os aperitivos era a hora de seguir o ritual local e beber a tradicional bebida de arroz fermentado que, se entendi bem, chamava-se brom! Eram b(r)om mesmo!

 

 


O grupo de adolescentes era genuíno no seu altruísmo, muito contentes por se encontrarem com um estrangeiro que não fosse turista e que se sentava no chão como eles, convivendo com eles. Encheram-me de perguntas sobre o resto da Indonésia, queriam ouvir estórias sobre a Europa “rica e longínqua” que só conheciam de nome graças à TV. Para manter fluída a conversa, regávamo-nos constantemente com o tal brom, um género de sake local ligeiramente doce, muito saboroso e fácil de beber. Ah, e com uma percentagem de álcool enorme, ao nível de uma vodka, algo muitíssimo raro por aquelas bandas de tradições muçulmanas onde se incentiva o não consumo de bebidas alcoólicas, quer nos meios tradicionais, quer nos meios institucionais que taxam esse tipo de bebidas com impostos extraordinariamente elevados. Basta constatar que uma refeição completa pode custar menos de 1 euro na indonésia, enquanto que uma cerveja média não custa menos de 2,5 euros! Agora imaginem-me naquele país há cerca de um mês!?! Já não me lembrando sequer da última vez que bebera uma cerveja (em Portugal), encontrando-me exausto de um dia de aventura e sentido a barriga roncando de fome pelo pouco que havia comido durante o dia. De repente, sem planear coisa nenhuma estava ali eu com os meus novos amigos Sakak despejando copos uns atrás dos outros em alegre diversão.

 

Quando limpámos as garrafas era já noite escura. Estávamos todos visivelmente sobre influência do deus Baco, com a diferença que os miúdos e miúdas moravam numa aldeia a poucas centenas de metros, enquanto que eu tinha meia ilha a atravessar se quisesse dormir no conforto da casa do milionário couchsurfer meu anfitrião. O meu plano, antes de beber sasak, era deslocar-me para nordeste uns bons quilómetros onde poderia apanhar a recentemente aberta “auto-estrada” que liga a região de Kuta no sul à capital Mataram no noroeste, mas para meu desespero, depois de tanto beber, nem sequer conseguia pôr a scooter a trabalhar! Primeiro foi a dificuldade em inserir a chave na ignição. Em seguida, ligar a scooter a pedal, tarefa que embora dificílima tendo em conta o meu estado, me ajudou a despertar da letargia e acordar o metabolismo o bastante para poder em seguida conduzir. Com a scooter a trabalhar, sentei-me com todos os cuidados, bem ciente de que não estava consciente o suficiente para conduzir, e parti conversando comigo mesmo como forma de me manter desperto.

 

Uns quilómetros à frente chegava ao fim da estrada principal que serve Kuta e arredores e precisava de descobrir a entrada para a tal “auto-estrada”. Como se não bastasse estar ébrio em demasia, havia uma confusão de ligações não sinalizadas, não havia luz natural nem artificial em meu redor, e tampouco gente a circular! Senti-me deveras perdido mas recusei-me a desistir. Andei por ali às voltas uns 15 minutos procurando alguma placa que indicasse Mataram, a capital da ilha. Não cheguei a encontrar nenhuma mas apercebi-me de umas luzes fortes ao longe e uma viatura da polícia indonésia estacionada junto aos candeeiros. Pode parecer estúpido ir pedir indicações a um polícia quando se está visivelmente embriagado e não se tem carta de condução para mostrar às autoridades, mas tinha a noção em que país estava. Hesitei um pouco, mas acabei por concluir que o melhor seria disfarçar ao máximo, falando pouco e indo directo ao assunto, que naquele caso seria confirmar se todas aquelas luzes indicavam a entrada da auto-estrada. Soe absurdo ou não, a verdade é que toda a adrenalina descarregada no sangue em consequência desta decisão despertou-me imenso e consegui lidar de forma bem razoável o diálogo com os polícias. Tenho quase a certeza que todos eles perceberam que eu não estava no meu estado perfeito mas, sem perguntar por nenhuma documentação, explicaram-me que aquele local não era o principio da estrada que eu procurava mas sim a entrada do aeroporto local (e não se conseguindo conter riram-se divertidos com a minha gafe). Em contrapartida, de forma muito altruísta e acolhedora, ofereceram-se para me escoltar até à entrada da auto-estrada.


De auto-estrada só tinha a perfeição da linha recta que ligava Kuta a Mataram quase sem curva nenhuma, mas de resto, era uma simples estrada de asfalto não muito liso, estreita e sem nenhuma iluminação. Ainda bem embriagado, as duas maiores dificuldades que enfrentei foram permanecer sob o asfalto não vendo absolutamente nada para lá dos poucos metros que o farol da scooter iluminava tremelicando, e manter-me acordado perante a monotonia do percurso. Cerca de uma hora depois comecei a encontrar algumas viaturas, depois umas casas aqui e ali e, de súbito, bairros enormes, super iluminados e mergulhados num frenético e caótico tráfego! Fui obrigado a pedir indicações, mas comunicar em Indonésio ainda ébrio não é das tarefas mais fáceis de levar a cabo, daí que percebendo apenas metade e esquecendo parta dessa metade enquanto tomava atenção à condução, só após vários pedidos de ajuda é que me consegui ver livre daqueles subúrbios e entrar numa das avenidas principais de Mataram. Nessa primeira avenida, enquanto esperava que o semáforo vermelho passasse para verde, perguntei ao condutor da mota ao lado se me podia indicar a direcção da costa. Após 3 ou 4 tentativas o pobre rapaz não tinha sequer percebido a minha pergunta. Por sorte, numa scooter ao lado encontrava-se um simpático casal que me convidou a segui-los mesmo quando o sinal passou a verde. Conduzi atrás deles atravessando várias avenidas até que me apercebi que conhecia o local onde nos encontrávamos. Era a avenida perpendicular àquela onde se encontrava o posto de emigração onde meio dia antes tinha renovado o meu visto. Aproximei-me para os avisar, agradeci-lhes imenso e segui muito descontraído, de tal forma que até me dei ao luxo de me enganar numa estrada na zona costeira que eu tão bem conhecia! Nada de grave, inversão de marcha de algumas dezenas de metros num sentido proibido e voltava à rota certa.

 

Minutos depois chegava à estrada costeira que liga Mataram a Senggigi, a vila de luxo junto à praia onde habitava o senhor Klaus. Completamente seguro da minha localização e desesperado de fome, parei no primeiro restaurante de beira da estrada que encontrei, pedi um arroz de camarão e legumes e um sumo e sentei-me num mesa com mais cinco japoneses perdidos de bêbados! Aposto que festejavam o último dia de férias, ou então que bebiam para esquecer que as férias haviam acabado. De barriga cheia, peguei na mota para percorrer os 3 quilómetros restantes, reentrei na casa do senhor Klaus 12 horas depois, tomei uma banho rápido e caí que nem um bloco de cimento na cama para só acordar outras 12 horas depois!

 

Para quem não ainda não as outras partes: Uma vida num só dia (1ª parte)Uma vida num só dia (2ª parte)

 

Não deixem de ler o próximo e ÚLTIMO episódio, porque nós também não! :)

 

 

Luís Garcia, 10.03.2016, Lampang, Tailândia

 

 

 
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Uma vida num só dia (2ª parte)

 

 

HOLLYWOODICES – EPISÓDIO 12

Lombok

 

bw VIAGENS Luís Garcia

Eu tenho visto tanta coisa nesse meu caminho, Nessa nossa trilha que eu não ando sozinho, Tenho visto tanta coisa tanta cena, Mais impactante do que qualquer filme de cinema. (Tás a ver?, Gabriel O Pensador)

 

UMA VIDA NUM SÓ DIA (Ilha de Lombok, Indonésia, 2011) – Já no ponto mais alto da minha rota, para meu enorme Álbum de fotografias IIespanto, descobri uma planície muito peculiar que, entalada entre montes de um verde luxuriante, apresentava-se em tons castanhos e quase nua de vegetação, não parecendo de todo fazer parte daqueles latitudes. A resposta para tão insólita paisagem foi-me dada umas dezenas de metros mais à frente quando, avistando linhas geométricas delimitando campos de arroz nos quais se moviam de forma compassada típicos chapéus asiáticos que fazem adivinhar igual número de vivalmas escondidas por baixo da sua sombra, descobri que o local era habitado. Em vez de um Mundo Perdido, agora era uma Civilização Quase Perdida e de contornos edílicos para o viajante de passagem, e ao qual prendia a atenção e lhe enchia o pensamento de perguntas e dúvidas. Porque teriam escolhido plantar arrozais escondidos no meio da floresta densa em vez de os plantar mais junto à costa onde poderiam comercializar o fruto do seu trabalho. Como era possível haver ali umas dez pessoas trabalhando e não ser possível avistar casa alguma na área? Onde viveriam? E depois, com ou sem os seus profundos mistérios e a sua visível timidez (não queriam ser fotografados), não estaria eu perante um exemplo perfeito de uma invejável sociedade vivendo serenamente dentro dos limites do razoável, possuidora de uma sofrível tecnologia à justa suficiente para retirar dos campos alimento essencial mas nunca abundante. Uma sociedade que em vez de destruir e combater a natureza como hoje fazemos todos nós, parecia saber viver em comunhão com esta de uma maneira tão completa que os seus trilhos e as suas habitações mantinham inacessíveis ao olhar destreinado de um intruso? Não vi ali riqueza material ao estilo ocidental, mas tampouco encontrei pobreza. E depois, nada deste mundo poderá ser suficiente para comprar aquelas expressões de natural felicidade, de profunda serenidade, de completa comunhão com a natureza. Talvez pueris e bacocas divagações de um tolo como eu, mas não deixa de ser inquietante a comparação entre este mundo perdido e a perdição em que caiu há muito o nosso, afogado entre ultra-consumismos impostos por obsolescências induzidas, eternas crises financeiras e relações com o meio-ambiente completamente desequilibradas. Nada é perfeito contudo! Aquelas gentes isoladas, habitando espaços esquecidos de uma terra coberta de floresta densa, são vítimas fáceis de males com os quais não se conta noutras latitudes. Numa pequena aldeia a que fui dar mais tarde, vi correr duas mães de crianças desfalecidas ao colo correndo apressadas em busca de auxílio junto do curandeiro local, o qual pouco poderia ter feito para as salvar da epidemia de dengue que tem nos últimos anos alastrado nas regiões interiores de Lombok.

 

  

 

 Depois de longas horas subindo as montanhas de Lombok e atravessando as suas florestas luxuriosas, começava a lenta descida até a costa sul repleta de praias paradisíacas e quase desconhecidas. Num blog de viagens, dias antes, tinha encontrado um descrição tentadora de uma praia chamada Sepi (literalmente “deserta”, “tranquila” em malaio-indonésio). Sim, o nome diz tudo. Não acerca da praia mas também sobre os inúmeros ilhéus espalhados pela costa, exótico e muitíssimo belos. E pensar que há gente que paga balúrdios para se perder por entre a lixeira a céu aberto, caos urbano e desordem social que é a zona turística do sul de Bali quando, no sul da ilha lado, se encontra o exacto oposto! O comportamento de massa e a publicidade estupidificante, principais forças motrizes do detrás do turismo tóxico, têm o imenso poder que todos nós conhecemos. No entanto, tendo contornos muito criticáveis, têm em contrapartida a inconsciente sensatez de não estrupar paraísos muito mais apetecíveis, ali mesmo ao virar da esquina e ainda assim completamente desconhecidos! Diferenças elementares entre o turismo tradicional e a viagem à descoberta levam a destinos tão opostos como o exemplo acima!

 

Álbum de fotografias II

 Não muito longe da Praia de Sepi e completamente escondida por umas colinas costeiras descobri de forma afortunada e por erro de navegação uma bela surpresa à beira-mar plantada. Uma aldeola sem electricidade, água canalizada, lojas ou motocicletas, mas com uma localização sem igual em beleza. Montes verdejantes por detrás, um rio e um deslumbrante lago espelhado no meio, e do lado principal uma paradisíaca praia de areias brancas e de comprimento a perder de vista! Fica ainda por contar o melhor: um grupo de nove crianças de personalidades variando entre o extremamente tímido e o burlescamente atrevido, e todas elas muito curiosas com a minha pessoa, com o meu aspecto alienígena perante os seus olhos que não terão visto muito mais que aquela aldeia e aquela praia e daí, confusos com o porquê da minha presença! O líder da trupe, de olhos esbugalhados e incitado pelas restantes crianças, tomou a coragem de se aproximar de mim e tocar-me de repente, gesto ao qual seguiu uma brusca fuga resultante do medo, sei lá, que aquele gigante magricelas de barba enorme e com objectos bizarros nas mãos fosse um fantasma e não um ser a eles semelhante. As restantes crianças riam de satisfação com a precipitada fuga do suposto valentão e do consequente trambolhão. Ferido no orgulho e mais confiante de que eu fosse de facto real, voltou de dedo indicador esticado na minha direcção.. Tocou-me no meu braço esquerdo e riu-se confiante. Os restantes riram-se de contentamento e mais tranquilos com a minha presença. Poucos segundos depois era atacado pelo enxame de miúdos, tolos eles ávidos de comprovar com os seus próprios dedos a existência física do ET que haviam encontrado. Ao contrário da maior parte das crianças na Indonésia, estas nove não me tratavam por “mister”, não me pediam para lhes tirar fotos e tampouco pareciam perceber para que servia a máquina fotográfica que eu transportava nas minhas mãos. De forma bastante tímida tirei-lhes 2 ou 3 fotos e em seguida baixei-me ao nível deles, convidando-os a olhar para os seus retratos expostos no ecrã do aparelho! Ficaram extasiados, eufóricos com o truque de magia e por eles podíamos ficar o resto do dia a brincar aos fotógrafos e aos modelos fotográficos. Sim, fotógrafos no plural, uma vez que o líder do grupo (na frente sem t-shirt na fotografia capa do artigo) fez questão de pegar na máquina e repetir o truque de ilusionismo, mostrando depois orgulhoso os seus feitos ao resto da criançada embasbacada e que se mandava para o chão perdidos de riso por cada foto tirada a eles mesmos!

 

 


Por muito que me custasse a despedida, o grande atraso (se é que se pode falar nestes termos numa aventura assim) que já levava a empresa fez-me tomar a decisão de respirar fundo, voltar à scooter estacionada juntos às casas e despedir-me em andamento das crianças que não pareciam estar dispostas a perder o seu novo brinquedo que era eu mesmo. Um último acenar, muitos sorrisos e parti rumo ao destino final planeado.


Não cheguei a saber nenhum dos nomes dos miúdos. Apenas consegui perceber da conversa impossível (falavam menos indonésio do que eu) que a aldeia se chamava Nangong. Duvido que tenham dado nome àquelas imaculadas areias que tanto anseio revisitar mas para mim passaram a chamar-se Praia de Nangong e eles os inesquecíveis Putos de Nangong!


Tendo chegado já à costa sul da ilha de Lombok, faltavam-me ainda umas dúzias de quilómetros para alcançar a mítica Praia de Kuta (não confundir com Kuta de Bali, a praia do surf e da cerveja), se o meu improvisado mapa e as linhas que Klaus desenhara representando as estradas do sul da ilha estivessem minimamente certas. E se eu não estivesse perdido, dado que o meu único ponto de referência era a Praia de Sepi já muitos quilómetros atrás. Tentei o mais possível manter-me junto à costa e deslocar-me paralelo a esta rumo a leste onde, mais cedo ou mais tarde, depararia com a Praia de Kuta. O problema é que numa ilha quase deserta e sem grande intervenção da mão humana na sua geografia, vi-me obrigado a afastar da costa devido a umas encostas íngremes e seguir por uns ziguezague de caminhos e cruzamentos que, por muito que tenha tentado memorizar, acabei por perder a conta às direitas e esquerdas efectuadas e ao fim de meia hora descobri que estava perdido, numa pequena aldeia no meio da selva, sem visibilidade para distinguir a posição do sol, minha única bússola! Além do mais notava-se que a luz do sol diminuíra já de intensidade, pelo que o por-so-sol não tardaria muito. E eu fazia absolutamente questão de chegar a Kuta a tempo de ver o seu mítico Por-do-Sol! Tive de ganhar coragem e ir pedir ajuda a quem Klaus me advertira de não contactar: os habitantes das aldeias interiores. De facto, a maioria mostrou-se muito reticente e foi difícil encontrar quem se dispusesse ajudar. Não menos difícil foi seguir indicações em indonésio de malta que mal distinguia direita de esquerda. Inevitável, as indicações levaram-me a perder cada vez mais até que desisti e decidi avançar rumo à direcção que eu sentia ser leste. Tiro no escuro ou GPS mental, a verdade é que tinha acertado e poucos quilómetros depois chegava a uma vila moderna junto a um planalto onde me era possível ver a costa sul e constatar o quão longe estava ainda a Praia de Kuta.

 

Álbum de fotografias II

 Nessa aldeia dei de caras com um evento social que me provocou um mistura de reacções opostas. Tratava-se dos festejos preparatórios de um casamento que, trazendo a população inteira atrás, em procissão, entupia por completo a estrada principal e impossibilitava-me de prosseguir. Por um lado via-me uma vez mais bafejado pela sorte, presenteado com a oportunidade de assistir de passagem a um cerimónia cujos rituais e tradições eu desconhecia por completo. Por outro, inquietava-me a noção de que já não teria grande margem de erro caso continuasse decidido a chegar a Kuta a tempo de assistir ao pôr-do-sol. Embora o grande aparato do evento, durante os primeiros momentos desde que estacionara a moto, a atenção do público tinha se desviado dos viris festejos da trupe do noivo e da estóica sobriedade da trupe feminina para a minha inusitada presença. Com receio de estragar a festa tentei refugiar-me num canto, tentando passar um pouco mais despercebido, fuga que não chegou acontecer pois um dos membros do grupo masculino agarrou-me pelo braço sorrindo, ébrio de euforia, e me instalou no meio do desfile. Uma vez metido na confusão, aproveitei e juntei-me também à festa. Já ganha a confiança com alguns deles, tentei saber a razão do inquietante comportamento do noivo que de forma aparentemente ritualizada fazia passar uma catana repetidamente junto ao seu pescoço em movimentos circulares. O mais esclarecido dos que me escutavam, gritando, tentando combater os ensurdecedores altifalantes móveis do cortejo, explicou-me, divertido, que a catana cortando o pescoço do noivo representava a forca em que aquele se iria meter assim que fosse oficializado o casamento! Ah, adorei o pragmatismo desta malta e a oportunidade de constatar a universalidade da expressão portuguesa de “meter-se na forca”.

 

 

 

Desfeita a curiosidade, apressei-me em tirar umas boas fotos e filmar um pouco a cerimónia. Poucos minutos depois o cortejo tinha passava para além do lugar em que eu havia estacionado a scooter. Voltei à estrada em direcção a leste. À saída da vila encontrei uma placa indicando uma distância de 25 km dali a Kuta! Não havia dúvidas que tinha mesmo andado perdido por um bom período de tempo, percorrendo muitos quilómetros dentro da selva em ziguezague, mantendo mais ou menos constante a distância em relação ao meu destino final. Felizmente tinha chegado à zona recentemente civilizada da região de Kuta na qual foram construídas perfeitas linhas rectas de asfalto com muita qualidade e quase vazias de veículos. De punho a fundo deslizei feito louco por aquelas estradas, olhando de soslaio o sol que se ia aproximando lentamente da linha do horizonte! Pela primeira vez tinha a oportunidade de descobrir os limites daquela velhinha scooter japonesa: uns impressionantes 95km/h em terreno plano!


Mantendo, sempre que possível, a velocidade máxima do bólide de duas rodas e perdendo apenas escassos segundos em hesitações perante dois cruzamentos sem indicações dos destinos, cheguei radioso à Praia de Kuta, mesmo a tempo de apanhar o sol a tocar ao de leve a linha do horizonte! Missão cumprida! Faltava só desfrutar daquele espectáculo ao ar livre, obra-prima e dádiva de uma natureza de altruísmo incansável! Que alegria!

 

Para quem não ainda não leu a primeira parte: Uma vida num só dia (1ª parte)

 

Não deixem de ler o próximo episódio, porque nós também não! :)

 

Luís Garcia, 07.03.2016, Lampang, Tailândia

 

 

 
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Uma vida num só dia (1ª parte)

 

 

HOLLYWOODICES – EPISÓDIO 11

Lombok

 

bw VIAGENS Luís Garcia

Eu tenho visto tanta coisa nesse meu caminho, Nessa nossa trilha que eu não ando sozinho, Tenho visto tanta coisa tanta cena, Mais impactante do que qualquer filme de cinema. (Tás a ver?, Gabriel O Pensador)

 

UMA VIDA NUM SÓ DIA (Ilha de Lombok, Indonésia, 2011) – No dia 13 de Abril pela manhã tinha marcado um encontro importante, não só por dele depender a minha permanência em solo Indonésio por mais um mês, mas sobretudo porque tinha apenas 2 dias mais reservados ao desbravamento de Lombok e não me apetecia perder um dia inteiro embrulhado em burocracias. (o último estava já destinado a ser passado no norte da ilha e numa pequena de viagem de barco ao Ilhéu de Meno onde iria fazer mergulho de apneia). Pontualmente estacionei a scooter às 9h50m em frente ao posto de emigração, sobrando-me 10 minutos para encontrar o guiché correcto onde daria sequência ao meu pedido de extensão de visto. Neste segundo passo de extensão do visto, tal como me tinha sido explicado no dia anterior, iria fazer o pagamento de 250.000 rúpias. Para assinar os documentos e receber o passaporte carimbado teria de lá voltar no mesmo dia por volta das 15 horas, o que arruinaria por completo os meus planos de viagem.

 

Seguindo os conselhos do senhor Klaus, um couchsurfer alemão residente em Lombok e meu anfitrião por três noites na sua idílica mansão, perguntei à funcionária de serviço naquele momento se haveria porventura uma outra forma mais rápida (e mais cara) de resolver o processo, eufemismo para suborno. A senhora respondeu-me sorrindo que com mais 50.000 rúpias (4 euros) o visto estaria renovado daí a dez minutos e convidou-me a esperar sentado numa das cadeiras ao fundo da sala. Excelente! Estava eu ainda escolhendo a cadeira mais limpa onde me sentar e o meu nome completo era proferido nos altifalantes. Deduzi que deveria estar pronto o visto e não me enganei. Menos de 1 minuto depois tinha o meu passaporte carimbado no bolso e estava livre para começar uma aventura que ao fim do dia tornar-se-ia épica!

 

Com as preciosas dicas de um senhor que meteu conversa comigo enquanto punha a scooter a trabalhar, fiquei a saber acerca dos atalhos que me permitiriam escapar do caótico trânsito de Mataram (capital da ilha) e entrar na rota da costa oeste em direcção a sul. Ter mapas comigo até tinha, mas não aquilo a que no século XXI na Europa se dá esse nome. Não estando a ilha ainda mapeada no google maps (em 2011, agora sim), e não havendo de todo mapas de Lombok à venda, o melhor que consegui obter foi uma improvisação de mapa desenhado no meu caderno de viagem com os limites geográficos copiados da internet e as poucas estradas retiradas da memória do senhor Klaus. Para compensar a falta de escala necessária a compreender a minha posição durante da viagem, o meu anfitrião acrescentou alguns nomes de aldeias que serviriam de pontos de referência e, se não foram apontados mais nomes não foi pela sua má memória, antes pela escassez de espaços habitados para além dos primeiros 50km da costa sudoeste da ilha.


Entre Mataram e Lembar embora curta a distância, pode-se encontrar uma miríade de mesquitas multicolores que parecem despontar que nem cogumelos. Por norma não me agrada muito encontrar grandes edifícios plantados no meio da natureza até então quase virgem. Seria de esperar que as construíssem onde há fiéis para as encher, ou seja, na capital Mataram e não ali no meio das plantações de bananeiras e coqueiros. No entanto, por uma qualquer razão que não consigo explicar, os mirabolantes estilos arquitectónicos ali usados - a fazer lembrar uma lenda das Mil e Uma Noites -, e o facto de nenhuma mesquita se repetir nem em cor nem em forma, conferia uma espécie de aura de beleza que fazia com que todas elas, as mesquitas, se encaixassem de forma harmoniosa por entre a vegetação luxuosa. Se Gaudí fosse muçulmano as suas obras encontrar-se-iam à beira-estrada da costa oeste de Lombok.

 

A sul da vila portuária de Lembar, subitamente dei comigo na luxuosa floresta tropical da qual o senhor Klaus me tinha contado maravilhas. E na costa um espectáculo inacreditável de praias desertas. Começava a valer a pena a aventura e ainda estava no início. Enquanto atravessava eufórico aquelas florestas quase esquecidas não me saia da cabeça o nome da obra de Arthur Conan Doyle: The Lost World. Embora cliché e um claro exagero, a surpresa e o contentamento permitiam-me a divagações do género. Para me fazer regressar à realidade, a scooter, que parecia ter vida própria, levou-me até à entrada de uma aldeola onde quase cheguei a tempo de me por a salvo da súbita monção que caía subitamente vinda dos céus. Embora tenha conseguido entrar com a mota numa espécie de oficina aberta uns trinta segundos depois de começar a chover, o dilúvio foi de tal dimensão que já não me serviu de nada ali entrar. Ou melhor, serviu, deu-me para me aperceber que estava encharcadíssimo e a escorrer água que nem uma barragem de comporta abertas. Do mal o menos, a chuva caiu morna, quentinha, e não tinha frio algum. Aproveitei para retirar o meu kit anti-monção guardado no compartimento por baixo do assento (toalha de rosto e rolo de papel) que, por se encontrar também muito perto de um motor velho e quase estourado, se encontrava para meu contentamento bem quentinho.

 

Depois de me secar um pouco e limpar os óculos, esperei que o dilúvio de dez minutos desaparecesse e voltei à estrada ainda um pouco hesitante devido aos rios de água cor-de-laranja que atravessavam perpendicularmente as estradas, vindos das encostas circundantes. Vendo que putos de oito e dez anos viajando de scooter passavam as torrentes com sucesso, ganhem confiança e fiz-me também à estrada. A roupa secou pelo caminho, graças ao calor ambiente e à velocidade da scooter, mas foi sol de pouco dura, meia hora depois recomeçou a chover e voltei a ficar encharcado.

 

Álbum de fotografias I 

Álbum de fotografias I 

 

Nesta segunda vez tive a sorte de me encontrar no centro de uma aldeia na qual havia uma espécie de mercado aberto com cobertura e, dentro deste, uma senhora muito velhinha tomando conta da sua banca de produtos. Comprei-lhe um café preparado na hora e não resisti às fatias de melancia que custavam quatro cêntimos de euro cada! Entretanto um grupo de jovens foi crescendo à nossa volta, curiosos pela minha presença e ansiosos por me fazer perguntas. Entreti-me ali um bom momento, tentando comunicar com as poucas palavras que sabia de indonésio encantado pela simpatia e pelos sorrisos dos locais. Quando me dei conta do muito tempo que passara, as nuvens tinham todas partido, voltara a fazer um calor intenso e as minhas roupas estavam completamente secas. Antes de partir, perguntei se me podiam dizer o nome da aldeia, ao que os jovens me responderam “Sekotong Tengah”. Nem mais! O nome da aldeia correspondia ao último da lista que o alemão me havia fornecido para a rota sul. Daí em diante seria entrar em território não cartografado. Durante horas de uma leveza de espírito inigualável, atravessei vagarosamente aquela floresta luxuriante, saindo da moto para observar insectos, plantas ou animais exóticos ou parando simplesmente quando no cimo de um monte mais alto me era possível avistar ao longe paradisíacas praias desertas estendidas pela costa. Quanto mais alto subia a serra central menos frequentes se tornaram as aparições de pessoas ou o avistamento de aldeias Sasak, nome do povo e língua principais na ilha. Klaus pediu-me pare ter cuidado e ser reservado quando entrasse em contacto com as gentes isoladas daquelas florestas, as quais viviam num mundo à parte, perdidos num tempo longínquo e, meio sério meio a brincar advertiu-me que, quando atravessasse o centro da serra, não me aproximasse demasiado das aldeolas. Na melhor das hipóteses, dizia ele, poderiam me roubar a mota e deixar-me ali perdido, na pior, poderiam me cozinhar para o jantar daquela noite. Brincadeiras do senhor Klaus, não me parece do todo possível que hajam naquelas terras gentes com tais costumes canibais. De qualquer modo respeitei o mais que pude a advertência de passar ao lado sem entrar nos centros dos lugarejos. Falando num tom mais sério, o senhor Klaus alertou-me para o facto das populações autóctones serem muito agressivas quanto à protecção das suas terras e não costumarem apreciar intrusões de gente estranha. Não reconhecem o poder da Indonésia sobre o seu território e tampouco se deixam influenciar pelos costumes modernos, daí que sejam genuínos na sua desconfiança acerca das intenções de um não nativo que vagueie por aquelas bandas.


Durante as longas horas que levei a subir e atravessar a exótica serra, acabei por me encontrar com algumas pessoas, e fui inclusive obrigado a atravessar cinco ou seis aldeias como forma de reentrar nas estradas rumo a sul, ou quando precisava de uma alternativa aos caminhos de todo intransitáveis mesmo que os percorresse a pé, empurrando a scooter. Nalguns desses caminhos deparei-me com crateras inultrapassáveis e noutros com buracos menos perigosos mas com o inconveniente de se encontrarem em subidas íngremes. Conclusão, vi-me várias vezes obrigado a abandonar a estrada e conduzir lentamente a scooter por caminhos-de-cabras que por vezes surgiam paralelos às estradas.

 

Não deixem de ler o próximo episódio, porque nós também não! :)

 

Luís Garcia, 01.03.2016, Lampang, Tailândia

 

 

 
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